19 de out de 2010

Sobre perdas e buscas

Para S.O'H.

A campainha tocava insistentemente. Louis foi até a porta: através do olho-mágico viu Clara, impaciente.

- Você por aqui? - ele estava surpreso.

- É, eu. Olha, eu não sou de fazer isso, você deve saber, mas eu precisava falar com você.

- Bom, a minha esposa está aqui, então acho melhor você voltar numa outra hora.

Clara sorriu duramente:

- Eu sei muito bem que ela foi viajar e que você está sozinho aí. Posso entrar?

Louis pretendia segurá-la junto a porta, mas, não sendo possível, deixou que entrasse e lhe ofereceu um lugar no sofá cinza encardido.

- Então, o que te traz aqui? - ele perguntou.

- Puxa, Louis, você é cínico! Você quer saber o que está errado? Você simplesmente sumiu nos últimos seis meses. Achei que tivesse acontecido alguma coisa!

- Ah! Você sabe que eu sei me cuidar.
O tom de Louis era o tom de homem maduro e vivido. O tom de voz que ela simplesmente detestava. Ele não tinha agradado e logo percebeu.

- Sei, sei muito bem, mas isso não me fez sentir menos preocupação, ainda mais do jeito que você estava quando saiu do meu apartamento...

- Mas tudo se resolveu: continuo casado.

- E tem uma amante agora, que eu sei.

- Clara, o que você está exatamente me cobrando? - agora quem estava impaciente era ele - Fidelidade ou atenção?

- Nem eu sei, Louis. Eu não tenho direito de te cobrar nada, eu sei bem disso, mas eu achei que...

- Achou o quê? - ele cruzou os braços e sorriu.

- Que havia alguma coisa...

- Tipo?

- Ah, você sabe?

- Não, eu não sei.

Sim, ele sabia muito bem, mas preferia fazê-la despejar seus sentimentos para massagear seu ego.

- Não mesmo? Achei que você estivesse lá comigo, durante esses oito anos, Louis.

Por essa ele não esperava.

- Você foi embora porque não precisava mais de mim. É isso?
- Não é isso, Clara. Eu acho que nós... Acho que nós já vivemos o que já tínhamos pra viver. Agora não tem mais nada. É a vida.

- "É a vida?" É assim que você resume tudo? Bom, na verdade não tem um tudo, né? Nós não temos uma história real, nós ficamos no quase por anos, Louis. Nosso quase-romance. E isso para quê? Para eu ser mais uma que passa pela sua vida e você diz: "é a vida", como se tudo fosse descartável, inodoro, indolor, incolor, insípido?

- Ótimo, agora eu sou o vilão e você está com raiva de mim...

- Não, Louis, eu não tô com raiva de você - Clara respirou fundo - Primeiro eu achei que eu não the conhecesse, agora vejo que, na verdade, você não mudou nada todo esse tempo.

- O seu problema é que você quer que os outros te amem como você os ama. A vida não é assim.

- E houve amor, então? Porque da minha parte não houve e você conseguiu estragar tudo pela segunda e última vez. Que não corra atrás de mim quando seu mundinho desmoronar de novo.

O diminutivo "mundinho" o deixava maluco, mas manteve sua postura. Clara continuou:

- Eu sei que eu quero que os outros me amem como eu os amo. Eu e metade da humanidade sentimos as coisas assim. Eu vi você deixar muitas mulheres para trás, sempre sob a bandeira do "é a vida", do desencontro. É tudo fachada. Para você, uma mulher a mais, uma a menos, tanto faz.

- Isso não é verdade: todas foram importantes de um modo ou outro. 

- Sim, elas foram importantes enquanto te satisfizeram, preencheram suas necessidades adolescentes. As pessoas são mais do que isso, elas têm sentimentos, sabia? Primeiro eu achava que você era assim por medo de amar alguém de verdade ou, por, se envolver de verdade, minimamente.

- Eu não tenho medo! - mentiu ele.

- Mas agora, eu acho que as coisas são ainda mais simples: você quer sempre mais, você quer tudo, nunca está satisfeito com o que tem. E eu respeito isso, a vida funciona assim para você. Mas não poderia nunca partilhar desses valores de eterna busca. Acho que o ser humano é movido pelo desejo, pelas suas vontades, mas não desse jeito que você faz. Essa necessidade de sair de porto em porto.

- E quanto de devo pela sessão de terapia, doutora? Acha que pode ficar me analisando, só porque analisa tudo a sua volta, é? E você me odeia por eu ser assim?

- Não.

- Tem pena de mim por isso?

Clara riu, leve.

- Não, eu não tenho pena de você. E o que me dá raiva é a situação, não você. Eu apostei minhas todas as minhas fichas e perdi. Perdeu a graça.
- É, a gente se decepciona.

- Não é isso, Louis. É que eu achei que comigo poderia ser diferente. Não que eu tivesse grandes pretensões românticas ou nupciais com você. Você não me decepcionou porque eu sabia qual era a sua natureza e você fez exatamente o que manda a sua natureza. Não o culpo por isso, não tem o que culpar. É o seu jeito e eu sempre soube disso.

Louis estava atônito, mas conservava-se impassível.

- Você se acha muito misterioso e gosta de joguinhos, mas, às vezes, pelo menos, é mais transparente do que imagina.

Longa pausa. Clara continuou:

- Olha, eu não estou aqui para te exigir nada, prometo também que não vou mais te encher. Só precisava desabafar sobre o que sentia. E vou embora sabendo que você se guarda do mundo e não vai me contar nunca o que sentiu sobre nós, sobre mim.

- Ué, você não disse que eu era transparente? - perguntou Louis irritado.

- Às vezes. Mas se protege sob uma armadura na maior parte do tempo. O que eu acho que não é só um direito seu, como também algo muito sensato. Talvez eu devesse fazer o mesmo e me entregar menos.

- Acabou?

- Acho que sim. Estou meio confusa ainda, mas acho que era isso.

- Tá.

Estava muito frio e Clara trazia um cachecol roxo no pescoço. Ela o ajeitou já tranquila.

- Abre a porta pra mim?

- Claro.

Junto à porta:

- Olha, eu espero mesmo que você encontre o que procura. Talvez nem você saiba.

- Mais alguma coisa?

- Ah! Você ficou com um livro meu...

- Qual?

- "Olhai os lírios do campo", do Érico Veríssimo.

Louis gastou uns cinco minutos para encontrá-lo em sua prateleira. Entregou o livro à ela.

- Tchau. Se cuida - ela sorriu.

Ia sentir falta daquele sorriso.

- Tchau - ele respondeu secamente.

Se alguém tivesse lhe perguntando sobre a história de ambos, sobre o porquê de eles não terem ficado juntos, Louis teria repetido o chavão por detrás do qual se escondia:

- É a vida.

Ouvindo If I had you (Nnenna Freelon)

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