31 de dez de 2010

Anyone else but you


Cansei de fazer balanço do ano de 2010, mas não posso evitar de pensar nas últimas conversas que tive com alguns amigos. Por um lado, me bateu uma saudade gigante de gente que por "n" motivos não vou mais ver. Por outro, redescobri amizades adormecidas nos lençóis deste ano. Seja como for, tudo muito surpreendente e divertido. De talk shows exóticos e liberdadores à confissões e mudanças de postura, bem, só posso dizer que me sinto feliz e orgulhosa de todos os meus amigos - viu Felino?

São pessoas bastante diferentes de mim - o que não é um problema. E nessas últimas conversas eu [re]descobri muita coisa. Descobri, primeiramente, que certas declarações impactantes são pra valer:

- Nossa história não acaba aqui.

(sou muito boa com declarações impactantes)

E que infelizmente certas "convenções sociais" podem nos afastar de pessoas que nos fazem bem. E vice-versa. Aprendi que brigas feias podem ser decisivas numa amizade, no sentido de colocar coisas em pratos limpos, abalar as estruturas e se perguntar Vale a pena?, só para poder afirmar em alto e bom som Ô se vale! E assim caminha a humanidade. Descobri também que nem todos têm a capacidade de pedir desculpas, porque às vezes parece que eu estou sempre errada já que só eu peço desculpas. Será que é isso mesmo?

"Quem inventou a distância nunca sentiu saudades" alguém me disse e eu registrei na caderneta de versinhos quando tinha uns doze anos. Bom, o tempo passou, a caderneta se tornou motivo de auto-chacota, mas o verso ficou por ser simplesmente real. A maioria dos meus amigos mora longe, então nos viramos como podemos, afinal, todo mundo trabalha/estuda e nos vemos menos do que gostaraímos. Mas nos fazemos presentes, de um modo ou de outro, e acho que é isso o que realmente importa. Hoje eu sei o que realmente importa. E quem realmente importa. E que, muitas vezes, tal importância deve ser abafada sutilmente. Afinal, não se deve superestimar o seu amor - ou a sua dor. Nunca. Nada melhor do que diluir certas intensidades em água corrente.

Passei a virada de 2009 para 2010 assistindo Juno (2007) e logo em seguida baixei a trilha sonora. Minha mania de trilhas sonoras. E absorvi certas coisas de um modo diferente. Esperava 2010 de um jeito, ele veio de um modo completamente diferente - e não menos delicioso. E surpreendente. Isso é fato. Algumas pessoas realmente me supreenderam, enquanto que outras simplesmente agiram de acordo com sua natureza, ou seja, como eu já esperava. Agora vamos ver o que 2011 nos reserva...

Obrigada a todos que fizeram parte da minha vida em 2010. Feliz Ano Novo!



Das coisas que você nunca pensou que fosse dizer

O Sr. A. e eu estávamos esperando o evento começar. Era um atraso de quarenta minutos já - que logo se tornaria uma hora. O Sr. A. parou por um momento:

- Você está tão linda!

- Obrigada, A.

- Parece uma modelo!

- Claro, uma modelo de 1,60...

- Já preparou o discurso?

- Discurso?!

- Sim, é você quem vai fazer o discurso! Não sabia?

Ele mostrou meu nome de relance numa lista cheia de outros nomes.

- Sei, sei - respondi sem me abalar - É a I. quem vai fazer o discurso, ou o V.

- Ah! É verdade...

- Cínico.

- Mas você bem que podia fazer o discurso, né!?

- Olha, sinceramente, hoje não estou pra isso. Hoje estou puramente ornamental.

30 de dez de 2010

Diário: Tetro e eu

Ia ao cinema sozinha. Fazia questão. Mas fazia tempo que não via umas amigas, então convidei-as. Toparam a princípio, mas desmarcaram depois. Normal, acontece. E eu precisava de um tempo sozinha mesmo, em silêncio. Quando digo silêncio, quero dizer o meu silêncio. Se tem uma coisa que eu aprendi esse ano foi a falar menos, me expor menos, palpitar menos. Exposição de idéias bem sucedida não é garantia de sucesso - seja qual for o campo/assunto/área.

Em quarenta e cinco minutos eu estava na Avenida Paulista! Só em período de férias mesmo para uma façanha dessas. E claro que fui pelo caminho que me foi ensinado recentemente, muitíssimo mais rápido e agradável.

Bicho-papão decoração infantil, dizia a placa.

Era isso? Bom, eu não ia querer ser a criança dona do quarto não.

Cheguei cedo à beça e fui passear numa galeria em frente ao cinema. Roupas, sapatos, livros (!). Namorei alguns, mas nada sério. Olhei uns colares na loja do casal japonês. Olhava por olhar e antes que o simpático senhor me oferecesse mais alguma coisa, me despedi e saí da loja. Subi para o segundo andar da galeria. Uma vista bonita. Brisa suave. Era alto, realmente alto.

* contém spoilers!

