31 de dez de 2009

Conselhos Sentimentais de Tia Ninota [5]

Ela estava sentada numa poltrona, ao lado do abajur que deixava a sala dourada e metade de seu rosto imerso na penumbra. Estava pronta para a festa em seu vestido azul. O cabelo arrumado. A pintinha na nuca.
- Você volta mais ou menos que horas? - perguntou Tia Ninota.
- Eu não vou. - ela respondeu séria.
- Por que não? - quis saber.
Ela hesitou.
- Enquanto eu me arrumava, pensei no que a senhora falou. Acho que em parte tem razão, mas não sobre a parte do masoquismo...
- Eu sei que às vezes sou muito dura com vocês, mas já te vi sofrer tanto minha filha...
- Eu sei... É que ele... ele já fez sua escolha, sabe? Quanto menos contato eu mantiver com ele, mais rápido  e mais fácil eu deixo toda essa história para trás.
- Mais rápido e mais fácil?
- Bom, nós duas sabemos que isso é mentira, mas pelo menos vai machucar menos. Acho.

Distâncias

A: - Eu poderia ir até o inferno por ela...
B: - Isso soa tão dramático.
A: - Eu sei, eu sei.
Silêncio.
B: - Mas ainda que você fosse, de que adiantaria?
A: - Por que você diz isso?
B: - Vale a pena ir até o inferno por alguém que não atravessaria a rua por você?
A: - Bom, colocando as coisas assim...

30 de dez de 2009

Lili e as cartas que ela mandou

Lili foi arrumar seu armário. Coisas de fim de ano. Esbarrou com algumas cartas que havia escrito e mandado. Então como estariam lá? Lili escrevia rascunhos de cartas, depois passava-as a limpo. As cartas eram enviadas, mas vez ou outra esquecia os rascunhos numa gaveta ou caixa qualquer.

Naquela tarde, encontrou as cartas que tinha escrito para ele. Foi com carinho e surpresa que foi lendo as palavras - nem sempre açucaradas. Percebeu como o tinha amado e como escrevia bem. Pensou que talvez nunca mais se sentisse daquele modo em relação à alguém - sinceramente esperava estar errada... Porque, no final das contas, nunca se sente a mesma coisa.

Todavia, se, por um lado, o amor era passado, por outro, o domínio sobre as palavras continuava. E Lili imperava soberana, às vezes sem se dar conta de seu poder. Certa vez, depois de ler um poema seu, no sarau organizado por um amigo, foi procurada por três rapazes, completamente encantados por suas palavras.

Lili não sabia tocar flauta, mas sabia tecer com palavras como ninguém...

29 de dez de 2009

Inexperientes


É a sua primeira ida ao hospital sob aquelas condições. Desmaios, tontura, um enjôo insuportável. Tudo freqüente. A médica tira sua pressão: 10 por 6. A menina não tem idéia se isso é bom ou mau.  Nunca ficava  doente. Nunca ia ao hospital. A médica e o pai a olham assustados (aquela coisa bem de adulto):

- Nossa! Sua pressão está bem baixa mesmo!

- Sempro ando com um tiquinho de sal na bolsa - mente a menina.

A médica faz uma série de perguntas à menina. Alimentação saudável. Atividade física freqüente. Mas ela não descansa. Sem fins de semana. Sem momentos de lazer. Era gigantesco o número de filmes que tinham saído de cartaz sem que ela os tivesse assistido.

E o diagnóstico da médica foi o mesmo de seus pais: stress. A menina faz uma careta: é mais fácil tomar remédio do que mudar hábitos. Como ela odiava mudar! Como ela não gostava quando seus pais acertavam! A médica pede que ela se dirija a uma saleta: vai tomar soro na veia.

Está muito frio e a menina ganha uma coberta. É a primeira vez que se deita numa cama de hospital. Bom, pelo menos o motivo é bobo...  Menos mal assim, né? Ela está muito cansada, acha que vai cair no sono fácil fácil. Bocejo. Chega um enfermeiro com o material para o soro. Ele gasta mais ou menos uns cinco minutos para achar a veia da menina. E ela não sabe se isso é normal ou não. O enfermeiro finalmente encontra uma veia tímida e a menina começa a receber o tal do soro.

