30 de abr de 2012

Não dizendo não

O pessoal conversava sobre como é difícil dizer não. Por fim, dei o meu parecer, toda orgulhosa:

- É difícil mesmo, do contrário, as pessoas abusam de nós. Eu mesma estou me reeducando para isso não acontecer mais.

Dez minutos mais tarde e um breve pedido, dei a minha resposta:

- Posso sim, claro!

...já pensando no peso da minha resposta e em tudo o que me acarretaria. Bem feito.

29 de abr de 2012

Das coisas que a gente precisa e nem sabe

Foi molhar os pés na água. Suspiro. Apostei uma corrida com Charlie a beira mar. Rodopiei freneticamente enquanto as ondas vinham chegando. Meus cabelos todos bagunçados. Catei conchinhas, mas devolvi todas. Da praia, só queria trazer a areia em meus chinelos, a cor no meu corpo, uma meia dúzia de fotos e as melhores memórias.

Porque eu acho que muitas vezes a gente precisa de coisas que nem sabe. E a liberdade que eu sinto ao ver o mar é uma coisa indescritível. Porque a sociedade acaba nos colocando as mais diversas amarras e acho particamente impossível que a gente não se sinta tolhido vez ou outra - quando não o tempo todo. Claro que a liberdade total não é possível, mas isso é outro post.

E não são só os outros nos tolhendo, mas nós mesmos nos tolhendo - e desnecessariamente. Tanta coisa a gente podia fazer e não faz por... quê? Porque a gente mesmo se amarra, se priva, se encolhe. Acha que não dá conta, qure não serve, que não rola porque, um dia, alguém disse alguma coisa.

Ora ora... Alguém sempre vai dizer alguma coisa.

E existe uma grande diferença entre reconhecer os próprios limites e criá-los.

E não só liberdade eu senti sob esse céu de mil tons de azul, mas uma sensação de paz que eu não sentia há muito muito muito tempo. Mesmo agora enquanto a chuva cai lá fora e os coqueiros se agitam desesperadamente, o vento assobiando severo, eu sinto paz dentro de mim.

Mesmo agora pareço estar ainda rodopiando na praia, segurando os chinelos. A cara limpa, os cabelos bagunçados. O vento e a água levando embora o que não serve mais.

28 de abr de 2012

Detalhes

Ele: - Pelas coisas que você me conta, não faltam pretendentes.

Ela, pensativa: - Não é para tanto.

Pausa e continua.

Ela: - De um certo modo... Talvez.

Ele: - Ah, então você está sem namorado porque quer, oras.

Ela: - Você esquece de uma coisa meio importante: eu tenho que querer, que sentir também.

Ele: - Mas eu não entendo o que você tanto quer sentir!

Ela: - Sentir alguma coisa é um bom começo.

26 de abr de 2012

Feng Shui

Ela chegou em casa depois das estrelas terem ido dormir. Ela já não brilha mais. Nem mais elas queriam ficar acordadas. Mas ela não conseguiria dormir. Bem o sabia. 

Subiu as escadas até apartamento com os passos arrastados. Por dentro, estava aos pedaços - mas sem amor e sem doçura - e parte de seu corpo continuava funcionando sem parar. O sangue corria lépido em suas veias finas e a respiração estava ofegante, embora o coração já não passasse de uma criatura morta - a ser enterrada numa caixa de sapato na ilha na avenida. O homem é uma ilha.

As mãos trêmulas levaram um certo tempo até conseguirem puxar o zíper da bolsa e, depois, mais um tempo para que a chave entrasse corretamente na fechadura. Fazia tudo sempre tão corretamente. E aí? Todas as portas continuavam fechadas. E aí?

Abriu a porta do apartamento e entrou. Acendeu a luz e deu de cara consigo mesma no espelho. Um susto. Quem é aquela que me olha tão dura? Tão amarga? Tão cinza?

E percebeu que era preciso mudar e não hesitou: mudou o espelho de lugar.

25 de abr de 2012

Peguei meus princípios e não soube o que fazer

Enquanto o caos segue em frente
Com toda a calma do mundo.
 (Sereníssima, Legião Urbana)

E eu matutando com meus botões.

Até que ponto você leva seus princípios e crenças? Esse papo de ser flexível eu entendo bem, mas do quanto de mim eu tenho que abrir mão para fazer as coisas funcionarem? Detalhe: fazê-las funcionar dentro da incoerência interna alheia. Ai isso dá coceira o nariz - e eu de mãos atadas. Como faz? A cabeça dá um nó!

