30 de nov de 2011

Ah esses Anônimos incorrigíveis...

Para os Anônimos nossos de cada dia

Comentou o Anônimo (é claro) sobre um post qualquer aqui do meu blog:

- Esse blog está cada vez mais chato...

Pois é meu querido(a), super respeito a sua opinião. Não dá para agradar gregos e troianos - e que chata a vida se assim fosse. Fica aqui a minha sugestão para seus próximos passos: não visite nem leia mais o blog (mesmo, não se maltrate assim, para que essa auto-flagelação? sado-masoquismo?), vá ler um  livro e faça uso do seu livre arbítrio. Aposto que vai aproveitar melhor o seu tempo.

A vida é curta demais para desperdiçá-la com certas coisas que desgostamos.

Fica a dica ;D

29 de nov de 2011

Conversando com o Jornalista [4]: Transparente como vidro fosco

O boi
A ideia secundária era "transparente como um poço de piche", mas matutei sobre duas coisas:

A) Existem poços de piche? (perdoem a minha ignorância)
B) Dariam conta do lirismo que anda me rondando - a despeito do improvável?

O que me dei conta é que não sou transparente como pensava até ontem. Sim, mais uma vez o Jornalista me fez reconsiderar certas coisas. E olha que de repente não é ruim reconsiderar ou mesmo voltar um passo atrás, olhar na direção oposta! Deixar o orgulho de lado - difícil isso. E considerar a possibilidade do erro. E, melhor ainda, celebrar o erro - porque eu não quero estar sempre certa! Aliás, nunca fiquei tão feliz por estar errada.

 Mas sobre todas essas coisas... Choque. Ainda estou digerindo. Um boi inteiro.

Eu acho que, na verdade, ninguém é totalmente transparente... Do mesmo modo como eu já disse que somos todos personagens esféricas, mas por superficial que possamos parecer. Superficial só os espinhos - ou as espinhas. Eu aqui me julgando transparente e escrevendo sobre (e defendendo) o uso das máscaras...

O Jornalista me perguntou se podia haver algo transparente num primeiro momento, mas profundo num segundo olhar. Bom, respondendo à sua pergunta (que não respondi porque fiquei a pensar): sim. Certas águas parecem tranquilas, mas podem se revelar turbulentas. Certas poças d'água podem parecer rasas e esconder mil mistérios. Águas e olhos escuros às vezes fazem isso. Mas, para qualquer mal-entendido entre ser e parecer, há sempre as palavras - que por vezes mais confundem do que esclarecerem. 



Octógono Semiótico

Me vi mais complicada e complexa depois de uma conversa deliciosa com a Pisciana agora à noite. Mas isso não é uma coisa só minha: no fundo, todos somos complexos e complicados - só que às vezes não nos damos conta. Ou não? A arte de especular.


28 de nov de 2011

Caindo na real (2): Esquece o carimbinho no seu caderno

Tenho visto com muita frequencia pessoas reclamando que não têm seu trabalho reconhecido. Sim, meus docinhos, sei como isso faz bem e como isso é importante, mas... A gente precisa esperar os outros notarem o que fazemos para fazermos as coisas?

Pergunto isso porque tem coisas que faço e as pessoas não reconhecem. Devo parar de fazê-las, seguindo o preceito birrento do agora vão sentir falta? Ah! Se eu for esperar as pessoas notarem e/ou valorizarem o que eu faço, gente, aí eu paro tudo e acabo não fazendo nada! E se todo mundo for pensar assim, o que aconterceria com o mundo?

É uma questão de motivação interna. A minha área, por exemplo, é desvalorizada. Imagina se eu for esperar alguém valorizá-la ou me valorizar para ser uma boa profissional? Vou esperar sentada. Talvez nem sentada na verdade.

Sou muito mais fazer o que tem que ser feito e saber que eu fiz a minha parte. Quanto ao resto, tomara que façam a deles - sem esperar confete ou estrelinha na testa.

26 de nov de 2011

Of epiphanies and phrasal verbs

"I'm fine", says Drew. So I am.
I asked her to lend me her book. She told me it wasn't the proper moment 'cause I was bouncing back and her book was only for those sad moments in which you decide to plunge. 