A menina cai no sono diversas vezes e acorda diversas vezes também. E nesses intervalos, o enfermeiro vai olhar como estão as coisas. Sempre muito sério e concentrado e seguro. Até que ele percebe que há alguma coisa errada: o braço da menina está visivelmente inchado.

- Você não está sentindo nada diferente?! - pergunta ele, visivelmente preocupado.
- Ah! O braço está bem dolorido e um pouco inchado, mas não é assim mesmo?
- Vou chamar meu superior - diz ele saindo chispando da sala.

Inconvenientes [1]

Os dois conversam no fim de tarde. Enquanto falavam sobre a vida profissional, coisa muito natural logo que trabalhavam juntos, tudo bem, mas quando começavam os assuntos pessoais as coisas ficavam estranhas:
- Que parte do seu corpo você mais gosta? - ele pergunta.
- Hein? - ela fica sem graça por ter sido pega despreparada - Ah... Gosto do meu rosto - disse vagamente, mas pensou nas pernas, mas não ia falar pernas, vai que ele tinha reparado ou que resolve reparar agora.
- É, você tem um rosto muito bonito mesmo... - os olhos dele, nos olhos dela, assumem um ar sonhador.
- Obrigada - diz ela polida e secamente, para não dar margens, sabe como é, né? - Acho que vai chover hoje...
- Aliás, você tem uma boca que eu nunca vi igual...
Feliz a hora em que seu ônibus surge na avenida e ela despede-se apressadamente, antes mesmo que precisasse mudar de assunto de um modo mais radical, a fim de evitar a situação extremamente embaraçosa: ele era casado.

Poesia Urbana [1]

Ontem, passeando pelo Largo Treze, me deparei com o cartaz ao lado.
Mais alguém viu o que eu vi?

28 de dez de 2009

É tudo Europa mesmo!






Não confunda gaulês com galês.

Quinzinho aprende sua lição

Pois ele tinha um objetivo traçado - porcamente. Um rascunho? Possivelmente daqueles que não sairia do papel. Quinzinho caminhava rumo ao seu objetivo, ignorando ao máximo os balões que lhe davam e que lhe faziam subir e sentir-se nas alturas. Iam enchendo-lhe os bolsos da camisa e das calças de expectativas. Suas meias e seus ouvidos. Já nem comia mais, pois se alimentava das expectativas que lhe distribuíam. E sonhava e fantasiava sobre tudo o que aconteceria quando atingisse seu objetivo.

Mas choveu e viu suas vontades serem dissolvidas pela água que caía torrencialmente. Deu-se conta de como andava aéreo e de como aquilo tudo era uma bobagem. Transbordava expectativas que se manifestavam em ramos e flores que brotavam de suas veias e artérias.

Antes que a folhagem que crescia ligeira o sufocasse ou que as flores dessem frutos agridoces, podou-se com a tesoura de costura que tinha herdado de sua Tia Ninota. As flores caíam e murchavam tristes e Quinzinho murchou com elas. E ao entrar no chuveiro, sentiu-se estranhamente vestido. Olhou-se com cuidado, pêlo e pele, e embora estivesse completamente nu, sentia o peso da couraça com a qual vinha se protegendo há tanto tempo.

Abandonou seu objetivo, pois percebeu como seu foco recaía sobre as pessoas e coisas erradas. Lavou-se e foram pelo ralo todas as expectativas restantes. Não queria ser o que já tinha sido: Salomé, João Batista e Herodes simultâneamente nem Édipo - criminoso, investigador e vítima.