Porque pedir ajuda vira sinônimo de fraqueza e incompetência. Ora, não somos um time? Então por que sentir o mundo sobre as próprias costas. Atlas Atlas, vai embora e me deixa! Me deixa que eu quero tentar entender que a experiência ruim não parece poder ser partilhada. Que cada um celebra suas vitórias medíocres e esconde seus fracassos mais torpes à sete-chaves. Ora, mas compartilhar a experiência ruim não pode ajudar a encontrar soluções? E essa solidão imposta que não deveria existir?

Nosso problemas e dramas são os mesmos, então por que fingir que está tudo bem e olhar os honestos com desdém, como se nada tivessem em comum?

Quem engana os outros, sempre acaba se enganando por tabela.

Já prevejo mil coisas à nossa frente, enquanto peso tudo em mil balanças e vejo o que faço com as coisas nas quais acredito. Me condenam? Talvez, porque não é fácil assumir uma posição e bater o pé e dizer:

- É assim que vou jogar.

Porque, nessas horas, os demais se lembram que somos um time e o risco de se ser cortado ou passar o jogo no banco é grande.

E vou vivendo e matutando com meus botões.

23 de abr de 2012

Diário: Bagunça

Ele: - Tudo bem? O que anda fazendo?

Ela: - Auto-terapia. Ordem interna.

Ele: - Trocou o espaço do fígado pelo pâncreas?

Ela: - Não, mas isso deve ser mais fácil do que crescer.

22 de abr de 2012

Casa Vazia

Tennessee Williams
Existem várias maneiras de medir a passagem do tempo. Relógio e calendário são só duas delas. Fiquei pensando nisso depois de assistir a ótima "Alguns Blues do Tenessee" de Tennessee Williams e depois de passar por uma certa experiência no sábado.

Me levaram para ver uma casa. Não uma casa qualquer, mas a casa onde passei parte da minha infância. E precisei me despedir dela. Não é pela casa, mas por todas as memórias ligadas à ela.

E eu senti a passagem do tempo. Não só porque o quintal já não é tão grande como costumava ser, nem o muro tão alto, mas porque era uma parte da minha história que ficava para trás. Uma página virada. A casa seria alugada e eu nunca mais poderia/ poderei ver o quintal de caquinhos ou os azulejos antigos ou as paredes de pedras brancas.

Memórias de mertiolate nos meus joelhos - e nos dos outros primos. De enxotar alguns para morarem no banheirinho dos fundos enquanto eu, majestosamente, tomava posse da lavanderia - eu era cruel e não sabia. Do meu velho avô nos mostrando o córrego escondido atrás de uma portinhola em seu quartinho de ferramentas. Do mesmo avó dando voltas no quintal no sol a pino após o almoço, com seu enorme chapéu de palha e com a justificativa de fazer a digestão. 

Frutas descascadas sobre a mesa. Nuggets com catchup e a melhor sopa de feijão que já comi na vida.

Memórias de subir na pia de mármore branca para ver as luzes da movimentada avenida. Das cadeiras distribuídas no quintal, a semelhança de uma avião - os bichos de pelúcia eram os passageiros e eu, a "aeromoça" - hoje seria "comissária de bordo".

Agora quem era a passageira era eu. Porque estamos só de passagem. E foi curiosa a mistura de sentimentos que tomou conta de mim enquanto eu ouvia as batidas do meu próprio coração - ecoada na ausência de móveis. Eco eco eco.

Memórias de olhar pela janela no quarto - os perfumes doces doces na penteadeira - e sonhar acordada e pensar como era engraçado ouvir:

[vinil]

"Quando o sol bater,
Na janela do teu quarto [...]"

E ver o sol entrando pela janela do quarto. As pequenas partículas de poeira brilhando ao sol e eu pensando que alguém tinha falado que a poeira vinha da nossa pele se renovando. Aquela poeira era nós, tinha feito parte de nós. Eu devia ter uns quatro os cinco anos.

O meu corpo e aquela casa também eram e são uma maneira de marcar o tempo.

Deveia ter rodopiado naquele quintal de noites estreladas uma última vez, mas me contentei em recolher delicadamente minhas memórias da casa agora vazia, para que esta fosse preenchida com as memórias de seus próximos moradores.

18 de abr de 2012

Secretamente

Para Alline e para a Diva Ruiva


- Ele voltou a perguntar de você.


Ela levantou os olhos do prato, endireitou-se na cadeira e alçou as sobrancelhas. Foi então que seu rosto de transfigurou: perdeu o ar de menina e ganhou um ar de... mulher.


- Ah é?! - sorriu maldosamente.


Porque tinham lhe dito com firmeza há poucos dias:


- Você não é mais uma menina: é uma mulher.


E ela tinha ouvido como se soubesse desde sempre, mas deixasse aquilo guardado numa gaveta esquecida ou debaixo da pilha da rotina.


