4 de jan de 2012

Nem cinco minutos guardados


Entrou apressada na estação de metrô. Não muito apressada. Os passos eram leves. As mãos ágeis. Assim que avistou as filas assustadoras antes da catraca, seguiu para o guichê mais próximo, já com a carteira na mão.

Parou em frente ao guichê, tirou a nota na carteira e olhou para o atendente. O rapaz olhava para ela. Sem piscar. 

- Boa tarde. Me vê duas, por favor - disse ela, passando a nota para o rapaz.

Ele a olhou fixamente por mais alguns instantes. Nunca a tinham olhado daquele jeito em todos aqueles anos. Ela corou e baixou o olhar. Um sorriso tímido. Não, não era caçadora como seu amigo havia observado. Nem nunca seria. O que não queria dizer que não fosse boa jogadora. Tudo aquilo (e um pouco mais) passou por sua cabeça, em menos de cinco minutos.

O atendente pegou a sua nota. Ele era bonito. Apagado, mas bonito. Contou o troco e lhe entregou, silenciosamente. E ela pensando no que ele estaria pensando. E será que ele estaria pensando no que ela estaria pensando? 

Por fim, ele sorriu.

- Boa viagem - e o tilintar das moedas em suas mãos.

Guardou-as na bolsa, junto com a sensação daquele momento que perduraria ainda mais um pouco. Ela sorriu, agradecendo mais um olhar que ganhara para sua coleção. Aquele olhar novo que ela não conhecera até então.

Se virou e seguiu na direção da catraca, sem olhar para trás. Mas deveria ter olhado.

E (ela) era verão.

2 comentários:

Tavão disse...

Nem cinco minutos, e uma vida se acaba... Demora pra acontecer, mas acontece rápido demais.

renatocinema disse...

Esses são os minutos que fazem a vida valer a pena. Um segundo de toque, na alma, e o resto vira poesia dramática....ou trágica.