27 de dez de 2009

Conselhos Sentimentais de Tia Ninota [4]

- Mas você vai mesmo? - perguntou Tia Ninota toda preocupada.
- Vou - diz secamente, sem tirar os olhos do prato de comida.
- Mas por que minha filha? - Tia Ninota se mostra inconformada.
- Ué, fui convidada... - o garfo no bife.
- Mas para o casamento dele! - Tia Ninota deixa cair uma colher.
- É, e daí Tia? - revira o arroz com feijão.
- É tão estranho! Você, apaixonada por ele, vai vê-lo se casar!!! - Tia Ninota realmente não entende.
- Não vou fazer nada. Não vai acontecer nada, não se procupe... - observa o terceiro dente do garfo, é torto.
- Mas é que tudo isso me parece tão masoquista! - grita Tia Ninota.
- Pois eu não acho não - ela sai da mesa, levando o meio bife e um resto de arroz e feijão.

Na sala de aula [1]

A estagiária entra na sala de aula e procura um lugar para se instalar. Depois de arrumar uma carteira, é interpelada por dois alunos.
Luís - A senhora é professora?
Estagiária - Quase.
Paulo - Por que você anota as coisas?
Estagiária - Pra fazer um tipo de diário da sala.
Luís - Ah!
Paulo - Você anota se eu fizer alguma coisa errada?
Estagiária - É (?)
Paulo - O que eu tô fazendo? [ele encara a estagiária enquanto segura seu caderno]
Estagiária - Até agora nada de errado (!)

25 de dez de 2009

Vermes não são insetos

As duas estão plantando mudinhas de grama-amendoim no canteiro de casa. A mexe com a terra com grande desenvoltura, enquanto que B se mostra um bocado desajeitada: tem medo de matar as minhocas que se agitam ligeiras e gorduchas e não sabe, a princípio, identificar a raiz da tal grama-amendoim (uma vergonha).
A: - Mas você sabe que elas não morrem se você cortar elas ao meio: de uma, elas viram duas...
B: - Eu sei, mas mesmo assim.
Continuam cavando e plantando e escolhendo as melhores mudinhas até que A aparece com uma minhoca gorda e gigantesca na palma de sua mão de criança:
A: - Olha que linda!
Aproxima-se de B, oferencendo-lhe a minhoca.
B: - Não, obrigada.
A: - Nossa! Mas você é tão bem resolvida...
B: - Quanto a insetos, sem problemas - as vespinhas pousavam em seus cabelos -, mas quanto a minhocas não posso dizer o mesmo...

Da humanidade

Escrevi um texto, embalada pela raiva. Muito ruim isso, digo, as palavras fluem que é uma beleza, mas tomada pela raiva pela tristeza dia 25/12 - ainda mais em relação a alguém de quem gosto, apesar de uma série de coisas? Não me importa que esse dia seja apenas simbólico, mas se eu não me esforçar por ser uma pessoa melhor hoje, como posso querer ser alguém melhor nos outros 364 dias?

Escrevi e salvei como rascunho. Estou chateada, discordo de tudo o que foi dito, admiti meu erro e me desculpei. Mas o outro está tomado pelo sentimento de vitimação (entre outras coisas), então, não há nada que eu possa fazer. Saí como vilã da história e acho que não me cai bem esse papel - não na atual condição. Ser uma caricatura tem um gosto estranho...

Escrevi e apaguei o texto. Depois de e-mails e coisas mal-explicadas e tensão e todas essas coisas doces, bem próprias dessa época do ano, decidi que isso morre aqui. E morre em mim. Fiz algumas escolhas erradas esse ano e aprendi o bastante para saber que tem coisas que é melhor não dizer. Então morre aqui.

E o fato de eu ter abaixado a pedra, quando estava prestes a lançá-la, bom, se, por um lado, é uma vergonha ter querido lançá-la (também um lembrete de que sou humana e preciso me educar para uma série de coisas), por outro, ter refletido e abaixado a tal pedra me fez bem, pois não quero machucar (mais ainda) esse outro nem duvidar de quem sou e dos meus valores e princípios.

Acho que aprendi algo em 2009, o que me motiva para o que vier em 2010.

