31 de jan de 2012

What about the end?



A: - I just want my happy ending.

B: - I see.

A: - Why does it seem so difficult to get?

B: - Well, maybe it's not the end yet.

30 de jan de 2012

[o que você quiser ] De meia tigela

Sobre o vocalista do Joy Division:

Cinéfilo, perplexo: - Olha que coisa: ele era casado, tinha uma amante e não sabia com qual das duas ficar. Acabou se matando!

Eu, fazendo careta: - Meu! Tem gente que não sabe de nada mesmo!

[...]

Cinéfilo, suspiro: - É ele queria tudo.

Eu: - Como eu disse a um amigo meu: quer quer tudo acaba sem nada. É preciso escolher.

Cinéfilo, curioso: - E quem não quer nada?

Eu, abrindo um sorriso: - Bom, quem não quer nada pode acabar se surpreendendo, com mais do que imagina.

Cinéfilo, sorrindo: - Ah é? Hum... Esse papo... Você tá com cara de apaixonada.

Eu, careta (de novo): - Não mesmo! É só que as coisas acontecem quando a gente menos espera, ou quando espera muito pouco, quase nada. Depois de conto.

Dê, sorrindo: - Deve estar vindo uma paixão por aí. Um príncipe encantado!

Eu, descrente: - Nada! Princípe encantado? Isso existe não!

Cinéfilo, em choque: - Mas como você não acredita nisso?

Eu, indo embora: - Não acredito, nem nunca acreditei.

Ouvindo Gatas extraordinárias (Cassia Eller)

29 de jan de 2012

Bege - como uma caixa de giz pastel 36 cores

Estou tão bege que nem mesmo aquela deliciosa caixa de giz pastel 36 cores poderá me colorir. Mais uma vez, me vejo às voltas com o improvável, com o impensável, com o como é que é? E eu que nunca gostei das surpresas, até que estou gostando das pequenas grande coisas que andam recheando meus dias. E não é aquele recheio de baunilha que vai nos sonhos. É coisa nova, é coisa rara. Sabor inédito, perfume indefinido.

Queria tanto tanto me sentar com você e te contar, para te fazer rir da minha vida que ora parece tragédia grega ora novela das oito. Comédia romântica ou livro de auto-ajuda? Bom, mas sempre tenho algo para contar, não?

Curiosamente, a despeito do meu tom bege, não estou desbotada: é como se as minhas cores fossem ficando cada vez mais intensas e vivas. Talvez por isso eu não precise do giz pastel. Uma contradição? Tanto faz. São outras as coisas que importam agora. E talvez agora eu entenda tantas outras.

28 de jan de 2012

Star Trek: Spock, o cérebro (e um pouco mais)

Para o Grego 
(que me fez lembrar de como eu gostava de Star Trek)

"Isso não é lógico"

Quantas vezes já não me peguei reproduzindo a declaração padrão de Spock?

Spock sempre foi meu personagem preferido de Star Trek.

Sua humanidade velada e sufocada, que acaba transbordando  ocasionalmente, suas emoções reprimidas, a ambiguidade de sua identidade, seus conflitos íntimos... Fosse outra série, Spock seria uma daquelas personagens problemáticas teens com trilha sonora do Radiohead down e fim trágico. Mas era outra a proposta de Star Trek....

Spock tem aquele inteligênica tão característica e não raramente é motivo de chacota. entre seus colegas Mas não deixa por menos: usa justamente sua inteligência e sua perspicácia para retrucar. E, frequentemente, sarcasmo e ironia - ambos deveras humanos -, principalmente no que diz respeito às suas discussões com o Dr. McCoy.

Spock  é prova da Teoria das Inteligências Múltiplas, pois é incapaz de lidar com pessoas  e consigo mesmo, ou seja, não tem a inteligência inter e intrapessoal e não faz ideia do que seja empatia (salvo alguns episódios). Mas é justamente essa uma das coisas mais interessantes a seu respeito.

No mundo real, ele é aquele cara inteligentíssimo, fechado misterioso, interessante e... inacessível. Só mesmo esporos, drogas e influências alienígenas fazem com que ele deixe seu lado humano vir à tona, do mesmo modo que muitos humanos bebem para se soltar/ revelar a sua real natureza.

