28 de fev de 2011

As piores coisas da vida

O que é pior...

ônibus articulado ou biarticulado?
motorista de minivan ou motoqueiro?
chuva demais ou sol demais?
se enganar ou ser enganado?
os dominadores ou os submissos?
os que se superestimam ou os que se subestimam?
não caber no vestido ou não ter vestido para caber?
ser cantada por alguém dez anos mais novo ou por alguém que poderia ser o seu avô?
TPM ou cólica? (para mulheres)
TPM ou cólica? (para homens)
fralda suja ou barriga vazia? (para bebês)
ficar sozinho ou mal-acompanhado?
não ter par para dançar ou não saber dançar?
deixar ou ser deixado?
levantar com o pé direito ou não levantar?
meias molhadas ou ausência de guarda-chuva?
ser rejeitado ou ser ignorado?
almoçar sozinho ou não ter fome?
mentir com culpa ou sem culpa?
fantasiar demais ou viver sem expectativas?
aprender russo ou aramaico?
dizer "adeus" ou "até logo"?
perder para a Argentina ou nem chegar lá?
ter soluço ou gaguejar? (num momento importante)
desafinar ou não ter coragem de cantar?
perdão com mágoa ou ódio eterno?
incompetência ou má-vontade?
cheiro de suor com ou sem perfume?
não ter para onde correr ou não saber para onde ir?
não ter carro ou não ter combustível?
acreditar ou não em segundas chances?
dar ou não as tais chances?
dar conselhos ou recusá-los?
ganhar rosas ou não ganhar flores?
se tornar o amigo gay ou nem chegar perto?
mal-humor ou humor-negro?
sadismo ou apatia?
ter ex-amantes ou não ter nenhum?
soco no estômado ou veneno destilado?
receber pedidos de casamento ou recusá-los?
ser esquecido ou lembrado por algo que não fez?
chorar em comercial de TV ou em Friends?
ter muitas opções e não saber o que escolher ou ter uma única que não satisfaz?
escrever para quem não responde ou ser quem não responde?
desistir e se arrepender ou não se arrepender de ter desistido?
insônia ou noite em claro?
Edward ou Jacob?
quem nunca cresce ou quem nasceu velho?
se arrepender por algo ou não ter nada do que se arrepender?
perder os cabelos ou a única peruca?
ter ou não a culpa?
consciência pesada ou ausência de consciência?
não poder voar ou não saber cair?
inveja do sucesso [alheio] ou alegria pelo fracasso [alheio]?
evitar a vida ou evitar a morte?
ausência ou presença? (do que quer que seja)

Ouvindo Tudo sobre você (Zélia Duncan)

C.R.A.Z.Y

Resolvi topar s sugestão de Charlie e assistimos C.R.A.Z.Y (2005), filme canadense recheado de rock progressivo e glam da década de 70. Quem curte Pink Floyd e David Bowie tem um motivo a mais para assistir.

O filme retrata e vida do canadense Zac, da infância à idade adulta, uns vinte e poucos anos, passando pelas décadas de 60, 70 e 80. Da fé cultivada pela mãe à total descrença em Deus. Do preferido de seu pai até a vergonha da família. Do menininho obediente a um homem em busca de sua própria identidade e seu próprio caminho.

C.R.A.Z.Y. é um drama sobre os laços de família, sobre amor e fé, sobre preconceitos, sobre escolhas e, creio que acima de tudo, sobre buscar o seu lugar o mundo, busca essa que se torna mais complicada quando parecemos não nos enquadrar de modo algum, saindo dos padrões rígidos e pré-concebidos de nossa sociedade.

Uma das coisas que mais me agradou no filme foi o modo como a família é retratada: muito unida, o que não quer dizer que não brigue, discuta, surte. São cinco irmãos, todos muito diferentes e o foco recai sobre Zac, que sempre foi o deslocado da família, não por isso menos amado. Quando pequeno, a mãe atribuiu a ele incríveis poderes de cura, agora, adolescente, ele é obrigado a encarar terríveis medos e a desconfiança de seu pai, que não aceita o caminho que a vida de Zac vai tomando com o passar do tempo. De repente, Zac é seu pior inimigo e só a fé em Deus poderia salvá-lo daquilo o que tanto teme. Mas precisaria mesmo ser salvo? Seria tudo tão errado mesmo?

Não importa o que aconteça, no fim do dia, quando é preciso, todos voltam à casa. Comovente e não piegas. Sem lágrimas copiosas, só aquele sentimento de fortaleza proporcionado por quem ama e tenta entender o outro, esse outro que desafia, que é diferente, que nos foge, que nem sempre corresponde ao que esperamos. E que, por isso, não é menos amado. E a distância e a perda podem ser um bálsamo na dor que pode ser não entender e não aceitar o outro.

Um bela história e um belo filme, sem dúvida. Tocante e sensível. Vale a pena conferir.

Ouvindo Shine on you crazy dimond (Pink Floyd)

27 de fev de 2011

Eu sei o que é bom para você & Cia

Para a Jô, a Garota de Leeds, a Francesa e a Espanhola

Alguns discursos nos rondam assombram e esse pode ser um deles:

- Eu sei exatamente o que é melhor para você.

Pai, mãe, marido, irmão, amigo... Alguém provavelmente já te disse isso. Não necessariamente diretamente, assim, na cara. E se um dia me disserem isso assim, na lata, bom, é pano para post. Mas já tentaram me convencer disso muitas vezes, ao que eu respondi com um ar condescente e uma certeza aguda de desobediência. Sejamos desobedientes, sim?

A experiência alheia mais uma vez ostentada numa bandeja de prata, como se fizesse um melhor do que o outro, tudo por ter mais experiência. Mais uma vez o ter se sobrepõe ao ser. Ter experiência faz com que você seja o quê? A supervalorização da experiência. Me lembro certa vez há uns dez anos:

- Sou melhor do que ela porque já vivi isso e aquilo. E ela não.

Eu, ainda que fosse uma boba na época, já não comprei a idéia. Sim, a pessoa em questão tinha tido muitas experiências, vazias, sem sentido. Adianta ter um monte de experiências ruins? Okay, tudo questão de ponto de vista, vai de como você aproveita aquilo o que vive. E se eu aproveitar muito mais aquilo o que vivo mesmo sem ter de fato vivido muito? De que adianta tanta experiência se as pessoas volta e meia cometem os mesmos erros? Acho que é meu o direito de escolher aquilo o que quero viver não? Ou será não devo ser seletiva e devo abraçar qualquer coisa que me apareça pela frente?

 - Ah! Você não é feliz, só não sabe ainda!

É triste demais essa prepotência de quem acha que sabe o que é bom para você. Cada um sabe de si, da sua vida, do que é bom para si ou não. Cada um sabe o que o faz feliz. Por que complicar? Por que eu deveria impor o meu conceito de felicidade sobre os demais? E por que deveria permitir que fizessem o mesmo comigo? E, por fim, por que comprar o clássico e sublime discurso masculino? - que tanto suporto bravamente:

- Porque eu entendo de mulher...

