4 de out de 2010

20 e poucos anos: Monday Monday

Eu tinha dado mal-jeito nas costas carregando a cesta básica. Bem feito! Eu sabia que aquilo ia acontecer - de novo. Estava numa lanchonete com Raul, ele me encarava daquele seu jeito único:

- Por que tá se esticando? Alongamento?

- Não, isso eu deveria ter feito antes...

- É a cesta básica?

- É.

- De novo? Como você é turrona, mulher de ferro! Precisa começar a ter noção da força que você não tem!

- Ai! Que pessimismo, Raul!

- Não estou falando em sentido figurado, estou falando pela sua constituição física, boba. Você precisa ganhar massa muscular e levar uma via mais saudável.

Eu ri e não resisti:

- Como se você levasse uma vida super saudável!

- E levo!

- Almoçando no McDonald's toda segunda comigo?

- Ah! Mas esse é o nosso programa especial.

- Se fôssemos um casal, isso seria cair na rotina e péssimo, por consequencia.

- Mas não somos, né Lô?

- É verdade. O que é ótimo, porque adoro fazer isso toda segunda com você.

- Eu também.

Olhei meu McMelt ainda quente. Pensava em como não seria um problema fazer aquilo com um namorado. Eu nunca tinha entendido muito bem essa coisa de "pavor de rotina". Talvez por isso mesmo estivesse sozinha.

- Mas precisamos mudar o McDonald's: esse aqui do Borba Gato tá fora de mão agora que fui transferida.

- A gente vê isso, pode deixar. Mas que cara é essa? 

- Ai ai ai as minhas costas estão doendo poxa!

- Eu já sei do que você precisa...

- Massagem!

- Ah! Eu pensei num sorvete de casquinha, eu pago.

- Mas por que as pessoas sempre acham que sabem do que eu preciso?

Rimos. Era engraçado estar com ele ali, naquele nosso cantinho de sempre, mais reservado. Falando besteira, coisas sérias da vida, os fracassos nossos de cada dia. Raul tinha um ar de Peter Buck bem jovem, mas só sabia tocar gaita. Que desperdício. Ele falou qualquer coisa e fez as suas tão características aspas no ar. Mexeu nos cabelos de novo. 

- Mulherzinha! - eu disse e ele me jogou um guardanapo (limpo, é claro).

Raul sempre salvava as minhas segundas-feiras. E algo dentro de mim me dizia que eu salvava as dele também.

Ouvindo Femme Fatale do Velvet Undergroun.

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