Mas, a despeito do discurso insistente que Spock ostenta, ficam claros diversos valores "humanos" em suas palavras e ações, como lealdade e amizade. Spock chega mesmo ao auto-sacrifício, usando o argumento de que "As necessidades de muitos superam as necessidades de muitos", o que, segundo ele, seria algo cem por cento lógico. Pode-se até pensar me lógica neste caso, mas não consigo deixar de ver muito mais do que nuances de humanidade. 

Caso eu esteja errada, a atitude de Kirk, seguida da "contra-argumentação": "As necessidades de poucos superam as necessidades de muitos", seve de lição de humanidade para Spock. Mas, caso eu esteja certa, ela só serve de reforçar quem nosso vulcano favorito realmente é. 

 Uma frase: "As necessidades de muitos superam as necessidades de poucos"

26 de jan de 2012

Lá vem o Improvável... Que fazer?

Um dia, há muitos anos, me disseram para manter a mente aberta, principalmente para a novidade. Mas martelaram tanto na ideia que peguei birra e guardei a no fundo de uma gaveta qualquer. Há milhares de coisas que você tem que viver por si só: não adianta tentarem te fazer engolir as coisas a todo custo. Não é assim que funciona.

E o Improvável me pegou pela mão nos últimos meses e fiquei sem ação. Porque não é todo dia que isso acontece, que esbarro com ele na rua e ele me olha tão firme - e ainda assim tão leve - e me pergunta:

- Topas?

Ele quer me levar aonde nunca estive, fora dos planos. Não de todos, apenas de alguns. O  plano pulou pela janela! (ou será que fui eu quem o defenestrou, delicada e gentilmente como sempre?). O seu olhar tem uma cor indefinida, mas nele enxergo um futuro desconhecido e instigante. É preciso se dar ao luxo (ou ao direito?) de pensar diferente, de tentar coisas que nunca se tentou, de dizer coisas que nunca se ousou, de sair do script e ver o que acontece.

O Impróvavel me deixa bestificada, porque eu vejo o mundo com os seus olhos, com os olhos de quem quer tentar outros caminhos, arriscar mais, andar descalça... De quem quer simplesmente fluir suave e intensamente - pode as duas coisas ao mesmo tempo? Ah... Pode sim.

Porque coisas que nunca aconteceriam acontecem ou podem acontecer - agora vejo assim. E ontem eu que estava à toa, já resignada que não veria o show do Agridoce, ganhei uma entrada pouco depois de ter começado. Quais as chances de isso acontecerem? Com a minha sorte, nulas. Mas tenho o Improvável ao meu lado, sim, ao meu favor.


Porque o Impróvavel e o Acaso vão me proteger contra a Lady Murphy, haja o que houver - ainda que eu não ande distraída.

23 de jan de 2012

Phrasal verbs a serviço de matutações existenciais

(latim definitivus, -a, -um)

1. Que define.
2. Decisivo.
3. Irrevogável.
4. Que põe termo.
5. Final; último.
6. Que substitui de vez o que só era preliminar ou provisório.



O belo dicionário de phrasal verbs ostenta em sua capa laranja: O LIVRO DEFINITIVO. Todavia, nele não encontro nem metade do que procuro. Quando o comprei, eu acreditei na mensagem, porque a gente é meio bobo quando é mais novo. 

Na faculdade, aprendi que não existe aprendizado de idiomas definitivo, nem livros definitivos... Nem nada definitivo. Talvez essa tenha sido uma das grandes revelações dos últimos anos. E toda vez que eu acho que alguma coisa é definitva, alguma coisa acontece

Acho que algumas pessoas supervalorizam tudo aquilo o que parece perene num mundo onde as coisas, os laços, a vida batucam perecíveis, quase descartáveis. Vai ver que é por isso que se tem cada vez menos lugar para colocar o lixo em São Paulo: estamos jogando fora as coisas erradas, mandando embora as pessoas erradas, nos desfazendo das crenças erradas... Errados no sentido de "meu, eu não devia ter me desfeito!"

Se nem o dicionário de phrasal verbs é definitivo, o que dirá as outras coisas?

Mas...
E se houver coisas que, com a manutenção correta, se tornem definitivas? Mas será que seriam as mesmas coisas, já que sofreram alguma transformação? Isso faz sentido?

Talvez o grande truque seja não impor que as coisas sejam definitivas, não rotulá-las deste modo. Assim, mantém-se a mente aberta para o novo, para o que virá, para a vida, sem fechar portas, janelas e afins. 

