29 de out de 2011

Trashgirl conhece Zeca

Aconteceu um pouco antes de tudo acontecer: o surto, o manicômio, o primo. Estava saindo com Zeca, um cara legal. A princípio. Um pouco mais e ele era precipício. Mas quem ia pular?

- Não vai mais dar pra gente se ver, Zeca - começou ela, certa noite, entre uma bebida e outra.

- Por quê? Fiz alguma coisa errada? - perguntou ele, surpreso.

- Bom, não é que você tenha feito algo, mas que você seja algo.

- Não entendi, Trashgirl.

- Então eu vou explicar melhor: não sou eu, é você

- Como? 

Zeca nunca tinha ouvido aquilo antes. Ficou confuso.

- Gosto de conversar com você, você é interessante e tudo mais, mas é muito pesado. Estar com você é tudo sempre muito pesado.

- É por que eu sou sério demais? É isso? - perguntou ele, já prevendo debandada.

- Não, pesado é o modo como você encara a vida. Seu jeito de ver o mundo.

- É porque eu sou dramático. Cheiro à tragédia, é isso?

- Não, Zeca. É que, para você, viver é um fardo que tem sido arrastado, entende? Você tinha que achar alguém que te tirasse dessa, mas você parece satisfeito assim. Eu, por minha vez, estou procurando outra coisa. Não temos nada  oferecer um ao outro.

- Mas eu gosto de você, não basta?

- Não, infelizmente, "gostar" é um detalhe.

Silêncio.

Depois de abraçá-lo ternamente e de um "sinto muito" bastante sincero, Trashgirl arrumou as plumas de suas asas (ainda intactas naquela época) e saiu voando barzinho a fora. Zeca, por sua vez, matutou descontente sobre as justificativas dela, enquanto admirava e polia as correntes que o prendiam junto à terra.

Ouvindo The park (Feist)

2 comentários:

renatocinema disse...

Triste, pela relação e seu final. Mas, alegre pelo rumo correto, o que todos deveríamos fazer em direção a sua própria felicidade.

Afinal, gostar é um detalhe.

O silêncio pode matar a alma de uma pessoa.

Indico uma cena do filme Cidade dos Sonhos.

Linda canção sobre o silêncio.

biel madeira disse...

Gostar é "O" detalhe. Não é, por si, suficiente, mas sem ele tb não é possível todo o resto, não se pensamos em precipícios e quedas sem fim...

(mas é só uma ideia minha...)