22 de abr de 2012

Casa Vazia

Tennessee Williams
Existem várias maneiras de medir a passagem do tempo. Relógio e calendário são só duas delas. Fiquei pensando nisso depois de assistir a ótima "Alguns Blues do Tenessee" de Tennessee Williams e depois de passar por uma certa experiência no sábado.

Me levaram para ver uma casa. Não uma casa qualquer, mas a casa onde passei parte da minha infância. E precisei me despedir dela. Não é pela casa, mas por todas as memórias ligadas à ela.

E eu senti a passagem do tempo. Não só porque o quintal já não é tão grande como costumava ser, nem o muro tão alto, mas porque era uma parte da minha história que ficava para trás. Uma página virada. A casa seria alugada e eu nunca mais poderia/ poderei ver o quintal de caquinhos ou os azulejos antigos ou as paredes de pedras brancas.

Memórias de mertiolate nos meus joelhos - e nos dos outros primos. De enxotar alguns para morarem no banheirinho dos fundos enquanto eu, majestosamente, tomava posse da lavanderia - eu era cruel e não sabia. Do meu velho avô nos mostrando o córrego escondido atrás de uma portinhola em seu quartinho de ferramentas. Do mesmo avó dando voltas no quintal no sol a pino após o almoço, com seu enorme chapéu de palha e com a justificativa de fazer a digestão. 

Frutas descascadas sobre a mesa. Nuggets com catchup e a melhor sopa de feijão que já comi na vida.

Memórias de subir na pia de mármore branca para ver as luzes da movimentada avenida. Das cadeiras distribuídas no quintal, a semelhança de uma avião - os bichos de pelúcia eram os passageiros e eu, a "aeromoça" - hoje seria "comissária de bordo".

Agora quem era a passageira era eu. Porque estamos só de passagem. E foi curiosa a mistura de sentimentos que tomou conta de mim enquanto eu ouvia as batidas do meu próprio coração - ecoada na ausência de móveis. Eco eco eco.

Memórias de olhar pela janela no quarto - os perfumes doces doces na penteadeira - e sonhar acordada e pensar como era engraçado ouvir:

[vinil]

"Quando o sol bater,
Na janela do teu quarto [...]"

E ver o sol entrando pela janela do quarto. As pequenas partículas de poeira brilhando ao sol e eu pensando que alguém tinha falado que a poeira vinha da nossa pele se renovando. Aquela poeira era nós, tinha feito parte de nós. Eu devia ter uns quatro os cinco anos.

O meu corpo e aquela casa também eram e são uma maneira de marcar o tempo.

Deveia ter rodopiado naquele quintal de noites estreladas uma última vez, mas me contentei em recolher delicadamente minhas memórias da casa agora vazia, para que esta fosse preenchida com as memórias de seus próximos moradores.

2 comentários:

£ädÿ disse...

bateu até um nó na garganta! sei bem a que você se refere. acho que ambientes guardam muito da minha noção de passagem de tempo. é idiota, mas sempre me entristece ter que deixar algum lugar que me marcou muito para trás - seja a escola, seja uma pracinha, seja a casa onde fiz intercâmbio. sempre fica a sensação de que algo se perdeu, algo de que só a gente sente falta. e isso faz com que eu me sinta velha, mas ao mesmo tempo viva. é estranho e bom ao mesmo tempo. como quase tudo nessa vida.

Cayo Candido disse...

Bonito o relato.