O cinema finalmente abriu, desci e comprei meu ingresso. O filme que assisti foi Tetro (2009) do Francis Ford Coppola, dica de um amigo meu. Eu tinha gostado do trailer e realmente gostei do filme. Não, eu não sou nenhuma entendida de cinema, mas simplesmente acho que é um filme muito bom, a despeito de ser do meu agrado ou não. E eu sabia que conhecia a bela Maribel Verdú de outros carnavais: a atriz fez a personagem Mercedes em O Labirinto do fauno (2006) de Guillermo del Toro - outra dica de filme excelente.

A trilha sonora é deliciosa, recheada de música clássica, e os efeitos especiais são interessantes - confesso que quando li nos créditos de abertura "efeitos especiais" fiquei preocupada. Gostei dos jogos de luz e sombra, do coro de crianças, das mariposas em torno da luz, da versão de Fausto, das tomadas insistentes nos olhos de Tetro, do drama não derramado. O enredo é surpreende ou eu sou meio lerdinha? Bom, me surpreendeu e gostei. Simples assim.

Achei interessante que o filme não é colorido, mas também não é em preto-e-branco. O que seria então? Não sei definir, mas é como se fosse em tons de cinza. Não é um filme em preto-e-branco como os filmes antigos. Enfim. O legal disso é que a maior parte do filme é nesse "pseudo preto-e-branco", mas há vários momentos de cor intensa. Para saber quais são esses momentos e o porquê desses momentos, bom, vocês terão que assistir o filme!

Saí de lá mergulhada em meus pensamentos e me bateu uma suave melancolia. E por pouco não perco o ônibus, quase sendo levada pela brisa.

Para quem se interessou:


29 de dez de 2010

Devolva-me

A: - Posso fazer uma pergunta? Talvez seja difícil de responder então se não quiser, não tem problema. Sem ressentimentos se não quiser responder.

B: - Pode falar.

A: - Nesses cinco anos que a gente se conhece, você teve três namorados, né? Como é que você lidou com o fim dos namoros? Como você lida com o sentimento que fica depois?

B: - Bom... Eu gostava muito do primeiro namorado, mas ele terminou porque não dávamos certo. Na verdade, não tive muita escolha a não ser aceitar. Depois acertamos as coisas.

A: - É, eu sei.

B: - O terceiro era um poço de ciúmes, possessividade e insegurança. Eu já te contei o que ele resolveu aprontar. Nesse caso, terminei porque não dava mais pé, ainda que gostasse dele. Nunca acertamos as coisas e duvido muito que a gente acerte algum dia.

A: - Bom, do segundo eu conheço um pouco mais...

B: - Olha... Do término do segundo eu achei que nunca fosse me recuperar. Sério. Fazíamos planos e, ainda hoje, principalmente depois dos acontecimentos mais recentes, não consigo me imaginar com outra pessoa que não ele. Sei que tenho vinte e poucos anos, mas ele foi o grande amor da minha juventude. Tomara que não o grande amor da minha vida!

Riem.

A: - E como você lidou com o fim?

B: - No começo, muita raiva. Raiva principalmente porque nunca tive uma boa explicação para tudo ter acabado. E acho que eu merecia alguma, não? Sei lá, depois eu desencanei. A raiva se dissipou. Acho que tem coisas que você não tem muita escolha, né? Você faz o que pode e aceita o que vier.

A: - Eu não sei lidar com a rejeição...

B: - E quem disse que eu sei? Me desculpe, mas ninguém sabe...

28 de dez de 2010

Fale com ele [3]: Oi?

O que um homem [realmente] quer dizer quando fala que a vida dele está muito complicada no momento e que, por isso, não pode te ver?

Diário: Em busca da capivara perdida

"Estamos aguardando movimentação do veículo à frente" foi a frase do dia. Mas enfim, tudo certo, tudo resolvido. Agora é oficial. E eu adoro as coisas oficiais. E nada das capivaras no rio - meu rosto colado na janela. Cadê vocês, meus amores? Lembrei de você e de quando ligou para compartilhar:

- Adivinha quem está do meu lado aqui?

Breno foi comigo, como sempre. Fez um ano que comecei a ler sobre ele e sua aventura berlinense. Estou longe de acabar o livro e não tenho nenhuma pressa. Já não tenho pressa de tanta coisa... Vontade grande de escrever, voltar a escrever meus romances, contos, poemas. Pois bem. Pensei em você e nas minhas escolhas, na minha segurança, na história mal esboçada - eterno rascunho - e me bateu uma sensação de conforto. Sensação de ter o poder sobre o seu próprio destino.

A mesma sensação provida pela pasta debaixo do braço. Muito bem. Incrível como a gente muda em apenas alguns meses. Uma questão de necessidade/ sobrevivência. Incrível como conseguimos aprender com os próprios erros. E como podemos nos libertar daquilo que nos poda e nos prende. Adeus amarras.

Acho que é de Lygia Fagundes Telles uma passagem na qual uma mulher usava uma bolsa vermelha ou roxa porque aquilo era ousado e ela tinha acabado de declarar o seu amor e, para isso, era necessária uma boa dose de ousadia. Bom, bolsas não têm impacto sobre mim. Sem bolsas, sem declarações de amor, por favor. Mas a sensação da qual a escritora fala, a sensação fornecida pela bolsa, é a mesma que o meu vestido lilás traz. E tenho gostado muito dessas novas sensações.

