27 de out de 2012

A cicatriz no joelho de Danuza Leão deixou uma marca em mim

"Para e repara
Olha como ela samba
Olha como ela brilha
Olha que maravilha"
(Paralamas do Sucesso)

Quando tinha uns doze anos, costumava ler o jornal aos domingos e me apaixonei pelos textos de Danuza Leão. Com o passar do tempo, suas palavras perderam a graça e o sentido para mim. Não digo que ela escreva mal: é só que simplesmente seus textos não exercem  mais nenhum encantamento, talvez porque eu esteja num outro momento ou porque achei autores que têm mais a ver comigo.

Entretanto, a cicatriz no joelho de Danuza Leão deixou uma marca em mim. Era um texto sobre como homens que reparam em pequenos detalhes (como uma cicatriz no joelho) acabam se destacando, como os homens que reparam e se interessam por você podem ser interessantes. Na verdade, são apontados como "irresistíveis". Eu não iria tão longe, mas é claro que a gente passa a olhar diferente para quem repara na gente - em vez de se colocar como centro do universo.

O olhar do outro confirma nossa existência: ser olhado pelo outro é ser reconhecido como um ser no mundo. E se esse outro repara em pequenos detalhes... Ah! Melhor ainda.

Pode ser uma pinta na nuca, unhas azuis, um canino ligeiramente torto, um trejeito, um vício de linguagem... Qualquer coisa que demonstre que o outro, de algum modo, acabou saindo do casulo, do próprio mundinho e resolveu olhar para o lado - ainda que temporariamente.

E não só olhou, como fez questão de pôr em palavras. Reparar e guardar para si é o mesmo que não reparar: não basta perceber, é preciso mostrar que percebeu, que de algum modo aquilo importa, ainda que seja uma bobagem qualquer. 

São as coisas pequenas, os detalhes que mais importam, pois saem do lugar-comum, do senso comum e exigem do outro um pouco mais do que um rápido exame: exigem atenção, um olhar mais cuidadoso, mais interessado.

E se quem te olha com esse interesse por fora ousar te olhar com esse mesmo interesse por dentro, melhor ainda.


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