13 de jan de 2014

Impressionistas nada impressionados

Monet, 1879

- Nós não podemos ser amigos?


Eu devia ter peguntado antes de perceber quais eram as suas intenções, porque depois tudo se perdeu assim. .

Assim.

Mas como eu ia saber, principalmente quando era uma época em que eu estava buscando o meu lugar no mundo? Como ia ter ideia de que lugar ocupar na vida dos outros? Sempre os lugares errados - a insistência na primeira fileira - sempre o tempo errado - é cedo.

Às vezes, parece que faz muitos anos que nos conhecemos. E mais tempo ainda que não nos falamos.

Mas até que ponto falávamos mesmo um com outro e não com a imagem que criei para você e você para mim?

Tenho a impressão de que você foi embora com a sua impressão de mim. Mas também, o que mais eu poderia querer? Que você tivesse a minha impressão sobre mim? Não dá. Mas precisava deturpar tanto assim as coisas que você não entende?

Bom, mas acho que você entendeu que somos comuns, bem comuns mesmo.

No fundo, não somos extraordinários, a despeito do que nossa fachada ostente. Temos até nossos momentos de brilho e magia, como aquela vez em Belize, mas, na maior parte do tempo, somos tão comuns quanto o arroz com feijão daquele boteco no centro, lembra?

E, sabe, acho que ser comum pode ter o seu encanto. Ou talvez seja só a minha impressão sobre as coisas. E, mais uma vez, me vejo navegando, flutuando em impressões imprecisas sobre mim, sobre você, sobre o mundo.

Da sua parte, acho que leva impressões equivocadas de tudo o que vive, de todos a quem toca. Bom, talvez seja muita pretensão minha pensar que são equivocadas só porque não condizem com o que penso. Deve ser a minha maneira de lidar com o diferente ou...

De lidar com você?

De longe, todo mundo se entende. Agora experimente se aproximar e tentar perceber os detalhes dos outros. Os detalhes não existem. Ou, caso estejam lá, dissolveram-se espontaneamente. Sempre tem alguém que não sabe usar terebentina e estraga tudo. É tudo borrão. Ou talvez se crie uma nova forma de ver e pensar e sentir.

Bem...

Eu erro muito, sabe? Você também. Acho que estamos quites, certo? Talvez você erre mais do que eu, mas o fato de eu errar menos não me faz mais certa. Na verdade, acho que não faz muita diferença em quem está mais certo ou errado. Somos todos pó das mesmas estrelas.

E, ainda assim, tão comuns e com essa ocasional cara de tédio adolescente - queremos que algo aconteça. Bem no fundo, acho que queremos algo que nos tire da situação confortável na qual nos instalamos com o passar do tempo. Algo que desafie aquilo que nos tornamos - adultos?

Bom, é isso o que sinto, o que fica suspenso de tudo o que a gente viveu. Ou a impressão que tenho daquilo que vivemos.

Ouvindo:


Um comentário:

Vinícius disse...

belo texto. O trecho "Somos todos pó das mesmas estrelas." caiu muito bem! =)