Mais uma vez, nada dito diretamente, só tecido nas entrelinhas. Mas igualmente irritante. E digno de piedade. Eu com meu olhar condescendente e uma vontade imensa de dizer com toda a frieza que me compete:

- Babaca.

me limito a ouvir o que eles têm a dizer, compartilhando com algumas amigas a arrogância e a prepotência alheia - não sem um certo sadismo certeiro e pontual. Quem acha que sabe muito, não sabe é nada. Quem quer tudo, acaba sem nada. Porque quem acha que já viu tudo, ainda não viu nada. E eu, claro, respeitadora que sou, deixo que falem, berrem aos quatro cantos o que quiserem, especulem, me façam ofertas inusitadas, só pelo gosto de dizer:

- Não.

Não. Eu não quero esse vestido, não quero essa filosofia de vida, não quero essa bebida, não quero essa cantada barata, não quero esse discurso, não quero esse cabelo, não quero essa noite, não quero essa covardia, não quero essa certeza alheia de quem sabe o que é melhor para mim.

Desconfie sempre daquelas pessoas que distribuem suas verdades absolutas com ar maduro de gente vivida, principalmente quando insinuam que sua vida não é completa por você não viver como elas.

Ouvindo The story (Norah Jones)

26 de fev de 2011

Vamos fugir?!

- Vamos fugir?!

Eu gostaria de ter perguntado a alguém ontem. Talvez hoje estivesse em alguma cidade perdida em Minas Gerais ou numa praia deserta do litoral de São Paulo. Levante a mão quem nunca quis fugir, sumir, sem deixar pistas.

Sabe aquelas semanas em que tudo dá errado? Pois é, essa última semana não foi uma delas. Entretanto, foi desgastante, cansativa, mal-dormida. Não, não é época de crise, pelo contrário, época de vacas gordas, embora algumas coisas pareçam degringolar - e eu as encare com todo o humor negro que possuo, que é pouco, convenhamos. Fugir em época de crise é ser previsível e banal. Isso eu nunca fiz: só desmonto e me remonto em seguida.

Hoje, afiadíssima, ainda bem que também sonolenta.

- Nossa, você não era assim! - sorriu o Sr. A.

Me limitei a sorrir e até ensaiei uns ridículos passos ao som do pagode que vinha do bar. Não gosto de pagode, nem sei dançar. Frustrada com a tarde de sábado e com esse meu cansaço e a minha vontade de fazer tudo e ter tão pouco tempo. Tanto para fazer e tão pouco tempo, citando o Coringa. É o meu grito de socorro:

- Quero fugir!

Não é por causa da rotina, nem da responsabilidade. Queria simplesmente fugir, deixar celular, e-mail, todos os meios de comunicação para trás. Ia levar meus discos e nada mais. Encher a mochila velha da época do colégio, umas duas mudas de roupa, pacote de pipoca doce e o espírito desbravador.

Talvez eu ainda fuja. Mas a pergunta que não cala:

- Do quê?

Não me importo muito com a resposta também. Aliás, muitas coisas passaram a me despreocupar depois de muito me preocupar com elas. É como se cada coisa tivesse uma dose finita de preocupação. E essas já acabaram faz tempo.

Seja como for, o convite ainda está de pé:

- Vamos fugir?!

Ouvindo Partido alto (Cássia Eller)

blá blá blá gosto de você blá blá blá

Hoje um amigo muito querido me pediu um conselheiro amoroso. Caso complicado. Em nome da amizade, engoli o meu pragmatismo  ácido-racional e minha dose de realidade-navalha:

- Você gosta dela? Então dê um tempo, vá tocando e veja no que vai dar.

O que nós não fazemos em nome da amizade? Não gosto de estragar a alegria alheia e ele estava tão, mas tão contente...
 
Ouvindo  Under cover of darkness (The Strokes)

25 de fev de 2011

20 e poucos anos: Divagações sonolentas

Estávamos os dois deitados na cama:

- O que a gente está fazendo aqui? - ele me perguntou depois de um tempo de silêncio, brincando com um cacho do meu cabelo.

- Esperando o sono chegar - bocejei - Quero colo.

Me abracei a ele, tinha sido um dia difícil.

- Quero esquecer de tudo hoje, mesmo.

- Amanhã é outro dia, você vai ver - ele me sorriu.

- Tive um sonho tão estranho, Raul - me virei para ele, sentia o seu hálito de menta.

- De novo com o trator no milharal? - ele riu e me deu um beijo na bochecha.
- Não, foi mais estranho...

- Mais estranho? O que seria mais estranho?

- Sonhei que tinha alguém me carregando no colo.

- E o que isso tem de especial?

- Ninguém me carrega. Eu não deixo, não desde a última vez que me carregaram.

- Ah, quando te deixaram cair? Hilário aquilo. Ele estava bêbado, não? Trauma besta.

- Não, não estava - fiz careta - Sei lá, eu não deixo que ninguém me carregue, mas no sonho foi a coisa mais natural no mundo. Trauma besta é você não comer pastel porque seu cachorro morreu engasgado com um pastel, pô!

- Besta! Me diz que ele não te carregou para dentro do apê de vocês?

- Ai que brega, Raul. Nem eu que sou cafona aceitaria uma coisa dessas. Pior do que isso, só aliança em bombom. Jesus!

Ele riu. O sono vinha chegando para ele também, os olhos pesando. A vida andava cansativa para nós dois. Adormecer parecia a única coisa lógica a se fazer.

- Será que não é uma metáfora, Lô?

- O quê? O sonho?

- Também. Mas eu pensei primeiro no cara que te deixou cair. A despeito do ridículo, você podia encarar isso como uma metáfora do desapontamento que ele te causou, não acha?

- Não, não foi metáfora, foi bem físico - levantei a blusa e mostrei a cicatriz nas costas.

- É, ele era desajeitado. Dói?

- Quando faz frio. Me deixar cair em cima de uma mesa de vidro não é para qualquer um.
- Você tem dedo podre, Lô.

- Verdade, já gostei de você.

- Mas isso foi há muito tempo, nessa época você tinha bom gosto.

- Tinha nada, era tão estúpida que assistia Dragon Ball Z só para ter o que conversar com você. E você nem deixava eu me aproximar.

- Eu era adolescente, o que você queria que eu fizesse? Mas essa foi sem dúvida uma das coisas mais bonitinhas que já fizeram por mim.

- Mas eu cansei de ser bonitinha, apesar de achar que "bonitinha" está impregnado em mim. Será que não dá para ser outra coisa?

- E o que você quer ser?

Acariciei a barba dele por fazer, fiquei de costas para ele - beijo na nuca. Pensando. Ninguém me perguntava aquilo desde os 8 anos e minha resposta era "assistente de mágico".

- Acho que já sou tudo o que queria.

- Mesmo?

- Minto. Mas tô encaminhada. E você?

- Eu não. Tô perdido, Lô, tenho que admitir. Quero mudar de emprego, fazer outra faculdade, qualquer coisa que não seja o que tenho agora.

- Que pena, Raul. O que você mudaria na sua vida?

- Tudo ou quase tudo.