Mas...

Se calhar de uma coisa se mostrar perene... Bom, acho que não faz mal, né?

Será que eu posso concluir que não cheguei a uma conclusão definitiva sobre as coisas definitivas? Bom, se não puder, pelo menos sou coerente. Acho. Eu não sei de nada da vida - e essa não é uma declaração desesperada.

20 de jan de 2012

Flertando com Barthes



Você pode tentar impressionar um cara e dizer que lê Barthes. Mas, a melhor parte, é saber que você realmente lê Barthes.

19 de jan de 2012

É tudo culpa do sistema! (não, não é o capitalismo)

"Pane no sistema", avisou Pitty logo que chegamos.
Quantas vezes nós já não ficamos horas e horas em filas esperando e, na hora H, o tal do sistema tinha caído. Desde as tarefas mais prosaicas (eu não consigo mais carregar bilhete único, é uma coisa incrível!) até a retirada de documentos importantes, como foi o caso de ontem. Passei três horas esperando o sistema voltar a funcionar, sem saber se isso ia chegar a acontecer. Desisti e voltei para casa sem nada, só com um passeio no metrô com direito a micaço (sim, minhas histórias sempre acontecem em trem/ metrô).

(para que esperar aquilo que você não sabe se vai chegar?)

O que me dói é que foram três horas da minha vida desperdiçadas: como era só retirada e eu cheguei cedo, não levei livro nenhum (lágrimas) nem MP4 nem nada. Okay, eu estava em boa companhia, mas mesmo assim.

Detalhe: eu estava lá só para a retirada do documento. E, ainda assim, tudo dependia de um sistema (que nunca falha, mas resolveu falhar ontem). E dá-lhe Lady Murphy! E dá-lhe ligação para Brasília! E o pobre menininho coreano cansou de esperar com os pais. Sim, a família coreana também fora retirar seus documentos.

O que me choca é pensar que eu, uma reles mortal, sempre tenho, pelo menos um plano B - quando não um C, D, E e F - mas aquele orgão público simplesmente não tem (e olha que é um orgão grande...). Um rapaz, irritado, comentou que, antes, para a retirada do tal documento só era necessário o comparecimento e a apresentação do RG original. Depois que informatizaram tudo, o sistema se tornou essencial: eu estava lá com meu RG e o documento pronto para ser entregue, mas havia algo entre nós. O sistema. Algo que deveria facilitar acabou não dificultando, mas impossibilitando que as coisas acontecessem.

Ao informatizarem tudo, ficamos nas mãos de máquinas, tecnologia e outras coisas que sim, me desculpem, falham! Menos do que humanos, mas estão sujeitas a falhas de qualquer modo. Quando falo nas "mãos de" não estou pensando em nada do tipo "as máquinas vão dominar o mundo, cruzes!", mas sim em "a tecnologia é desenvovlida por seres humanos, que são falhos, logo, normal que tenham falhas."


E mais falhas ainda o ser humano mostra ter quando não cria um plano B. Uma questão de puro bom senso.

18 de jan de 2012

17 de jan de 2012

Clichês cortantes

A: - É sempre bom se colocar no lugar das pessoas.

       B: - A não ser que a pessoa seja Robespierre na guilhotina.

                C: - A não ser que ela seja autodestrutiva.

A: - Aí dá certo!

16 de jan de 2012

Monarcas ou servos?

 
"Sou o monarca das coisas que disse e mantenho sobre elas uma soberania eminente: a de minha intenção e do sentido que lhes quis atribuir" 
Michel Foucault em História da Loucura

13 de jan de 2012

Se os ventos da mudança não vêm, é hora da gente fazer ventar

Não me contentei com a brisa. natural Queria o tal vento da mudança assobiado pelos Scorpions desde a minha mais tenra infância. Sim, tenho fixação por essa música. Sim, sempre que penso em mudanças, penso em vento.

Se os ventos da mudança não vêm, é hora da gente fazer ventar.

(foi a minha frase motivacional do dia)

E eu, munida de leque e ventilador, saí no quintal com toda a esperança do mundo - tirada da caixa de Pandora. Fiz de tudo! e consegui não mais do que uma suave brisa. Os cataventos e mensageiros do vento balançavam com timidez, o que me deixou um bocado irritada: tanto esforço para nada.

