31 de out de 2010

Ultimamente [2]

** Como conseguimos consolar alguém quando estamos inconsoláveis? Acho que é a vontade de ver o outro bem acima de qualquer coisa.

** Ter amigos e familares que agem como mafiosos pode ser algo confortante e mesmo encantador - mesmo quando você não tem o perfil de mafioso nem aprova o comportamento.

** Algumas pessoas perdem seu charme assim que você entende seu modus operandis. - Ah! Era isso? Todo esse mistério? Sim, sempre assim.

** Toda mulher deveria ter aquele vestido. Bom, agora eu tenho. 

** Jantar pipoca três dias por semana faz qualquer um enjoar de pipoca.

** Descobri que pessoas mais velhas podem dar conselhos valiosos e experiências de vida sem que isso soe como "patronization". Já com as mais novas tem sido um pouco diferente.

** Alguém consegue pensar numa boa tradução para "patronization"??

** As pessoas confundem "delicadeza" com "fragilidade" (Diva Ruiva).

** A intuição é uma daquelas coisas para se confiar. É a musa falando com você!

** Crises de riso em momentos inoportunos devem ser perdoadas quando o seu colega de trabalho é o responsável pelo seu riso.

** Me assustei ao ver pessoas que conheço em textos escritos anos atrás, antes de conhecê-las. E mais ainda em ver como algumas histórias ficcionais se metamorfosearam em realidade. Melhor tomar cuidado com o que escrevo!

** Co-piloto bom é co-piloto calado.

** Momentos difíceis são muito bons para controlar suas más tendências.

** Cranberries é ótimo para fazer faxina. Assim como o primeiro álbum dos Los Hermanos.
** Somos escravos de nossas palavras.

** É tão ruim assim mudar? Suspeito que não dá para ser a mesma pessoa a vida inteira. E se fôssemos, isso seria bom?

** Donnie Darko é um filme ma-ra-vi-lho-so.

** Sou muito mais "Eu era infeliz e não sabia" do que "Eu era feliz e não sabia": troco o arrependimento do clichê pela libertação do seu inverso - sou feliz agora.

** Preciso de algumas doses de Leon Eliachar. Alguém me acompanha?

** Para minha sorte, não sou vingativa.

** Roberto Carlos nunca foi rei para mim, nem nunca será! Há!

** Iniciada a viagem pelo mundo as músicas em espanhol, agradecimentos ao Diego De La Vega:






Lili morre

Estava demorando, na verdade. Eu me lembro de tê-la visto na cama, deitada, silenciosa. Pálida, o rosto fervente. A febre que não cessava. Intensa. Sabia que ia morrer, mas não sabia se seria morte-morrida ou morte-matada. Nos momentos finais, ela soube: tinham matado-na. Não deu grande importância ao fato: viu que não tinha mais nada a fazer. Deixou-se para trás e morreu sem grande comoção. Já ia tarde.

30 de out de 2010

Ah! O drama!

- Como você é dramática! - ele gritou.

Ela, que não era dramática, resolveu, por fim, vestir a camisa: jogou um copo de vinho nele.

- Agora sim você tem motivo para reclamar!

29 de out de 2010

20 e poucos anos: À francesa

Conversava com Silvinha e Raul durante o almoço:

- Mas sabia que você está ótima! - ela disse afetadamente.

- Mesmo? - olhei significamente para Raul - Obrigada.

"É a maquiagem, tenho certeza - bendita Avon!", pensei enquanto ela afogava o alface no molho francês. Raul sorriu. Bom, ele sabia. Sabia de tudo. Sempre.

- Sabe, você tá com uma cara de apaixonada! - Silvinha exclamou.

- É verdade! - Raul provocou.

Ele riu da ironia da situação. Era seu lado sádico falando com meu sorriso amarelo.

- Acho que nunca estive tão longe disso - respondi me afogando na salada e querendo afogar Silvinha no molho francês.


28 de out de 2010

27 de out de 2010

"Rodeio de Gordas"

Alunos universitários agridem colegas da Unesp em "rodeio de gordas"
 

Eliane Trindade
de São Paulo 
Daniel Bergamasco
Editor-adjunto de Cotidiano

Um grupo de alunos da Universidade Estadual Paulista, uma das mais importantes do país, organizou uma "competição", batizada de "Rodeio das Gordas", cujo objetivo era agarrar suas colegas, de preferências as obesas, e tentar simular um rodeio --ficando o maior tempo possível sobre a presa. 

A agressão ocorreu no InterUnesp 2010, jogos universitários realizados em Araraquara, de 09 a 12 de outubro. Anunciado como o maior do país, o evento esportivo e cultural, que reuniu 15 mil universitários de 23 campi da Unesp, virou palco de agressão para alunas obesas.

Roberto Negrini, estudante do campus de Assis, um dos organizadores do "rodeio das gordas" e criador da comunidade do Orkut sobre o tema, diz que a prática era "só uma brincadeira".

Segundo ele, mais de 50 rapazes de diversos campi participavam. Conta que, primeiro, o jovem se aproximava da menina, jogando conversa fora --"onde você estuda?", entre outras perguntas típicas de paquera.

Em seguida, começava a agressão. "O rodeio consistia em pegar as garotas mais gordas que circulavam nas festas e agarrá-las como fazem os peões nas arenas", relata Mayara Curcio, 20, aluna do quarto ano de psicologia, que participa do grupo de 60 estudantes que se mobilizaram contra o bullying. 
No Orkut, os participantes estipulavam regras para futuras competições, entre elas cronometrar as performances dos "peões" e premiar quem ficasse mais tempo em cima das garotas com um abadá e uma caneca. Há relatos de gritos de incentivo: "Pula, gorda bandida".

Com a repercussão, a página do site de relacionamento foi excluída. Cópias dos posts espalharam-se pelo campus em Assis. Em murais aparecem frases como "Unesp = Uniban", referência ao caso a Geisy Arruda, que foi xingada por usar um vestido curto.