- Mas muitas águas ainda vão rolar, certeza.

- Tomara.

- E ainda vou te ver casado com alguém mais chata do que eu. 

- Tomara que não. Você não tá pensando em me arranjar alguém, né? Tão infantil.
- Até parece que eu faria uma coisa dessas. Você é caso perdido. Nossa, só saiu bobagem da conversa de hoje...

- Na verdade o assunto ia ficando sério, mas você cortou.

- Tô com sono, não quero papo sério, papo existencial.

- Então o que você quer agora?

Ouvindo Automatic stop (The Strokes)

24 de fev de 2011

Dos limites da lógica

"[...] a lógica nos permite organizar nossas idéias e ver com maior clareza se podemos chegar às conclusões às quais acreditamos poder chegar, com base em nossas idéias. A lógica ajuda-nos a colocar as idéias em ordem da forma tal que os outros teriam que aceitar nossas conclusões se aceitassem nossas premissas e se o raciocínio fosse rigoroso. Apesar dessas vantagens, a lógica tem os seus limites".
(Carraher)

Comentário: Fui surpreendida novamente. Se por um lado, concordo com o que Carraher fala sobre a lógica, por outro, nunca tinha parado para pensar que a mesma teria seus limites. Pelo que sei 2 + 2 são 4 em qualquer lugar, apesar de acreditar na relativização do mundo e das coisas. Mas números são sempre números, embora eu não seja uma pessoa de números e saiba que a lógica não se resume a eles. Concordo que ela nem sempre é a melhor saída, principalmente se levada a ferro e fogo, mas, quais seriam as suas limitações? Que fronteiras são essas?

23 de fev de 2011

20 e poucos anos: Neuroses

Raul e Lô voltavam abraçados para casa, depois de uma festa:

- O seu amigo acha que eu sou gay?!

- Ele não é meu amigo.

- Certo, o seu namoradinho acha que eu sou gay.

- Ele não é meu namorado, que coisa!

- Okay, o seu whatever acha que eu sou gay!

- Ele não é nada meu e sim, acha que você é gay.

- Mas por quê? Você acha que eu pareço gay? Só porque eu não saio pegando geral? Quem sabe se ele soubesse que a gente dorme junto não falasse uma coisa dessas...

- Mas ele sabe.

- Sabe o quê?!

- Que a gente dorme junto, ué.

- Não sei o que é pior Lola! Saber que você contou isso pra ele ou ser julgado por uma coisa que não sou! O que mais você disse à ele?

- Ai Raul, você fala "julgado" como se ser gay fosse crime. Tá aí você mais uma vez se entregando em seus preconceitos.

- Não é isso, mas já pensou que se isso se espalha eu posso perder boas oportunidades?

- E desde quando você liga para o que os outros pensam?

Raul parou de andar, ficou um minuto em silêncio e respondeu depois:

- É, eu não ligo mesmo.

- Você tem andado muito com o Zeca. Já te disse que ele não é boa coisa...

- Só porque é seu ex?

- Não, porque o cara é um babaca.

- Sei. Mas o que você disse exatamente sobre nós?

- Nada para se envergonhar oh senhor cheio de pudores. Eu disse que somos grandes amigos que dividem a cama. Tão ruim assim? Quem ouve você falar parece que tem vergonha disso...

- Não, não é isso e você sabe. É que eu gosto de discrição.

- Sim, eu sei disso. Fique tranquilo, mas como adultos que somos, não vi mal em comentar.

- Você contou para ele sobre a manhã seguinte?

- Como assim?

- Que depois do sexo vai cada um pra um lado e que nunca acordamos juntos?

- Em que mundo você está, Raul. Tá doido? Papo de mulherzinha! Por que eu contaria isso para ele? E que mal há nisso? Já falamos sobre isso, né? Já entramos num consenso, não?

- Sim, claro claro. "Não misturar estação".

- Faço dessas palavras, que são minhas, as minhas palavras de novo: "Não misturar estação".

Chegaram a porta do prédio de Lô:

- E agora você fica com essa cara.

- Só tenho essa.

- Você ficou chateado, né? É uma bobagem.

- Sim, eu sei. 

- Sabe o que eu acho?

- O quê?

- Que você está precisando de uma namorada.

Raul sorriu, Lô deu-lhe um beijo de boa noite e ele voltou pensativo para casa.

Ouvindo Sexx Laws (Beck)

22 de fev de 2011

O que é ser feminista?

É essa a pergunta que tem me martelado nos últimos dias. Me disseram:

- Você é tão feminista!

E aquilo me soou entre o jocoso e o ofensivo - possivelmente uma mistura dos dois. Por isso a minha curiosidade. O que é ser feminista? Se não passar de um machismo às avessas, estou fora.

Acredito que, de modo geral, direitos e deveres são os mesmos para homens e mulheres, embora tenham as suas muitas diferenças. Assim, as cobranças deveriam ser as mesmas. Por isso, se ser feminista é achar que TPM é desculpa para botar fogo em tudo, bom, então não sou feminista. Os hormônios que me desculpem, mas auto-controle é fundamental.

Ser feminista é ter relacionamentos vazios e vida sexual variada e simultânea? Bom, cada um na sua.

Agora, se ser feminista é se revoltar e esbravejar sozinha ao ouvir a seguinte notícia na Rádio Bandeirantes, então sou feminista: uma escrivã, acusada de (se não me engano) desvio de dinheiro, foi obrigada a ficar nua numa delegacia em Parelheiros, na periferia da zona sul de São Paulo. Segundo os policiais, todos homens, a escrivã precisava ser "revistada". Os policiais envolvidos gravaram tudo - com o intuito de? Detalhe que isso já tem dois anos e só agora veio à tona. Nesse meio tempo, a escrivã continua respondendo o processo pelo crime cometido.

Em trechos transmitidos pela rádio, dá para perceber a revolta da escrivã diante da situação. Mas nem sempre elas se revoltam. Conheço mulheres que se submetem a todo o tipo de coisas pelos seus namorados/ parceiros. São vítimas? Não creio, não esses casos, pelo menos, pois são livres para partir quando quisere. Claro que nem sempre é assim e há casos realmente graves de violência, da qual a mulher simplesmente não consegue escapar. Mas dos casos que conheço, observo o livre-arbítrio em ação: as mulheres das quais falo escolhem ficar, não importando o que aconteça, mesmo que não dividam seu cérebro ou seu rim com dita alma-gêmea. É tudo uma questão do que se está disposto a abrir mão e de condicionar sua existência, felicidade e paz de espírito (???) ao outro.

Ser feminista é ser independente? Quando me dizem que sou independente, me sinto quase criminosa, como se a opção mais válida e lógica fosse esperar por um príncipe encantado numa Harley, digo, num cavalo branco. Acredito que a vida é muito, mas muito mais do que isso. Estar com alguém é só uma das coisas que fazem parte da nossa vida. E não algo que ocupa a vida inteira.

O que não quer dizer não valorizar/ cuidar o parceiro/ caso/ flerte que se tenha. Só significa que ele não terá que bancá-la financeira e emocionalmente, o que, a princípio, me parece ótimo para todas as partes envolvidas. Ser independente é saber equilibrar carreira, família, amigos, lazer e - se tiver - romance.