E foi então que me veio uma ideia: com o meu sopro e com o meu fôlego eu ia fazer ventar. Juntei todo o ar que pude e soprei com toda a força da minha modesta estrutura:

Me surpreendi ao notar criancinhas sendo levadas por suas pipas.

12 de jan de 2012

O que não mata deixa a gente mais esperto

"E é aí que a porca torce o rabo" (Miss Piggy)
Essa foi uma das frases edificantes que postei no facebook nessa semana. Aconteceu uma coisa chata comigo - que me deixou mais esperta para uma próxima vez. Se eu não morri, vou ficar mais esperta. É uma boa lógica: a experiência a serviço da sobrevivência.

Entretanto, não basta viver e experimentar: é preciso tirar alguma coisa disso não? E quantas vezes a gente aproveita o que nos acontece bem menos do que poderia?

Conheço muitas pessoas que ostentam sua(s) experiência(s) de vida. Pessoas mais velhas do que eu. E várias pessoas da minha idade. É fato conhecido que a experiência não faz com que uma pessoa seja melhor do que outra: ela pode fazer uma pessoa saber mais, mas não saber tudo. E existe uma graaaande lacuna entre o mais e o tudo. E é aí que a porca torce o rabo.

Porque as pessoas simplesmente não reconhecem isso. Nem se eu desenhar - e olha que eu desenho bem!

Acredito piamente que quase tudo o que vivemos é válido, sendo que, algumas coisas nós simplesmente temos que passar. Ponto. Agora, eu me pergunto por que tantos nos olham de cima quando estão no mesmo nível que nós?

Para algumas pessoas tudo o que fazemos e vivenciamos é pequeno e mesquinho.  Elas já fizeram coisas muito mais interessantes e conheceram pessoas muito mais interessantes e são, naturalmente, muito mais interessantes - do que nós. Há um menosprezo e um desprezo sobre nossas opiniões, ideias , vivências e planos, como se estes não fossem dignos de... respeito? E pior do que o menosprezo escancarado é aquele velado no melhor estilo: Vou te ensinar tudo o que você precisa saber (sobre X, Y e Z), com direito a três palmadinhas nas costas e um olhar paternal. ("paternal" na falta de melhor tradução para a palavra patronizing) - comportamento este que está na minha lista de Coisas das Irritantes do Mundo, Categoria Interpessoal.

Para cada coisa o seu devido valor. Ponto.

O caçador e a caça
Sempre que penso na frase: "O que não mata deixa a gente mais esperto", penso no eterno duelo entre o leão e a gazela: se não for devorada, ela escapa - e suponho que aprenda tomar mais cuidado na savana.  Com a gente é a mesma coisa,  mas, diferente dela, temos a chance de matar nosso leão diário.  

Mas será que se eu não conseguir matar meu leão diário, vou deixá-lo mais esperto? Tomara que ele também não aprenda com a experiência.

10 de jan de 2012

Quinzinho não vai ao hospital

Por Frau Forster, 2011.
E então lhe disseram que era A, B e C. Quinzinho sorriu complacente. E outra pessoa lhe disse que era 1, 2 e 3. Quinzinho sorriu paciente. Cada um disse como ele devia agir diante daquela nova situação. Se arrependeu de ter contado. Bom, não contasse agora, seus cabelos (ou a falta deles) iam contando aos poucos.

Saiu para dar um volta. A cabeça cheia dava voltas e mais voltas. Começou a chover fraco e ele se deixou molhar. Não que nunca tivesse valorizado as pequenas coisas, mas diante do que podia acontecer, seus sentidos tornavam-se mais aguçados. Assim como suas lembranças:

- Quero um desses - ele dissera para a última namorada, apontado para um menininho no Jardim Botânico.

Ela sorrira seu belo sorriso - amarelo. Separariam-se um pouco mais tarde. Pensava em Lili às vezes. Que fim teria levado? Sentia tudo tão intensamente, tão ardua e ardidamente. Doce e amargo. Precisava de um gole de qualquer coisa. Mas não bebia.

Estavam todos errados sobre ele, mas sentiu, pela primeira vez em muito tempo, dificuldade em dizer quem era. Era um esboço de qualquer coisa - bondosa e sem ostentação. Uma pessoa simples com desejos simples. Quero ser seu par

(queria ter tido filhos)

Parou no ponto para esperar o ônibus. Consolação ou Paraíso? Para onde estava indo mesmo? Sentiu-se mal. Era a terceira vez naquele dia. E não tinha a quem chamar. 

