31 de out de 2011

Adeus unha da minha carne ou Sobre a valorização na partida

Ficou hesitante e eu esperando sua decisão. Decidiu finalmente e foi embora - definitivamente. Fiquei olhando a lacuna deixada pela sua ausência. E foi aí que percebi como era importante, como sentiria a sua falta. Pois é, caríssimos, hoje perdi uma unha. Nosso rompimento se deu há mais de dois meses, num acidente com uma pesada porta de ferro e, desde então, tenho esperado a nossa separação definitiva.

Não é poético como quando uma criança perde um dente. E, definitivamente, eu não poderia ser uma das heroínas de Alencar. Mas quem quer ser uma heroína dele? Ah, eu quis. Aurélia. Mas faz tanto tempo que eu já nem sei. Minha aspiração hoje talvez fosse ser um rebento de Machado ou Lygia Fagundes Telles ou do meu Ignácio. Quero pouco, né? 

Só percebi como as minhas unhas são importantes agora que uma se foi. E não é porque o meu indicador fica feio, mas porque fica desprotegido. Batman, Pucca e demais personagens hão de animar meu dedo, enquanto ele fica soliário, sem a unha de sua carne. Porque as unhas podem ser substituíveis - embora tenha tido medo de ficar sem para sempre.

Unhas são substituíveis. Pessoas não. Mas, se por um lado, quanto à unha, dei pouco valor e só reconheci a importância na ausência, por outro, nunca fiz tal coisa com pessoas. Sempre reconheci o valor de quem já passou e quem anda passando pela minha vida. Cada um com o seu valor, com a sua importância.

Mas assim como unhas podem partir, mediante choques literais, pessoas também podem ir embora. E aí a vida continua (hoje ouvi e gostei: A minha vida continua/ Mas é certo que eu seria sempre sua). Seja sem a unha, seja sem certas pessoas. Aparecerá outra unha, aparecerão outras pessoas. Serão unhas e pessoas diferentes: nem melhores nem piores, só diferentes.

E únicas.

30 de out de 2011

Conversando com o Jornalista [1]: Porque as experiências deveriam ser sagradas

Falávamos de cinema e lhe fiz uma indicação. Voltei atrás:

- Acho que você não vai gostar. Melhor nem procurar o filme.

(um filme que eu adoro e que julguei  ele não fosse gostar)

Foi então que ele levantou uma questão fundamental: sim, ele podia sim gostar do filme, mas, pior do que isso, eu o estava impedindo de viver sua própria experiência, tirar suas próprias conclusões, ter suas próprias impressões.

Sim, o que tentei fazer foi quase criminoso, apesar de não constar na legislação brasileira, porque privar as pessoas de terem suas próprias experiências é algo condenável, por melhor que sejam as intenções - e eram as minhas.

E quantas vezes não poupamos os outros, protegendo-os do que achamos que devem ser protegidos, sem parar para pensar que muito provavelmente precisam daquele experiência?

Porque elas são únicas. E deveriam ser sagradas.

29 de out de 2011

Trashgirl conhece Zeca

Aconteceu um pouco antes de tudo acontecer: o surto, o manicômio, o primo. Estava saindo com Zeca, um cara legal. A princípio. Um pouco mais e ele era precipício. Mas quem ia pular?

- Não vai mais dar pra gente se ver, Zeca - começou ela, certa noite, entre uma bebida e outra.

- Por quê? Fiz alguma coisa errada? - perguntou ele, surpreso.

- Bom, não é que você tenha feito algo, mas que você seja algo.

- Não entendi, Trashgirl.

- Então eu vou explicar melhor: não sou eu, é você

- Como? 

Zeca nunca tinha ouvido aquilo antes. Ficou confuso.

- Gosto de conversar com você, você é interessante e tudo mais, mas é muito pesado. Estar com você é tudo sempre muito pesado.

- É por que eu sou sério demais? É isso? - perguntou ele, já prevendo debandada.

- Não, pesado é o modo como você encara a vida. Seu jeito de ver o mundo.

- É porque eu sou dramático. Cheiro à tragédia, é isso?

- Não, Zeca. É que, para você, viver é um fardo que tem sido arrastado, entende? Você tinha que achar alguém que te tirasse dessa, mas você parece satisfeito assim. Eu, por minha vez, estou procurando outra coisa. Não temos nada  oferecer um ao outro.

- Mas eu gosto de você, não basta?

- Não, infelizmente, "gostar" é um detalhe.