E já fazia um ano. Agora ele, casado. Mas parecia que, se as coisas tinham passado para ela - mandarim, viagem ao Chile, emprego melhor, novos amigos -, para ele, alguma coisa ainda continuava. Nem que fosse uma curiosidadezinha. De quê? Se ela tinha sido deixada? A vida continuava, oras.


E ela? Ela não se escondia mais. Aprendera a entrar nos lugares, olhar e sorrir para todo mundo. Agora, despudoradamente, ela sustentava o olhar do homem misterioso que todo dia a encarava no metrô. Expunha as pintas de suas costas macias. Expunha sua opinião sem medo. Expunha suas ideias sem temer que fugissem dela - de novo.


Ela duvidava que ele tivesse se livrado das cartinhas, bilhetes e acrósticos sentimentais, cafonas e adoráveis que ela tinha lhe escrito. Porque ele ainda perguntava por ela. Queria saber por onde ela andava, com quem andava, o que fazia. Ele ainda pensava nela toda vez que ia a um restaurante japonês. Toda vez que ele ouvia Nando Reis. Toda vez que vez chegava cansado do trabalho.


Ele a tinha feito dispensável. Mas ela tinha feito a si mesma inesquecível. Secretamente, tudo aquilo tinha lhe acontecido e ela transordava  mulher em vestido vermelho.





16 de abr de 2012

Pecado [não] é te deixar de molho

Preguiça. Preguiça de te perdoar por me magoar - de novo. Preguiça de responder com delicadeza aquilo que você me diz com estupidez. Preguiça de pôr panos quentes na sua zanga quando quem devia estar zangada era eu - mas você se zanga por eu ficar zangada com você. Ah.

- Toma: é pra você - disse eu, da janela do ônibus.

- O quê? - você perguntou.

- Espaço - disse eu, sorrindo.

Não vou te dar um tempo: vou me dar um tempo. Questão pronominal. Tempo e espaço. Vou sair - satisfeita e sem te dar satisfação. Porque estou com preguiça de ouvir seus melindres, suas reclamações, suas desculpas.

Hoje, oficialmente, te ponho de molho. Quem sabe ao quarar no sol, as coisas não ficam mais claras?

15 de abr de 2012

Quando o normal vira muleta

Ela explicou a situação.

- Ah, mas isso é normal! - ele comentou aliviado.

- E daí? - ela fez uma careta.

- Ué, é normal, acontece com todo mundo - ele deu ombros.

- E isso quer dizer que eu tenho que gostar ou aceitar tudo aquilo que chamam de "normal"?

13 de abr de 2012

Impasse

Abandonou meu umbigo,
Meus dias,
Minhas pintas,
Minhas curvas,
Minha história

pelo umbigo,
dias,
pintas,
curvas
e história
de outra.

Com que direito segue agora
[ainda estando com outra]
O rastro insolente do meu perfume?

12 de abr de 2012

Partilhando

A Escritora "brigou" comigo por causa deste post. Brincando, ela pediu que eu parasse de escrever sobre a vida dela. 

- É a nossa vida - respondi sorrindo.

Porque uma amiga me disse que a gente escreve para se salvar e salvar os outros. Me vi em mar aberto e as palavras servindo de tábua de salvação: eu me agarrava desesperadamente à elas (foi esse um dos motivos de eu ter começado o blog).

Sã e salva, te peguei pela mão e tentei de colocar ao meu lado, segurando aquele pedaço de nada no meio do oceano. 

Mas não era tão nada, porque nos sustentava, nos mantinha. E, de repente, não éramos tão nada: nossa força e perseverança marcavam a espuma efêmera da vida.

11 de abr de 2012

Rascunho eternamente rascunho - nunca enviado [1]

Acho que foi só vontade de te escrever - e não enviar. Enviar para quê? Dizer para quê? Nada me parece favorável. E pouco me importo. Sem motivo, razão, futuro. E precisa? Precisa quando a saudade é tão precisa e delineada e delicada como é a minha?

Tenho que ir ao banco, buscar as crianças na escola, comprar a carne para a feijoada, pegar as roupas para apresentação do coral. Meu mundo tão cheio de gente e de coisas. Mas eu daria o meu mundo para te ver mais uma vez, me sentar e jogar uma partida de pôquer.

Perder uma partida de pôquer. Você sabe que eu não levo jeito para esses jogos de carta - ou para os outros jogos. Aliás, aos trinta e cinco anos, ainda espero descobrir para que levo jeito. Às vezes isso me dá um frio na barriga. É aí que penso em você na sua leveza de limonada e aí a saudade aperta. Me deixa sem ar - como seus beijos costumavam me deixar.

Ouvindo Acontecimentos (Marina Lima)

10 de abr de 2012

[don't] Keep in mind

A: - I was thinking about C last week.

B: - Really?

A: - And, when I think about D, I feel there's something still to come. I've realized I haven't forgotten him yet.

B: - C or D?

Silence.

