3 de dez de 2010

Espirais ( I )

Para a Diva Ruiva

Louis tinha vindo direto do serviço. O dia estava quente e sua cabeça latejava, sanguínea. Havia uma semana que vinha pensando em falar com Clara. Na sexta não aguentava mais e decidiu ir vê-la. Esperou-a no saguão do prédio. Sabia que horas ela saía de casa - provavelmente atrasada.

- Você? - ela disse surpresa.

- Quero falar com você - exigiu ele.

- Eu não quero - retrucou ela.

- Precisamos conversar - expôs ele.

- Precisamos? - ironizou ela.

- Se você preferir, a gente discute tudo aqui mesmo - e cruzou os braços, insatisfeito.

Clara bufou, impaciente. A ameaça a perturbou. Olhou no relógio de pulso. Ia se atrasar.
- Vamos subir - disse secamente, virando-se e seguindo na direção das escadas.

Não queria tomar o elevador com ele. Louis seguiu atrás, as mãos trêmulas, o coração na garganta. Por pouco não esgasgava com o orgão vital.

- Diga lá - disse ela ao abrir a porta.

- Eu soube que você está vendo alguém - ele entrou.

- Então é por isso que está aqui? - perguntou Clara chocada.

- É, é sim.

- Quem te disse isso? - ela quis saber.

Ele não respondeu verbalmente. Seu rosto ficou vermelho e ela soube.

- Você ficou sabendo disso pela sua mulher? Tá vendo a ironia disso tudo! - e riu afetadamente.

- Não importa por quem eu soube, porque eu conheci o cara quando vim aqui há uma semana. Cara de pervertido! Nem imagino onde você conheceu o tipo. 

- Ah, nem vem! Sgt. Peppers é ótimo!

- Tá de olho em você.

- Ele é casado!

- E deve ter filhas da sua idade!

- Então o problema é a idade? É por isso que você não aprova?

- Não, não aprovo o que você está fazendo com a sua vida! O que ele quer é te levar pra cama. Fim de papo.

- Ah, então é assim que você vê as coisas?

Rapidamente ele se deu conta do que tinha dito.

- Não, você me entendeu.

- Não, não entendi. Quer dizer que é isso o que eu tenho a oferecer? Sexo? Não, você não sabe. Como poderia saber? Talvez só imaginar, talvez ainda imagine - disse Clara duramente - Você nem me conhece direito, mesmo depois de tanto tempo. Por que você faz tão pouco de mim?

- Estou cuidando dos seus interesses.

- Mas parece que são dos seus.

- Bom - ele hesitou - eu me preocupo com você.

- Ele é só um amigo.

- Amigo? Duvido muito! Talvez da sua parte, mas não da dele. Você não sabe dessas coisas de homem.

Ela riu.

- Dessas coisas de homem? Eu não sou umas das suas namoradinhas simplórias nhé nhé nhé que compram tudo o que você diz, senhor homem maduro vivido experimente blá blá blá. Sei me cuidar muito bem. E se digo que Sgt. Pepper é só meu amigo é porque ele é só meu amigo. E mesmo se não fosse... O que você tem com isso?

- Sabe o que mais me assusta, Clara? - e ele parecia realmente assustado - É como se já tivéssemos vivido tudo isso, porque não importa o quanto eu queira, não consigo te tirar da minha vida. Nem você consegue me tirar da sua. Eu não consigo entender - disse pesaroso.

- Não sei do que você está falando... - atalhou ela.

- Sabe sim - ele respirou fundo - Temos nossos altos e baixos, mas um sempre vai atrás do outro...

- Dessa vez foi você. Eu cansei - ela cortou.

- O que eu tô dizendo é que acho que tem alguma coisa de verdade entre a gente, pô! É como se a gente vivesse numa espiral. Não importa o que aconteça, acabamos sempre nos reencontrando e não digo que isso é coisa do acaso, estou dizendo que é por nossa simples vontade. Parece que ainda temos muito o que viver.

Ela olhou para o chão. Pensava no que ele lhe dizia. Ainda lhe dava algum crédito, por mais estranho que aquilo pudesse lhe parecer. E parecia. E era exatamente o fato de ela ouvi-lo que a fez perceber que ele estava certo.

- Você pode até ter razão. Mas e aí? O que se faz com isso tudo? Grande porcaria! Acho que não é pra ser, Louis. Aceite isso, como eu já aceitei há muito tempo - mentiu ela.

- Você não entende como foi difícil chegar até aqui? Engoli meu orgulho! - ele levantou o tom de voz.

- Não! Foi o seu orgulho que te trouxe aqui. Você não aceita que alguém possa ter o que você não teve. E não teve porque é um covarde - disse ela sem qualquer emoção.

- Covarde? Por quê? Por que eu não quis ficar com você?

- É, porque não quis se envolver de verdade comigo. Você tem um medo danado de se envolver, se apaixonar, amar alguém de verdade. Sexo é mais fácil. Mas há vazios que não podem ser preechidos por uma amante na cama.

- Sempre acaba assim: você me analisando e me culpando pelo fracasso da nossa relação!

- Que relação? De quem você está falando? Porque de nós não é.

(em anos de convivência ela tinha aprendido a machucá-lo, embora nunca o tivesse visto daquele jeito)

- Detesto quando faz isso! Fica me analisando!

- Você não é tão misterioso quanto pensa!

- E você não é tão transparente quanto acha!

- Obrigada - ela sorri, nervosa - Vou tomar como um elogio, vindo de alguém como você.

- Alguém como eu? O que eu me tornei ao seus olhos?

- Melhor deixar para lá - ela bufou cansada.

Por que tinha que ser tão bonita? Não, nem era tão bonita. Era uma beleza comum. Sem grandes atrativos à primeira vista. Mas se a visse muitas vezes, como ele tinha visto, descobria-se aquilo que existe além do que se vê. As idiossincracias que ele procurarava na esposa. Os vícios de linguagem. Os livros. As horríveis cortinas cor de abóbora. A cicatriz de catapora. Ele odiou sua vida por um segundo. Clara tombou na poltrona. Olhou para ele como que pedindo por piedade: "Saia" - diziam seus olhos quentes. Ela não entendia as coisas tanto quanto ele. Estava tão confusa quanto ele.

Everybody's Lost/  But they're pretending they're not/ Lost

Todavia, era o que ela tinha dito: E daí? O que fazer com o aquilo (que parecia que tinha vindo para causar mais coisas ruins do que boas)? Ela repensava tudo, pensava nele todos os dias. Cada vez menos, é verdade. Mas pensava. As flores de papel. O nó da gravata mal-feito. A barba rala. Os olhos penetrantes. As músicas. As histórias mirabolantes. A inacessibilidade...

- Estou apaixonado por você! - exclamou ele, segurando a mão de Clara, sentada na poltrona.

Ouvindo Sea of Love (Cat Power)