Silêncio.

Depois de abraçá-lo ternamente e de um "sinto muito" bastante sincero, Trashgirl arrumou as plumas de suas asas (ainda intactas naquela época) e saiu voando barzinho a fora. Zeca, por sua vez, matutou descontente sobre as justificativas dela, enquanto admirava e polia as correntes que o prendiam junto à terra.

Ouvindo The park (Feist)

28 de out de 2011

Rumo ao mar





Via o amor escorrer pelo ralo e o rodo não dar conta: reter a partida do que precisava ir.

27 de out de 2011

It's not the drinking

Sexta-feira à noite, os dois amigos conversam num bar:

- Gente, eu só atraio caras complicados, cheios de neuroses! - ela desabafa.

- Mas eu não sou complicado nem tenho neuroses - ele desabafa.

Ela faz cara de ponto de exclamação e mentalmente atribui a declaração ele à bebida. Alguém desaba.


26 de out de 2011

O lado de bode expiatório de todo porco

Sujar-se como um porco
Serviço de porco
Espírito de porco
Porco burguês

Alguém me disse que chamar alguém de "porco" em alemão é extremamente grosseiro.

Que porqueira!
Que emporcalhado!
Que porcaria!

Chouriço! Alguém sabe do que é feito?

Tem sua moradia derrubada.
Seu sangue é usado para humilhar garotas paranormais.
Sua carne é motivo de cobiça.

Não dá pra pegar mais leve?

25 de out de 2011

Intolerância animada

Os dois videos são ótimos exemplos de intolerância - e ambos me partem o coração. De verdade. Mas são ótimos para nos fazerem refletir - e agir.




24 de out de 2011

Por água abaixo

Bibi olhou para o pai:

- Ô paaaaai! Por que o meu peixinho está de barriga pra cima?

O pai olhou desconcertado para o peixe beta, depois para Bibi, depois para o peixe beta de novo - a grande sensação do momento, presente de aniversário de seis anos de Bibi.

- Hum. Não sei não... Pergunta para sua mãe.

- Ô manhê! - gritou Bibi ao sair correndo para a mãe.

Quando ele chegou e perguntou, ela fez cara de ai ai ai: lá vinha uma das verdades universais sobre a vida. O marido, um frouxo. E ela tinha que contar. Contou.

Bibi se despede do peixe beta cor de cenoura: seu mergulho final no vaso sanitário se fez inesquecível.

P.S. Feliz Aniversário, Charlie!

23 de out de 2011

Diário: True Blood

Quando já estava sentada bonitinha, braço estendido, perguntei sobre doação de plaquetas. A simpática enfermeira respondeu:

- Você tem que ligar para agendar: demora uma hora e meia para extrai-las. Olha, tem que ter uma veia forte para aguentar o retorno no sangue. As suas são até visíveis, mas finas e frágeis.

Olhei para as veias e depois para a enfermeira, como que me desculpando. Todavia, tão logo ela furou meu braço e começou a extrair o grosso líquido vermelho, comentou surpresa:

- Nossa, acho que eu me enganei: suas veias são fortes.

- Elas enganam mesmo - sorri.

E minhas veias são tão surpreendentes quanto eu. Há!

Hoje foi a primeira vez que doei sangue, em comemoração ao aniversátio de Charlie. Nunca tinha feito isso antes por causa do peso, mas, dessa vez, calhou de ele estar ok. Sim, a Charlie decidiu comemorar o seu 20º ano doando sangue. 

Foi tudo rápido e achei a coisa toda muito interessante. Vida? Vida. Impossível não pensar em Thor e em todos os outros caras que conheço com medo de agulhas. Só o que me assustou foram as minhas respostas ao questionário da médica: me senti terrivelmente pacata. Não viajei para lugar nenhum, não pertenço a qualquer grupo de risco, não fiz isso nem aquilo... Puxa! Me senti a pessoa menos interessante de todo o mundo, mas  também sem qualquer vontade de sê-lo, se para isso eu precisasse responder "sim" a qualquer pergunta feita pela médica. Ah! Posso até ser a pessoa menos interessante do mundo, mas pelo menos alguém cujo sangue (oriundo de veias surpreendentes) pode salvar vidas. É um consolo.


Ouvindo My body is a cage (Arcade Fire)

Cemitério particular

Múmia





O que fazer com os cadáveres das coisas que as pessoas vão matando em você?

22 de out de 2011

Distância


[...]