E se não tiver um romance/ caso? Você se auto-flagela e descabela? Não, você toca a sua vida, como sempre tocou, por saber dar a cada coisa (e pessoa) o seu devido valor. Nem mais, nem menos. Há muita gente que torce o nariz quando fica sabendo de uma mulher que está bem sem ninguém. Não, a opção pode  ter sido dela e não dos outros.

Acho que ser feminista não é colocar as mulheres acima de qualquer suspeita, mas ter auto-conhecimento, saber de suas capacidades, falhas e pontos fortes, construindo, com isso, uma vida completa e feliz. E, claro, bater o pé e fazer barulho quando algo causa revolta.

Eu acredito mesmo que se homens e mulheres usassem o que têm de melhor em prol de um bem comum (teamwork) em quaisquer relacionamentos - e não falo só do campo sentimental - teríamos parecerias de grance valor. Enquanto isso não acontece, quero a Harley para mim! Vai ver que a famigerada e já sem cor guerra dos sexos que tanto alimenta o imaginário popular é mais divertida.

Depois de alguma insistência de terceiros, fui obrigada a perguntar:

- Feminista por quê?

E a resposta:

- Porque você não é tonta.

Seja como for, parece promissor...

Ouvindo Running up that hill (Placebo)

Nos conhecemos?

"O mundo fica cruel demais se pessoas que dividiram intimidades passam a se tratar como estranhos"
(Domingos  de Oliveira)

21 de fev de 2011

Leãozinho

Era um Leãozinho que tinha tudo para ser Tigresa, mas as linhas foram traçadas tortas sem régua nem lápis. Talvez algum carvão e algum suor. Sem sangue que o sangue secou. A ferida exposta onde a mosca botou ovo, virou larva. E eram larvas. Comiam a carne já carcomida. Derramar sangue seria um desperdício numa terra como aquela.

Leãozinho não sabia que idade tinha. Eu também não sabia. Só sei que se criou sozinha, meio selvagem, meio bicho, meio gente. Uns olhos assustados e famintos. Fome de tudo. Os dentes brancos e grandes, precisão de corte, de garras firmes. Corte de navalha. Os seus cabelos eram uma juba brilhante ao sol e ardiam como seus olhos de açaí.

Morava com o Barbosa, meio tio, meio dono, meio homem. A desgraça bateu a porta quando ele quis se mostrar homem por inteiro. Foi na época em que começaram a olhar Leãozinho com olhos cobiçosos, cheios de um desejo árido e estéril. Um dia Barbosa entrou em casa decidido. Cansou de só olhar o que podia ter só para si. Aquilo que era seu por direito. Aquilo o que os outros imaginavam em suas camas, selvagem e indomável. Um dia, depois de muito ruminar, decidiu que era ele o seu senhor e era ele quem iria domá-la, roubar dela aquele instinto de liberdade que despertava tanta inveja.

Trancou-se com ela no quarto numa tarde alaranjada de abril. Matou toda a sua vontade de uma só vez. Um gole seco e rasgante. Cortante como os dentes brancos de Leãozinho. Os gritos guturais eram ouvidos a milhas de distâncias, mas não havia ninguém para ouvir. Para que gritar se ninguém podia ouvir? Leãozinho semeou sua dor, seu pavor, seu ódio no vento, nos seus gritos doloridos. E dolorosos, caso alguém pudesse ouvir. Mas aqueles gritos eram como música para os ouvidos de Barbosa. E combinados aos toques e sabores, fazia com que ele se sentisse incrivelmente homem, viril. Já devia ter feito isso muito antes.

Assim que se satisfez, o que demorou, Barbosa trancou-a no quarto escuro. Bicho fica em jaula. Leoãozinho ali, acuada, semi-nua, a respiração ofegante, a alça rompida do vestido, o rosto marcado, trêmula como filhote novo. Mas já nada tinha de filhote. Caso houvesse luz, perceberia-se que eram outros os seus traços agora, embora os olhos se conservassem intocáveis. Era como se fossem ainda a única parte dela que ele não havia tocado. Era como se aqueles olhos fossem a única coisa que não pudessem tirar dela.

Era uma força grande, muito grande, do tamanho da noite que passou a devorá-la, enquanto era devorada por Barbosa, religiosamente. O casual que virava hábito. O pavor e a dor semeados no vento ainda. Que planta teriam dado, se plantados na terra? Nada, porque aquela terra não dava nada. Era uma miséria que consumia as pessoas com o calor a fome a cachaça o desespero a morte.

E muitos dias se seguiam assim. Infindáveis. Em muitas belas e mornas tardes alaranjadas, Barbosa se trancava no quarto com Leoãozinho. O cheiro das flores do deserto que incendiava o ar. E assim ela passava seus dias. Parecia ir amansando aos poucos. E Barbosa, sempre muito satisfeito.

Leãozinho foi perdendo o brilho da juba, foi baixando a cabeça, dobrando-se a vontade de Barbosa. De joelhos. Mas ele estava é bem deitado quando o encontraram, o estômago virilmente exposto, enquanto as larvas se regojizavam. E as moscas também, naturalmente.

Deitado na cama, ele contempla o teto do quarto. Chocado.

Leãozinho não consertou as linhas tortas. Nem escreveu seu nome na história. Analfabeta.  Precisou ser Tigresa. O desconhecimento das letras não a poupou do desconhecimento da vida. E traçou e escreveu o seu destino. 

Nunca mais foi vista. Tivesse ele bebido menos e dado ausência da faca que trazia no bolso da calça. Tivesse ele visto Leãozinho com outros olhos. Tivesse ele olhado em seus olhos, saberia que a sua força ainda era a mesma. Perene.

Ouvindo Terra (Caetano Veloso)

20 de fev de 2011

Da vontade

A pergunta que não foi feita:

A: - Por que você fez isso?

A resposta guardada:

B: - Porque deu vontade, oras...

Curtindo a vida

Para o Designer

A: - Você sustentava esse discurso de "curtir a vida"?

B: - Ainda sustento. O problema é que às vezes você está curtindo e nem sabe...

Cansei de desencontrar

Para Scarlet

Algumas coisas parecem bem difíceis, mas depois que você as executa, percebe que foram mais fáceis do que imaginava. Algumas pessoas reagem quando você esperava que elas não reagissem. Reagem e você percebe que fez a escolha certa. Reação com riso é sempre algo para se pensar. Humor como máscara? Eu não iria tão longe...

Hoje me disseram muitas coisas das quais eu já sabia. Mas acho que é sempre bom ouvir que você estava certa. Tudo muito claro, muito óbvio, muito preciso. E decisões muito claras, óbvias e precisas. Sempre bom. Mas tudo sem drama. Só a sobriedade que me resta depois de alguma dor de cabeça e algum aborrecimento. E a companhia bem humorada colaborou, naturalmente. Afinal, tristeza não é um pressuposto de resoluções racionais. Sem drama. Desgasta muito e tem ainda tanta coisa por fazer...

