17 de ago de 2011

20 e poucos anos: Hoje não

Entrei no chuveiro sem pestanejar, esperando em vão que a água fervente  lavasse tudo aquilo que escurecia minha aura.

- Aura? - perguntaria Raul, risonho.

Não, ele não acreditava naquelas coisas, mas acreditava que rir (de mim) era o melhor remédio. Não ia dizer nada, aliás, não queria ver Raul nem ninguém. Queria mergulhar no travesseiro felpudo que me fazia espirrar loucamente e esquecer de todo o resto - inclusive de Raul. 

Mas ele logo chegaria e reclamaria pelo fato de eu ter deixado seu banheiro em petição de pântano. Só que não quis saber de Raul, só quis saber do meu banho naquele momento, deixar a água cair pelos ombros sempre tensos, pelos cabelos (mais curtos do que nunca), pelos braços e pernas longas. Sentir a água escorrendo pelo próprio corpo podia ser uma interessante experiência de auto-descoberta:

- Sim, eu sinto.

(Logo existo?)

Mas o que se fazer com que sentia? Barulho de chaves, é Raul na certa. Ouço meu nome arrastado. Finjo que não escuto e três minutos estou em sua cozinha, enrolada numa toalha e descascando uma maçã com ar displicente. Mas ele me conhece:

- Que voz era aquela no telefone?

- Nada, ué. Voz normal.

- Você estava monossilábica: sempre que fica assim é sinal de crise. O que aconteceu?

- Nada.

- De novo. Deixa de ser chata e desembuxa, Lola!

- Ou o quê?

Cruzei os braços e ele me olhou com um ar horrivelmente paternal. Poderia ter dado-lhe uma bofetada e ainda culpar os hormônios. Homens culpam os hormônios. Mas foi a pinta no nariz, a querida pinta no nariz que impediu que eu fizesse ou dissesse qualquer coisa. Eu o amava acima de qualquer coisa - e ele sabia.

- Olha, eu não tô bem, mas não quero falar sobre o assunto.

Sorri e entreguei-lhe a maçã descascada (Raul adora maçãs!). Ele me olhou perplexo:

- Acho que é a primeira vez que ouço que você não quer falar sobre um problema. Não quer mesmo conversar? Foi o namorado? O emprego? O chefe? Aquele babaca de novo? Você sabe que eu conheço gente no Jardim Nakamura...

Ri de Raul, de sua vontade maluca de me ajudar, ainda que por meios escusos.

- Não importa, mesmo. Hoje não quero conversar. Hoje não.

Ele me olhou com piedade e levantei a voz, como que para me defender:

- Vou sair para resolver umas coisas. Posso levar suas chaves? Meu apartamento tá sem luz:, cortaram. Esqueci de pagar a conta. 

- Pode, caro. A casa é sua, você sabe. 
- Eu diria o mesmo se meu lar doce lar estivesse em melhores condições. Bom, vou me arrumar. Já volto.

Voltei, já vestida e pintada. Palhaça? Talvez todas as cores e batons pudessem esconder o que vinha de dentro e de derramava por fora, mas não esconder de crianças:

- 'Cê tava chorando, tia? - o filho de Raul ao me olhar de relance.

Apareci na sala para me despedir de Raul - olhar fixo no televisor. Noticiário? Vício. Ele me beijou a mão e beijei-lhe a testa. Ele mandou que eu ficasse bem e simplesmente sorri. Ele não tinha mais nada a dizer. Nem eu. Exceto por, já junto a porta:

- Sabe o que eu mais queria agora?

- O quê?

- Saber escrever bem para poder expurgar tudo o que sinto. Tudo.

Um comentário:

Leandro Amado disse...

Adoro essas capturas de momentinhos do cotidiano. Muito gostoso o texto.