As vítimas não querem falar. "Uma das meninas está tão abalada que não teve condições de voltar à faculdade. Teme ficar conhecida como 'a gorda do rodeio'", afirma a advogada Fernanda Nigro, que acompanhou, na última terça-feira, uma manifestação de repúdio.

O grupo foi recebido pelo vice-diretor da Faculdade de Ciências e Letras, do Campus de Assis, Ivan Esperança. "Vamos ouvir os envolvidos e estudar as medidas disciplinares, mas não queremos estabelecer um processo inquisitório", disse ele à Folha.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/820901-alunos-universitarios-agridem-colegas-da-unesp-em-rodeio-de-gordas.shtml

******

Meu comentário: E pensar que eu conheço pessoas que achariam toda a situação engraçada e não veriam nada de errado nela. Belos valores.

Conjugando o verbo "apedrejar"

A: - Você não o odeia?

B: - Não.

A: - Por que não?

B: - Porque o ódio que ele sente vale por nós dois.

20 e poucos anos: Homens

Eu falava animadamente com o Raul sobre um cara que tinha conhecido outro dia. O Raul:

- Meu! Dá pra parar com esse lance de caras problemáticos!?

Olhei espantada. Pensei por um momento.

- Olha, esse foi o melhor conselho que me deram esse ano.

"Will you show me something that nobody else has seen?"

26 de out de 2010

Heavy Metal

Foi escolhida a mais bela virgem da aldeia. Ela seria entregue em sacrifício ao terrível dragão, que ameaçava os pobres e indefesos aldeões. Mas ela não foi de livre e espontânea vontade: se revoltou, esperneou e tentou fugir – tudo em vão. Todavia, guardava em si a esperança de que seu grande amor, o filho do alfaiate, viesse resgatá-la, pois ele havia prometido que fugiriam juntos. A bela virgem foi levada e amarrada junto a um penhasco. Gentil oferenda. A corda vertia o sangue de seus pulsos – o mesmo vermelho de seus cabelos. Não conseguia escapar. Tentava desesperadamente se desfazer daquele fim cruel, sem nunca perder a esperança de que seu amado viria resgatá-la. Até o último instante manteve-se constante a tal pensamento. Mesmo no momento em que avistou o terrível dragão. Mesmo no momento em que ele a abocanhou gostosamente. Huuuuuuum. Que delícia! Pensou o dragão após mastigá-la lentamente.


Enquanto isso, na aldeia, o filho do alfaiate desempenha suas funções de filho de alfaiate, como se nada tivesse acontecido.

(Publicado originalmente em 21/09/09 e postado novamente a pedido da Diva Ruiva)

20 e poucos anos: Digestão

Para a Diva Ruiva

Raul falando com o diretor:

- Nós não estamos satifeitos com o seu desempenho.

O rapaz olha para ele, preocupado:

- Vou melhorar, senhor, não teremos que ter essa conversa novamente. Isso não vai mais acontecer.

E era sempre assim: uma vida para atender às expectativas alheias. Porém, um dia  Raul decidiu abraçar aquilo o que era, a despeito do que pensassem. E que pensassem o que quisessem. Pensavam e afirmavam tanta coisa mesmo. Estava cansado de pensar no que oferecia aos outros. 

Segundo alguns, não tinha nada para oferecer. Era com uma veemência bruta que aquilo era expresso. Respeitava a opinião alheia, mas não partilhava mais do silêncio. Raul teve a sensação de que algumas pessoas não conseguiam entendê-lo ou as mudanças pelas quais passava. E cansou de tentar explicar. Deixou essa tarefa para aqueles que o queriam mal.

Pediu demissão e foi ver Lô.

Cérebro ou coração?

Apaixonar-se leva 0,2 segundo e tem mesmo efeito que cocaína 

 

Redação do Diário da Saúde

Amor científico

Apaixonar-se pode ser mais científico do que você pensa, segundo uma pesquisa realizada pela Dra Stephanie Ortigue, da Universidade de Syracuse, nos Estados Unidos.

O estudo, uma revisão dos trabalhos anteriores sobre o amor, revelou que apaixonar-se pode provocar o mesmo sentimento de euforia que é causado pelo uso de cocaína, e também afeta áreas intelectuais do cérebro.

Os pesquisadores também descobriram que apaixonar-se é de uma rapidez estonteante: leva cerca de um quinto de segundo - isto mesmo, 0,2 segundo - para que uma pessoa fique irremediavelmente viciada no amor.

Os resultados do estudo foram publicados na revista Journal of Sexual Medicine.

Doente de amor

Os resultados obtidos pela equipe da Dra Ortigue revelam que, quando uma pessoa se apaixona, 12 áreas do cérebro trabalham em conjunto para liberar químicos indutores de euforia, como dopamina, ocitocina e adrenalina.

O sentimento de amor também afeta funções cognitivas sofisticadas, tais como a representação mental, as metáforas e a imagem corporal.

Os resultados têm implicações importantes para a neurociência e para a pesquisa em saúde mental porque, quando o amor não é correspondido, ele pode se tornar uma causa significativa de estresse emocional e depressão.

Ao identificar as partes do cérebro estimuladas pelo amor, os médicos e terapeutas poderão entender melhor as dores dos pacientes doentes de amor.

O amor está no coração ou no cérebro

Os resultados levantam a questão: "Será que é mesmo o coração, ou seria o cérebro, que se apaixona?"
"Esta é sempre uma questão complicada," diz Ortigue. "Eu diria que é o cérebro, mas o coração também está relacionado porque o complexo conceito de amor é formado por ambos os processos - do cérebro para o coração e vice-versa.


"Por exemplo, a ativação em algumas partes do cérebro pode gerar estímulos para o coração e frio na barriga. Alguns sintomas às vezes nós sentimos como uma manifestação do coração, noutras parece ser proveniente do cérebro," diz a pesquisadora.

