18 de dez de 2010

Espirais ( II )

Clara ficou atônita e tentou disfarçar:

- Nem me venha com essa...

- Você acha que eu estou brincando?

- Como você chegou a esse ponto?

- Que ponto? De vir aqui e te dizer isso?

- Não, de se sujeitar a isso. Além disso, você quer algo casual, eu sei. Isso não me interessa.

- Não é casual. Te quero de verdade.

Clara desviou seus olhos daqueles olhos ávidos e castanhos que tocavam seus lábios.

- Pior ainda, porque nós nunca daríamos certo. Eu sou seu porto seguro, mas você é o rei da incerteza. Não sabe ainda o que quer da vida.

- E você sabe? - disse ele com um despeito sufocado.

- Sim, eu sei - disse ela solenemente - Percebe em que situação isso me coloca? Você é o cara que quer tudo, é da sua natureza.

- E você é aquela que tem tudo sempre muito certo, sempre muito cheia de certezas... É isso? Olha, Clara, você não me conhece tão bem quanto pensa, eu não sou assim.

- Não foi o que o seu modus operandi me mostrou nesse tempo que a gente se conhece. Sei lá - ela se levantou - temos tanta afinidade, mas nossos valores... Nós mesmos... Somos diferentes demais, queremos coisas diferentes demais para ficarmos juntos.

- Não tinha uma desculpa melhor? -  resmungou impaciente.

- E você acha que eu sou de dar desculpas? Cansei de me abrir com você, falar do que sentia, do quanto te queria e você me manteve esses anos por perto. Por quê? Seu ego? Uma garantia de que nunca ficaria sozinho?

- Não, não é nada disso. Eu sempre gostei de você. Só que algumas coisas estavam complicadas para mim, minha vida estava complicada. Precisei de muito para chegar até aqui.

- E agora que você se acertou, vem atrás de mim? E acha que é só estalar os dedos e zap?

- Só agora pude colocar as coisas no papel, dar a cada coisa o seu devido valor. Tenho revisto a minha vida, meus planos, o que já fiz, o que perdi. E aí caiu a ficha.

- E eu caí na real. Não aposto mais nenhum ficha em você. E não acredito em amor.

- Eu não acredito.

- Em que? Em amor?

- Não, em você. Você está fragilizada, só isso. Se me desse mais uma chance eu poderia te provar o que estou dizendo...

- Engraçado...  - ela mergulhou a mão num pote de pipoca murcha, mas quem afundava era ele - Eu passei tanto tempo querendo tudo isso e agroa que você está aqui estou racionalizando.

- Não devia racionalizar, devia sentir. Sentir. Ou vai perder muito da sua vida.

- Ah devo racionalizar sim! Eu também ponho no papel o que eu sinto, eu penso sobre o que sinto. E nem sempre o que queremos é o melhor para nós. Tenho isso em mente desde que te conheci. E quem sabe da minha vida sou eu. Você não quis saber. Agora tanto faz.

- Por que você tem que ser tão dura comigo? - ele andava atrás dela pela sala.

Clara se virou para ele. Seus olhos perderam a dureza e voltaram a ser os mesmos olhos mornos de sempre. Louis quis abraçá-la, mas hesitou. Ficaram se encarando por alguns instantes. A grande novela que era a vida de ambos.

- Nós não temos perspectivas, Louis - disse ela tocando levemente o seu rosto - E para quê começar algo com prazo de validade? É desgastante, nós dois vamos sofrer. E não quero isso para nós.

- Eu só não queria te perder - ele se aproximou mais um pouco de Clara, arrumando a franja que escondia os olhos dela.

- Mas como se perde aquilo que nunca se teve? - disse ela, sorrindo com doçura.

Clara parecia desarmada, mas era só aparência, Louis sabia. Não que não fosse sincera nas coisas que dizia, mas sentiu que o momento de ambos tinha passado. Como o perfume de um desconhecido, sentido uma única vez numa estação de metrô qualquer. Há o gosto do chiclete na boca e o toque frio do corrimão da escada rolante. A voz das pessoas mudas. Silêncio. Há idéias e sentimentos e pensamentos e experiências. É uma combinação única e efêmera que nunca mais poderá ser encontrada. E aquilo tudo tinha passado para ambos. 

Clara queria dizer adeus a história de ambos. Aproximou-se ainda mais de Louis, não quis mais ouvi-lo, entendê-lo ou tê-lo por perto, rondando-a. De repente, ele a abraçou. Suavemente. E foi com suavidade que ela o beijou. Parecia a coisa mais racional a se fazer.

Era o primeiro beijo de Louis e Clara. Um beijo de adeus.

- Feliz Ano Novo.

Embora fosse cedo, já ouviam os primeiros rojões lá fora.  Alguns fogos de artifício já rasgavam o céu , alegres e ébrios. Era trinta e um de dezembro. E dia dois de janeiro, o apartamento de Clara já estava vazio, ansioso para ser alugado.

Ouvindo Stay (U2)

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