27 de dez de 2010

Flerte

Os dois num bar, com depressão pós-natalina:

Ela: - Cuidado: as aparências enganam.

Ele: - Por que você diz isso?

Os dois já estavam um pouco altos.

Ela: - Porque eu sou perigosa. Ninguém diz isso pela minha aparência, eu sei, mas sou perigosa, é fato.

Realmente ninguém diria aquilo sobre ela - à primeia vista, inofensiva. Não havia qualquer soberba em sua voz: ela declarava sua periculosidade como se constatasse um simples fato. Pimeiro ele achou graça, seu rosto de menina não parecia esconder nada. Entretanto, ao olhá-la com mais atenção, percebeu um brilho diferente em seu olhar, um trato diferente de suas mãos, uma contração diferente de seus lábios.

E deu razão à ela.

26 de dez de 2010

Summer is coming (2): Organization

Uma das grandes sacadas de verão é a famigerada faxina no armário. E quando digo faxina, estou me referindo a tudo aquilo que uma pessoa pode guardar. Uma parte já estava ok. Os vestidos de verão já estão a mão, prontos para serem usados - já sendo usados, na verdade.

 A parte dos papéis veio hoje. Coragem, muita coragem, pois centenas de pastas me esperavam ansiosamente. Milhares de textos da faculdade, recheados de desenhos, anotações e e versos escritos sempre para a mesma pessoa. E até mesmo um desenho dessa pessoa. Ri. A gente é muito bobo quando está apaixonado.

Adeus meu queridos papéis. Sessão desapego. Adeus cabelos compridos, adeus textos, adeus versos. Gostei da sensação das pastas vazias. Mas também de relembrar tudo o que aprendi em cinco anos, assim como as pessoas que passaram pela minha vida durante esse tempo. Foi bom, mas não sinto falta a ponto de querer reviver isso tudo. Foi uma época boa que passou, por isso organizo a vida agora e me preparp para 2011.

25 de dez de 2010

Se a carapuça servir

Para S.O.'H.

As pessoas podem tentar fazer você de tonto. Se você vai aceitar o papel ou não, bom aí é com você. A gente sempre pode escolher - o que é um grande consolo e, ao mesmo tempo, uma responsabilidade.

P.S. Feliz Natal!

23 de dez de 2010

Summer is coming (1): Haircut

"[...] she'd only love two things. The first was her long dark hair. The second was how easily she could cut it off and not feel a thing."


Uma hora eu cansei e essa hora já veio faz tempo. Cansei do mesmo corte de trezentos anos. Adoro cabelo comprido, mas uma hora enjôa. Também cansei do mesmo discurso segundo o qual cabelo comprido é sinônimo de feminilidade blá blá blá blá e que os homens preferem as mulheres de cabelo comprido blá blá blá blá - Hei! Atender as expectativas alheias é muito desgastante. Primeiro, existem várias maneiras de ser feminina. Segundo, se os homens preferem ou não mulheres de cabelo comprido, bom, sinceramente, I couldn't care less. Ultimamente eu ganho muito mais pensando no que eu quero do que pensando no que os outros querem.

Havia uma pessoa que costumava dizer que eu era ousada. E eu nunca levei muito à sério. Hoje, quando cabelereiro perguntou se eu ia de chanel mesmo e eu concordei, ele disse que eu era corajosa. Achei graça. Mas hoje, depois de me ver antes e depois, bem, acho que sou corajosa e ousada mesmo. E com um ar de diva, naturalmente.

(claro que agora sou uma ameaça a boa moral, já não bastassem os joelhos, estou andando por aí com a nuca à mostra tsc tsc tsc...)

22 de dez de 2010

Coup de grâce

'Cause many years from now there will be new tomorrows and still some sorrows, how does it feel?

Como se tivesse voltado à superfície. Depois de quanto tempo? Dois meses? Possivelmente. O fato é que hoje as atividades foram encerradas. Adeus burocracia, adeus papéis. Tudo entregue dentro dos prazos. Agora as merecidíssimas férias, com direito a... Sei lá, nem quero pensar. Na verdade já sei. Em parte. Mas melhor é não planejar, né? Embora a primeira atividade de férias seja trocar a maldita pulseira do relógio. E sim, mais uma série de coisas que precisam ser feitas. É preciso coragem muita coragem para fazê-las. Ou simplesmente uma boa dose de estou-cansada-das-coisas-como-estão. Ah! Isso é tão revigorante!

 E algumas coisas me encantam ainda. De verdade, porque, a essa altura, o negócio é não esperar nada de ninguém mesmo. Mas recebi um cartão de natal, sim. Aliás, recebi vários. Todos adoráveis, mas eram respostas aos meus cartões, os que eu tinha mandado. Todavia, dessa vez, recebi também o cartão. De um amigo que não vejo há muito tempo e com quem pouco falo. Mas sim, ele se lembrou de mim e me mandou um dos cartões mais bonitinhos já feitos. E, mais uma vez, Bunnyman me salva de dias estranhos. Thanks, my dear.

Aluguei "Ele não está tão a fim de você" e algo me diz que eu poderia ter tirado lições bastante úteis se o tivesse assistido antes. Porque agora eu já sei de tudo o que preciso saber por ora. Seja como for, há de ser instrutivo.