Outros pesquisadores também descobriram uma elevação dos níveis do fator de crescimento neural, ou NGF, na corrente sanguínea. Esses níveis foram significativamente maiores nos casais que tinham acabado de se apaixonar.

Esta molécula desempenha um papel importante na química social dos seres humanos, como no fenômeno do "amor à primeira vista."

"Estes resultados confirmam que o amor tem uma base científica," diz Ortigue.

Fonte: http://www.diariodasaude.com.br/news.php?article=apaixonar-paixao-amor-efeito-cocaina&id=5898&nl=nlds

I shall be released

Recomendada pela Diva Ruiva e propícia para o momento:




24 de out de 2010

The Tragic life of Annabelle


Freud

As duas bebiam refrigerante:

A: - Sabe o que eu acho?

B: - O quê?

A: - Quem fala muito sobre isso é mal-resolvido.

B: - Fala de mais e faz de menos?

A: - Bingo.

Diário: Olhar

  
 





Gosto de fotografia. E de fotos de prédios. Foi isso o que eu vi hoje. E é assim que eu tenho visto as coisas.

23 de out de 2010

Inevitável

"[...] mas é uma culpa tranquila e honesta, eu não me sinto mal. É uma culpa conformada. Eu a acaricio todos os dias antes de dormir. Ela dorme ao meu lado. Se há um ano atrás eu soubesse o que sei hoje, nada disso teria acontecido. Mas se as coisas não tivessem acontecido como aconteceram, eu não saberia o que sei e não seria quem eu sou hoje."

Frau Forster

Ultimamente [1]


** Hoje é o melhor dia da nossa vida.

** Cada coisa errada que você faz vale cinco vezes mais do que uma coisa certa que você já fez.
 
** Certas pessoas não sabem, não querem ou, simplesmente, não querem saber ficar sozinhas (Holmes)

** Perceber que você aprendeu com um erro e não vai sofrer pelo mesmo motivo deveria ser comemorado com champanhe.

** Conselhos não superam a experiência - tanto para as coisas boas quanto para as ruins.

** Todo mundo tem um tipo de preconceito em um certo grau. Eu, por exemplo, tenho preconceito à pessoas com preconceitos, o que faz de mim uma hipócrita assumida - e alguém que tem preconceito contra si mesma.

** O sadismo se disfarça manifesta sob várias formas.

** Sonhar com um cadáver sendo enterrado em cova rasa quer dizer o quê? E o que significa o fato de eu ser a coveira em questão?

** Pseudo-sabedoria me dá coceira: devo ser alérgica a pseudo-gurus. Se é assim, prefiro a Filosofia de Boteco do meu amigo Bunnyman.

** A vida é curta demais para ser desperdiçada com pessoas que não passam da superfície - da vida, delas mesmas.

** As cartinhas à mão ainda me comovem.

** Ouvir músicas que você não ouve faz tempo é fazer uma viagem na qual você encontra consigo mesmo.

** Uma música pode te fazer embrar de duas pessoas que são e representam papéis completamente diferentes na sua vida. Tão estranho isso, é como se não houvesse outras músicas...

** Há pessoas que não valem nem a sua raiva: a raiva dispende tempo e energia. (para S.O'H)

** Por que há gente que quando sente a sua falta sente também raiva de você por não estar lá como se gostaria?

** Novos prazeres da vida são descobertos a cada novo dia de vida.

** Camundongos sobem pelas paredes.

21 de out de 2010

Firegirl & Thumbelina: Enfim terra firme?

A princípio, Thumbelina estranhou a aspereza sob seus pés. Fazia tempo que não sentia aquilo. A sensação de terra firme era uma faca de dois gumes: por um lado, o alívio da certeza do solo, por outro, o descontentamento com o lugar de porto:

- Não poderia ter encontrado um lugar melhor?

Dizem que o bom mesmo é morrer no mar. Thumbelina sabia que ia morrer um dia, mas não daquele jeito, não no mar, não sem sentir seus pés tocando a terra. Menina-terra. Terráquea e terrena. Olhou para os lados, não gostou daquele pedaço de terra: seco, árido, sem vida. Melhor morrer no mar?

Encontrou Firegirl, secando ao sol, sentada sobre uma pedra prateada. Suas asas estavam abertas, ainda úmidas. Olhava lá longe no horizonte: parecia procurar algumas coisa.

- Você também veio parar aqui? - perguntou Thumbelina.

- Sim, consegui escapar. Mas poderia ter achado um lugar melhor, não? Bom, se eu não tivesse conseguido vir para cá, na certa, teria morrido no mar.

- Sim, mas sobrevivemos à tempestade, não? - Thumbelina sorriu.

- Nós sempre sobrevivemos, Thumbs - disse Firegirl agitando levemente suas asas. As escamas vermelhas brilhavam intensamente ao sol.

- Hoje não foi o nosso dia. Fracassamos contra o Acquincerteza.

- É, não conseguimos derrotá-lo hoje.

- Mas amanhã... Quem sabe? - Thumbelina sorriu.

- Talvez - Firegirl estava desanimada ainda - seja como for, hoje só quero secar as minhas asas e passar um tempo aqui, ainda que não seja um lugar bonito. Acho que é disso que eu preciso para me recuperar dessa derrota.

Firegirl era uma chama quente e vibrante. Sua pele clara parecia refletir a luz solar, de modo que poderia ser vista à longas distâncias. Ela continuou:

- Hoje ficamos aqui, mas numa próxima vez, iremos para um lugar mais bonito.

- É verdade. Hoje esse pedaço de terra seca foi o que deu, né? Aridez desértica... 

- É mesmo, mas olha ali - Firegirl apontou uma margarida minúscula.

- De repente esse lugar não é estéril como parece! - surpreendeu-se Thumbelina  - O que você está olhando no horizonte?

- Estou procurando.