A vida é curta demais para certas coisas, para se privar de certas coisas, para se sujeitar a certas coisas. E cada um sabe de si, sabe de sua vida e do que vale a pena. Ponha o que vale a pena no papel.

Acho que estou ficando boa em despedidas. Às vezes, é a melhor coisa a se fazer, quando você simplesmente não vê perspectiva alguma. Lembro de consolar uma pessoa muito especial há algum tempo: ela achava que não tinha controle sobre a própria vida. Passei os dedos pelos seus cabelos carinhosamente:

- Sim, você tem o controle da sua vida...

Do mesmo modo, tenho da minha. E, pensando em Scarlet, se não estou satisfeita, por que não mudar o rumo? Bingo! Acho tudo isso mesmo. A insatisfação nos move a buscar coisas mais interessantes. Sim, ter o controle da própria vida e saber o que se quer faz bem. E isso me causou um prazer fino e delicado, daqueles de quando alguém lhe olha com olhos que dizem:

- Tolinha!

E você simplesmente sorri, dá ombros, as costas e vai embora.

Ouvindo:


A vida é isso ou bancar a donzela encastelada - sendo que a última está totalmente fora de cogitação.

19 de fev de 2011

20 e poucos anos: O jantar

Ela estava com as unhas feitas quando eu cheguei do trabalho. Milagre. Me olhou distraída, cantarolando Adriana Calcanhoto. Mau sinal, muito mau sinal. Péssimo sinal. Achei que fosse sair.

- O que você tá tramando?

- Nada, seu bobo.

Sorriso de criança. O olhar e o vestido eram displicentes. Péssimo sinal. Também não insisti. Pensei em zombar de seu cabelo, como sempre fazia, mas achei melhor não falar nada. Lô ali, daquele jeito, não era coisa que sempre acontecia.

- Vamos sair!

- Vai onde?

- Eu disse "vamos", isso quer dizer "nós"...

- Eu não vou assim a lugar nenhum!
Larguei a mala sobre o sofá encardido e estendi os braços, mostrando meu estado catastrófico: a camisa branca amassada e empapada de suor. Meus rosto brilhava oleosamente, os cabelos engordurados.

- Tem camisas limpas na sua gaveta, não? Um bom banho resolve o resto...

- Mas aonde vamos, Lô? Tô tão cansado...

- Tá ficando é velho, isso sim! Por que não me levar para sair? Se não quiser ir, vou sozinha, você sabe que eu vou!

Pronto, ela estava furiosa comigo. Por tão pouco. Às vezes, era insuportável.

- Sim, eu sei que vai... 

Respirei fundo.

- Onde vamos?

Sua fisionomia mudou radicalmente.

- Surpresa! - respondeu ela, desenhando um sorriso maroto - Te conto depois do banho.

Fiquei desconfiado. Não confiava nos programas de índio de Lô. E ela sabia disso. E sabia que seus passeios não eram exatamente os mais interessantes. Me rendi a sua vontade. Mau hábito. Tinha que parar de mimá-la, convencê-la de que não era irresistível como devia pensar. Mas não seria naquele momento, pois discutir com ela era cansativo e eu estava irritado, tinha tido um dia duro. Me rendi e fui para o banho, como um menino obediente. Um banana, na verdade. Não podia me dobrar a sua vontade para sempre, nem minha mulher ela era. Como eu permitia que uma amiga, sim, a minha melhor amiga, fizesse o que quisesse?

No chuveiro, me rebelei. E quando voltei a sala, estava de pijamas e chinelos. Queria vê-la colérica e dizer que não ia sair porque não queria e pronto. Minha vontade prevaleceria. Mas o que consegui foi outra coisa.

- Você não quer mesmo sair, não é? - ela disse ao me contemplar soberano de pijamas, sentando no sofá.

A cabeça levemente inclinada para a esquerda, um ar de ausência.

- Não, não quero - respondi ríspido.

Sua fisionomia já era outra novamente. Vi os olhos amorosos que tão bem conhecia. Senti ia sendo desarmado.

- Então a gente fica em casa - ela disse, tirando os brincos - E entrego seu presente aqui mesmo.

Ela pegou o telefone.

- Presente? Vai ligar para quem?

- Cancelar a reserva do restaurante. Ia te levar para jantar, afinal, hoje é o seu aniversário - o fone na mão.

Emudeci. Nem lembrava que era meu aniversário.

- Vou ligar da cozinha que esse telefone tá ruim - disse ela, desaparecendo para dentro da cozinha.

Voltou com um pacote pequeno. O detalhe e o cuidado do embrulho eram coisa dela. Bem dela. Gostava de fitilhos. Era o embrulho mais bonito que eu já tinha ganhado. Fiquei sem graça, não estava muito acostumados a agrados e presentes. Abri desajeitadamente o embrulho, como se toca a primeira vez o rosto de uma mulher: com carinho, desejo e algum embaraço.

Cem anos de solidão

- Como você sabia?! - abracei-a imediatamente.

E seu sorriso era irresistível.


Ouvindo Mais feliz (Adriana Calcanhoto)

18 de fev de 2011

E era uma vez a supervalorização do sarcasmo...

Segundo a Wikipédia:  

Sarcasmo [...] designa um escárnio ou uma zombaria, intimamente ligado à ironia com um intuito mordaz quase cruel, muitas vezes ferindo a sensibilidade da pessoa que o recebe. 

 Okay, as pessoas amam House porque ele é sarcástico. Tive amigos que se achavam o máximo por serem sarcásticos e humilharem os outros.

* dramatização* 

- Oh! Como sou superior à todo o resto da humanidade!

* dramatização*

A Lygia Fagundes Telles tem um trecho interessante em A disciplina do amor, no qual ela fala sobre como acha o bom humor uma qualidade importantíssima e cito aqui a parte que me interessa no momento:

"Sem sarcasmo, que o sarcasmo é cruel. Sarcasmo é veneno."

Existem outras maneiras de rir e fazer rir. E sarcasmo pode ser até engraçado às vezes, mas não acho mesmo que seja TUDO isso o que dizem e apontam e celebram.

É por isso que prefiro o Leonard ao Sheldon. O Sheldon é legal, mas cansa.

Ouvindo House of the rising sun (The Animals)

BBB: Big Bored Brasil

Assisti uma noite, na semana passada, só para ver se era tão ruim quanto me lembrava. Não, é pior, bem pior. Eu até entendo o interesse que a vida alheia pode despertar nos outros - embora eu não partilhe disso. Isso vá lá. Mas como se interessar pela vida de gente tão desinteressante? O programa em si é desinteressante. Prefiro uma boa trama de livro. Até a minha vida pacata é mais interessante. E eu jogo uma bolinha de papel na cabeça do primeiro que entoar:

- Mas BBB é real, não é ficção!

Tão real quanto o os meus dentes do siso ou a minha tatuagem de dragão nas costas - ambos inexistentes, caso não tenha ficado claro. Como diria Charlie: "É tudo uma desculpa para vadiar, galinhar e se expor". Antes fossem interessantes... Porque eu que nunca fico entendiada, fiquei - e peguei um bom filme para assistir.