Já estou fazendo meu balanço geral 2010 há algumas semanas. Interessante é a palavra do momento, sendo seguida por poda, afinal, não há nada melhor do que podar qualquer coisa que se revele inútil, incerta demais ou, simplesmente, sem perspectivas. É preciso dizer adeus ao que não serve mais, por mais que possa nos doer. É uma questão de dignidade, acho.

****

- E eu achando que você fosse uma menina comportada! - ele brinca ao descobrir minha tatuagem.

- E essa aqui, moço comportado? - pergunto, apontando a tatuagem no antebraço dele.

Ele sorri e me mostra uma outra no braço.

- O que é?

- São Judas Tadeu.

E eu pensando que tipo de imagem devo passar aos outros. Bom, os meus apelidos deixam isso muito claro... É a vida.

*****

Ouvindo


* Retificando: André, eu me enganei: Julian Casablancas é realmente demais!
** Não confundir ratificar com retificar.
*** E se alguém sofre de Depressão Natalina, me avise que eu posto uma lista de músicas no melhor estilo "Top 10 Adeus Depressão Natalina"
**** Será que é crime matar fantasias mirabolantes?

19 de dez de 2010

Quando sua vida é invadida pelo que você devora

De repente, não mais do que de repente, minha vida pareceu um apanhado das coisas que escrevo, misturado com altas doses de ironia e 3/4 das mais variadas comédias românticas (mais uma pitada de drama, naturalmente). Tudo aí, na minha cara, tão óbvio que até me assusta e soa ridículo ao mesmo tempo.

E agora?

18 de dez de 2010

Espirais ( II )

Clara ficou atônita e tentou disfarçar:

- Nem me venha com essa...

- Você acha que eu estou brincando?

- Como você chegou a esse ponto?

- Que ponto? De vir aqui e te dizer isso?

- Não, de se sujeitar a isso. Além disso, você quer algo casual, eu sei. Isso não me interessa.

- Não é casual. Te quero de verdade.

Clara desviou seus olhos daqueles olhos ávidos e castanhos que tocavam seus lábios.

- Pior ainda, porque nós nunca daríamos certo. Eu sou seu porto seguro, mas você é o rei da incerteza. Não sabe ainda o que quer da vida.

- E você sabe? - disse ele com um despeito sufocado.

- Sim, eu sei - disse ela solenemente - Percebe em que situação isso me coloca? Você é o cara que quer tudo, é da sua natureza.

- E você é aquela que tem tudo sempre muito certo, sempre muito cheia de certezas... É isso? Olha, Clara, você não me conhece tão bem quanto pensa, eu não sou assim.

- Não foi o que o seu modus operandi me mostrou nesse tempo que a gente se conhece. Sei lá - ela se levantou - temos tanta afinidade, mas nossos valores... Nós mesmos... Somos diferentes demais, queremos coisas diferentes demais para ficarmos juntos.

- Não tinha uma desculpa melhor? -  resmungou impaciente.

- E você acha que eu sou de dar desculpas? Cansei de me abrir com você, falar do que sentia, do quanto te queria e você me manteve esses anos por perto. Por quê? Seu ego? Uma garantia de que nunca ficaria sozinho?

- Não, não é nada disso. Eu sempre gostei de você. Só que algumas coisas estavam complicadas para mim, minha vida estava complicada. Precisei de muito para chegar até aqui.

- E agora que você se acertou, vem atrás de mim? E acha que é só estalar os dedos e zap?

- Só agora pude colocar as coisas no papel, dar a cada coisa o seu devido valor. Tenho revisto a minha vida, meus planos, o que já fiz, o que perdi. E aí caiu a ficha.

- E eu caí na real. Não aposto mais nenhum ficha em você. E não acredito em amor.

- Eu não acredito.

- Em que? Em amor?

- Não, em você. Você está fragilizada, só isso. Se me desse mais uma chance eu poderia te provar o que estou dizendo...

- Engraçado...  - ela mergulhou a mão num pote de pipoca murcha, mas quem afundava era ele - Eu passei tanto tempo querendo tudo isso e agroa que você está aqui estou racionalizando.

- Não devia racionalizar, devia sentir. Sentir. Ou vai perder muito da sua vida.

- Ah devo racionalizar sim! Eu também ponho no papel o que eu sinto, eu penso sobre o que sinto. E nem sempre o que queremos é o melhor para nós. Tenho isso em mente desde que te conheci. E quem sabe da minha vida sou eu. Você não quis saber. Agora tanto faz.

- Por que você tem que ser tão dura comigo? - ele andava atrás dela pela sala.

Clara se virou para ele. Seus olhos perderam a dureza e voltaram a ser os mesmos olhos mornos de sempre. Louis quis abraçá-la, mas hesitou. Ficaram se encarando por alguns instantes. A grande novela que era a vida de ambos.

- Nós não temos perspectivas, Louis - disse ela tocando levemente o seu rosto - E para quê começar algo com prazo de validade? É desgastante, nós dois vamos sofrer. E não quero isso para nós.

- Eu só não queria te perder - ele se aproximou mais um pouco de Clara, arrumando a franja que escondia os olhos dela.