- O quê?

- Minha felicidade.

Thumbelina olhou para dentro de si e também não encontrou a sua.

20 de out de 2010

Daniel na cova dos leões

Finalmente entendi os versos:

"Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque
Não vemos"

E, sinceramente, é preocupante, para não dizer assustador.

Fonte:
http://www.vagalume.com.br/legiao-urbana/daniel-na-cova-dos-leoes.html#ixzz12tcPHbJi

Ovelhas ofertadas

A: - Eu percebi uma coisa hoje: eu só penso no que eu tenho a oferecer aos outros, não penso sobre o que os outros têm a me oferecer.

B: - Então toma cuidado: isso é via de mão dupla. Ou deveria ser. Deve haver equilíbrio.

A: - Acho que não tenho nada a oferecer para alguém do sexo oposto. Pelo menos é isso o que me diz a minha experiência.

B: - Eu também acho que não tenho.

Grilos.

B: - Nossa, agora tô deprimido.

Humor negro

Rir da prórpia desgraça é um dos segredos para uma vida saudável.

19 de out de 2010

Sobre perdas e buscas

Para S.O'H.

A campainha tocava insistentemente. Louis foi até a porta: através do olho-mágico viu Clara, impaciente.

- Você por aqui? - ele estava surpreso.

- É, eu. Olha, eu não sou de fazer isso, você deve saber, mas eu precisava falar com você.

- Bom, a minha esposa está aqui, então acho melhor você voltar numa outra hora.

Clara sorriu duramente:

- Eu sei muito bem que ela foi viajar e que você está sozinho aí. Posso entrar?

Louis pretendia segurá-la junto a porta, mas, não sendo possível, deixou que entrasse e lhe ofereceu um lugar no sofá cinza encardido.

- Então, o que te traz aqui? - ele perguntou.

- Puxa, Louis, você é cínico! Você quer saber o que está errado? Você simplesmente sumiu nos últimos seis meses. Achei que tivesse acontecido alguma coisa!

- Ah! Você sabe que eu sei me cuidar.
O tom de Louis era o tom de homem maduro e vivido. O tom de voz que ela simplesmente detestava. Ele não tinha agradado e logo percebeu.

- Sei, sei muito bem, mas isso não me fez sentir menos preocupação, ainda mais do jeito que você estava quando saiu do meu apartamento...

- Mas tudo se resolveu: continuo casado.

- E tem uma amante agora, que eu sei.

- Clara, o que você está exatamente me cobrando? - agora quem estava impaciente era ele - Fidelidade ou atenção?

- Nem eu sei, Louis. Eu não tenho direito de te cobrar nada, eu sei bem disso, mas eu achei que...

- Achou o quê? - ele cruzou os braços e sorriu.

- Que havia alguma coisa...

- Tipo?

- Ah, você sabe?

- Não, eu não sei.

Sim, ele sabia muito bem, mas preferia fazê-la despejar seus sentimentos para massagear seu ego.

- Não mesmo? Achei que você estivesse lá comigo, durante esses oito anos, Louis.

Por essa ele não esperava.

- Você foi embora porque não precisava mais de mim. É isso?
- Não é isso, Clara. Eu acho que nós... Acho que nós já vivemos o que já tínhamos pra viver. Agora não tem mais nada. É a vida.

- "É a vida?" É assim que você resume tudo? Bom, na verdade não tem um tudo, né? Nós não temos uma história real, nós ficamos no quase por anos, Louis. Nosso quase-romance. E isso para quê? Para eu ser mais uma que passa pela sua vida e você diz: "é a vida", como se tudo fosse descartável, inodoro, indolor, incolor, insípido?

- Ótimo, agora eu sou o vilão e você está com raiva de mim...

- Não, Louis, eu não tô com raiva de você - Clara respirou fundo - Primeiro eu achei que eu não the conhecesse, agora vejo que, na verdade, você não mudou nada todo esse tempo.

- O seu problema é que você quer que os outros te amem como você os ama. A vida não é assim.

- E houve amor, então? Porque da minha parte não houve e você conseguiu estragar tudo pela segunda e última vez. Que não corra atrás de mim quando seu mundinho desmoronar de novo.

O diminutivo "mundinho" o deixava maluco, mas manteve sua postura. Clara continuou:

- Eu sei que eu quero que os outros me amem como eu os amo. Eu e metade da humanidade sentimos as coisas assim. Eu vi você deixar muitas mulheres para trás, sempre sob a bandeira do "é a vida", do desencontro. É tudo fachada. Para você, uma mulher a mais, uma a menos, tanto faz.

- Isso não é verdade: todas foram importantes de um modo ou outro. 

- Sim, elas foram importantes enquanto te satisfizeram, preencheram suas necessidades adolescentes. As pessoas são mais do que isso, elas têm sentimentos, sabia? Primeiro eu achava que você era assim por medo de amar alguém de verdade ou, por, se envolver de verdade, minimamente.

- Eu não tenho medo! - mentiu ele.

- Mas agora, eu acho que as coisas são ainda mais simples: você quer sempre mais, você quer tudo, nunca está satisfeito com o que tem. E eu respeito isso, a vida funciona assim para você. Mas não poderia nunca partilhar desses valores de eterna busca. Acho que o ser humano é movido pelo desejo, pelas suas vontades, mas não desse jeito que você faz. Essa necessidade de sair de porto em porto.

- E quanto de devo pela sessão de terapia, doutora? Acha que pode ficar me analisando, só porque analisa tudo a sua volta, é? E você me odeia por eu ser assim?

- Não.

- Tem pena de mim por isso?

Clara riu, leve.

- Não, eu não tenho pena de você. E o que me dá raiva é a situação, não você. Eu apostei minhas todas as minhas fichas e perdi. Perdeu a graça.
- É, a gente se decepciona.