- Não, não se faça de vítima.

(sua promessa de dez anos atrás)

Queria ligar para Clara, mas ela estava fora do país. Talvez chamar Lô. Suas duas garotas, agora tão distantes. Que fazer? Nada. Deixou-se passar mal no ponto do ônibus e de lá não sairia. Não sem saber antes quem tinha se tornado.

Escrito em 04/01/2012.

9 de jan de 2012

Diário: Será que o que você procura realmente existe?

Ele me disse que eu não sabia o que queria. Porque, segundo ele, mulheres nunca sabem o que querem.

Mas é claro que eu sabia, sei. Em 90% do tempo eu sei, o que não faz com que os outros 10% sejam criminosos. Também sei muito bem o que estou procurando, mas só hoje vi que não vou achar nunca pelo jeito. Percebi isso enquanto meu bom amigo ia tecendo suas considerações e eu ia tomando o meu café, sentindo meu ombro sendo queimado pelo sol. País tropical. Na verdade, eu não percebi nada: foi ele quem me disse. E ele me disse outras coisas também que me fizeram pensar. Bom, amigos são para ver as coisas que não vemos por vezes, certo? E eu queria que ele estivesse errado. Terrivelmente errado (do mesmo que eu queria às vezes estar errada. Terrivelmente errada). 

Aí eu não sei se mudo a palavra de busca (Santo Google) ou se deixo de procurar, buscar e não sei mais o quê. 

Se eu fumasse, procuraria a resposta nos desenhos da fumaça do meu cigarro. Mas não fumo. Poderia procurar as respostas nas estrelas. Mas não tenho visto estrelas. Talvez eu não tenha que procurar o que eu quero, nem procurar uma resposta. Sei onde quero chegar, mas não sei como chegar - e desconfio que esse lugar não exista.


Ouvindo Nightwalker (Thiago Pethit)

7 de jan de 2012

Era uma vez a deturpação de um conto de fadas qualquer [1]

O belo Príncipe estava sentado em um barco emprestado. Observava sua amada, seus longos cabelos presos com um pente de pérolas, as escamas da cauda cintilavam ao sol. Queria tê-la mais perto, mas ela insistia em continuar repousando sobre as pedras úmidas no meio do mar.

- Por que você faz isso? - perguntou ele, magoado.

- Isso o quê? - perguntou ela sem entender.

- Se mantém longe de mim! - explicitou ele.

- Ah...

Seu "ah" era doce e arrastado. Escorregou das pedras e nadou até seu amado, se apoiando no barco.

- Por que você faz isso? - quis saber ele, tocando-lhe de leve o rosto.

- Isso o quê? - ela sorriu.

- Me mantém na sua superfície. Não conheço as profundezas do seu ser. Não sei o que se passa dentro de você, no seu íntimo, na sua mente, no seu coração. O que eu tenho de você é tão pouco! - entristeceu-se ele.

- Ah é? - perguntou ela com doçura.

Num piscar de olhos - maliciosos - , ela puxou-o do barco para as profundezas. O corpo silenciou-se num splash. Com ou sem entrega? Não saberia dizer. Só sei que o belo Príncipe nunca mais foi visto.

Se ele tivesse conseguido enxergar além da superfície de sua amada, talvez tivesse visto. 

6 de jan de 2012

Fossa e fósseis: ah um coração partido!


Okay, mais um coração partido. Bem vindo ao maravilhoso mundo da fossa, onde tudo é cinza, a comida não tem gosto, as lágrimas são abundantes, o coração é uma bagunça (saudade, tristeza, raiva... tudo ao mesmo tempo) e a gente fica triste, muito triste - e, não raramente, insuportável, muito insuportável. Ah o drama!

Fossa me faz pensar em... Cocô? Estar na fossa é estar no cocô? Eeeeeeeca. Uma palavra: banho! É, pipocas da minha festa junina, everybody hurts, mas.... não, não é o fim do mundo. Pode ser o fim de muitas outras coisas, mas não do mundo, não da vida, não daquilo que realmente vale a pena.

Todo mundo sobrevive aos altos e baixos sentimentais que fazem parte de nossas vidas. Mas normalmente tem aquele momento - que pode se estender por quanto tempo quisermos imaginarmos - no qual a gente fica, em uma palavra, mal. Imagino que todo mundo aqui sabe do que estou falando. Ou não?