A: - Well, it doesn't matter: both are out of reach.

9 de abr de 2012

Tetris para quê?

Eu acho que ele acertou, mesmo com toda a sua prepotência de achar que me conhece. Porque eu tenho pena de quem acha que conhece as pessoas das quais nada sabe. Mas, tenho que admitir, ele acertou.

Foi ano passado que eu lhe contei algumas histórias. Ele sorriu e fez seu solene pronunciamento:

- Você é tão...

Eu ri. Achei graça e achei bobagem da parte dele. Mas hoje, depois de tantas outras histórias, vejo que ele acertou. E graças a natureza que ele me atribui, as coisas soam muito mais como uma comédia romântica do que como um drama mexicano. Mas eu gosto mais de suspense. E não é que a vida está em suspenso e suspense também?

Sempre há motivos para sermos quem somos e o que somos. Vamos sendo moldados por ela, mas também por nós mesmos. Acho que está em nossas mãos nos tornarmos quem quisermos. E hoje a Diva Ruiva (morena há algum tempo) me falou sobre o potencial que cada um de nós têm.

E ela me falou do meu potencial. E, de repente, acho que ela tem razão. Já nem sei se quero jogar Tetris, colocar cada pecinha no lugar certo com o devido [?] cuidado. Umas pontas soltas no roteiro da vida fazem bem. Até vou tentar uns jogos novos - com novas estratégias e ferramentas.

E, por ora, pressentindo, despretenciosamente, algumas coisas por vir. De resto, que a vida me surpreenda. Pela primeira vez, a surpresa será bem vinda.

8 de abr de 2012

Musical misunderstood

A: - Eu queria ser como aquela canção dos Titãs.

B: - Qual?

A: - Inesquecível.

B: - Mas os Titãs não tem música com esse nome. Essa é da Sandy.

A: - !

B: - A dos Titãs se chama Insensível.

7 de abr de 2012

Sense and sensibility

Os dois saindo do cinema, mãos dadas:

- Me incomoda - ela comentou - E não consigo achar normal.

- O quê? - perguntou ele.

- Cenas de estupro em filmes. Mexe comigo.

- Mesmo? - ele perguntou curioso.

- É, me deixa enjoada - ela colocou a mão sobre o estômago.

- Jura? - ele quis confirmar, sorrindo sem entender.

Mãos se soltam.

4 de abr de 2012

Lullaby

Às vezes, acho que te faço sonhar. Mas só às vezes. Na maior parte do tempo, te faço dormir.

3 de abr de 2012

Wishes

Foto: Xando Pereira
Ganhei a tal da fitinha do Senhor do Bonfim. Pensei num pedido, decartei-o. Pensei em outro e amarrei a fitinha vermelha no pulso esquerdo, companhia para o relógio. Pedido esse que dependia exclusivamente de mim. Que tolice pedir algo assim!

Isso faz uns dois meses e na quinta passada, me vi sem a fitinha. Refiz meu caminho até o quarto: ela jazia inerte no chão - intacta. O nó tinha se desfeito sozinho, sem que eu percebesse...

Olhei a fitinha no chão. Ela me olhou de volta. Agonizante ou aliviada?

E me vi imaginando a simbologia daquilo tudo.

2 de abr de 2012

Verdades duras da vida [2]

Quando o remédio não serve, você percebe que é emocional.
Quando a experiência não basta, você precisa [desesperadamente] viver.
Quando a sutileza não funciona, você passa a contar com a sorte.
Quando o espelho não agrada, você se tinge de vermelho.
Quando peixe e salada não fazem bem, você é sábio de não querer comer mais nada.
Quando o coração não dói em inglês, ele dói em espanhol, francês, italiano...

Ouvindo Cerrar y abrir (Los Tres)

1 de abr de 2012

Supernova

Queria muito, muito mesmo, um novo par de asas. Queria a pele nova, a casca nova - fosse cobra. Chocalho - e barulho. Queria a nudez da sua miudez. Queria simplesmente a emoção engavetada. Esquecida. Queimá-la ou queimar-se? Exorcismo. Purificação. Queria lançar palavras ao vento. Raspar os cabelos e deixar uma trilha de mechas. Mexa-se! Deixar-se trilhar. Caminho novo. Queria continuar esfregando na cara dos outros:

- Não se pode ter tudo.

E provocar quem quer que a quisesse e não soubesse como. O como era tudo. Queria a felicidade doída do silêncio encastelado. E as incertezas alheias para escorrê-las pelo ralo. Era ardida como pimenta. Queira suas palavras queimando nos ouvidos alheios. E sua pele nos lábios de outrem.

Queria explodir - sincera - supernova. E arrastar todos ao seu redor - buraco negro: estavam todos condenados a Tânatos. A Prometeu. E a Fênix.