23 de dez de 2009

Comunicação [2]


Ela pede que eu a balance na rede. Digo que ela consegue fazer isso sozinha - ela pega impulso e consegue. Digo isso por mim e por ela: para que não me façam de gato e sapato e para que ela não se torna muito dependente. Ao seu lado está sentado o seu novo boneco do Woody, com os dois chapéus (o de cowboy e o de bombeiro, na verdade, acho que um capacete), um sobre o outro.
Alguém espirra na cozinha.
- Saúde! - grito em seguida.
- O quê? - ela pergunta.
- A gente grita "saúde" quando alguém espirra - explico.
Alguém espirra novamente:
- SaWoody! - ela exclama animada.
- O quê? - pergunto.
A pessoa espirra novamente:
- SaWoody! - ela diz.
E outro espirro:
- Woody! - ela grita feliz.

21 de dez de 2009

Comunicação [1]


Estamos nós duas sentadas no quintal. Faz calor e o dia está ensolarado. Dezenove anos nos separam e nesse momento tentamos nos comunicar.
- Quero kwijebvrhbtjnhjtwoody - choraminga ela.
- Desculpa, não entendi. O que você disse?
- Quero kwijebvrhbtjnhjtwoody! - ela insiste, manhosa.
Sem entender nada, tento outra abordagem:
- É de comer?
- Não.
- É de brincar?
- Não.
- 'Cê quer ir ao banheiro?
- Não.
- O que a gente faz com isso?
Ela não responde. Embora a brise brinque com seus cachinhos, ela está azedinha. Aproxima-se e faz bico. Ameaça chorar.
- O que você quer, Gi?
- Quero kwijebvrhbtjnhjtwoody! - ela diz, tristonha.
E como se o Babel Fish entrasse pelo meu ouvido esquerdo:
- Ah! Você quer assistir o Woody [Toy Story]?
- É - diz ela sem qualquer satisfação ou alívio, só a insistência no seu desejo infantil.
- Então vamos lá! - digo animada.
Não preciso dizer que ela não assiste nem a cinco minutos do filme...

A grama do vizinho é mais verde

Diante de um MP3 pirata quebrado:
- Seu MP3 é muito melhor do que o meu!
- É só porque você não conhece os recursos que ele não tem e que o seu tem!

Retrospectiva Sentimental 2009 [6]

As duas amigas falam do ex-namorado de uma delas:
A: - Aí ele disse isso! - concluiu ela.
B: - Desculpa, mas ele é um meio imaturo, não? - disse a amiga, cheia de dedos.
A: - Completamente, eu não sei onde ele quer chegar... - diz em tom cansado.
Aí o ex-namorado chega:
C: - Oi!
A: - Oi.
B não responde. Olha secamente para ele, tendo absorvido as últimas palavras da amiga e presenciado alguns dos maiores surrealismos no campo sentimental. E deixa escapar um "oi".
C: - Estava de passagem. Depois queria falar com você, ok?
A:  - Ok - responde ela.
C sai, ficam A e B.
A: - Nossa! Como você foi fria!
B: - Eu? Mas eu não fiz nada! - exclama a amiga em choque.
A: - É que você é sempre tão carinhosa e efusiva...
B fica sem graça.
B: - Desculpa. Não foi por mal, eu não sabia que ele ia aparecer...
A: - Nem eu.
B: - Sou meio transparente, você sabe. Desculpa mesmo. Essas coisas eu tenho dificuldade de engolir, ainda mais quando tá todo mundo nesse mesmo barco. Qualquer coisa, diz pra ele que eram meus problemas pessoais - explica a amiga - o que não deixaria de ser verdade...
A: - Tá bom, mas a sua mudança de tom foi patente.
B: - É, eu sei. Vou dar um jeito nisso.