- Não é isso, Louis. É que eu achei que comigo poderia ser diferente. Não que eu tivesse grandes pretensões românticas ou nupciais com você. Você não me decepcionou porque eu sabia qual era a sua natureza e você fez exatamente o que manda a sua natureza. Não o culpo por isso, não tem o que culpar. É o seu jeito e eu sempre soube disso.

Louis estava atônito, mas conservava-se impassível.

- Você se acha muito misterioso e gosta de joguinhos, mas, às vezes, pelo menos, é mais transparente do que imagina.

Longa pausa. Clara continuou:

- Olha, eu não estou aqui para te exigir nada, prometo também que não vou mais te encher. Só precisava desabafar sobre o que sentia. E vou embora sabendo que você se guarda do mundo e não vai me contar nunca o que sentiu sobre nós, sobre mim.

- Ué, você não disse que eu era transparente? - perguntou Louis irritado.

- Às vezes. Mas se protege sob uma armadura na maior parte do tempo. O que eu acho que não é só um direito seu, como também algo muito sensato. Talvez eu devesse fazer o mesmo e me entregar menos.

- Acabou?

- Acho que sim. Estou meio confusa ainda, mas acho que era isso.

- Tá.

Estava muito frio e Clara trazia um cachecol roxo no pescoço. Ela o ajeitou já tranquila.

- Abre a porta pra mim?

- Claro.

Junto à porta:

- Olha, eu espero mesmo que você encontre o que procura. Talvez nem você saiba.

- Mais alguma coisa?

- Ah! Você ficou com um livro meu...

- Qual?

- "Olhai os lírios do campo", do Érico Veríssimo.

Louis gastou uns cinco minutos para encontrá-lo em sua prateleira. Entregou o livro à ela.

- Tchau. Se cuida - ela sorriu.

Ia sentir falta daquele sorriso.

- Tchau - ele respondeu secamente.

Se alguém tivesse lhe perguntando sobre a história de ambos, sobre o porquê de eles não terem ficado juntos, Louis teria repetido o chavão por detrás do qual se escondia:

- É a vida.

Ouvindo If I had you (Nnenna Freelon)

Palhaço é a mãe

Ser bem-humorado é muito diferente de ser engraçado.

18 de out de 2010

Caminho do desejo

O beijo na bochecha estalou matreiro. Os lábios escorregaram para os lábios: o toque morno espalhou o rosa da alma para os bochehas - beijo estalado. Sem respirar. Mãos se entrelaçam lentamente . Não há pressa aqui dentro porque o mundo parou lá fora. Tão logo, as pernas se confundirão assim como o vestido e o paletó no cabide.

Lóbulo carnudo. Macio. Os lábios o encontram suavemente, escondido entre os cachos de cabelo escuro. Lóbulo de pêssego. Cheiro de cravo. Gosto de canela. Um mar de possibilidades que se apresenta para ambos. Perdidos no tempo. Senhores de si. Esquecidos como um par de sapatos velhos debaixo da cama. Velhos amantes. Trilham o caminho juntos. Tato e Língua. Caminho a dois.

Os lábios caminham resolutos para o pescoço. Ali permancecem impassíveis, como que paralisados por um breve instante. Braços se entralaçam lentamente. Pêlo e pele - e uma sonoridade sem preço. Conhecer a si mesmo como a palma da mão? Não te conheço nem me conheço o bastante, mas posso dizer que simplesmente quero te conhecer todo dia, só para poder escrever em você - e por você ser escrito - todas as novas palavras que aprendermos juntos. Simples assim.

Poderiam passar horas naquele conhecimento do outro que enchia de prazer e temor. Amortemor. A trilha se perdia num suspiro noturno. Hálito de sonho.

Firegirl & Thumbelina: Eterna Adolescência

As duas estão mal-humoradas num domingo nublado. Tédio total - não há ninguém para ser salvo (até os vilões parecem respeitar os domingos). Firegirl olha fixamente para Thumbelina:

- Eu acho que você é uma eterna adolescente.

- E por que você acha isso? Pela minha dificuldade em lidar com as questões da vida?

- Não, são só as espinhas em seu rosto.

- Menos mal. Então é superficial.

- Como um espinho.



Lili e o Gigante

Lili conversava com o Gigante. Grande. Forte. Tímido. Inofensivo. Ele lhe contava muitas coisa de seu mundo. Lili ouvia curiosa.

- Minha esposa é uma figura: quando chama alguém de "querida", quer dizer que está brava com a pessoa.

- Mesmo? - respondeu Lili, pensando ser a única a fazer aquilo.

17 de out de 2010

Diário: Sabedoria popular

Andando de ônibus por aí, me deparei com diversas paredes pichadas. Uma frase me chamou a atenção:

"Num país em que político é ladrão, Papai Noel é mensalão"

Mas a que eu realmente gostei foi essa aqui:

"O herói é o cara que não teve tempo de correr"

16 de out de 2010

Pedágio para a liberdade


- Nos encontramos então na catraca da Liberdade - eu disse à ela.

Depois percebi como "catraca" e "liberdade" não casavam bem na mesma frase...

Homens-coelhos dos anos 80

Para Charlie e Felino

É tudo feito de gente, ora essa!

Eu estava conversando com o Sr. Contador sobre política. Eu lhe perguntei em quem ele ia votar para presidente no segundo turno. Ele não parecia animado. Deu um de seus famosos risinhos nervosos:

- Para mim, sinceramente, tanto faz Dilma ou Serra, acho que é tudo a mesma coisa...

- Mesmo? Eu não acho que sejam a mesma coisa, mas nenhum deles me anima.

- É... Acho que no Brasil temos partidos demais, mas, na hora do "vamo ver" as ideologias não são muito diferentes entre si.

- Ah!

- Mesmo porque - continuou ele - a mídia está mostrando que a corrupção está por toda a parte.

- Sim - concordei - parece que ninguém sai ileso.

- É, Dilma e Serra podem não ser corruptos, mas os partidos são.