- Mas como se perde aquilo que nunca se teve? - disse ela, sorrindo com doçura.

Clara parecia desarmada, mas era só aparência, Louis sabia. Não que não fosse sincera nas coisas que dizia, mas sentiu que o momento de ambos tinha passado. Como o perfume de um desconhecido, sentido uma única vez numa estação de metrô qualquer. Há o gosto do chiclete na boca e o toque frio do corrimão da escada rolante. A voz das pessoas mudas. Silêncio. Há idéias e sentimentos e pensamentos e experiências. É uma combinação única e efêmera que nunca mais poderá ser encontrada. E aquilo tudo tinha passado para ambos. 

Clara queria dizer adeus a história de ambos. Aproximou-se ainda mais de Louis, não quis mais ouvi-lo, entendê-lo ou tê-lo por perto, rondando-a. De repente, ele a abraçou. Suavemente. E foi com suavidade que ela o beijou. Parecia a coisa mais racional a se fazer.

Era o primeiro beijo de Louis e Clara. Um beijo de adeus.

- Feliz Ano Novo.

Embora fosse cedo, já ouviam os primeiros rojões lá fora.  Alguns fogos de artifício já rasgavam o céu , alegres e ébrios. Era trinta e um de dezembro. E dia dois de janeiro, o apartamento de Clara já estava vazio, ansioso para ser alugado.

Ouvindo Stay (U2)

17 de dez de 2010

Diário: Quando a padaria oferece mercadoria incomum

Fomos à padaria no intervalo. Fui para acompanhar, não tinha fome, só vontade de conversar. Ele pediu uns pães de queijo e um suco de laranja.

- É a melhor padaria da região - ele disse, orgulhoso, como se a padaria fosse dele

- Mesmo? - disse eu, fingindo interesse - Achei que não tivessem muitas padarias por aqui.

- Bom, essa é a única - ele respondeu, sem me dar muita atenção.

Enquanto esperávamos pelo suco de laranja ao lado do balcão, avistei algo inesperado ou, no mínimo, inadequado: uma barata. Muito simpática, ela subiu no freezer. Talvez quisesse sorvete de coco. Talvez um pacote de salsichas.

- Ei - disse eu, interrompendo ele, que continuava falando sem parar.

- O que você estava olhando? - ele quis saber.

- Olha lá! - apontei para a barata.

Helga era o nome dela, eu tinha acabado de escolher.

- Credo! Uma barata?!

Seu choque era genuíno. O moço de bigodes estranhos entregou o copo com suco. Sorriu. Embora tentasse, não conseguia ser mais simpático do que a barata.

- Moço - ele começou - tem uma barata em cima do freezer.

"Helga quer sorvete, só isso", pensei.

O moço de bigodes desagradáveis olhou para a barata, olhou para nós, levantou a cabeça e sorriu. Como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Bom, talvez lá fosse.

Três cíclopes




Olho da agulha











Olho do furacão








Olho de sogra

16 de dez de 2010

Quinzinho e o fim de ano

Quinzinho enrolava-se lentamente na manta acolchoada. Era horário de verão, mas o frio lá fora dizia que devia ser uma outra estação prestes a chegar. Gostoso era ouvir o mensageiro dos ventos tilintando lá fora e sentir o conforto morno de seu quarto aqui dentro.

Pensou nos cartões de natal que tinha mandado no mesmo dia. No ano anterior, mandara quarenta. Queria fazer todo mundo feliz, todos deviam se sentir importantes e lembrados e queridos. Neste ano, depois de tanta coisa, tanto rompimento, tanta decepção, tanta ausência... Foram sete. Mas sete bem escritos, para os sete que estavam lá, sempre. O que seria a amizade, afinal?

Ainda tinha uma semana sufocante de trabalho pela frente. Pilhas de papéis intermináveis nos quais queria desenhar, fazer origamis ou que podia simplesmente reciclar, já que não tinham qualquer utilidade. Mas não podia fazer nada daquilo. Suspirou fundo e se escondeu debaixo da manta. Se escondeu de quem?

Pensou em Lili. Por onde andaria? Seu coração andava distraído - se andasse, tropeçaria. Pensava nela às vezes, ela que tinha colorido seus dias cinzentos. Mas passava. Cada vez mais era uma imagem desbotada, enquanto outras iam ganhando cor. Entretanto, os contornos do rosto delicado de Lili e a leveza de seu ser e a doçura de suas palavars ficariam para sempre com ele. Levaria coisas boas do ano prestes a findar. E algumas não muito boas. E não seria sempre assim?

Tinha mil e um planos e (ainda) o mesmo sorriso bobo, o mesmo ar cativante, as mesmas mãos firmes, cheias de verbos e vontades. Era um homem de ação, sempre fora. Mas, agora, tudo o que mais queria era adormecer enrolado na manta morna e esperar o ano acabar, sem ter que pensar nas pilhas de papéis que o atacavam mesmo enquanto sonhava.

15 de dez de 2010

14 de dez de 2010

Loving the alien

Sei que "alien" significa, entre outras coisas, "estrangeiro". Mas toda vez que ouço Loving the alien, penso num amor intergaláctico.