I couldn't remember the meaning of that phrasal verb so she gently explained it. And then there was the epiphany: I've realized that I've been sad for so long and struggling to be happy again.

I have been hiding my true feelings, overworking, being always busy. Well, I've been really busy, but my tasks and activities may have been the perfect excuse not to think about what I feel. Or maybe to make me deal with pain in a different way. 

And were my feelings worthy? Not really. I do believe it's better to work and to be useful. It's more interesting to make things happen than to cry... Over the spilt milk? Not really.  I did what I could - as usual. I think I've only choosen a differente way to deal with all these things that hurt me so deeply.

All of a sudden, I've realized the sorrow and pain swept under the carpet. My carpet. My calm despair. My blind rationality. My raw sefl-control. Little by little, I've been facing them, trying not to believe that some things will be like this forever. 'Cause life changes, right? And I've been changing with life, right? So I am fine.

'Cause this time I haven't exposed the ugliness I've faced. This time, I decided to be happy. Happiness is a matter of choice. Now I can say and see what I do want - so badly. What I wish the most - and what I just can't share with anyone else but myself. That's life. That's how it goes.

The best part is getting to know a little bit more of me and knowing that I'm bouncing back, instead of trying to control everything which is beyond my control. I just need to give me more chances.


Pelo direito de envelhecer

Quero ter o direito de usar roupas condizentes com a minha idade, quando ela for avançando. Não vou precisar sair de mini-saia para me sentir bonita. Quero ter o direto de me achar bonita com a idade que tiver e não com aquilo que deveria (?) aparentar. O tempo pesa não só na alma, mas no corpo também. E acho bonito quem se cuida e se aceita a cada nova etapa da vida. Sem desespero. Se amando acima de tudo.

Quero ter o direito de ser feliz com toda a história que as minhas mãos calejadas e rosto marcado vão contar: velhice não é doença e lutar contra ela é uma perda do tempo precioso que ainda resta.

25 de nov de 2011

Firegirl & Thumbelina: Queda livre



T: - Estou sem chão.

F: - Perdeu os super-poderes?

T: - Nada. É o de sempre, o que me faz sempre perder o chão.


F: - Ah. E o que significa perder o chão?

T: - Hum. Não sei.

F: - Quem perde o chão ganha mar?

T: - Não se afogando tá ótimo.

F: - Por que não aprender a nadar?

24 de nov de 2011

Racionalizando o irracionalizável (1)

Ela: - Você não lembrou.

Ele: - Me desculpa.

Ela: - Tudo bem. Não era importante.

Ele: - Claro que era!

Ela: - Não, não era. E, pensando bem, eu não poderia te cobrar nada...

Ele: - Por quê?

Ela: - Porque não somos nada.

23 de nov de 2011

Caindo na real (1): Ele nunca vai olhar para você

Eu devia estar no auge dos meus treze anos quando a ficha caiu:

- Caio Blat nunca vai olhar para você, não importa o que as revistinhas teens digam.

Caio *suspiro* Blat
Okay. Não foi um choque e eu já estava velha para esse tipo de leitura. Decidi, então, me aventurar por um caminho alternativo e apaixonante: o da literatura. Quando ao Caio, desencanei na ideia de um dia conhecê-lo e já estava tentando tornar concretos outros planos mais paupáveis - e abraçáveis.

 Confie no seu taco era um dos clichês motivacionais de Capricho & Cia, não sendo válido quando o quesito é Caio Blat ou qualquer outra celebridade que nos interesse. Óbvio, eu sei, meus caros.

Tacos
Um dia, a gente cresce um poquinho e começa a cair na real com os caras reais. Ou sonhar com eles? Bom, mais próximos devem estar - embora haja aqueles que se coloquem em pedestais. Mas esses precisam de servas/ adoradoras e não namoradas.

Nem sempre tem alguém para nos puxar a orelha, então é sempre bom ter estômago, boa visão e coragem para dizer:

- Ele nunca vai olhar para você.