E ponto final

As três amigas na camionete, procurando vaga no estacionamento:
A: -  E aí?
B: - Aí eu disse que ia ser daquele jeito e ponto. Tem gente que não se decide. Eu mando mesmo. Eu decido mesmo. O cara 'tá me enrolando há 4 anos. Como que ele não sabe o que sente? Por que isso é sempre tão difícil?
C: - Isso é mau mesmo. O que você fez?
B: - Decidi por nós - ela riu - Se o cara não sabe, eu sei e eu decido. Mais uma vez bancando o "homem" da relação...
C: - 'Cê tá se revelando - riu a amiga.
A: - Bem que você tem cara de autoritária!
B: - Você acha mesmo? - em sua voz havia um misto de alegria, tristeza e surpresa.
A: - Não, eu só estava brincando mesmo - sorri.
B: - Ah sim - murchou ela, pensando na Rainha de Copas.

20 de dez de 2009

Peixes em áries

Papos de fim de ano, menino e menina conversam:
- Tenho um novo passatempo: calcular o ascendente dos meus amigos! - diz ele empolgado.
- Mesmo? E você sabe fazer isso? - pergunta ela surpresa e continua - Isso não é a sua cara!
- Eu não sei, mas o google sabe. Que horas você nasceu? - pergunta ele interessado.
- Às 6:43 da manhã - responde ela na lata.
- Nossa! Que precisão! - surpreende-se ele.
- Ué! Não era isso o que você queria? - surpreende-se ela.

Entrevista de emprego

Durante a última fase de uma entrevista de emprego, o candidato, jovem de 20 e poucos anos, está frente a frente com o contratador, dono da micro-empresa. Depois de várias perguntas:
- E então, me diga meu jovem, o que você faria se ganhasse muito dinheiro de uma vez? O que você compraria?
O jovem gastou uns bons minutos pensando, sem encontrar uma resposta. Por fim, respondeu com algum entusiasmo:
- Livros. Eu compraria milhares de livros.
- Você tem carro? - perguntou o empregador.
- Não - respondeu o jovem.
- E não gostaria de ter um carro? - perguntou o empregador surpreso.
- Ah, um dia...
O empregador sorriu.
- Você gosta de ler?
- Sim - respondeu o entrevistado.
O empregador olhou para o candidato com aquele olhar do velho que olha para a ingenuidade doída dos jovens, talvez se lembrando de sua própria juventude. Era o brilho nos olhos, aquele brilho de quem mal chegou. Aquelas ambições de quem não sabe muito da vida, mas que se sente impelido a abraçá-la com paixão.
O contratador olhou com ternura para o entrevistado:
- Gostei de você.

18 de dez de 2009

You talk too much

Conversa de alguns meses atrás*:
Menino 1: - Tudo bem com você?
Menina: - Sim. E você?
Menino 1: - Também. Alguma novidade?
Menina: - Não e você?
Menino 1: - Também não.
[Depois de um silêncio constrangedor]
Menino 1: - Você está monossilábica: isso não é um bom sinal!
Menina: - Nossa, você até que me conhece bem...

Conversa de poucos minutos atrás*:
Menino 2: E aí? Tudo bem com você?
Menina: - Tudo sim e você?
Menino 2: - Tudo bem também! E o que você me conta?
Menina: - Nada e você?
Menino 2: - Nada também...
[Depois de um silêncio constrangedor]
Menino 2: - Você está lacônica, isso não é boa coisa...
Menina: - Você não é o primeiro Thiago** a me dizer isso...

* Curioso foi notar que os meninos eram diferentes, mas a conversa e o nome deles era o mesmo.
** Nome fictício.

17 de dez de 2009

Toc toc toc

Enquanto ela escrevia o cartão de natal foi abraçada por uma gostosa sensação de paz interior. Ainda assim, questionou-se: "Por que tenho essa necessidade de ir embora?" Não soube responder, mas não se importou. Tinha-se anestesiado de quaisquer sentimentos mais exaltados. Sua intensidade andava valendo por todos eles.

A letra caprichada, redondinha. O cartão de natal que, se desdobrado, metamorfoseava em carta de adeus. Tão difícil aquilo de dizer adeus. Tinha aprendido só por ele, pois se dependesse de si mesma, não seria possível. Eram os amigos brigados, antigos amantes, mágoas passadas... Todos eles ela abraçava, porque amava as pessoas e amava fazer os outros felizes. Não importava o que tivesse acontecido ou o que estivesse por vir: o seu afago era certo. Seu apoio garantido. Sua presença inquestionável.

