8 de jul de 2013

Metamorfose ronronante

Eram pintas novas surgindo todos os dias. Ela só demorou para se dar conta. Na pálpebra esquerda, na orelha direita, no lábio superior. Ao redor do umbigo e do seio direito. Nas costas, ombros, mãos, joelhos. Nuca.

Pintas, não sardas.

Era aquilo sendo fomentado todo dia. Ela só se deu conta quando um dia acordou e, esfomeada, devorou Marquinhos, lado direito da cama. Tinha virado bicho. Garras e presas e uma pele toda pintada, que parecia ter sempre sido sua, só sua.

Nenhum desconforto, nenhum estranhamento: era como se voltasse a ser quem era de verdade. Onde aquele seu eu tão único tinha ficado por todos aqueles anos?