Mas lamento mesmo pelo George Orwell. Se eu fosse ele, voltava para assombra Bial e sua trupe enfadonha.

Ouvindo Teorema (Ira!)

Pode me chamar de Sexta-feira

Para aqueles que me acompanham, a partir de hoje, vou postar toda a sexta-feira um texto diferente no blog Meninas Improváveis. Os temas são variados e são sete as meninas que escrevem. Meu dia é sexta-feira então caso queiram acompanhar, toda sexta vocês encontram um texto meu lá. Mas podem entrar sempre que o blog é muito interessante, tanto que eu já o seguia há um bom tempo.

Podem me chamar de Sexta-feira, um dos melhores dias da semana, naturalmente. Agora eu pergunto: cadê o Robinson?

17 de fev de 2011

Como é que se diz eu te amo?

Eu perguntei:

- E hoje em dia, como é que se diz eu te amo?

Ela me olhou triste:

- Não se diz...

Talvez residisse ali o meu erro. Meus erros. Gesto e palavra. E, ainda assim, nada. Melhor não dizer nada? Falava com Scarlet por esses dias. Ela me disse que é uma espécie de egoísmo não dizer as pessoas como nos sentimos. E é mesmo. E para que guardar exclusivamente para mim algo que faz muito mais sentido se dividido com o outro? O eu te amo não impõe correntes ou cárcere, só existe em si mesmo para que o outro faça dele o que quiser. Se quiser. Do contrário, bom, é a vida. Porque eu sei como dizer eu te amo. E isso me basta.

Ouvindo Vamos fazer um filme? (Legião Urbana)

16 de fev de 2011

Clara e o retorno

A tarde estava clara. Fazia um calor absurdo dentro da sala, mas lá fora estava fresco fresco. Clara passou calor e frio naquela tarde. Rendeu-se a incerteza climática como havia se rendido a incerteza da vida. Arrumou alguns papéis. Ganhou a rua rapidamente, passo firme. Sempre firme. Andava rápido, embora comesse lentamente - a infância de sorvetes desperdiçados, escorrendo por seus braços magricelos.

Ouvia uma seleção de cantoras de jazz, feita por Raul. Sim, suas fitas K7. Oh meu Deus! Lá estava alguém que resistia (bravamente?) à mudança. Mas a fita era boa, muito boa de fato. Sarah, Billie e Ella. Talvez em outra vida cantasse como Billie. Não, nem outra vida. Assoviava Solitude quando entrou no ônibus. Pensando em mil coisas ao mesmo tempo, misturavam-se e ainda assim podia distingui-las com clareza assustadora. Mas tal clareza não fez do enjôo coisa menos incômoda.

Haveria um leve tom de nostalgia? Talvez, mas voltou os olhos para frente, para o que estava por vir. Para quem estava por vir. Difícil aquilo. Louis às vezes esvoaçava pelas reentrâncias de seu cérebro. Bom, pelo menos não passava mais pelo coração. Mas, afinal, em que parte do corpo se guarda a memória? O corpo todo. Cada pedaço, pele, pêlo conta uma história. Uma, duas, três. Sobre o Big Bang, sobre o fim dos dinossauros, sobre a descoberta do fogo... Tudo. Tudo escrito, bordado, talhado em seus braços, pernas, rosto, boca, seios, mãos. Ombros. Principalmente ombros. Seu corpo guardava a história da humanidade.

Passou os dedos longos pelos cabelos. Aquela nostalgia de fim de tarde era uma coisa insuportável. Haviam rejeitado o seu mundo, um mundo que agora ela abraçava com um carinho terno. Quase maternal. Deveria tê-lo rejeitado também? Render-se a incerteza alheia? Não, já bastava a da vida...

... E a dos ônibus:

- Esse ônibus não faz esse caminho!

- Agora faz.

Novo itinerário! Delícia andar vinte minutos debaixo de chuva torrencial. Sem açúcar. Nem derreto nem encolho. Menina terra vira barro? As barras da calça sujas de barro. Os cabelos caindo pelo rosto, a água escorrendo pelo corpo. Maldito dia de blusa branca. Mais cinco minutos e as gotam começam a minguar e, com elas, a melancolia de Clara.

Ela chega ao novo edifício, sobe as escadas. Está à porta do novo apartamento. Novo porque sua vida ainda está encaixotada. Ligeiramente caótica. Mas desesperar jamais. E desde quando caos é sinônimo de desespero? Vida nova porque assim ela quis. Sorriu abobalhada para a porta de madeira maciça: lembrou-se que voltava para alguém. Havia alguém esperando por ela. Entrou correndo na sala jogou suas coisas no sofá despiu-se com uma rapidez nunca antes vista e correu para o quarto. 

Encarou-se menina-mulher no espelho. Mais mulher do que menina agora. Observava delicadamente aquele corpo que começava a ganhar novos contornos. Mais suaves. Arredondados. Sublimes até, talvez. Passou a mão pela barriga que começava a brotar - carinhosamente. Filhote de girassol. Amaria o sol do mesmo modo que ela. Sim, havia alguém esperando por ela. Dentro dela.

Ouvindo Love me or leave me (Sarah Vaughan)

Planos Bs

O som super alto, os vidros semi-abertos e eu cantando on the top of my lungs. Marisa Monte? Claro! Coisa para ser cantada com todo o vigor, lirismo, delicadeza e força do qual dispomos. O rapaz na calçada olha curioso para o carro. Viu ou ouviu? Pouco importa. Se tudo der absolutamente errado, viro cantora. Ou assistente de mágico. Assumo uma persona de mulher ornamental e ganho um colan de lantejoulas para usar o ano todo - e não só no Carnaval. Ou talvez meus planos Bs devessem ser menos delirantes. Embora não seja possível que absolutamente tudo dê errado. O que tinha que dar já deu.

(O que me faz lembrar: o Plano A é não ser o Plano B de ninguém)

Ouvindo A Sua (Marisa Monte)

Nuvens

A tempestade é necessária, porque depois que o mundo desaba, você percebe que via tudo claramente, mesmo por entre as nuvens plúmbeas. As nuvens nem fizeram tanta diferença, porque o seu olhar já estava treinado para elas, para ver além do que elas permitiam que vissem. Quando a chuva e o mundo desabam e o céu clareia, as coisas podem até parecer mais claras. Mas, no fundo, a verdade já era conhecida. E o sol de fim de tarde só vem para confirmar uma coisa da qual você já sabia, desde sempre.

15 de fev de 2011

Mil motivos

Para todas as coisas há um motivo e há um motivo para todas as coisas. Ainda que você não saiba qual. Nem eu.

14 de fev de 2011

Shine on you



Estou coberta de glitter dos pés à cabeça (não nasci para aulas de artes). Ela me olha com ternura:

- Professora, você tá virando estrela?

