1 de out de 2010

20 e poucos anos: Cicatrizes

Tibúrcio estava sentado sobre a minha barriga. Dormia? Ele ouviu um barulho e abriu seus olhos curiosos. Era um outro gato que miava dentro da minha barriga. Fome. Pura e simples fome. E pura e simples preguiça de me levantar e cozinhar qualquer coisa. Para quê? Raul nem ia passar a noite aqui... Cozinhar para uma pessoa só é desanimador.

Me bateu uma moleza e uma tristeza... Tão genuínas eram que achei que não deveria ir trabalhar, mas fui. A vida no banco: tudo aquilo do que eu quis fugir a vida inteira. Meu ganha pão.
 
Eu tinha deixado a porta aberta para o Raul. Logo ele estava na porta da sala, com as chaves nas mãos. Tão logo Tibúrcio o viu, pulou do sofá.

- Desculpa o atraso.

- Sem problemas. Aproveitei a espera para arrumar o guarda-roupa.

A sala estava cheia de roupas espalhadas.

- Preciso resgatar as minhas saias: tenho pernas tão bonitas...

- Tem mesmo, Lô.

- Vou começar pela xadrez. Ah, é meio colegial - parei e olhei para ele - Por que as colegiais fazem vocês babarem?

- Sei lá, tem coisas que a gente não sabe explicar, só sentir.

- Sei, entendi essa de sentir - peguei a saia xadrez nas mãos - Vou usar essa saia com mais frequencia.

- E o Roberto?

- Quem? Ah! Acabou... O cara fuma. Tem um narguilê, parece esses adolescentes: olha como eu sou cool, fumo narguilê!

- Bom, até aí você também fumava, Lô.

- Isso quando eu era uma imbecil de quatorze anos que achava que Danuza Leão captava a alma feminina!

- Bom, levar Danuza Leão a sério coloca seu caráter em xeque.

- E meu gosto seria colocado em xeque se eu continuasse a sair com aquele imbecil.

- O que deu em você? Fazia tempo que não te via assim...

- Parei de tomar meus remédios.

Ele riu.

- Não, é sério.

Raul me olhou muito sério e antes que pudesse dizer qualquer coisa, me levantei do sofá e dei-lhe um beijo suave. Ele tinha lábios doces.

- Como você é besta! Acredita em tudinho que eu falo... O fato, meu bem, é que eu detesto a minha vida... Quem me salva é o Chico!

Me joguei no sofá. Tão bom!

- Que Chico? Novo namorado?

- Não besta! O Buarque! É ele quem me acompanha rumo ao trabalho. De resto, odeio tudo. Quer dizer, tem você e a Clara. Mais uma meia dúzia de amigos, talvez. Só. Destesto o emprego. Minha vida é medíocre. Se eu tentasse me matar, na certa ia dar errado...

- Nem vem com esses papos, Lô. Auto-piedade não rola, né?

- Mas sabia que ela tinha razão?

- Ela quem?

- A Danuza Leão.

- Hã? Sobre?

- Cicatrizes do joelho, Raul.

- Como assim? Mas você não tem nenhum cicatriz no joelho.

- Mas tenho essa marquinha no nariz. Acho que se um cara me perguntasse do que é essa cicatriz eu casava! Era disso que ela falava.

- Do jeito que você é impulsiva eu acredito - ele riu - Mas agora eu fiquei curioso: do que é?

- Catapora - torci o nariz - Nessa droga de vida catapora foi o máximo que eu consegui.

- E o que você queria exatamente?

- Ah! Algo que me fizesse uma pessoa vivida ou interessante.

- Por que "ou"?

- Porque nem toda pessoa vivida é interessante.Ah! E o Tibúrcio!

- O que que tem ele?

- Também tenho ele na minha vida.

- Dá pra manter uma conversa linear? Você fica voltando e eu me perco!

- Linear? Mas eu sou linear!

- Acho que você fala em espirais...  Bom, a moto está lá embaixo, valeu mesmo.

- Disponha. Mas se você perder as minhas fitas de Talking Heads eu mato você. And she was é a minha música.

- Você 'tá mais para Psycho Killer. Tenho medo de você! Nem quero te imaginar de moto. Mais uma doida dirigindo por aí - ele me olhou intrigado - Eu não sei o que você tanto espera.

- Nem eu.

Ele continuava me olhando daquele jeito. Eita mania de mexer no cabelo, parecia mulher:

- Pára de mexer nesse cabelo, Raul.

- Pelo menos eu tenho cabelo...

- Você nunca vai aceitar que eu quis cortar o meu, né?

- Mas tá curto demais! Mais curto do que o meu e olha que o meu cabelo nem é comprido. Você tinha aquele cabelo lindo e cortou mais curto demais.... Fala sério! E tudo isso pra quê? Para mostrar como você é "desapegada"? Ou para mostrar como você "despreza" os padrões valores lugares-comuns obviedades?

Raul ficava engraçado fazendo aspas no ar.

- Você é um quadrado. Acha que todo mundo tem que ser como se diz por aí. Eu não preciso dessas coisas...

(sempre que ele me lê assim, eu fico com medo)

- Ah precisa sim. Todo mundo precisa dessas coisas. Alguns mais, outros menos. Nem vem com esse papo.

- Acho que eu já sei.

- Hã?

- O que eu espero, Raul!

- Ah!

- Eu quero outra vida. Quero alguém que me tira dessa vida, que me mostre que a vida é mais do que isso, entendeu?

- Entendo melhor do que você pode imaginar, Lô.

Ele se sentou no sofá e acabamos passando a noite conversando, como sempre.

Ouvindo Tangerine (Led Zepellin)

2 comentários:

Leandro Amado disse...

Muito bacana! Pedacinho do cotidiano bonito e significativo :)

Cayo Candido disse...

Empatia nesses personagens...