18 de abr de 2012

Secretamente

Para Alline e para a Diva Ruiva


- Ele voltou a perguntar de você.


Ela levantou os olhos do prato, endireitou-se na cadeira e alçou as sobrancelhas. Foi então que seu rosto de transfigurou: perdeu o ar de menina e ganhou um ar de... mulher.


- Ah é?! - sorriu maldosamente.


Porque tinham lhe dito com firmeza há poucos dias:


- Você não é mais uma menina: é uma mulher.


E ela tinha ouvido como se soubesse desde sempre, mas deixasse aquilo guardado numa gaveta esquecida ou debaixo da pilha da rotina.


E já fazia um ano. Agora ele, casado. Mas parecia que, se as coisas tinham passado para ela - mandarim, viagem ao Chile, emprego melhor, novos amigos -, para ele, alguma coisa ainda continuava. Nem que fosse uma curiosidadezinha. De quê? Se ela tinha sido deixada? A vida continuava, oras.


E ela? Ela não se escondia mais. Aprendera a entrar nos lugares, olhar e sorrir para todo mundo. Agora, despudoradamente, ela sustentava o olhar do homem misterioso que todo dia a encarava no metrô. Expunha as pintas de suas costas macias. Expunha sua opinião sem medo. Expunha suas ideias sem temer que fugissem dela - de novo.


Ela duvidava que ele tivesse se livrado das cartinhas, bilhetes e acrósticos sentimentais, cafonas e adoráveis que ela tinha lhe escrito. Porque ele ainda perguntava por ela. Queria saber por onde ela andava, com quem andava, o que fazia. Ele ainda pensava nela toda vez que ia a um restaurante japonês. Toda vez que ele ouvia Nando Reis. Toda vez que vez chegava cansado do trabalho.


Ele a tinha feito dispensável. Mas ela tinha feito a si mesma inesquecível. Secretamente, tudo aquilo tinha lhe acontecido e ela transordava  mulher em vestido vermelho.





3 comentários:

Carolina disse...

Lindo, lindo, lindo! Me dá um abraço?

Alline disse...

Tão a nossa cara! Até no vermelho, nos olhares, na ousadia, no se tornar inesquecível... e na música! Acredita que quando você postou algo sobre olhar lembrei dessa do Chico?

Cláudia disse...

nossa nossa nossa nossa nossa nossa!
adorei num grau que não dá pra explicar, Lari!
(e que timing! :"))
:*