Terminou a carta e sorriu. Mais um rito de passagem. Mais um caminho que chegava ao fim para dar origem a outro: ela bateu na porta na qual se lia "2010" e entrou.

Retrospectiva Sentimental 2009 [5]


Ele entrou atrasado na sala e chegou no meio da conversa. O assunto era namoro. Não namoro de modo abstrato: falavam do namoro de uma das cinco meninas do grupo. Ele era o único garoto. E o caçula (coisa que o desagradava em demasia). Apesar disso, não se sentia mal. Logo que avistou a carteira vaga  ao lado dela - como de costume - , apressou-se e sentou-se silenciosamente, enquanto a conversa seguia.

Ela parecia menos triste do que de costume. Na verdade, seu humor oscilava tremendamente: ora ria descontroladamente ora se calava e seu rosto se enchia de uma tristeza  azul e nortuma. Nestes momentos, ele percebia um grito de socorro ecoando de seus olhos. Ela nunca havia verbalizado nada. E ele não sabia como se aproximar. Mas ela estava mais leve naquele dia. Seus olhos eram de verão.

- Já estamos juntos há alguns anos e acho que qualquer relacionamento requer cultivo: ele não nasce pronto e tem gente que não entende isso de jeito nenhum!

Então ele entendeu: elas falavam do namoro dela. Ei! Ela tinha namorado? Desde quando? Nunca tinha dito nada! Como podia aquilo? Ele a encarou por alguns minutos, sem acreditar nas coisas que ela ia falando sobre vida a dois. Sentiu-se estranho: uma mistura de sentimentos contraditórios pulsava serenamente dentro dele. E ela sentiu-se estranha também, ao perceber o olhar fixo dele.

E ele então viu a diferença de idade, de mundo, de ponto de vista. Sentiu-se um bobo por pensar que. E ,de repente, apesar de estar ao lado dela, ficaram tão distantes... (Pela primeira vez, reparou a aliança na mão dela).

Conversaram mais tarde, quando estavam por partir. Ela gostava muito dele, já lhe tinha dito. Achava-o muito maduro para sua idade e tudo mais. Despediram-se sem saber que nunca mais se veriam. Ela lhe escreveu algumas vez, mas ele nunca mais respondeu. Alguma coisa tinha acontecido e outra coisa estava acontecendo.

16 de dez de 2009

Pokemon Stadium, eu [não] escolho você

A turma assistia um documentário italiano sobre pintura e perspectiva:
A: - O pior videogame do mundo é Pokemon Stadium.
B: - Nossa, é mesmo!
A: - Não acontece nada!
B: - É, eles ficam parados, não tem luta, briga! Nada! E os ataques falham por motivos bestas...
A: - É verdade... Um tédio! Se bobear você dorme...
C - Ei! Pokemon Stadium é mó legal.
B: - É nada!
C: - Vocês é que não entenderam nada: Pokemon Stadium é um jogo de estratégia!
A e B se entreolham.

Máscara [1]