Afinal, por que a rejeição não poderia partir de caras reais também? Aliás, isso me lembra um filme interessante que trata de um assunto próximo: "Ele não está tão a fim de você" (2009). Creio que toda mulher acaba passando por isso pelo menos uma vez  na vida. E bola para frente que eu quero fazer gols.

É uma verdade doída - ego e coração (às vezes mais um do que o outro) - mas necessária, caso a gente queira mesmo fazer as coisas acontecerem de verdade - e correr atrás de que interessa, a quem sejamos interessantes e que possa dar certo.

Não adianta desperdiçar a existência esperando (hoping/ waiting) alguém que nunca vai olhar para você, quando sempre vai haver outra pessoa para saber qual o seu sorvete preferido. A Danusa Leão, de quem não gosto, falava que um cara que pergunta da sua cicatriz no joelho é irresistível, porque, de algum modo, ele reparou em você. Concordo. O mesmo ocorre com um cara que saber qual o seu sorvete preferido, mesmo sendo uma coisa tão banal.

22 de nov de 2011

Verdades leitosas

A: - Eu quero a verdade!

B: - Mesmo?

A: - Sim. Pura! Como um copo de leite!

B: - Certeza?

A: - Talvez com uma colherinha de açúcar.

B: - Só isso?

A: - Ah! Leite desnatado.

21 de nov de 2011

Maurício+Malu: Decepção

Maurício chegou encharcado em casa.

- O que aconteceu? - preocupou-se Malu.

- Mais um balde água fria. Com a quantidade que ando levando, terei sorte se não pegar uma pneumonia.

- Nada que uma toalha limpinha e cheirosa não resolva - sorriu ela.

20 de nov de 2011

Clara vai ao hospital

Às vezes era melhor não dizer muito, melhor dizer pouco, não explicar muito: as palavras eram como cadarços desamarrados, nos fazendo tropeçar por aí. Clara olhava o Pico do Jaraguá da janela do seu apartamento. Manhã natimorta e ela foi se vestir. Pêlo em arrepio frio. Um pio lá fora. Quem era? Não saberia dizer. 

O coração pesado. Por que escorregava? Escapulia? Um amigo costumava dizer: Você está sempre escapulindo como um um leitãozinho ensaboado. Ela rira na época, mas não ria agora. Não, não agora. Era pressão demais, expectativa demais - bom demais? De onde vinha o peso - e a falsa calma em seu sorriso?

Franziu a testa. O corpo pesado quis deixar-se afundar na poltrona da sala. Aquela com a mancha de café deixada por ele. Algumas pessoas nos deixavam marcas. Não se contentando com isso, ele deixara a mancha no meu sofá. Agora eu sorria, mas não quando aconteceu.

Sábado era dia de queimar a língua com o café da padaria. Mas hoje não quis, apesar de ser sábado. A tristeza - por um triz. Ou era ela por um triz. Ele. Ficara seis meses fora do país para voltar e descobrir um recado afoito na secretária eletrônica. Recado sobre ele: estava no hospital.

E lá foi colhendo cultivando fazendo a coragem brotar - não sabia de onde. Como encará-lo numa cama de hospital? Como estaria? Como  manteria um sorriso de apoio quando suas pernas estavam bambas só de pensar na cena?

Mas não podia mais fugir. Mas bem que queria. E tanto e tanto.  Com toda a sua intensidade, a intensidade de seus  quase trinta anos. Nunca como quisera fugir de Louis. Aquilo era diferente. E era dia de visita. Equilibrou-se nas botas pretas. Voltar a vê-lo era voltar a ver a si mesma, mas não era dali que provinha o seu medo. Teve medo de não mais ter futuras chances de vê-lo - vivo.

Voltou para janela, como se o ar matinal lhe fosse trazer qualquer resposta. Seu Anísio passou com seu blusão do Taz e as meias paisley:

- Bom dia, Clarinha! - gritou efusivo da calçada, jornal a mão, dia de jogo.

Clara sorriu o seu sorriso de falsidade polida, mas gentil. Acenou com a mão trêmula. E com a mesma mão, pegou a bolsa e saiu. Ardia dentro dela uma raiva da fragilidade da vida - e de sua covardia.