Das nuvens à lama. E será que estar na lama é tão ruim assim? Banho de lama não é bom para a pele? Depois disso, uma chuveirada e pronto. Passa. E a gente passa para outra. Possivelmente não foi a primeira e certamente não será a última vez que tivemos o coração partido. Mas faz parte do jogo.  

E não é de uma hora para a outra que a gente se conserta: nem sempre digerimos/ aceitamos o rompimento com a facilidade/ velocidade que gostaríamos, mas não há fossa que dure para sempre. Ufa! Mas as músicas ficam. 

Digo as músicas porque creio que elas sejam importantes para muitas pessoas. Afinal, é preciso viver aquela dor-de-cotovelo. São as fases do luto. E a música pode ajudar/ consolar/ superar/ vivenciar o que for preciso. Eu realmente vejo a música como uma coisa terapeutica. Embora ela possa ter o efeito contrário. Ops. Mas o que eu queria com esse texto é fazer uma introdução a uma série de posts de músicas/ intérpretes que não podem faltar na trilha sonora de quem está na fossa.

P.S. Um amigo comentou que Sepultura era ótimo para "desfosselizar". Pensei em fósseis. Sim, o que passa vira fóssil. Petróleo! A experiência é o petróleo que nos enriquece a existência. E tenho dito.

O que me importa

A: - Não fique chateado.

B: - Não estou.

A: - Me desculpe mesmo.

B: - Não tem porque me pedir desculpas.

A: - Mas você não está chateado?

B: - Não, deveria?

A: - Ah, eu esperava que tivesse.

Ele deu ombros.

B: - Tanto faz agora. Não importa mais.

E sorriu de um jeito que doía na gente.

5 de jan de 2012

Clara e o que não foi dito

Clara poderia ter dito que admirava as antigas namoradas dele:

- É preciso ser especial mesmo para fazer você querer ficar.

E ainda:

- Esperto é você que não se entrega logo de cara, que se guarda dos outros.  stá aí uma coisa que você me ensinou.

Mas limitou-se a sorrir e dizer com ternura:

- No fim das contas, a despeito de tudo o que imaginei e desejei (e de tudo o que fantasiei sobre nós), percebi que fui apenas mais uma menina com quem você saiu. E, você, apenas mais um cara que eu conheci.

- Nossa, não é assim! - sorriu ele.
- Estou sendo prática - ela devolveu o sorriso.

- Até demais - respondeu ele.

E Clara limitou-se a rir das previsões que ele fizera para ela, quando estivesse lá pelos seus trinta anos.

(Ela completaria mais tarde:

- Sempre é muito tempo, mas acho que sempre vou gostar de você).

Clara estava ainda muito longe de entender os mecanismos da paixão. E também já não estava tão preocupada com isso. Pensava no que não tinha dito. Ah. Deu ombros. Havia coisas que eram melhores lidas do que ditas. Mas, dessa vez, ela não iria escrever. E ele não saberia lê-la, de qualquer modo.

4 de jan de 2012

Nem cinco minutos guardados


Entrou apressada na estação de metrô. Não muito apressada. Os passos eram leves. As mãos ágeis. Assim que avistou as filas assustadoras antes da catraca, seguiu para o guichê mais próximo, já com a carteira na mão.

Parou em frente ao guichê, tirou a nota na carteira e olhou para o atendente. O rapaz olhava para ela. Sem piscar. 

- Boa tarde. Me vê duas, por favor - disse ela, passando a nota para o rapaz.

Ele a olhou fixamente por mais alguns instantes. Nunca a tinham olhado daquele jeito em todos aqueles anos. Ela corou e baixou o olhar. Um sorriso tímido. Não, não era caçadora como seu amigo havia observado. Nem nunca seria. O que não queria dizer que não fosse boa jogadora. Tudo aquilo (e um pouco mais) passou por sua cabeça, em menos de cinco minutos.

O atendente pegou a sua nota. Ele era bonito. Apagado, mas bonito. Contou o troco e lhe entregou, silenciosamente. E ela pensando no que ele estaria pensando. E será que ele estaria pensando no que ela estaria pensando? 

Por fim, ele sorriu.

- Boa viagem - e o tilintar das moedas em suas mãos.