Ele a surpreende na saída do serviço:
- Oi! Tudo bom? - diz nervoso.
- Nossa! Você por aqui? Que saudades! - ela sorri e o abraça, sem muito sucesso. Era sempre aquela resistência... ou não.
- Queria falar com você... - estrala os dedos.
- Está tudo bem? 'Cê tá mais agitado do que o normal - ela pára de andar e o encara, preocupada.
- Está sim, está sim. É só que... eu não sei... eu precisava falar com alguém...
- O que foi?
- Eu não sei o que fazer... Eu tô namorando, você sabe, né?
- Não, não sabia - conteve ela o seu espanto aterrador.
- Bom, eu tô. Passei o feriado com minha namorada em Santos. Foi tudo perfeito...
Ela continuava sem entender nada.
- E? - esperava ela.
- Exceto pelo fato de que eu passei esse bendito feriado pensando numa outra menina - disse angustiado.
- Ah! - ela deixou escapar o seu espanto - isso é complicado...
- É... Não sei o que fazer... - o olhar dele era fixo e firme.
Ela hesitou:
- Você está apaixonado?
- Não sei, não sei o que sinto por ela - demorou ele a responder.
- Hum. Você já pensou em falar com ela? Ela sabe de alguma coisa? - perguntou ela.
- Não sei, acho que não.
- Porque se você gostar, corre atrás ué! - disse ela com entusiasmo.
- Já não sei de nada... - disse ele muito triste e olhando no relógio e mudando de tom - Agora tenho que ir ou perco o fretado.
- Certo. Espero que consiga definir melhor seus sentimentos.
Depois de ele ter se despido de sua couraça e de sua máscara e ter lhe mostrado os mais sinceros e secretos sentimentos, ela pensou que estariam mais próximos no encontro seguinte.
Ela estava com saudades e marcou um almoço. Pediram os pratos e as bebidas. Ao ser perguntado sobre suas resoluções, qual não foi a surpresa dela ao ouvir a resposta:
- Não quero falar sobre esse assunto.

Silence is golden

Na praia, o casal na virada do ano: 
Ela: - Tô feliz sabe, amor? Percebi que consegui atingir várias das minhas metas para 2009. Parei de fumar, perdi 5 kg, aprendi a dirigir...
Ele sorri.
Ela: - Mas do que mais me orgulho é do fato de eu ter aprendido a falar menos e ouvir mais!
Ele faz uma careta e na sua sincera ingenuidade genuína:
- Mas môr, você continua falando bastante...
Ela [mãos na cintura]: - Ah é? Então agora que você vai ouvir!

Conversa de botas batidas

Depois de fazerem as pazes, mais uma vez, eles colocam a conversa em dia:
Ela: - Juro que não aguento mais ninguém chorando no meu ombro. É uma geração de apocalípticos!
Ele: - Gente pessimista? Você precisa sair mais! Bom, esse é um tópico perigoso, melhor não entrar ele...
Ambos lembraram das dificuldades de delimitação de espaço pessoal por alguns instantes.
Ela: - Não, sou obrigada a concorda com você...
Ambos sorriem - ele, muito satisfeito, ela, por maiores esclarecimentos.

15 de dez de 2009

Medical Boston Group

Porque não há nada melhor do que almoçar com seus filhos pequenos e, diante da propaganda da empresa acima, [não] ser surpreendido pela pergunta:

- Pai, o que é ejaculação precoce?

Não adianta poder pagar o horário, se o público espectador não é o público alvo.

14 de dez de 2009

Pseudo-globalização

O vinagre "Toscano" é feito no Brasil e tem o rótulo em japonês, logo que é exportado para o Japão.

13 de dez de 2009

Retrospectiva Sentimental 2009 [4]

Num sábado qualquer, as duas conversam:
A: - Ele pode ter tido um caso com ela. Isso explicaria muita coisa...
B: - Não quero nem pensar nisso. Não tem motivo. Já foi. Mesmo porque, ele não seria capaz disso.
A: - Ué, ele é um ser humano e você não estava por perto. Poderia acontecer. Você tem que pensar nisso para não cometer os mesmos erros. Os dois lá, sozinhos. As pessoas são colocadas a prova, sabe? Pode ter sido um momento de fraqueza.
B: - Que terminasse tudo então antes de fazer uma coisa dessas!
A: - Mas essas coisas a gente não escolhe, elas acontecem. As situações podem nos envolver de tal modo que não nos damos conta do que está acontecendo. O mesmo poderia ter acontecido com você...
B pensava que tinha sido colocada a prova diversas vezes e, ainda assim, se mantivera firme.
A: - Por que você está chorando?
B não responde.
A: - Eu nunca quis te magoar. Não pensei que você estivesse tão frágil.
B resolveu cinco anos em cinco meses e não lhe agrada ouvir a palavra "frágill".
B: - Não quero falar sobre isso.
A: - Fala comigo - insiste.
B: - Eu acho isso sem propósito. Pra que falar sobre isso? Sobre uma coisa que poderia ter sido e nem sei se foi? Acabou!
A: - Você tem que pensar nessas coisas sim. Ou nunca mais vamos poder falar sobre ele? O sofrimento vai fazer você crescer, amadurecer!
B já tinha amadurecido bastante, caso ninguém tivesse notado. Sua cabeça martelava e nos olhos cheios d'água as palavras do livro oscilavam borradas. A conversa seguiu adiante, mas B estava inconsolável.
A: - Você não pode se sentir assim!