Fiquei olhando para ele:

- E os partidos não são feitos de pessoas com suas (faltas de) ideologias e caráter?

Eu sempre fico com o pé atrás quando jogamos responsabilidade para "coisas" e não para as "pessoas" que fazem parte das "coisas". Haja vista a "sociedade": falamos dela como algo distante e da qual não fazemos parte.

Física ou Química?

"[...] o entrelaçamento quântico faz com que duas partículas entrelaçadas influenciem-se mutuamente de forma instantânea, mesmo que elas sejam levadas para lados opostos das galáxias."

15 de out de 2010

Linhas tortas

Os dois amigos no ponto esperando o ônibus:

A: - Você é correspondido?

B: - Bom, ela responde educadamente tudo o que lhe escrevo...

A: - Ah... Sinto dizer, mas isso não é correspondência no sentido que você quer, mas no sentido carteiro da coisa...

B: - Nada sobre o que eu já não tenha escrito...

A: - O que não faz com que doa menos.

14 de out de 2010

20 e poucos anos: The Hollow Man

Raul escondeu seu rosto com as mãos. Ficou em silêncio, para depois encostar a cabeça no meu peito:

- Eu não sinto mais nada. Não consigo odiar, mas também não consigo amar ninguém: é como se eu estivesse vazio. Não sei mais sentir saudade... É como se eu não tivesse mais o que oferecer às pessoas, Lô. E acho que não tenho mesmo. Depois dos últimos acontecimentos, parece que eu gastei tudo de mim e não sobrou nada. Só um vazio. Gastei com quem nem precisava. Uma vida de desperdício.

Abracei Raul forte, o mais forte que pude. Parecia que se eu o soltasse, ele desmoronaria. Eu não sabia o que dizer: abraçá-lo parecia ser a única coisa a se fazer, como se aquele abraço pudesse colar seus cacos de mosaico sem vida.

Firegirl & Thumbelina: Cadê o mertiolate?

No sala de justiça, esperando os outros super-heróis chegarem. Thumbelina está um pouco triste: brinca com uma bugiganga tecnológica esquecida por um de seus colegas.

- O que você tem? - pergunta Firegirl, preocupada.

- Ontem eu me dei conta que ainda tenho muitas cicatrizes...

- Que você ainda não teve tempo de tratar com bepantol.

Dias estranhos

Os dias andam estranhos para mim. Talvez uma boa dose de surrealismo lírico possa tornar essa estranheza menos incômoda:



Talvez eu só precise de wonderous stories...

Tony Hawk une gerações

Depois de uma breve conversa sobre skates e Tony Hawk com o aluno de 11 anos:

- Professora, qual é o seu nome?

Respondo. E ele pergunta:

- Você é professora do quê?

- Inglês - respondo.

- Professora, você é legal!


13 de out de 2010

Firegirl & Thumbelina: Quem? Eu?

As duas tomam uns drinques numa boate badaladíssima. Firegirl confessa:

- Acho que fui atingida por um raio.

- Mesmo? Voava muito alto?

- Se voava! Tenho certeza: fui atingida por um raio.

Seus olhos têm um brilho diferente. Thumbelina sorri:

- Acho que tem alguém apaixonada. E não sou eu.


Formiga

Chegou em casa tiritando de frio: ingenuidade confiar no sol e sair de blusa de alcinha e casaquinho leve. A primeira coisa a ser feita: fechar todas as janelas e tomar um banho escaldante. Não sinto meus pés! Pijama de flanela e meias. Um sonho! Edredons, cobertores, mantas. Mas não é primavera? A vontade de comer doces continua: levanta da cama, cutuca armários e revira gavetas. Nada! Recorre - por último - à geladeira.

Encerra o dia soterrada por cobertores e com um belo pote de sorvete de creme.

Paixão [1]

Lendo o último post sobre "paixão" no blog de uma amiga, lembrei de uma música:


Se alguém que me disser que não está apaixonado, eu vou acreditar. Talvez eu devesse levar em consideração outro fatores que podem interferir em tal de declaração. É engraçado que eu realmente ouço, penso na letra e acho que o "eu-lírico" está falando sério, ou seja, que ele não está apaixonado. É quase cruel. Mas já me disseram que ele está apaixonado sim, que é tudo desculpa esfarrapada mesmo. Ele só tem medo - como a grande maioria de pessoas que eu conheço.

12 de out de 2010

Diário: Praia

Em quatro dias na praia eu virei a noite jogando banco imobiliário duas vezes - e fui a primeira a ir a falência nas duas vezes. Definitivamente não sirvo para o mundo imobiliário e/ou empreendedor. Mas aprendi a jogar escopa! 

Assisti Comer, rezar, amar e achei bonzinho - embora o português do Felipe fosse muito estranho... E, afinal, a Itália serve só para comer? Assisti Shrek, embora não gostasse do filme, porque gostava muito da companhia. Comi cocada branca e amendoim na praia. Exagerei na dose do açúcar porque não mexi o suco direito, mas, ainda assim, acertei na doçura. Tirei fotos com um boneco do Máskara, já que não dava para sair lá fora. Brinquei com o Rick dentro e fora de casa.

Em quatro dias eu repassei uma série de coisas sobre a minha vida, sobre o que eu quero e espero. Longas caminhadas à beira da praia com a Garota de Leeds, uma de minha melhores amigas e excelente companhia:

- É isso ter vinte e poucos anos? O que é que estão achando que nós somos? O que querem de nós?

Quatro dias sem internet, sem secador, sem maquiagem. As mesmas roupas de verão, o mesmo protetor solar, a mesma perda de noção de tempo. Uma delícia. Descobri que não sei mesmo jogar vôlei nem dar estrela. Mas ainda sem desenhar. E tirar fotografias (em breve no Fickr).