Guardou-as na bolsa, junto com a sensação daquele momento que perduraria ainda mais um pouco. Ela sorriu, agradecendo mais um olhar que ganhara para sua coleção. Aquele olhar novo que ela não conhecera até então.

Se virou e seguiu na direção da catraca, sem olhar para trás. Mas deveria ter olhado.

E (ela) era verão.

2 de jan de 2012

20 e poucos anos: Impotência

Raul bateu em minha porta. E me bateu  um desespero exasperado e intenso por não poder fazer nada por ele. Sim, depois de saber do ocorrido, eu soube que ele viria atrás de mim. Era prepotência da minha parte, mas também a mais pura verdade que ele só sossegaria o peito no meu ombro, nos meus braços.

Me doeu não ter como ajudar. Mas conhecia aquele filme antigo: era a minha mania de querer controlar tudo, de querer salvar todo mundo, de querer protegê-lo - a todo custo. Mas respirei fundo: aquilo tudo estava além do meu poder, do meu controle, das minhas possibilidades.

Tentava sossegar meu coração, enquanto matava a saudade dos cachos de seus cabelos. Tanto tempo que não nos falávamos... Mas eu ainda conhecia o seu cheiro de amaciante, não importando a sua aspereza.  
 Nenhuma palavra para resolver os problemas de Raul. Ele me disse as coisas pela metade e não pedi o resto também: engoli o que ele me ofereceu sem muitas perguntas. Mas o silêncio se constituia um real e genuíno desafio para mim: ele não queria desabafar, preferiu me manter à margem. E assim o fiz: me mantive atrás da linha de giz que ele traçara para mim. E atrás dele, brincava com um cacho de seu cabelo. Minha mão em seu ombro.

Ele tão quieto e eu tão irriquieta. Só tinha que confiar que ele conseguiria resolver. E, certamente, conseguiria. Mas queria tanto poupá-lo do que quer que fosse! Respirei fundo. Havia fugido de Raul há seis meses atrás e agora fugia do meu complexo de Atlas: abracei minha reles humanidade e aceitei para o nosso próprio bem - o meu e o dele - que não havia nada que eu pudesse fazer que não fosse continuar com minha mão em seu ombro, permitindo que o silêncio continuasse a nos invadir e preencher as lacunas de nossos pensamentos.

1 de jan de 2012

Memória da nossa história (vou sentir sua falta, mas...)

Você não vale uma pincelada de blush ou uma noite mal dormida. Nem mesmo o azul cobalto do meu esmalte - sim, as aulas de pintura serviram para que eu soubesse que esse tom de azul existe. Fui de cara lavada, de cara limpa, me despedir de você, te dizer adeus. Porque, como você bem sabe, eu adoro despedidas.

De chinelos, pés descalços e mãos despidas de quaisquer armas. Fui olhar em seus olhos pela última vez. Porque nunca mais queria te ver. Porque eu sabia que a vida era preto no branco, recheada de coisas definitivas e certeiras e permanentes.

Para sempre na memória
Mas no trajeto ao seu encontro, eu hesitei - tanto que perdi um chinelo no vão do vagão de metrô. E o que mais perdi e ganhei? Hesitei porque o azul das minhas unhas me vez lembrar o azul do céu que partilhamos - incontáveis vezes. E o que mais partilhamos? Tanta coisa! Nossos momentos de lama, sim, lama, mas também nossos momentos da glória mais intensa e incandescente. Como abrir mão disso? Como fingir que você não foi nada para mim?

Você faz parte da minha história agora. Então como fingir que nunca aconteceu? E para que fingir quando eu já não tenho nada a perder, quando me entreguei de peito aberto, disposta a abraçar o seu melhor e o seu pior? Não, eu simplesmente me nego a passar uma borracha no que tivemos.

Te encontro cansado, sentado num banco da praça onde tudo começou. Você me olha exausto, cheio de nostalgia. Nós dois na verdade. Acabou, é verdade. A areia da ampulheta estaria no soterrando se tivéssemos levado as coisas de outro modo. Mas estamos bem: é só um aperto porque, lá no fundo, sabemos que nossa história acabou. Mas viramos a página sem esquecer (e pensar que tem gente que acha que isso é crime...).

Eu suspiro: 2011, vou sentir sua falta, mas já tivemos nosso tempo. É hora de eu seguir em frente e descobrir o que o próximo ano me reserva - e o que eu reservo para ele.

P.S. Feliz Ano Novo a todos!