Ouvindo Black hole (She & him)

13 de fev de 2011

Mallu e Justin: feitos um para o outro


Mallu Magalhães está para o Brasil, assim como Justin Bieber está para o mundo. Seja como for, a primeira está casada com Marcelo Camelo e o segundo teve uma biografia publicada quando tinha 16 anos - o que os coloca em situação mais favorável do que a minha. Será que o segredo é ser como eles?

Have you ever been to Mexico?


Os autores de livros didáticos de inglês têm essa síndrome segundo a qual todos os alunos se interessam ardentemente por turismo e/ou por outros países.

De castigo

Se você diz que vai se comportar, muito que bem. Embora eu não saiba o que isso quer dizer exatamente. Por isso, só finjo que sei. Entretanto, não espere o mesmo de mim. Não espere que eu vá me comportar, embora eu também não saiba exatamente o que isso quer dizer.

Ouvindo I started a joke (The Wallflowers)

Samuca deslocado

Ao assistir a última propaganda da Nova Schin, notei com certa surpresa a presença de Samuel Rosa. Nada contra tal participação, mas não pude deixar de notar um certo deslocamento. Zeca Pagodinho seria perfeito para o papel, tanto que já foi garoto propaganda - da Brahma e depois da Nova Schin. Todavia, Samuel Rosa ainda tem para mim um certo ar de rapaz mineiro e não o ar de malandro/ festeiro requerido. Bom, pelo menos é isso o que me passam as propagandas de cerveja.

É como se ele, Samuel, não tivesse o "perfil" para isso. Em Estudos Clássicos, há uma palavra para isso, para falar sobre o caráter do herói que é construído, mostrando do que ele é ou não capaz, acho que algo ligado a verossimilhança. Infelizmente não me lembro da palavra, mas sei que Samuca não me convenceu. Também não sei que necessidade é essa que tenho de ser convencida! Mas, oras, não é essa a idéia da propaganda em geral, me convencer de alguma coisa? Que preciso de pente, mesmo que seja careca?


12 de fev de 2011

A vida depois de Black Swan

* Contém [pequenos] spoilers

Acabei de ver Black Swan e devo concordar que o filme é mesmo tudo aquilo o que eu tinha ouvido. Gostei muito mesmo e fazia um tempão que não via um drama de qualidade. Porque dos melodramas eu me cansei. Vale a pena assistir! Mas é preciso estar no clima, porque não é sessão da tarde.

Não vou dissertar sobre o filme, mas fazer algumas [impertinentes] observações pertinentes. Bom, [im]pertinentes na minha opinião, naturalmente, pois não sou nem almejo ser crítica de cinema (já critico outras coisas em demasia, vale mais aqui o prazer):

- Depois de Black swan, decidi largar o balé - definitivamente

- Obsessões podem render histórias incríveis, se bem contadas (aliás, qualquer coisa pode ficar legal se bem contada!)

- Excesso de auto-controle pode levar a uma vida descontrolada.

- Perfeição não é fazer uma coisa com exatidão, mas senti-la.

- Há uma linha muito tênue entre lucidez e loucura. Tudo depende da ave em que você se transforma.

- Todo mundo precisa de uma válvula de escape. Nem que seja pintura em tecido - não, isso não acontece no filme!

- Há uma hora de deixar sua coleção de bichos de pelúcia para trás. Não se pode ser uma sweet girl para sempre, mas isso não quer dizer necessariamente desperta the black swan que existe em você. Ou talvez seja simplesmente isso.

- Elenco de primeira. A despeito de seu papel, Lily areja um pouco o ambiente sufocante de Nina.

- Nina conseguiu ser como Beth: perfeita e auto-destrutiva.

- Entre white e black swan... Qual escolher? Fácil fácil...
- "Você não queria o cisne negro? Conseguiu". Não está no filme, mas bem que podia, embora talvez soasse um pouco como birra. Ou despeito. E não é nada disso o que encontramos em Nina.

Ouvindo Summer 68' (Pink Floyd)

Lemon Lucky day

A sorte é uma coisa muito relativa, já que as pessoas valorizam coisas diferentes. Entretanto, algumas coisas tendem a ser universais - embora eu não acredite muito em coisas universais.

Estava almoçando com o pessoal e finalizei a refeição com um sorvete de palito. Qual não é a minha surpresa ao constatar que o palitinho era premiado:

- Vale um Fruttare de Limão, Uva ou Abacaxi - ele me sorriu.

Animada, fui buscar o meu prêmio. E me considerei deveras sortuda, pois em terra escaldante quem toma dois sorvetes é rei.

11 de fev de 2011

It's what I miss when I turn out the light

Lá estava eu indo para o trabalho numa quinta-feira. Rádio ligado, vidro semi-aberto. Eis que começa: Kiss on my list de Hall & Oates - sempre penso em aveia (oat). Simpática música, clássico da Alfa e Antena 1. No dia seguinte, hoje, lá estava eu indo para o trabalho. Rádio ligado, vidro semi-aberto. E eis que começa: Kiss on my list de Hall & Oates - de novo! Pensei que aquilo devia ser um sinal. Sim sim. Um sinal! Mas sinal de quê? Matutei por um instante, mas meu lado racional quebrou a magia. Sinal de que precisava trocar a emissora.


10 de fev de 2011

A Morcega: Sobriedade

Ele chegou com uma caixinha com fitilho dourado. O vinho sobre a mesa e o brilho de taças e velas em seus olhos escuros.

- Toma, pra você - entregou tocando-lhe levemente a mão.

A Morcega sorriu, desconfiava. Nada tinha de boba. Abriu a caixinha. Surpreendeu-se com o coração ainda fresco, ensanguentado. Belas veias e vasos. Cheiro de sangue fresco, coisa viva. Era Vida.

- Para mim?

- Sim sim sim.

- Mas olha, acho que você vai precisar dele!

- Não, agora está em suas mãos!

- Então o que vai bater no seu peito?

A Morcega refletiu: nunca faria tamanha tolice. Precisava de seu coração em seu peito - e não em escorregadias mãos alheias. Era fresco, coisa viva. Era Vida. Era a vida - dele.

Ouvindo Nada por mim (Paula Toller)

9 de fev de 2011

Grandes revelações [1]

- Não, você não é engraçado.

Ao ouvir aquilo, ele se sentou num banquinho e passou o resto da festinha bebendo guaraná. Sozinho.

Three Questions [2]

1) Por que o  fator surpresa de algumas pessoas não me surpreende? Será por haver uma previsibilidade velada sob a ostentação da surpresa?

2) Por que sair de mocinho da história se te querem para vilão?

3) Existe mesmo um pretérito perfeito?

Ouvindo Ev'ry time we say goodbye (Ella Fitzgerald)

Ah tá bom! [1]

O "meeeeeeeeesmo?" cínico e irritante é uma pedida para inúmeros momentos na vida em sociedade.

8 de fev de 2011

O poder das coisas e as coisas de poder

 
As coisas têm o poder que damos à elas. Isso quer dizer que se dou o poder alguém, eu e somente eu tenho o poder de destituir essa pessoa do que ela não soube usar com sensatez.



