30 de ago de 2012

Ímpar

Recusei a dança. Sim, eu sei dançar. Danço até que bem. Tenho ritmo, levo jeito, boa postura. E mais: vontade. Tinha, quer dizer. Tive, pode ser. É passado, seja como for: [im]perfeito em todas os seus modos. 

Não quero mais dançar. Quero descansar os pés e a cabeça - tonta de tanto rodopiar. Pouso meus sapatos debaixo da cadeira. Eles olham sem inveja os casais na pista. Os casais me olham com inveja: eu e o meu silêncio intenso. Essa minha cara livre de... Livre. Cara lavada, tão lavada que já perdeu a cor.

Não vou dançar só porque os outros querem. Pois é, agora estão sem par. Desam-par[ado]? Não é assim que vai ficar. Tudo bem, tudo bem. Me dou um tapinha nas costas. Te mando um sorriso sonolento. Os casais não invejam o seu silêncio intenso. Porque você não sabe.  E eles sabem de você.

Meus pés tinham uma saudade doente do chão. Beijam-no sofregamente [esmago uma formiga]. E se aconchega em mim um cansaço tão grande, mas tão grande... Bocejo de língua espichada. Dentes de morder. Lábios de beijar. A ousadia de um anel de cabelo. Me enrolo sobre duas cadeiras. Os cabelos bagunçados. O vestido amassado. O laço desfeito. Adormeço perdida entre o tímido tule rosa-chá, que insiste em aparecer.