A: - É que nesse caso era um relacionamento à distância com prazo pré-estabelecido.

B: - E adiantou ser um relacionamento à distância com prazo pré-estabelecido se acabou tão logo ele retornou?

A: - Bom, olhando por essa perspectiva...

[...]

21 de out de 2011

Sobre pais sensuais (oi?) e cerveja alma-gêmea (oi?)

Me interesso por publicidade e por propaganda, uma pena só não ver tanta tevê. Se bem que as coisas que tenho visto me causam algum estranhamento, como a nova campanha da cerveja Itaipava ao som de Only you - coisa de partir o coração,  e não uma história de amor entre o freguês e a cerveja. É nessas horas que eu lamento tremendamente o fato das coisas que caem em domínio público sem nenhum bom senso.

Outro caso bizarro é o da marca Jequiti, do eterno Silvio Santos. Os slogans são fraquíssimos, mas um deles me causou uma inegável sensação de como-é-que-é?. Não me lembro do nome do perfume em questão, mas o slogan era algo do tipo: Para o seu pai ficar sensual. Gente! Quem é que pensa no pai desse jeito? Não que o pai não possa ficar sensual/ não seja sensual, mas um filho vai pensar no pai assim? Rolou uma suave menção a incesto ou Complexo de Electra?



20 de out de 2011

Dos convites e das ofertas recusados

Quer ir a feira comigo comer pastel? Então quer que eu te traga um pastel? Uma carona? Pode chorar no meu ombro. Me dê a mão. Um beijo e tudo logo passa. Um lenço. Balas de coco são minha obsessão, quer algumas? (mão em concha cheia). Um cinema sábado à noite? Um barzinho? Tô a fim de dançar, vamos? E o que você quer fazer? Piquenique cedinho ou dormir até tarde? Quer um par de meias emprestado? Sim, estão limpas, é claro. Quer envelhecer comigo? Deixa que eu carrego. Okay, dessa vez passa. Também da outra. E outra e mais outra. O rim. Vamos tomar um café? Mas eu vou pedir um chá... Vamos de comida tailandesa? Almoço na faculdade? Jantar à meia luz? Banho de cachoeira? Viagem para o litoral? Quer sair do país? Massagem? Um afago. Pode pegar o meu casaco, está frio. Só tenho esse bis, mas você quer? Experimenta o suco de melão. Trouxe essas flores para você. Essa música eu dedico a você. Sim, você é o protagonsita do meu romance. Vamos fugir?

Dá para dividir a vida com a simplicidade com a qual se dividi um sunday de caramelo. Topas?

É isso o que podemos oferecer. E o fato de recusarem não pode diminuir em nada (ou quase nada) a nossa vontade de convidar e ofertar cada vez mais e o melhor de nós

19 de out de 2011

(in)certezas

A: - Eu achei que ele fosse a pessoa certa...

B: - A gente sempre acha que é.

A: - A gente sempre quer que seja.


18 de out de 2011

Harry Potter não faz mágica

Aqueles jogos de adivinhação que eu detesto:

Charlie: - O primeiro nome do meu médico é o mesmo de um bruxo famoso!

Eu: - Hum. David... David Copperfield!

Charlie: - David Copperfield é mágico, não bruxo.

Silêncio.

Eu: - Harry... Harry Potter.

Charlie: - Isso. Nossa, você tá confundido mágica com bruxaria? Bruxos não existem...

17 de out de 2011

Interlúdio

Você pode falar que vai me esperar:
Espere se quiser,
Não me importo.

A minha constância é coisa minha:
Não tem nada a ver com os outros.

Sinta o que quiser,
Mais me importa o que eu sinto:
pois não tenho qualquer controle sobre você.

(nem quero ter)

Só sei do meu gostar,
e ele vai longe:
Tempo e espaço.

* de uma conversa com o Felino.

16 de out de 2011

Diário: Why does it always rain on me?

Não precisei ir a psicológo para resolver my inner issues com chuva, garoa e afins. Céu cinza, tempestades, mas principalmente aquela garoa fina de cortar o coração. 

Talvez a grande questão seja a que eu tenha associado rainy days com lances emocionais e psicológicos. A primeira vez que me dei conta disso foi em julho de 2005, enquanto eu esperava um ônibus sozinha e deprê e matutava como a minha vida sentimental estava bagunçada, cheia de indefinições. 