Sábado, domingo e segunda de frio e nuvens. Mas pegamos um mormaço maroto no domingo: leve rubor facial - carinha de criança saudável. Hoje, terça-feira, foi o dia se sol mesmo. Enquanto brincava com a areia da praia, cantava baixinho Areia, do Arnaldo Antunes (pensando em tanta gente...):

areia pra deixar cair
no centro da ampulheta
eu vejo enquanto espero
aquilo que mais quero
o meu amor virá
madrugada lenta
as luzes piscam letras
na janela venta
enquanto o carro vai
areia pra passar
areia pra passar
areia como tempo
através do vidro
cai pelo orifício
revirando o ar
atravessando a praia
maior que um saara
até chegar no mar

Um dia lindo! Com direito a mar e areia. E uma cor morena que eu trouxe para São Paulo.

7 de out de 2010

Is happiness a warm gun?

Para S. O. H

A:  - E será que agora eu vou ter que esconder minha felicidade por que incomoda os outros?

B: - Você acha isso justo?

A: - Não. Não vejo nada de errado em ser feliz. Minha felicidade não existe às custas de ninguém. Quanto a isso, estou de consciência limpa.

B: - Mas você é feliz de verdade?

A: - Olha, mesmo sem conseguir resolver tudo, sou feliz sim, dentro das minhas possibilidades. Nem sempre está tudo azul, mas a vida é assim. E você, é feliz?

B: - Nos dias de sol sim. Sempre.

Ouvindo Gostava tanto de você (Tim Maia)

6 de out de 2010

Firegirl & Thumbelina: Anotaram a placa?

As duas super-heroínas estavam no topo de um prédio na Paulista, contemplando o pôr-do-sol encardido. Thumbelina confessa:

- Fui derrotada hoje.

- Mesmo? Por quem? - perguntou Firegirl.

- Aí é que está: não sei se foi o Super-Mal-Entendido ou o Mania-de-Perseguição. E é exatamente isso o que me incomoda...

20 e poucos anos: Feriado

Raul não podia ver meu rosto no escuro, mas adivinhou sem dificuldade pelo meu silêncio:

- O que você tem?

Eu não disse nada, olhava o fogo tremular do centro do círculo. Ventava muito àquela hora na praia. Tínhamos ido para o litoral com um grupo de amigos no feriado. Nem todos exatamente amigos, na verdade.

- O que você tem, Lô?

Sorri complacente: às vezes o Raul era meio cegueta.

- Viu o casal a beira mar?

Lá longe podíamos ver Zeca e aquela que mais tarde viria a ser sua esposa, Rosa.

- Acha que estão juntos? - Raul perguntou.

- Não vejo outro motivo para um cara e uma menina estarem sozinhos conversando a beira-mar por quinze minutos.

- Mas a Rosa sabe?

- Do que? Da minha paixão platônica pelo Zeca? Claro que sabe, todo mundo sabe, menos ele. O que tem de inteligente tem de tapado, nunca vi igual. Mas não esquento mais.

- Claro que esquenta, tanto que está aí, se remoendo em auto-piedade.

- Por que você tem que ser tão severo com as pessoas?

- Eu achei que você já tivesse superado o Zeca, eu já disse que ele não é cara pra você.

- Por que as pessoas sempre acham que sabem do que eu preciso?

- Conheço vocês dois e sei que não dá pé.
Aquela conversa estava me irritando e eu estava enjoada. Não tinha bebido nem ia beber: ficava deprimida quando bebia e de tristeza eu não queria o meu copo cheio. Já bastava o meu corpo. Era um consolo pensar que não tinha sobrado espaço para raiva, de modo que eu não maldisse nem quis afogar ninguém.

- Vou subir.

- Sozinha?

- É, não tô a fim de sermão nem de crítica.

Raul não disse nada. No fundo eu sabia que ele estava certo, mas eu não queria estar certa, eu queria ser feliz. Me vi confusa: não sabia o que estava realmente sentindo. Engraçado que eu, sempre tão decidida, me perdia quando ficava ainda que fosse só um pouquinho confusa. Eu perdi o chão, os pés pareciam afundar na areia úmida.

Subi com pressa para o apartamento - nem cinco minutos da praia. Tomei uma ducha. Liguei a TV: o filme pornô da madrugada me fez rir, eu nunca tinha entendido a dos filmes pornôs. Mas eu não queria rir. Peguei meu cobertor e me acomodei no sofá.

Cochilava de leve quando alguém bateu na porta. Era Rosa.

- Lô, abre a porta pra mim, por favor? Você ficou com a chave.

Sim, tínhamos combinado de voltar juntas porque só eu tinha a chave. Eu estava tão sonolenta que nem raciocinei direito: me enrolei no cobertor e abri a porta. Rosa estava acompanhada, abraçada com Zeca.

- Oi Lô.

- Oi Zeca.

Os dois entraram e foram para a cozinha. Dava para ouvir de longe as vozes de ambos, rindo.

Eu já tinha ouvido "Too drunk to dream", mas acho que agora era um momento "Too sleepy to dream". Eu não sonhava mais. E, naqueles breves instantes, percebi que o que realmente me incomodava não era o fato de ele estar apaixonado por Rosa nem o fato de ela corresponder o não. Me chateava a minha incompetência sentimental: todo mundo fala para você ser você mesmo e o que te dizerm quando você não consegue quem você quer? "Não era para ser". 

- Conformismo do caramba! - eu disse a Raul.

Tinha batido inistentemente na porta dele e mal ele a tinha aberto:

- Conformismo do caramba!

- Hein? O que você está fazendo aqui?
- Eu sou uma fraude!

- Não seja dramática, Lô!  Não, você é um chata auto-complacente.

- Eu fugi da praia para não ter que ver beijos e carícias dos dois e adivinha quem aparece no apartamento? E sabe o que é pior, eu percebi que eu sou o problema.

- É, é mesmo. Você gasta o tempo que poderia ser feliz se lamentando pelo que não dá certo! O Zeca nem é tudo isso, você sabe. E ainda que fosse...