Dualidade

Nunca subestime meu poder de abstração. Ou o de concretizar coisas.

19 de nov de 2011

Sem fantasia




Por mais que passasse horas brincando com os infinitos tons de azul, verde e rosa da sua caixinha de maquiagem, o seu maior prazer era o de sair por aí de cara limpa.

18 de nov de 2011

Pérolas linguísticas

Ela: - Passei mal ontem.

Ele: - O que você tinha?

Ela: - Tontura. Achei que fosse desmaiar. Pressão baixa, acho.

Ele: - Mas você desmaiou afinal?

Ela: - Não, não. Comi uma bala.

Ele: - Mas açúcar não ajuda com pressão baixa. Para pressão baixa, é sal.

Ela: - ...


Pausa.

Ela: - Vai ver que era era baixo índice glicêmico.

17 de nov de 2011

Quinzinho e o encontro marcado

Quando pequeno, Quinzinho tocava a campainha e saía correndo. Era rápido. Mas, um dia, alguém foi mais rápido: abriram a porta. Seu dedo mal tocara o botão dourado e a porta

NHÉÉÉÉÉÉÉÉ

(rangido dengoso)

O seu choque não foi ter sido pêgo, mas sim o fato de ter sido convidado para entrar - para uma limonada. Estavam esperando por ele.

16 de nov de 2011

Questões banhistas

Para todos aqueles que gostam de banho escaldante

Já ouvi que não é bom tomar banho com água muito quente, porque ela leva embora toda a oleosidade natural da pele. Sendo assim, a pele ficaria seca. Também já ouvi que a mesma água quente estimula a produção das glândulas sebáceas. Sendo assim, a pele ficaria oleosa.

E aí? Qual delas é a correta? Ou a água quente acabaria por me garantir uma pele mista?

14 de nov de 2011

Questões sanduichiais

Ele: - Como você está?

Ela: - Bem e você?

Ele: - Misto.

Ela: - Presunto e queijo?

Ele: - Bauru.

13 de nov de 2011

Maurício+Malu: Introspecção

Malu brincava distraída com a alface no prato: enrolava as folhas úmidas e as mordia. Charuto. 

- A verdade me embrulha o estômago - disse Maurício.

- A verdade do almoço pesado? - quis saber Malu.

- Não, outras coisas - ele respondeu, olhando através dela.

Ele passava o indicador pela borda do copo. Será que queria tirar algum som do copo meio vazio? Nada. O copo era mudo, como a sala sem som.

- Não sei o que fazer com as coisas que morrem em mim. As coisas que as pessoas matam em mim.

- Enterrar?

- Achei que pudesse ressussitá-las... Mas não. Algumas coisas são irrecuperáveis. E sabe o que é pior? Não me ressinto disso.

- Então qual é o problema?

- É que estive me enganando e enganando aos outros, pensando ser uma coisa que não sou mais. Nem nunca vou ser - ela olha pela janela.

- E a verdade te embrulha o estômago?

- É.

- Estamos no mesmo barco então.

Maurício sorri pesaroso e serve groselha aos dois, na esperança de adoçar um pouco da vida.

11 de nov de 2011

Abre a porta Mariquinha!

Ela: - Você não pode entrar.

Ele: - Por que não? Fui embora porque eu quis, não porque você me mandou. Por que não posso voltar?

Ela: - Justamente porque você foi porque quis eu não quero mais.

Ele: - Nem espiar pela janela?


Ela: - Nem buraco da fechadura.

Ele: - Abre a porta Mariquinha!

Ela: - O único mariquinha aqui é você!

10 de nov de 2011

Eterno retorno


Olhei pela janela do trem lento. O tempo estava quente, mas não abafado como antes. Eu já não era uma flor de estufa, nem sua borboleta de insetário – exposta e exibida para todos. Não, nem todas as mulheres jogam jogos mentais. Acho que eu era a única que logo de cara se entregava completamente.

            - Sou teimossísima.

