1 de set de 2011

Clara e o Romântico

Quando ele conheceu Clara, ela estava entubada, presa à uma cama de hospital: foi amor à primeira vista. Magra, pálida, doente. E frágil, extremamente frágil - o que fazia dela uma criatura extremamente encantadora. Para ele.

Dia após dia, ele vinha visitá-la e contemplar aquela moça bela cuja vida ia minguando, como a de uma tuberculosa em seus últimos dias. Virgem intocável. Ele vinha ler poemas românticos todos os dias para ela, que permanecia a maior parte do tempo inconsciente.

Entretanto, aos poucos Clara foi se recuperando, o rosto ganhando cor, as mãos, movimento, os olhos, toque. E quanto mais ela melhorava, mais ele se sentia arrasado, ao constatar que sua Musa Romântica deixava de ser Romântica.

Os amigos de Clara, que vinham visitá-la com frequencia, estranhavam o rapaz que parecia mais e mais triste conforme ela vinha melhorando. Clara percebeu isso também quando acordou e se assustou com aquela figura introspectiva que parecia rondar as camas da enfermaria sem destino acertado - teria ele qualquer destino acertado?

Sua força, sua cor, suas mãos não tardaram a voltar. E, tão logo isso aconteceu, ela saiu Realista do hospital na garupa da moto de Lô, pensando que não nascera para musa de Romântico - ou para qualquer outro tipo de Musa.

Ele, por sua vez, pôde sofrer, gostosamente, o seu amor não-correspondido tão Romântico.



Um comentário:

Anônimo disse...

corra dos romanticos necrófilos, cruzes.

clelia, tia