- A questão não é essa! O fato é eu não sei o que estou sentindo. Acho que nem sempre a gente tem aquilo que a gente quer.

- Mimada - ele riu - Não, a gente não costuma ter aquilo o que a gente quer.

- Ai pessimismo! - eu sorri.

Raul suspirou.

- Quer entrar?

- Você tá acompanhado?

- Não, a não ser que Joaquim seja considerado companhia...

- Nha. Não era desse tipo de companhia que eu falava.

- Quer sair pra dar um volta. Tomar alguma coisa?

- Quero aprender a jogar sinuca. Talvez seja terapêutico. Mesmo porque é uma das minhas resoluções de fim de ano...

Ouvindo:

5 de out de 2010

"Three questions"


Uma das minhas cenas favoritas de Monty Python and the Holy Grail (1975):




Vai demorar?


Níquel Náusea por Fernando Gonsales



Sem querer generalizar, mas generalizando...

20 e poucos anos: Fuga

- Fujona!

Fiquei olhando para ele. Me lembrei daquilo que meu primo havia dito: "você é do tipo que escorre pelos dedos de quem tenta retê-la... é como água, sabe?, coisa do seu signo". Hein? Será que eu era aquilo mesmo? 

Se eu tivesse contado a Raul, ele contaria uma ou duas anedotas sobre minha emocionante vida amorosa: adorava fazer chacota de mim:

- Sim, Lô, você é a própria Femme Fatale - ele riria.

Mas a questão não era aquela. Eu comecei a lembrar das vezes que tinha fugido: sempre tinha sido de caras passionais e exagerados que não me interessavam nem um pouco.
- Estou apaixonado por você...

- Você já tomou o novo Dolly de maçã? Parece desinfetante...

Isso fazia de mim alguém cruel? Insensível? Eu só queria evitar aqueles olhares que me ofereciam tudo... Bom, se fosse cruel, não seria nada não grave quanto Every you every me:

I know I'm selfish, I'm unkind
Sucker love I always find
Someone to bruise and leave behind

Não, eu nunca poderia com aquilo... Mas poderia me desfazer, com bastante destreza, de qualquer um que me não me interessasse.

- Mas não é esse o caso, né? - Raul iria perguntar.

Não, não era o caso. Tão logo vi Raul, contei a ele. Naturalmente, ele disse tudo o que imaginei que diria.

- Sabe do que me lembrei? De uma vez quando eu estava numa festinha na casa de uma amiga. Eu devia ter uns 13 anos... Tinha um cara e eu estava fugindo dele oficialmente. Ele era bem legal, mas não tinha nada a ver comigo.

- Oficialmente? - ele riu.

- Era um fato de conhecimento público. E eu não sabia direito o que fazer ou dizer...

- Acho que no fundo a gente nunca sabe...

- Ah! Hoje eu sei...

- Claro, hoje você fala de Dolly de maçã, como se ninguém fosse perceber...

- Bom, o fato é que de repente começou a tocar uma música no rádio e o refrão da música tinha tudo a ver com o momento... Ficou uma situação muito desconfortável.

- E qual era a música?

- Runaway.

- Mas ela canta "I'll runaway with you", "eu fugirei com você".

- "With" ou "from", é tudo uma questão de preposição...

- Ou predisposição.




4 de out de 2010

Já dizia o Rei Roberto Carlos...

Níquel Náusea do Fernando Gonsales

20 e poucos anos: Monday Monday

Eu tinha dado mal-jeito nas costas carregando a cesta básica. Bem feito! Eu sabia que aquilo ia acontecer - de novo. Estava numa lanchonete com Raul, ele me encarava daquele seu jeito único:

- Por que tá se esticando? Alongamento?

- Não, isso eu deveria ter feito antes...

- É a cesta básica?

- É.

- De novo? Como você é turrona, mulher de ferro! Precisa começar a ter noção da força que você não tem!

- Ai! Que pessimismo, Raul!

- Não estou falando em sentido figurado, estou falando pela sua constituição física, boba. Você precisa ganhar massa muscular e levar uma via mais saudável.

Eu ri e não resisti:

- Como se você levasse uma vida super saudável!

- E levo!

- Almoçando no McDonald's toda segunda comigo?

- Ah! Mas esse é o nosso programa especial.

- Se fôssemos um casal, isso seria cair na rotina e péssimo, por consequencia.

- Mas não somos, né Lô?

- É verdade. O que é ótimo, porque adoro fazer isso toda segunda com você.

- Eu também.

Olhei meu McMelt ainda quente. Pensava em como não seria um problema fazer aquilo com um namorado. Eu nunca tinha entendido muito bem essa coisa de "pavor de rotina". Talvez por isso mesmo estivesse sozinha.

- Mas precisamos mudar o McDonald's: esse aqui do Borba Gato tá fora de mão agora que fui transferida.

- A gente vê isso, pode deixar. Mas que cara é essa? 

- Ai ai ai as minhas costas estão doendo poxa!

- Eu já sei do que você precisa...

- Massagem!

- Ah! Eu pensei num sorvete de casquinha, eu pago.

- Mas por que as pessoas sempre acham que sabem do que eu preciso?

Rimos. Era engraçado estar com ele ali, naquele nosso cantinho de sempre, mais reservado. Falando besteira, coisas sérias da vida, os fracassos nossos de cada dia. Raul tinha um ar de Peter Buck bem jovem, mas só sabia tocar gaita. Que desperdício. Ele falou qualquer coisa e fez as suas tão características aspas no ar. Mexeu nos cabelos de novo. 

- Mulherzinha! - eu disse e ele me jogou um guardanapo (limpo, é claro).

Raul sempre salvava as minhas segundas-feiras. E algo dentro de mim me dizia que eu salvava as dele também.

Ouvindo Femme Fatale do Velvet Undergroun.