Quinzinho e sua avó

Ele sorriu quando Garfield, secretamente adotado por Dona Cici, cruzou seu caminho com um andar arrastado. Cansaço? A avó tinha ido procurar os antigos albums de família: queria mostrar como Quinzinho não tinha mudado nada. Ah! Nada mesmo? ele passava a mão na barba delicada e sorria. Passou a mão pelos cabelos escassos, como que para ter certeza de que estava ali e de que aquilo estava acontecendo. Os cabelos fugiam aos feixes pela suas mãos agora fracas e magras. Mas não eram apenas os cabelos que escoavam por elas. Antes fossem só os cabelos.

- Olha você aqui, que coisa mais linda! - disse Dona Cici, voltando com um album velho, amorfo e cheirando a mofo.

Sim, Quinzinho tinha sido uma criança adorável. E realmente mudara pouco: os olhos amorosos eram os mesmos e mesmo diante das dificuldades, o sorriso tranquilo de quem já não está no controle permanecia em seus lábos semi-cerrados.

- Bom - ela olhou para ele, mais de perto - Você tá muito magro, meu filho. Parece ter mais ossos do que eu. Meus bichos empalhados têm mais vida do que você! - um gole de conhaque.

- É assim mesmo - ele pegou sua mão com carinho.

Dona Cici sentou-se na grande poltrona empoeirada - fazia duas semanas que faxineira não vinha e a velha senhora já não conseguia fazer o trabalho doméstico - e suspirou:

- Tem alguma coisa que eu posso fazer por você, meu querido? Tem bolo! Quer mais conhaque?

- Não, obrigado, vó. Estou bem.

- Está bem uma ova - ela olhou muito séria e lúcida - Bem estou eu que até mergulho consegui fazer antes que minhas pernas piorassem de vez. Eu não gosto da juventude, dos jovens. Acho que é tudo uma perda de tempo, quer dizer, você aprende na juventude e aproveita quando é mais velho. O problema é quando o corpo não acompanha. Mas você, meu menino... Você é um tesouro.

Quinzinho sempre fora seu predileto.

- Obrigado, vovó. Mas acho que tudo é importante, inclusive a juventude. Mesmo porque nem sou tão jovem...

- Para mim é sim e sempre será.

Ela olhou pela janela, mas ele não soube o que Dona Cici olhava.

- Leva os discos do Johnny Mathis: ele sempre me anima. Quer levar a Floquinho?

Quinzinho olhou para ariranha empalhada.

- Não, acho melhor ela ficar com você.

- Mesmo, meu querido? Ah! Quando alguém me fala groselha, eu imagino que ela é a Floquinho e aí fico bem. Depois de velha, me recuso a ouvir besteira. Uma pena eu ainda ouvir tão bem - ela riu gostosamente.

Quinzinho sorriu. E, por um momento, a vida pareceu leve novamente.

Ouvindo Tempo de pipa (Cícero)

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