10 de dez de 2010

Firegirl & Thumbelina: Terapia?

Depois do último incidente, Thumbelina mostrou a Firegirl toda a correspondência trocada com o Homem de Lata.

- Leia e me diga o que achou - pediu Thumbelina.

Ao final de quinze minutos...

- Meu Deus! - Firegirl se espantou.

- Ruim assim? - Thumbelina riu.

- Eita cara mais complicado. Precisa de terapia.

- É e pensar que eu já achei que precisasse de mim...

- É a gente se engana.

- É, é verdade. Sempre foi assim?

- É, é sempre assim. Faz anos. E pensar que me atacou!

- Mesmo?

- É, usou o raio confusão.

- Funcionou em você?

- Bom, na verdade não. Usei um espelho para refleti-lo.

- Ele sempre volta atrás?

- Não, ele trava. Parece que tem um bloqueio comigo. E olhe que nem uso o meu super raio paralisador...

- Imagine se usasse... Bom, ele vai acabar enferrujado. Excesso de água e falta de uso.


"But Oz never did give nothing to the Tin Man that he didn't already have" (America, Tin man)

Janis in the summer

Descobri que a música não é dela, mas, ainda assim, para mim é a melhor intérprete. E lá vem o verão chegando...


9 de dez de 2010

20 e poucos anos: Desejo veronil

O mosquitinho rodava ao meu redor. Parecia interessado no que eu lia escrevia rabiscava desenhava desejava. Pousou na minha mão e deixei que subisse pelo meu braço. Gostava de senti-lo, apesar do peso insignificante. Não importava quem era: sabia e sentia que estava lá. Voou e pousou de novo. Dessa vez no meu ombro. Cócegas.

- Como eu queria que fosse outra pessoa a passear por aí... - murmurei sorrindo.

- Você disse alguma coisa? - perguntou Raul, sonolento, no sofá da sala.

- Nada,fica quieto e dorme aí.

Ouvindo Life goes on (The Sundays)

Rugby

Adoro o tom híbrido do cara de terno...

7 de dez de 2010

My blueberry nights

Assisti "My blueberry nights" (2007) e me encantei com o filme. Um filme sóbrio, sem arroubos melodramáticos. O título é perfeito. Sem grandes pretensões, acabou me dizendo muito. E muito do que eu já sabia, mas nem por isso menos prazeroso. E a atuação de Jude Law é tão boa que pela primeira vez na vida senti por ele uma quase simpatia. Quer dizer, senti pela personagem. A trilha sonora tem Cat Power,  Amos Lee, Norah Jones (também no papel da protagonista Lizzie) e Cassandra Wilson com uma bela versão de "Harvest Moon" de Neil Young.

A melhor citação do filme:

"It took me nearly a year to get here. It wasn't so hard to cross that street after all, it all depends on who's waiting for you on the other side". 

(vontade de pegar um ônibus para me encontrar em Memphis. Bom, não estou perdida, mas, se estivesse, talvez me encontrasse lá)

DEADlines

Sado-masoquismo é impor a si mesmo prazos impossíveis de serem cumpridos.

6 de dez de 2010

20 e poucos anos: Infância



No cinema, esperando o filme começar:

- Quando eu era pequena, queria ser russa - dispara Lô.

- Russa? Por quê? - Raul faz uma careta.

- Uma espiã russa. Eu era viciada em James Bond! Aprendi inglês com a trilha sonora dos filmes dele. E queria ser uma linda espiã russa da KGB. Super poderosa, com armas e tudo mais. E você? O que queria ser?

- Huuuum - ele finge puxar da memória o que estava na ponta de língua - Queria ser o Super-Homem!

- Jura? - Lô faz uma careta.

- É! - ele sorri empolgado.

- Que bobo! - ela sorri.

- Eu disse o Super-Homem e não o Clark Kent!

- Raul, eles são a mesma pessoa...

5 de dez de 2010

Au revoir



É doce e triste ao mesmo tempo dizer adeus a quem acha que você só está dizendo tchau.

4 de dez de 2010

Como uma deusa? Bah!

 

Ser a "garota dos sonhos" de alguém, é tão ruim quanto ser a "mulher dos sonhos": criam-se muitas expectativas e não curtem/ cuidam do que existe de real; colocam-se mulheres em pedestais para arrancá-las de lá a primeira contrariedade; não se aproximam para não estragar a magia.

Que se danem a magia, os pedestais e os fracos - que não estômago paras as pessoas de verdade.

3 de dez de 2010

Espirais ( I )

Para a Diva Ruiva

Louis tinha vindo direto do serviço. O dia estava quente e sua cabeça latejava, sanguínea. Havia uma semana que vinha pensando em falar com Clara. Na sexta não aguentava mais e decidiu ir vê-la. Esperou-a no saguão do prédio. Sabia que horas ela saía de casa - provavelmente atrasada.

- Você? - ela disse surpresa.

- Quero falar com você - exigiu ele.

- Eu não quero - retrucou ela.

- Precisamos conversar - expôs ele.

- Precisamos? - ironizou ela.

- Se você preferir, a gente discute tudo aqui mesmo - e cruzou os braços, insatisfeito.