B detestava como o fato de sermos humanos justificava todas as atitudes do mundo.

12 de dez de 2009

Tempestade


 Os dois estavam parados no ponto de ônibus. Clara preenchia os silêncios com seus próprios pensamentos. Já não despejava litros e litros de palavras e risos e gracejos. Séria, olhava para o céu:

- Vai chover – comentou vazia, enquanto sua cabeça borbulhava serenamente.

- É, vai mesmo – concordou ele, olhando para ela, enquanto ela olhava para frente.

Uma sensação estranha tomara conta dela. Um leve matiz de tristeza, sinal de quem está prestes a dizer adeus. Ele sempre muito risonho e ela naquele cansaço de quem passou pelo moedor de carne. Diluíam-se no vento que ventava intensamente.

Semi-satisfeita por já não ser lida tão facilmente – embora sua alegria andasse transbordando pelos poros –, avisou-lhe que ia comprar um sorvete e atravessou a rua. Clara era o eterno e terno quase. Pensou-lhe em dizer-lhe algo que ficou no ar.

Ele esperou e olhou-a nos olhos. Uns olhos escuros, mas não negros. Mas tão escuros eram que não se distinguiam íris e pupila. Quis olhar mais de perto, mas já estava perto. Perto demais? O suficiente para guardar o perfume e tocar-lhe de leve o braço. Quando deu por si, ela já estava voltando com o sorvete na mão.

- De que que é? – perguntou ele.

- Limão – disse ela oferecendo o sorvete.

Ele sorriu e agradeceu. Eles eram todo silêncio.

- Em que você ‘tá pensando? – perguntou ele.

Por dentro, Clara riu-se do seu halo de mistério não-fingido. Um riso que ele ouviu. Teria ele notado um leve tom de desdém naquele riso? Ele desdenhava o que sentia e secretamente esperava. Ela já não esperava absolutamente nada. Podava com destreza quaisquer botões rebeldes que pudessem surgir.

- Que ônibus você está esperando mesmo? – perguntou ela.

- Um que me leve para o centro – explicou ele e, como que para testá-la, continuou – tenho um encontro.

- Ah que bom – disse ela sem qualquer emoção.

- É - disse ele vago e distante.

Esse ônibus que não chega! A chuva se aproximava ligeira. Litros e litros de água cairiam sobre suas cabeças. Clara apressou-se com o seu sorvete, embora quisesse que aquele momento perdurasse por mais alguns minutos. Preciosos, escorreram com a chuva, que logo começou, e com o ônibus dela, que não tardou a despontar na avenida movimentada.

A despeito do seu ar de homem experiente e daquelas sobrancelhas das quais ela tanto gostava, ele era um tanto desajeitado às vezes. Sorriso bobo de menino, sabe? Ela não. Foi com decisão que deu o sinal para seu ônibus, virou-se para ele e beijou-o levemente nos lábios. Um arrepio percorreu-lhe a espinha e ele emudeceu. Quase pôde sentir o gosto do sorvete. Quase. Limitou-se a imaginar. Mas o choque entre os lábios frios dela e os quentes dele foi certo. Assim como o choque sentido por ele.

Ainda olhou-o nos olhos por uma última vez. Muito tranqüila, subiu no ônibus e ele quase segurou-lhe a mão. Mas não podia.

Ela não olhou para trás e procurou um lugar para se sentar e seguir viagem. E ele sentiu que uma grande tempestade ia desabar.

Retrospectiva Sentimental 2009 [3]

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