21 de set de 2012

Não, o tempo não tem cheiro de mofo.

Não é de mofo. Talvez papel velho. Livro, carta, caderno. Eu tenho essa coisa com papel - caixas com cartas, desenhos, rabiscos. E, em último caso, o tédio sempre dá lugar ao desenho. Mas não é preciso de tédio para desenhar. Os desenhos têm cheiro: giz pastel, lápis, tinta.

O tempo tem o cheiro de coisas da infância de coisas infinitas. A sopa de ervilha na panela de pressão. O inverno. Sim, porque o inverno tem cheiro também. O tempo também tem cheiro das pessoas que passam pela nossa vida. O perfume de patchouli que minha professora de pré I usava (Tia Cris, por onde andará?). Loção pós-barba do meu avô. Erva-doce.

O tempo tem cheiro de chuva e há exatos três dias pus o nariz pra fora de casa:

- Vai chover - sentenciei solene.

Choveu na quarta. Vi o céu desabar do topo do prédio. Vi o cinza se despedaçando com as gotas gordas. E naqueles últimos dias o tempo, o clima, o vento me deram uma sensação de coisa já vivida. Alarme da memória ativado. O céu se desprendendo do teto e há muito tempo eu não ficava tão feliz. 

Junto com a sensação de coisa antiga, tempo passado, veio uma onda de novidade que quase me tirou do chão. É tanta coisa acontecendo que eu nem sei mais o que ainda pode acontecer. É um desassossego de xícara de chá quente que conforta. Chá diferente. Outro gosto. Outro aroma. É uma coisa mais de dentro do que de fora, mas também está por fora e outras coisas caíram fora de mim. 

Um desapego de Rapunzel sem trança.

2 comentários:

MN disse...

muito lindo. wind of change. tbm tenho essas sensações.

£ädÿ disse...

dependendo, tem cheiro de mofo também. mas pra mim, mofo é cheiro da casa antiga, daquele pedaço da infância do qual eu até tento, mas não consigo me lembrar.