Clara bufou, impaciente. A ameaça a perturbou. Olhou no relógio de pulso. Ia se atrasar.
- Vamos subir - disse secamente, virando-se e seguindo na direção das escadas.

Não queria tomar o elevador com ele. Louis seguiu atrás, as mãos trêmulas, o coração na garganta. Por pouco não esgasgava com o orgão vital.

- Diga lá - disse ela ao abrir a porta.

- Eu soube que você está vendo alguém - ele entrou.

- Então é por isso que está aqui? - perguntou Clara chocada.

- É, é sim.

- Quem te disse isso? - ela quis saber.

Ele não respondeu verbalmente. Seu rosto ficou vermelho e ela soube.

- Você ficou sabendo disso pela sua mulher? Tá vendo a ironia disso tudo! - e riu afetadamente.

- Não importa por quem eu soube, porque eu conheci o cara quando vim aqui há uma semana. Cara de pervertido! Nem imagino onde você conheceu o tipo. 

- Ah, nem vem! Sgt. Peppers é ótimo!

- Tá de olho em você.

- Ele é casado!

- E deve ter filhas da sua idade!

- Então o problema é a idade? É por isso que você não aprova?

- Não, não aprovo o que você está fazendo com a sua vida! O que ele quer é te levar pra cama. Fim de papo.

- Ah, então é assim que você vê as coisas?

Rapidamente ele se deu conta do que tinha dito.

- Não, você me entendeu.

- Não, não entendi. Quer dizer que é isso o que eu tenho a oferecer? Sexo? Não, você não sabe. Como poderia saber? Talvez só imaginar, talvez ainda imagine - disse Clara duramente - Você nem me conhece direito, mesmo depois de tanto tempo. Por que você faz tão pouco de mim?

- Estou cuidando dos seus interesses.

- Mas parece que são dos seus.

- Bom - ele hesitou - eu me preocupo com você.

- Ele é só um amigo.

- Amigo? Duvido muito! Talvez da sua parte, mas não da dele. Você não sabe dessas coisas de homem.

Ela riu.

- Dessas coisas de homem? Eu não sou umas das suas namoradinhas simplórias nhé nhé nhé que compram tudo o que você diz, senhor homem maduro vivido experimente blá blá blá. Sei me cuidar muito bem. E se digo que Sgt. Pepper é só meu amigo é porque ele é só meu amigo. E mesmo se não fosse... O que você tem com isso?

- Sabe o que mais me assusta, Clara? - e ele parecia realmente assustado - É como se já tivéssemos vivido tudo isso, porque não importa o quanto eu queira, não consigo te tirar da minha vida. Nem você consegue me tirar da sua. Eu não consigo entender - disse pesaroso.

- Não sei do que você está falando... - atalhou ela.

- Sabe sim - ele respirou fundo - Temos nossos altos e baixos, mas um sempre vai atrás do outro...

- Dessa vez foi você. Eu cansei - ela cortou.

- O que eu tô dizendo é que acho que tem alguma coisa de verdade entre a gente, pô! É como se a gente vivesse numa espiral. Não importa o que aconteça, acabamos sempre nos reencontrando e não digo que isso é coisa do acaso, estou dizendo que é por nossa simples vontade. Parece que ainda temos muito o que viver.

Ela olhou para o chão. Pensava no que ele lhe dizia. Ainda lhe dava algum crédito, por mais estranho que aquilo pudesse lhe parecer. E parecia. E era exatamente o fato de ela ouvi-lo que a fez perceber que ele estava certo.

- Você pode até ter razão. Mas e aí? O que se faz com isso tudo? Grande porcaria! Acho que não é pra ser, Louis. Aceite isso, como eu já aceitei há muito tempo - mentiu ela.

- Você não entende como foi difícil chegar até aqui? Engoli meu orgulho! - ele levantou o tom de voz.

- Não! Foi o seu orgulho que te trouxe aqui. Você não aceita que alguém possa ter o que você não teve. E não teve porque é um covarde - disse ela sem qualquer emoção.

- Covarde? Por quê? Por que eu não quis ficar com você?

- É, porque não quis se envolver de verdade comigo. Você tem um medo danado de se envolver, se apaixonar, amar alguém de verdade. Sexo é mais fácil. Mas há vazios que não podem ser preechidos por uma amante na cama.

- Sempre acaba assim: você me analisando e me culpando pelo fracasso da nossa relação!

- Que relação? De quem você está falando? Porque de nós não é.

(em anos de convivência ela tinha aprendido a machucá-lo, embora nunca o tivesse visto daquele jeito)

- Detesto quando faz isso! Fica me analisando!

- Você não é tão misterioso quanto pensa!

- E você não é tão transparente quanto acha!

- Obrigada - ela sorri, nervosa - Vou tomar como um elogio, vindo de alguém como você.

- Alguém como eu? O que eu me tornei ao seus olhos?

- Melhor deixar para lá - ela bufou cansada.