Claro que as definições vieram depois, mas muitos dias chuvosos também. Mas vieram também muitos dias de vento, ventania, me leve sem destino. Sempre gostei de vento, muito mais um lance Winds of change do que Pocahontas. Seja como for, é música. Singing in the rain é uma boa pedida animadinha também.

Eu disse ao Economista que muitas águas tinham rolado desde que tínhamos nos falado pela última vez - coisa que ele não entendeu, visto ser o Economista, naturalmente. Mas a sua incompreensão e a incompreensão de outras pessoas (ou mesmo o descrédito alheio) não torna o meu sentimento menos genuíno.

Ontem à noite, eu estava esperando minha carona. Enquanto ela não chegava, fiquei ali, esperando debaixo de chuva, uma chuva suave que me fez matutar e fazer uma breve respectiva sobre meus dias chuvosos. E sobre os ventos da mudana que ainda estavam por vir.

Pensando na vida, cantarolava baixinho todas as canções que me vinham à cabeça. As gotas de chuva dançavam junto aos postes de luz amarelada e pousavam delicadamente em meus pés semi-nus. De repente, me senti viva, como a muito tempo não sentia...


Vaca!


15 de out de 2011

Se a vida é um laboratório, quem são as cobaias?

Ando com alguns nacos de poema na cabeça, deve ser porque comecei a trabalhar Bandeira com meus alunos - embora não tenha lhes apresentado (ainda) meu poema favorito ever. Lembrei de alguns trechos de um poema sobre água: Lição sobre água? Amo o Google:


Lição sobre a água (Antonio Gedeão)

Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.

É um bom dissolvente.
Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.

Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.

Adoro esse poema (ensino médio? sim, ensino médio!), mas pensei nele porque a palavra química não me sai da cabeça há quase uma semana.

Não estou falando da química da sala de aula, estou falando da química que pode existir entre duas pessoas. Você já se perguntou quantas vezes esbarrou com aquela pessoa? Alguém com quem você tivesse química? Bom, eu conto nos dedos (de uma mão) essas tais pessoas...

E o que faz a química? Bom, as reações químicas dependem de um conjunto de fatores, certo? A química entre duas pessoas é a mesma coisa, mas eu não sei explicar: é mais uma coisa que se sente. Como disse a Dinha por esses dias, é quando tudo simplesmente flui.

Talvez fluidez seja a palavra. Tudo flui com naturalidade. Convivência e conversa fáceis. Afinidades. Empatia. Aquela sensação de que você conhece a pessoa há mais tempo do que realmente conhece...

Olha, nem vou me preocupar muito em explicar: é uma sensação que todo mundo já sentiu pelo menos uma vez na vida. O que fazemos com ela? Bom, vai de cada um. Seja como for, é algo delicioso.

Ouvindo The Park (Feist)

14 de out de 2011

Clara, a Irresistível ou Fuga

Clara estava com Lô no Franz Café da Paulista:

- Então... Estou precisando te contar uma coisa. - começou Lô, sem jeito.

- Aconteceu alguma coisa? - quis saber Clara.

- Então... Sabe a Tuti?

- Aquela sua amiga que conheci na festa, sei. Que tem ela?

- Então... Ela está a fim de você. Muito a fim mesmo - disse, como que pedindo desculpas.

- Oi? - olhos arregalados.

- Verdade - coçou a cabeça.

Silêncio.

- Você está agradando meninos e meninas, vai bem - sorriu Lô.

- Hum. Acho que é hora de reaproveitar as antigas alianças guardadas.

Sobre meninas e vestidos

Namorou o vestido na vitrine por alguns minutos antes de entrar na loja. Se não estivesse a pé, mal a teria notado, por conta da entrada estreita. Mas notou, notava tudo. Perguntou para a moça se tinha em seu tamanho: as roupas costumavam ficar grandes demais, cheias de espaços não preenchidos, alças fugidias, volumes sem propósito. 

Sim, tinha o seu tamanho. Tomou o vestido para si e foi experimentá-lo. Perfeito. O que fazer quando um vestido cai como uma luva? Fica perfeito? A escolha era levá-lo, sem dúvida. Acinturado, tom pastel, alças cruzadas. A tatuagem à mostra. Os joelhos também. Dava para sair com ele para o trabalho ou para o fim de semana.

E, por mais que negasse, era ainda aquela figura romântica. E o sorriso de quem sabe um segredo grande. Váriso segredos na verdade, sendo um deles o que vestidinhos leves de verão podiam se revelar grandes armas - e armadilhas.



