13 de out de 2011

20 e poucos anos: Deitado eternamente em berço esplêndido

Quando me virei, meu braço não encontrou Lô na cama. Perdida entre os lençóis? Sua pequenez não era para tanto. Abri os olhos e nem sinal dela. Mas seu cheiro tão próprio permanecia no travesseiro. Intacto. Ela devia ter saído e deixado um bilhete. Devia ter ido comprar pão, leite ou algo assim. Coisa dela.

Fazia três dias e nem sinal dela. O celular desligado. Sem sinal? Seria a desculpa dela, caso voltássemos a nos ver. Já não sabia se voltaríamos. Lô era muito infantil: quando surtava, sumia sem dizer nada, não tentava conversar. Ê mulher mais difícil. Um criança birrenta, isso sim. Coisa dela.

Mais quatro dias. Fiquei repensando as coisas que tinha dito e feito ultimamente. Tentei refazer o caminho de volta, como se ele pudesse me levar de volta a ela, me trazê-la de volta. Pela primeira vez, tive medo de perder minha melhor amiga.

Lô operava pela lógica (lógica?) dos filmes: reclamava que em nenhum de seus romances um homem havia se arrependido nem lhe pedido perdão, como ocorre sempre nos filmes. Quando eu lhe disse que talvez não houvesse o que ser perdoado, ela ficou furiosa e me declarou "homem", por extensão, insensível. Eu achava que ela estava bem errada, depois, pensei que ela bem que podia estar certa. Hoje, acho que ela estava certa e errada

Duas semanas. Àquela altura, meu peito estava apertado: nunca tínhamos ficado tanto tempo sem nos falar.  Mas eu sabia que ela estaria bem. Sempre. Lô surtava, rangia dentes, sofria intensamente, ia ao fundo do poço, só para depois voltar mais forte. Sim, eu a invejava por isso. 

Ela deve estar bem e começo a me perguntar como eu estou me sentindo.

Tenho medo de não conseguir desfazer o laço que ela desfez. Mas desfez mesmo? Um laço depende dos dois. Dois. Poderia então ser desfeito por uma das partes, por vontade de apenas uma das partes?

O seu cheiro tinha deixado de existir no meus travesseiros e nos lençóis: não o sinto mais - e não sei bem o que sentir.

Um comentário:

renatocinema disse...

Que doce e triste história de "amor".

Enquanto existir o cheiro no travesseiro e o sorriso da pessoa amada estiver no coração.....o laço pode voltar.