E só fui entender o problema daquela confissão gratuita mais tarde. “Avistei o mercado da Lapa e pensei em você”, eu quis te escrever. Amarelo com portas grandes, frutas à vista, perto da estação de trem. Quis te mandar um bilhete. Você sabe como gosto de bilhetes. No começo, isso te encantava. Depois eu já não sei.

Para que escrever? Era um daqueles muitos lugares em que tínhamos planejado ir juntos, mas não contamos com um pequeno imprevisto. Mas também, uma coisa sobre nós era certa: vivíamos sem prazo de validade, como se nunca fosse acabar. Talvez fosse ingenuidade nossa, mas duvido que qualquer um de nós aceitasse viver de modo diferente.

A hora passa arrastada de volta para casa. Nem me lembro de onde estou voltando, só sei que vou para casa.

9 de nov de 2011

Aula de francês

A: - Ça va bien. Vous?


B: - Bien. Vous? Tu.

A: - Je t'aime.

B: - Hã?

A: - É só isso o que sei dizer.

8 de nov de 2011

Diário: Sobre pares perfeitos


** Falávamos sobre the perfect partner e os adjetivos para descrevê-lo. Por fim, perguntei:

- Quem aqui acredita em par perfeito?

Dois garotos levantam a mão (!)


** Claro que ia sobrar pra mim:

- E você professora, como seria o seu par perfeito?

- Nah. Mas eu não acredito nisso...

 
** Laura insiste:

- Mas como seria o cara ideal?


A classe se silencia imediatamente logo que começo a falar. Um silêncio que me assusta.

7 de nov de 2011

Sonhadores

Me pegou pela mão:

- Vamos?

Olhei a corda que me prendia ao chão e os balões de gás hélio que segurava numa das mãos. Hesitei, mas engoli meu medo do possível em seco. Com destreza, desamarrei o pé. 

Livre, sobrevoei com ele os reles mortais terrenos, tão presos quanto eu fora por séculos. Foi preciso  coragem da minha parte para deixar amarras - e coragem dele para me convidar para acompanhá-lo.

Ouvindo Eu só sei dançar com você (Tiê)

6 de nov de 2011

O menino do meu abraço

Todo dia ele vinha e me dava um abraço. Desajeitado, se derramava sobre mim. E eu tentando não deixá-lo cair. Devia ser um pouco maior do que eu, mas era apenas uma criança. Vontade de pegá-lo no colo e lhe dizer que tudo ficaria bem, fosse o que fosse. Medo de machucá-lo, mesmo ele já não sendo tão frágil.

Ele ria gostosamente. E me abraçava mais forte.

Fui percebendo que a cada dia o seu peso ficava mais leve. Não se notava nada em seu rostinho redondo, mas quando eu o abraçava, percebia que pesava cada vez menos.

Era como se alguém estivesse tirando alguma coisa dele. E veio vindo a tristeza.

Logo reconheci que cedo ou tarde, seus pés já não mais tocariam o chão: ele perderia o chão. Flutuaria por aí sem rumo. Sem destino. Sem mais ter a quem abraçar ou a quem se apegar. Vi desapego em seus olhos.

Era frágil sim.

Ouvindo Like spinning plates (Radiohead)

5 de nov de 2011

Conversando com o Jornalista [3]: Porque as almas-gêmeas estão por aí

O beijo (Rodin, 1888)
Falei ao Jornalista do meu choque ao constatar que dois adolescentes que conheço acreditam e alma-gêmea. Choque principalmente porque são rapazes - parte do meu choque foi por causa disso. Semprei achei que mulheres sonhavam mais e - para mim - alma-gêmea é coisa de gente que sonha. Bom, eu sonho, mas nem tanto, nunca tanto. O ascendente em áries - para aqueles que acreditam - sempre me manteve com um pé na terra.

Foi aí que o Jornalista comentou - com ou sem embaraço - que acreditava em alma-gêmea. Ah! De novo, supreendida. Lembrei então de um primo muito querido, um pouco mais velho do que eu, tentando me convencer que existem sim almas-gêmeas. Sim, ele também acredita piamente nelas. 