13 de out de 2011

20 e poucos anos: Deitado eternamente em berço esplêndido

Quando me virei, meu braço não encontrou Lô na cama. Perdida entre os lençóis? Sua pequenez não era para tanto. Abri os olhos e nem sinal dela. Mas seu cheiro tão próprio permanecia no travesseiro. Intacto. Ela devia ter saído e deixado um bilhete. Devia ter ido comprar pão, leite ou algo assim. Coisa dela.

Fazia três dias e nem sinal dela. O celular desligado. Sem sinal? Seria a desculpa dela, caso voltássemos a nos ver. Já não sabia se voltaríamos. Lô era muito infantil: quando surtava, sumia sem dizer nada, não tentava conversar. Ê mulher mais difícil. Um criança birrenta, isso sim. Coisa dela.

Mais quatro dias. Fiquei repensando as coisas que tinha dito e feito ultimamente. Tentei refazer o caminho de volta, como se ele pudesse me levar de volta a ela, me trazê-la de volta. Pela primeira vez, tive medo de perder minha melhor amiga.

Lô operava pela lógica (lógica?) dos filmes: reclamava que em nenhum de seus romances um homem havia se arrependido nem lhe pedido perdão, como ocorre sempre nos filmes. Quando eu lhe disse que talvez não houvesse o que ser perdoado, ela ficou furiosa e me declarou "homem", por extensão, insensível. Eu achava que ela estava bem errada, depois, pensei que ela bem que podia estar certa. Hoje, acho que ela estava certa e errada

Duas semanas. Àquela altura, meu peito estava apertado: nunca tínhamos ficado tanto tempo sem nos falar.  Mas eu sabia que ela estaria bem. Sempre. Lô surtava, rangia dentes, sofria intensamente, ia ao fundo do poço, só para depois voltar mais forte. Sim, eu a invejava por isso. 

Ela deve estar bem e começo a me perguntar como eu estou me sentindo.

Tenho medo de não conseguir desfazer o laço que ela desfez. Mas desfez mesmo? Um laço depende dos dois. Dois. Poderia então ser desfeito por uma das partes, por vontade de apenas uma das partes?

O seu cheiro tinha deixado de existir no meus travesseiros e nos lençóis: não o sinto mais - e não sei bem o que sentir.

12 de out de 2011

Metamorfose de Forster



Ter sangue de barata faz de mim uma barata?

(não, porque eu não tenho sangue de barata, mas um auto-controle dos diabos)


11 de out de 2011

Contradições sobre filmes diabéticos - ou pelo direito de se iludir

Estava numa interessante rodinha de conversa no domingo quando a pauta "comédias românticas" foi colocada. Quando Lady e eu comentamos que gostávamos de 10 coisas que eu odeio em você (1999), a.k.a. Jonas perguntou a nossa idade.

Sim, eu entendi perfeitamente sua observação: 10 coisas que eu odeio em você é considerado um filme para menininhas. Comédias românticas podem ser vistas como filmes para menininhas. Quando comentei com o Historiador que tinha assistido Educação (2009), ele disse que era filme de menininha. Aí eu tive que discordar.

Mas por que digo que é filme de menininha? Porque é previsível, bonitinho e pinta um mundo que, convenhamos, não existe. O que não é exatamente um problema, desde que não se pense que eles retratam fielmente os relacionamentos entre homens e mulheres.

Bom, isso de fato eles não fazem. Pura idealização. Se quiser saber de verdade como essas coisas funcionam, a sugestão é ler Ignácio de Loyola Brandão e Milan Kundera (em especial Risíveis amores e A insustentável leveza do ser), dois dos meus autores preferidos e que, na minha humilde opinião, melhor falam de amor e sexo. Ou ainda assistir o drama Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Ou ainda 500 days of Summer que, a despeito de ser rotulado como "comédia romântica", traz uma outra perspectiva quanto aos relacionamentos.

Filmes açucarados assim costumam servir de analgésico em momentos sofridos - e sofríveis. Às vezes não tem colo, ombro ou ouvido alheio e, mesmo quando há, é sempre bom ouvir algo do tipo:

- Vai ficar tudo bem.

Quem não quer um final feliz?
Mesmo quando ao desligarmos a tevê, constatarmos que a vida lá fora não é assim. Mas disso todo mundo sabe! Então porque condenar quem decide se iludir por uma hora e quarenta, sendo que depois a pessoa em questão vai voltar a sua vida cotidiana, sem o Heath Ledger cantando Can't take my eyes off you?

