2 de abr de 2011

O sutiã com bojo é só a ponta do iceberg

Para a Francesa

"Bem vindo ao maravilhoso mundo da lingerie!", as vitrines me dizem. Mas, cadê o sutiã sem bojo?

O que me faz pensar em outra pergunta: como gostar do próprio corpo exatamente como ele é? Cada pinta, cada contorno, cada pêlo? Olha, sinceramente, é bem difícil, principalmente quando somos tão cobrados sobre nossa aparência. E, mais do que isso, sobre se adequar aos padrões e as roupas que encontramos por aí. As roupas não foram feitas para caber em mim, mas eu deveria ter sido feita para caber nelas.

Já quis ser mais magra, já quis ser mais cheinha. Cansei de querer e me aceitei como sou. Um dia disse isso a um conhecido e ele respondeu, não sei se por ser homem ou por ser insensível:

- Ah, você é bonita, é fácil se aceitar assim!

Bonita ou não, não acho fácil nos aceitarmos mesmo e parece que a multidão lá fora grita que somos inadequados. Felizmente, aprendi a ser surda quando me interessa e conheço várias pessoas que adquiriram essa habilidade também.

Quando pequena, queria ser loura como as princesas da Disney. Também não era pálida como a Branca de Neve, de modo que a Bela (d'A Bela e a Fera) foi um verdadeiro sossego para o meu coração feminino infantil: eu poderia ser bonita mesmo sendo morena. Felizmente um dia você acorda e tanto faz se a princesa Disney é loura ou morena, mas pode ser uma longa caminhada até lá. Tem gente que passa a vida toda sem se resolver com o próprio corpo, sem gostar minimamente de si mesmo.

E tudo isso começou porque uma amiga foi comprar um sutiã e só achou sutiã com bojo. E ela não queria  e não comprou. Sei que pode parecer bobagem a princípio mas... Por que não posso mais escolher: com ou sem bojo? Por que preciso sempre de realçar/ valorizar/ destacar/ expor tudo o que dizem que preciso realçar/ valorizar/ destacar/ expor? Acho super válido que eu queira realçar/ valorizar/ destacar/ expor o que que quiser... desde que eu possa escolher - e não fique limitada pelas opções das vitrines! Tenho total direito de escolher a minha lingerie, meu jeans, minhas sandálias, mas como fazê-lo se aquilo que me oferecem me poda, de algum ou todos os modos?

Conheço muitas meninas magras que vivem de dieta sem necessidade. Conheço garotas que fumam porque cigarro reduz apetite e danem-se os pulmões. E se fosse estivesse acima do peso?  As pessoas falam como se não caber no tamanho 38 fosse homicídio doloso, digno de perpétua. Não me importa esse discurso de "vivemos numa sociedade que valoriza a diversidade", porque não é verdade. Mudam-se as commodities, mas os esterótipos e a escravidão que os envolve permance a mesma. Ok, acho que até melhorou, mas ainda temos muito o que fazer.

O meu corpo é diferente do seu que é diferente do dela. Quanto mais cedo aceitarmos que cada corpo é único, menos sofrimento, menos neuroses. E nada disso do que eu disse quer dizer não se cuidar, não se gostar. Se estamos insatifeitos com nossa aparência, é muito importante corrermos atrás e fazermos alguma coisa, desde que isso não se torne prioridade em nossas vidas. E tudo passe a girar em torno da minha chapinha.

Eu me dou o direito a ter os cabelos escuros e curtos, quando me dizem que as louras de divertem mais e que homens preferem mil vezes mulheres de cabelos compridos; me dou ao direito me gostar como eu sou, com o meu peso e minha altura, embora digam que eu devesse mudar isso e aquilo; me dou o direito de não comprar calça skinny porque acho feio e acho que fica feio em mim, embora ainda seja difícil encontrar outro modelo (pantalonas rules!).

Parece que existe uma conspiração para que a gente nunca se sinta satisfeita (digo satisfeita porque acredito piamente que as mulheres sofram mais com isso) e procure lá fora, fora de nós, maneiras de sermos e ficarmos mais, porque nunca somos e ficamos bonitas o bastante. Claro! Pessoas insatisfeitas compram mais, para preencher esse vazio que fica quando não encontramos satisfação unicamente pelo que somos, sem adereços, sem fantasia, sem paetês. 

"Bem vindo à indústria da infelicidade, onde você nunca é bonita o bastante!", eles gritam, mas eu ignoro.

7 comentários:

Alline disse...

Sabe o que é um saco? Só poder usar que o que está na moda. Ano passado eu procurava botas de cano curto, as tais ankle boots, mas só achei de cano alto. Não comprei. Não consigo usar skinny porque fica horrível e eu me sinto presa dentro da roupa.
Quando eu quero usar o que gosto encontro essas barreiras - as lojas se dedicam a vender exclusivamente o que é ditado como moda.
Frustrada eu fico quando vejo todo mundo igual na rua. Que tédio...

MN disse...

quando vc acha q conseguiu usar aquilo q lançaram na vitrine, lançam algo novo e você tem q se adequar novamente. faço suas mnhas palavras. sofri com isso na adolescência, hj não mais. (há resquícios). o negócio é que hj eu me dou o direito de usar batom ou não-batom, escovar o cabelo ou não, e ter um dia q nao quero me arrumar, etc. isso é bom. danço de acordo com a MINHA música.

fabioyn disse...

Curiosamente Audrey Hepburn cravou na moda da sociedade a beleza magra... Mas não a culpo por isso. Acredito na beleza das pessoas que tem o bom gosto de usar o que elas escolhem para se sentirem bem. E ficam belas assim. A moda dita, mas nem todos são seguidores da ditadora.

Ca disse...

Triste resultado da sociedade do vazio, onde a imagem cada vez mais substitui o conteúdo.

E não encontrar uma roupa que não encaixa direito é tão chato! Haja paciência até encontrar o certo, ou haja reforma...
(Mil vezes isso do que me subjugar de qualquer forma à moda!)

Tatiana Monte disse...

E mesmo a gente não querendo ligar para modas e vitrinas precisamos usar roupas...e lá vai a busca por roupas para pessoas normais!!!
Tamnho p, 38...pp...

sempre tive a vontade de perguntar onde é a seção de roupas para pessoas que existem?

Sílvia Hudaba disse...

"sempre tive a vontade de perguntar onde é a seção de roupas para pessoas que existem?" Sua frase é um primor, Tatiana!!

O que mais me impressiona é o fato de ser obrigada a enganar a si mesma ao usar roupas que te deixarão mais próximo o possível do padrão: calças para te deixar mais magra, peças íntimas para dar volume onde foi dito que deveria haver volume.
Se você nunca se contemplar nua, pode até acreditar que aquele corpo é seu e não das lojas de departamento ou seus genéricos...

Carolina disse...

Esse texto é maravilhoso!! Nossa, com certeza todas nós mulheres nos identificamos com essa prsão das vitrines. Outra coisa chata é q ultimamente o que é "tendência" (acho horrível essa palavra) só serve em corpinhos magros. Esquecem de valorizar a diversidade da mulher brasileira e nós ficamos perdidas entre estilos e acabamos tendo que nos encaixar nos padrões. Não deveria ser o contrário?

Beijos!!
:)