(e eu - com claro embaraço - tratei de logo explicar ao Jornalista o meu ponto de vista)

E aí eu pergunto: onde estão as mulheres que acreditam nisso? Não conheço nenhuma: descrença geral - o que é sintomático. E quando vou ouvindo as histórias... Bom, faz sentido. Penso. Sinto. Acho.

E pergunto ao Jornalista:

- Tá bom. Você acha a sua alma-gêmea... E a perde, seja por morte para outro mundo seja por morte do amor que se foi. O que se faz?

Aí o Jornalista veio com uma tese interessante: a de que teríamos almas-gêmeas para diferentes épocas de nossas vidas, para diferentes momentos. O que é bastante confortante, porque o que me mata desse discuros de alma-gêmea é que é algo muito definitivo - é uma vez e nunca mais?

Se você amou intensamente uma vez e acabou... Quer dizer que você nunca mais vai amar de novo? Uai! Isso não me parece razoável. Quer dizer que a gente vai passar o resto da vida sozinho? Nah. Suspeito de tudo que seja radical assim, permanente assim, taxativo assim, drástico assim. Não só suspeito: simplesmente não aceito.

Agora eu consigo até simpatizar - veja bem, simpatizar - com a teoria do agradabilíssimo Jornalista segundo a qual você poder ter várias almas-gêmeas alo longo de sua vida. Claro que eu não fiz uma pergunta óbvia:

- O que você entende exatamente por alma-gêmea?

Alguém com quem você tem química? Afinidade? Uma ligação espiritual? Leitura de pensamento? Ambições em comum? Alguém que te compreende? Uma pessoa que você parece conhecer desde sempre? Um amor que nunca acaba? Panco - dedicação total a você?

Brian Molko canta tão bonito soulmates never die e talvez, caso existam, não morram mesmo: primeiro porque todas aquelas que fazem parte de nossa vida e de nossa história acabam fazendo parte de quem nos tornamos, de quem somos; segundo porque se a vida se renova, nós nos renovamos com ela e assim também o fazem as almas-gêmeas. Seria isso?

Ouvindo Vermelho (Marcelo Camelo)

4 de nov de 2011

Ô benhê!




Porque só chamava de "amor" quem lhe inspirava o sentimento. O resto era perfumaria.

3 de nov de 2011

Conversando com o Jornalista [2]: Porque sempre fica mágoa

O que eu gostaria de ter dito ao Jornalista (ou como eu gostaria que a conversa tivesse terminado)

A: - Não sobrou mágoa.

B: - Sempre sobra mágoa.

A: - Afoguei a mágoa.

B: - Na bebida?

A: - Não, na banheira lá de casa mesmo: era ou ela ou eu.

2 de nov de 2011

Mosaico humano



A: - Você viu uma orelha por aí?

B: - Van Gogh?

A: - Não, não sou artista.

B: - Mas é sensível?

A: - Isso.

B: - Então o que está fazendo?

A: - Juntando os pedaços.

1 de nov de 2011

Fora do tempo [2]

A: - Onde foi que nos perdemos?

B: - Dobrando a esquina?

A: - É como se estivéssemos nos perdido no tempo...

B: - Então é o tempo e não o espaço?

A: - É.

B: - Hum. Mas eu gosto de você.

A: - Mas estamos em tempos diferentes. Tô no Iluminismo.

B: - E eu?

A: - Sei lá onde você está: se soubesse, provavelmente ainda estaríamos juntos. Ou não. Mas eu saberia ao menos onde te encontrar.

B: - Hum. É. Faz sentido. Alguma idéia?

A: - As ideias são sempre minhas. Hoje, você pensa em alguma coisa, caso interesse.

Coça a cabeça:

B: - E se a gente se encontrasse no futuro?

A: - Futuro? Sei sei. Não temos futuro, você sabe...

B: - Não! E se a gente esperasse nosso tempo se alinhar de novo?

A: - Mas nunca esteve alinhado! Estivemos vivendo em tempos distintos durante tanto tempo!

B: - E se então esperássemos que nosso tempo de alinhasse pela primeira vez?

A: - Me encontra daqui a cinco, dez anos pra ver se dá certo: é isso o que você está me pedindo?

Ouvindo In a sentimental mood (Coltrane)