Tenho visto como a vida funciona e sei que não é bonito como se fala. Normal: sem traumas nem neuras. A Dinha que ficaria orgulhosa de mim, dessa minha sobriedade genuína entre um cigarro e outro - eu não fumo, ela sim. Como ouvi hoje no rádio:

I'm allergic to tragedy

Mas o que eu tiro dos filmes água com açúcar é que às vezes é tudo o que você precisa para se desligar da vida. Não gosto da idéia de ficar ligada e ser crítica e tensa 100% do tempo, porque está tudo difícil, porque temos que ser sérios e engajados: eu quero a doçura, eu quero a leveza - flertar na chuva sem grandes expectativas, torrar dinheiro em livros, falar bobagem o domingo inteiro.

A despeito do meu discurso pró, eu mesma nem curto muito comédias românticas, mas todas as da Audrey Hepburn. Eu bem podia ter nasciso encantadora e graciosa como ela - talvez a terapia me ajude a superar tal lacuna de identidade.

A leveza da qual falei, costumo encontrar em outros lugares. Acho que por isso mesmo as comédias românticas não tenham muita graça para mim: prefiro dramas, mas não melodramas. Na verdade, qualquer coisa que me faça pensar, ver o mundo por outra perspectiva. Eu já disso isso aqui e digo de novo.


P.S. percebi que uso muito "às vezes": acho que é minha essência relativista transbordando o copo, o corpo - entre o copo meio cheio e meio vazio, já não escolho o meio cheio: simplesmente transbordo.

Ouvindo Bem-me-leve (Apanhador Só)

Relaxar? Mas quem disse que estou tensa?



Me irrita - profundamente - a pretensão dos CDs de New wave com cachoeiras e pássaros ao fundo. Quem disse que isso relaxa? Quem eles pensam que são para me dizerem o que me deixa relaxada?

9 de out de 2011

Por que você pisa na bola?

A: - Acho que as pessoas pisam na bola com a gente muito mais por imaturidade ou ignorância do que por maldade mesmo, sabe?

B: - Também acho isso.

A: - Só que nem sempre isso serve de consolo pra mim. Na verdade, quase nunca serve.

B: - Nem pra mim.

8 de out de 2011

Diário: O que te faz feliz?

Devo ter chorado umas quinhentas vezes com a campanha publicitária do Pão de Açúcar de dois anos atrás, na qual Arnaldo Antunes, com aquela voz (ah!), entoava:

- O que te faz feliz?

A despeito dos motivos pessoais, eu realmente gostei da singela campanha, na qual a felicidade era colocada como uma coisa bastante simples...

... E não é?

Passei por uma situação bastante desagradável recentemente que me fez reconsiderar uma série de questões. Bom, crise bem aproveitada é crise da qual você sai com algumas coisas mais acertadas, não? Alguém me disse, não lembro quem, que é bom chegar ao fundo do poço, pois uma hora não tem mais como descer -  e é essa a hora de procurar a luz no fim do poço - e do túnel. E eu gosto de luz. Sempre gostei. Sou uma criatura solar.

Hoje, falávamos sobre sentimentos numa das aulas e me peguei perguntando aos alunos:

- O que faz vocês felizes?

Ter dinheiro. Ver meus amigos. Ficar com minha família. Ver meu pai. Ir ao show do Justin Bieber. Brincar com meu cachorro. Sair com minha mãe. Jogar futebol. Dançar a tarde toda. Acordar tarde.
E então eu me perguntei: O que me faz feliz?

(e foi com uma facilidade doce que respondi)

Mas e aquelas coisas que podem te fazer feliz e você só não sabe porque nunca as teve? O não-conjecturado. 

Hoje, recebi um gracioso poema de uma aluna de nove anos.

Não tive escolha: me derreti. Já tinham me escrito poemas e versos, mas nada com aquele olhar, com aquele tom: nunca uma criança tinha me escrito um poema. E é diferente de qualquer coisa que eu já tenha recebido de namorados ou de qualquer outra pessoa.

E me fez sentir outra pessoa. 

Por vezes, não sabemos da importância que podemos ter na vida alheia. Eu mesma disse por esses dias:  

"Boa parte das pessoas procura o amor onde ele não está, em vez de perceber as pessoas maravilhosas à sua volta".

Sim, Arnaldo, eu sei muito bem o que me faz feliz. E agora sei de mais coisas e coisas que me fazem feliz. E sei que o amor está aqui, bem aqui: dentro de mim. E sei também que ele transborda pelos poros das pessoas por aí.

Mas a grande questão não é a de que o amor está lá: está, é fato. Tudo está no modo como encaramos o café partilhado, o riso roubado, o trabalho bem feito, o beijo dedilhado, a conversa de quinze minutos durante a janta, a ajuda com caixas pesadas. Ou o poema de uma criança. 

Um simples olhar, mas não um olhar qualquer.

P.S. Ligeiramente piegas, mas poucas vezes eu me vejo derramada-desarmada assim. Meu sorriso é sincero.

7 de out de 2011

A Morcega: O incompreendido

Para Scarlet

Ele sempre vinha com a mesma lenga-lenga:

- Ninguém me quer.

E a Morcega, sempre compreensiva, consolava o rapaz com palavras motivadoras e tentava oferecer outros pontos de vista. Ele era um cara muito legal mesmo, fora da média, sabe? Mas o problema era a baixa auto-estima. Foi assim durante anos: ficavam meses sem se falar e quando se falavam era sempre a mesma coisa.

Ele sempre vinha choramingar pelo fato de estar sozinho. Sempre um fim dolorido de namoro.

- Ela terminou comigo.

Sim, a Morcega ponderava com carinho que haveria outras namoradas. Ele era aquele drama, sentindo-se o último homem da Terra: sempre preterido. E era um cara tão legal! Mostrava-se um cara tão acima da média, divertido, inteligente... Especial: era essa a palavra. Como podia estar sozinho? a Morcega se perguntava - e ele também se perguntava, embora secretamente.

Um dia a Morcega encontrou uma antiga amiga, a Insensível. Comentou algo sobre ele e a amiga sorriu cáustica:

- Ele sai pegando geral, sabia? Conta vantagem para os amigos e tudo mais. Conta com quantas ficou por noite, de inseguro não tem nada não. Conta o que fez e o que vai fazer ainda.

- Engraçado. Para mim ele se mostra outro: frágil. Se faz de vítima o tempo todo, me cansa até.

- Vai ver era um ardil para ficar com você.

A Morcega arregalou os olhos como num susto e esclareceu:

- Uma época ele ficou atrás de mim, até que eu o chamei para sair. Ele fugiu. Deve ter medo de mim, medo das coisas de verdade. Acredite. Seja como for, ele não é o que me fez crer, aquilo o que pintou. Não passa de um cara... comum.



5 de out de 2011

Diário: Madeixas encantadas

Bel: - Tia, o seu cabelo tá bonito!
Eu: - Tá nada, Bel: conforme ele vai crescendo, fica sem corte, sem forma. Fica meio blé!
Bel: - Ah! Mas eu gosto assim: umas pontinhas ficam viradas para dentro e outras para fora.

E eu pensando que certos discursos masculinos me derrertiam: o discurso infantil deixa qualquer marmanjo no chinelo quanto ao quesito derretimento. É tremendamente mais eficaz. 

Assistir Monstros S.A. me fez perceber isso hoje também.

P.S. Tem como não amar a Bel? Ou a Boo?

4 de out de 2011

Quero que meu alterego seja o par maduro

Às vezes eu tenho uns raciocínios tão tortos que me assusto. E em tempos em que confiar no olhar do outro se torna cada vez mais delicado, eu mesma me dou um bom puxão de orelha, ao qual respondo:

- AAAAAAAAAAAAAI! Doeu!

- Então pare de pensar besteira e encare as coisas como são, em vez de olhar as coisas e e você mesma por essa perspectiva torta! - brigo.

Meu outro "eu" me dá colo às vezes, mas o que me dá safanão faz muito mais por mim. Se bem que não há quem diga:

- Tudo vai ficar bem.

como o meu "eu" mais manso.

Não sou de beber, mas às vezes é difícil encarar as coisas com sobriedade. Sem errar na dose. Sem passar o ponto. É a isso que se chama "crescer"? Achar o ponto? Sei lá, mas dói e muito mais do que as minhas pernas doíam quando eu era pequena (diziam que era "dor de crescimento" e olha a minha altura modesta, vai entender?).

Ah! Quero umas férias de ser o par maduro. Sempre. Um dos meus alteregos poderia brincar disso, não? O que não significa que quero para mim o direito de espernear loucamente.

O Cineasta viu umas gracinhas minhas no facebook e hoje, pela manhã, comentou:

- Acho que eu não sou o par maduro, nem nunca vou ser.

Ri.

Juro que tem coisas que eu não faço questão de saber. A ignorância pode ser uma benção. Mas é o conhecimento que nos liberta, não? Conhecimento científico, da vida, das canções da Marisa Monte. Ou do Chico.

Me assusto com a vida, com as minhas obsessões analíticas, jogos empíricos, jogadas certeiras, certezas femininas, feminilidade incisiva. Mas é tudo susto gostoso de parque de diversões. Com direito a algodão doce.

3 de out de 2011

Fora do tempo

A: - Acho que eu nasci para ser passado dos outros: não me querem para futuro.

B: - E se te quiserem para presente?

A: - Quem? Não sou presente. E acho que nem de passado sirvo: logo me esquecem.


Nem todos são atemporais e muitos estão apenas fora do tempo.


2 de out de 2011

A lógica dos relacionamentos Fast-food e dos descartáveis

Estava tendo uma conversa interessante com a Advogada. Comentei algumas coisas que vinha observando e ela me veio com uma teoria: a Teoria dos relacionamentos Fast-food.

O nome fala por si só: são aqueles relacionamentos-relâmpago. E eu pergunto: por quê? Conheço pessoas que têm medo de se envolver de verdade, por isso caem fora antes que se apeguem pra valer. Não sei se as pessoas estão mais intolerantes e partem ao primeiro sinal de dificuldade. A impressão que tenho é que não querem ter trabalho, querem tudo pronto, o outro pronto, já perfeito. Não querem, de fato, crescer e caminhar junto.

Outras se apegam tão facilmente quanto se desapegam: planos vão por água abaixo. Outras se auto-afirmam com a diversidade. Outras devem achar que a vida é um buffet do qual podem experimentar de tudo - e todos. Outras superestimam o que sentem porque não fazem idéia de quem são. Em suma, estão todos perdidos.

O problema de todas essas situações é que tem sempre alguém mais envolvido. Todo mundo me fala que relacionamentos são feitos de duas pessoas. Então por que será que não se pensa de verdade no outro? Por que será que não se considera os sentimentos alheios?

Está faltando alguma coisa ou é impressão minha?

Eu admiro a constância de Penélope, embora não acho que as pessoas sejam capazes do que ela foi. Vejo poucos casais que estão juntos há muito tempo. E, menos ainda, casais da minha faixa etária que escolheram ficar juntos.
 
Uma vez, o Historiador me disse que tinha muito medo de nunca amar ninguém. Não sei se isso foi joguinho ou se foi sincero, mas não importa: pessoas como ele estão sempre em busca e nunca contentes com o que tem. Isso não é falha de caráter nem nada do gênero: é apenas um modo de encarar a vida - só que um modo que provavelmente não combina com amor. Bom, não talvez com o conceito que eu tenho de amor. Amor como construção.

Na mesma linha, estão os relacioanamentos descartáveis: deixou de ter utilidade, é jogado fora. Normalmente, tais términos são abruptos e feitos sem grande preocupação com o outro: se pode terminar por MSN, e-mail, orkut ou qualquer outra mídia social. Nem mesmo um telefone o descartável merece - porque é difícil para quem vai embora. Não vale o esforço dar satisfação. Não vale a pena explicar. Melhor sumir e rezar esperar que o outro faça o mesmo.

As pessoas fazem promessas que não cumprem. Declaram coisas sérias demais para serem reais, mas que são levadas à sério. O amor não sai da boca das pessoas, é uma febre, mas não aparece em ações e intenções.

Está difícil ver o amor que saboreia a companhia do outro, a presença do outro, as palavras do outro, os defeitos do outro. As razões para isso são inúmeras, comentei apenas algumas delas.

Quero o Nº4. Ah! Já não quero mais... Mas desconfio que as pessoas têm sentimentos.

Como ser um grosso completo e desprezível

A adorável M.T. Bianco elogia o penteado da aluna:

- Seu cabelo está lindo hoje!

- Obrigada! - a mocinha responde.

- É que ela vai no ginecologista hoje! - responde uma voz masculina do fundo da sala.

Não, não foi numa sala de aula de adolescentes: foi num grupo de pós com administradores, jornalistas e professores. A figura sensível em questão tem entre 35 e 40 anos, o que confirma o fato de que idade cronológica e mental não são equivalentes. Além disso, ele é casado . Bom, neste mundo tem gosto para tudo.