Por que tinha que ser tão bonita? Não, nem era tão bonita. Era uma beleza comum. Sem grandes atrativos à primeira vista. Mas se a visse muitas vezes, como ele tinha visto, descobria-se aquilo que existe além do que se vê. As idiossincracias que ele procurarava na esposa. Os vícios de linguagem. Os livros. As horríveis cortinas cor de abóbora. A cicatriz de catapora. Ele odiou sua vida por um segundo. Clara tombou na poltrona. Olhou para ele como que pedindo por piedade: "Saia" - diziam seus olhos quentes. Ela não entendia as coisas tanto quanto ele. Estava tão confusa quanto ele.

Everybody's Lost/  But they're pretending they're not/ Lost

Todavia, era o que ela tinha dito: E daí? O que fazer com o aquilo (que parecia que tinha vindo para causar mais coisas ruins do que boas)? Ela repensava tudo, pensava nele todos os dias. Cada vez menos, é verdade. Mas pensava. As flores de papel. O nó da gravata mal-feito. A barba rala. Os olhos penetrantes. As músicas. As histórias mirabolantes. A inacessibilidade...

- Estou apaixonado por você! - exclamou ele, segurando a mão de Clara, sentada na poltrona.

Ouvindo Sea of Love (Cat Power)

2 de dez de 2010

Dona Cici: Garfield

A velhinha magricela e delicada limpava suas armas na cozinha. Os animais empalhados na parede quase podiam sentir o cheiro dos biscoitos assando no forno. Um urso, um alce, uma zebra. Dividiam espaço com várias fotos antigas de Johnny Mathis. Ah Johnny Mathis! Suspirava por ele como nunca tinha suspirado por nenhum de seus cinco maridos - todos envenenados misteriosamente.

Dona Cici (era esse o nome da velhinha) sentiu alguma coisa se mexer na janela. Lá fora havia um canteiro com suas begônias, gerânios, hortências e crisântemos. Mas nada de amores-perfeitos nem não-te-esqueças-de-mim. Flores imprestáveis. Nem rosas. Eita florzinha mais clichê! Uma m****! Olha a boca Dona Cici! Ela ria. Não estou vendo nenhuma criança aqui... Alguma coisa tinha se mexido no meio da hortências. Não tinha nem virado o olhar: só pelo rabo de olho, do seu olho ainda vivaz, ela percebeu que tinha uma coisa grande no canteiro.

Rápida como um raio, embora ligeiramente manca, ela saiu para o quintal - não sem esquecer de pegar, ligeira, a sua arma de chumbinho. Ao sair, depara-se com Toninho, o detestado gato de sua vizinha. Toninho que já tinha comido seus amados canários agora vinha para comer mais! (Os pássaros são os únicos animais dignos de preservação). Dona Cici não teve dúvida: deu um berro de louca e atirou com a arma de chumbinho. Na verdade, não queria matar Toninho, só queria assustar o gato maldito que era a alegria da vizinha viúva.

Toninho saiu correndo, desengonçado, pesadão. Era alaranjado com listras escuras. Um persa laranja. E gordo, muito gordo. Parecia o Garfield. Dona Cici nem foi atrás. Só ficou olhando mesmo. Um gato patético. Um desperdício assustá-lo com chumbinho. Digno de desprezo - como tantos outros que já tinham passado pelo seu caminho.

Desceu as escadinhas e avistou o robusto animal encurralado: não conseguia pular o muro. Ela riu. Um riso suave e confortante. Ainda com a arma de chumbinho na mão minúscula, abriu o portão para que Toninho  saísse, desengonçado. Mas ele conseguiu, a duras penas, galgar o muro irregular e dizer adeus a Dona Cici. Ele ia voltar ainda outras vezes. Passarinhos! E, um dia, não conseguiria mais pular o muro.

Ouvindo Misty (Johnny Mathis)

Os amantes

Os amantes (1928) de René Magritte

1 de dez de 2010

Sobre pitonisas e previsibilidade

Tem coisas que a gente simplesmente sabe. O convite foi feito e eu já sabia no que aquilo ia dar. Simples assim. Algumas pessoas são tão previsíveis que não te animam a fazer nada com elas, pois você sabe que é só uma questão de tempo até que voltem atrás. Você já se acostumou. E nem tinha percebido.

Alguns dizem que eu espero demais dos outros. Na verdade, eu espero o mínimo (a tolerância pode ser uma erva-daninha). Mas, sinceramente, de alguns nem mais isso. Talvez numa escala de 1 a 5 eu espere -3 de uns amigos/conhecidos. E, incrivelmente, isso não é algo incômodo ou desagradável. As coisas simplesmente chegam a esse ponto, porque tem gente que oferece pouco/nada. O que não quer dizer que não tenham nada a oferecer.

Algumas pessoas são tão previsíveis que você pode até dar uma chance, mas sabe bem que as chances de acontecer tudo igual de novo são de 99,9%. Foi assim por esses dias. Tudo parecia bem, mas não tardou para que a situação em questão se revelasse... exatamente como  tinha sido desde sempre. Se fulano foi assim até agora, por que seria diferente? Algumas pessoas simplesmente não mudam.

Foi uma sensação diferente essa de saber o que ia acontecer e se adiantar em fazer outros planos. Uma coisa meio de pitonisa talvez? Não, simples observação de fatos, recordação do passado e conhecimento das pessoas com quem se convive. E, talvez (por que não?), um pouco de intuição.

Vulcanos são fãs de doces


"O avião! O avião!"