2 de dez de 2010

Dona Cici: Garfield

A velhinha magricela e delicada limpava suas armas na cozinha. Os animais empalhados na parede quase podiam sentir o cheiro dos biscoitos assando no forno. Um urso, um alce, uma zebra. Dividiam espaço com várias fotos antigas de Johnny Mathis. Ah Johnny Mathis! Suspirava por ele como nunca tinha suspirado por nenhum de seus cinco maridos - todos envenenados misteriosamente.

Dona Cici (era esse o nome da velhinha) sentiu alguma coisa se mexer na janela. Lá fora havia um canteiro com suas begônias, gerânios, hortências e crisântemos. Mas nada de amores-perfeitos nem não-te-esqueças-de-mim. Flores imprestáveis. Nem rosas. Eita florzinha mais clichê! Uma m****! Olha a boca Dona Cici! Ela ria. Não estou vendo nenhuma criança aqui... Alguma coisa tinha se mexido no meio da hortências. Não tinha nem virado o olhar: só pelo rabo de olho, do seu olho ainda vivaz, ela percebeu que tinha uma coisa grande no canteiro.

Rápida como um raio, embora ligeiramente manca, ela saiu para o quintal - não sem esquecer de pegar, ligeira, a sua arma de chumbinho. Ao sair, depara-se com Toninho, o detestado gato de sua vizinha. Toninho que já tinha comido seus amados canários agora vinha para comer mais! (Os pássaros são os únicos animais dignos de preservação). Dona Cici não teve dúvida: deu um berro de louca e atirou com a arma de chumbinho. Na verdade, não queria matar Toninho, só queria assustar o gato maldito que era a alegria da vizinha viúva.

Toninho saiu correndo, desengonçado, pesadão. Era alaranjado com listras escuras. Um persa laranja. E gordo, muito gordo. Parecia o Garfield. Dona Cici nem foi atrás. Só ficou olhando mesmo. Um gato patético. Um desperdício assustá-lo com chumbinho. Digno de desprezo - como tantos outros que já tinham passado pelo seu caminho.

Desceu as escadinhas e avistou o robusto animal encurralado: não conseguia pular o muro. Ela riu. Um riso suave e confortante. Ainda com a arma de chumbinho na mão minúscula, abriu o portão para que Toninho  saísse, desengonçado. Mas ele conseguiu, a duras penas, galgar o muro irregular e dizer adeus a Dona Cici. Ele ia voltar ainda outras vezes. Passarinhos! E, um dia, não conseguiria mais pular o muro.

Ouvindo Misty (Johnny Mathis)