  Ouvindo Careless love (Camera Obscura)

7 de fev de 2011

Eu prefiro ter essa matutação ambulante

Vamos que vamos experimentar ônibus novo. Sim, sempre um momento mágico quando sinto a civilização que se aproxima do meu feudo. Nuvens estranhas, citando Pocahontas. 

A oferta de ônibus por aqui é uma coisa deprimente, embora algumas fagulhas de esperança sempre permaneçam. Sim sim, sou uma eterna otimista, mesmo quando o cobrador faz pouco caso de mim ou me responde com grosseria - dois cobradores diferentes no mesmo dia. É, nem sempre o meu charme pessoal funciona, normal.

Enquanto me aventurava ao pegar o novo ônibus e passava por umas quebradas críticas, comecei a matutar, naturalmente. Andar por aí é um dos melhores jeitos de refletir, pelos menos eu acho. E sei de mais gente que faz isso também. Enfim, comecei a me sentir bastante desconfortável por não conhecer nadinha das ruas, avenidas, favelas, digo, comunidades, e cia.

Foi só o nome de uma avenida que reconheci. Nome gringo, leste europeu provavelmente. Mas só os brasileiros com seus churrasquinhos de gato mia, mini-vans dos infernos e incansáveis camelôs. E logo a ficha caiu e me dei conta: os caminhos conhecidos são todos confortáveis, mesmo que não sejam bom, pois é uma coisa da qual temos certeza, que sabemos como funciona.

Sei ir daqui até a esquina, mas o que vem depois da esquina, bom, isso é um mistério.

Um caminho novo, seja de ônibus, seja da vida, nem sempre é confortável. Na verdade, acho que nunca é. E somos forçados a sair da zona de conforto e a nos questionarmos, nos desafiarmos à pensar diferente. Nem que seja para concluir que a escolha pelo ônibus novo foi um grande erro - como foi (e como foi!).

O importante é sempre se arriscar quanto aos ônibus. E saber que sempre se pode dar o sinal e descer no próximo ponto.

Love story fails

"Amar é nunca ter que pedir perdão" (Love story, Erich Segal)

Um dos grandes enganos da vida à dois.

Partilha

Para S. O'H.

Às vezes eu queria ser você, só por um momento. Não para ver a vida pela sua perspectiva tão única, mas simplesmente para pegar um pouco da sua dor emprestada,. Só para perdê-la. Deixar que ela escorra pelo ralo em forma de lágrimas.

4 de fev de 2011

Three Questions [1]

1) De que adianta alguém ser sensível com coisas, se não sabe ser sensível com pessoas?

2) Desde quando experiência é medida por números?

3) Por que as pessoas opõe razão e emoção quando a combinação das duas é que garante o nosso sucesso?


Ouvindo It's only a paper moon (Ella Fitzgerald)

3 de fev de 2011

Gratuidade

Dirigia por uma avenida movimentada quando vi dois meninos na calçada. Seguravam uma grande caixa de papelão e riam, olhando para a pista. Diminuí a velocidade e percebi um galo na avenida. Os carros passavam perto perto, não sei se o notavam. E os meninos riam. A impressão que tive foi a de que os meninos tinham trazido o galo até ali para soltá-lo na pista. Pior que não tinha nem como parar o carro. Ou os meninos.

Realmente espero estar enganada quanto ao que achei...

2 de fev de 2011

Sobre primeiras e segundas chances


Para a Pata

Já vi muita gente implorar por uma primeira chance, mas desdenhar a segunda, dada de graça  - esta sim que deveriam pedir ou talvez mesmo implorar. Pois segunda chance quer dizer que já fizeram algo errado, algo não saiu como devia. Enfim, sinal de que há necessidade de conserto. Perigo na pista? Talvez... Os caminhos podem ser tantos e somos tão poucos. Ou tão pouco?

O mesmo impulso-empenho usado para pedir uma chance nem sempre é usado para mostrar que o voto de confiança foi válido, bem dado. Eu pelo menos não me lembro de ter visto as pessoas realmente aproveitando as chances dadas. Ficam à margem porque parece mais seguro ou se cansam facilmente? Ou o encanto é perdido depois de um contato mais prolongado? Será que aqueles que se entregam tão prontamente ao amor à primeira vista são aqueles que imploram por uma primeira chance e desistem na primeira dificuldade?

É tudo um mistério. Não dá para saber o que pensar, não há receita. Saber o que se passa na mente dos outros é difícil. Digo "na mente" porque dos lábios nem sempre se pode esperar algo: algo que seja verdade ou simplesmente algo para se ouvir, sem que se precise ficar no adivinhômetro - e aí fazemos o papel de paranóicos.

Pensei no que faço com as minhas chances... Não quero saber das dos outros.

E, conversando com uma amiga muito querida, percebi que às vezes nós não nos damos segundas chances. Quantas vezes somos duros e implacáveis e achamos que não meremos uma segunda oportunidade, seja lá do que for.  E, talvez, a coisa mais triste seja negarmos a nós mesmos essa segunda chance tão fundamental, tão importante, tão essencial. Sempre é tempo de mudar de idéia, escolher um caminho, abrir uma porta ou trancar uma janela.


Ouvindo Futuros Amantes (Chico Buarque)

Obviedades


A espera um e-mail de B.
B manda o e-mail com alguns anexos, mas faltam três.
A responde o e-mail:

A: "Não recebi todos os anexos: faltam três. Aguardo os próximos" (e-mail urgente)

B: "Que estranho, mandei todos" (e-mail sem anexos)

1 de fev de 2011

Daltonismo



Às vezes, as pessoas se comportam como daltônicas com um Mondrian nas mãos. Todavia, às vezes, não passa de um simples rascunho de aula de desenho.

Bibi e o verão

Bibi sempre ia a casa do avô na praia, na época das férias. Mal deixavam as malas em casa, corriam para praia. Mal chegavam a praia, Bibi corria rumo ao mar. Água gelada em dia nublado, mas Bibi não sabia o que eram dias nublados. Comprava sorvete de coco, o sorvete mais cremoso. Desmanchava na boca e sobravam os deliciosos pedaços de coco a serem mastigados eficientemente.

Bibi olhava animado para o verão, o sol, a praia - embora tivesse pena dos camarões em espeto. Gostava do cheiro de Sundown, mas não do bonezinho com a qual a mãe o "protegia do sol". Brincava a beira do mar enquanto as ondas tentavam roubar seus baldes plásticos e coloridos - duas pazinhas há tinham ido. Entretanto, aquilo nunca diminuía seu amor pelo mar e pela praia. Amor bandido.

Mas a parte do dia que mais gostava era, sem dúvida, o fim de tarde, quando iam para a praça central da cidade. Havia um parquinho bem conservado e simpático, mas Bibi nem chegava perto. Gostava mesmo era do coreto. De mão dada com a avó, olhava fascinado o brilho do sol poente por entre o coreto. A banda tocando antigas marchinhas de carnaval, embora nem fosse carnaval. O brilho amarelado cintilando nos metais sonoros e amorosos. Os músicos sem ar tirando ar sabia-se-lá-de-onde. Foi então que decidiu ser músico, para fazer parte da banda que tocava no coreto de Caraguatatuba.

Ouvindo: