19 de fev de 2011

20 e poucos anos: O jantar

Ela estava com as unhas feitas quando eu cheguei do trabalho. Milagre. Me olhou distraída, cantarolando Adriana Calcanhoto. Mau sinal, muito mau sinal. Péssimo sinal. Achei que fosse sair.

- O que você tá tramando?

- Nada, seu bobo.

Sorriso de criança. O olhar e o vestido eram displicentes. Péssimo sinal. Também não insisti. Pensei em zombar de seu cabelo, como sempre fazia, mas achei melhor não falar nada. Lô ali, daquele jeito, não era coisa que sempre acontecia.

- Vamos sair!

- Vai onde?

- Eu disse "vamos", isso quer dizer "nós"...

- Eu não vou assim a lugar nenhum!
Larguei a mala sobre o sofá encardido e estendi os braços, mostrando meu estado catastrófico: a camisa branca amassada e empapada de suor. Meus rosto brilhava oleosamente, os cabelos engordurados.

- Tem camisas limpas na sua gaveta, não? Um bom banho resolve o resto...

- Mas aonde vamos, Lô? Tô tão cansado...

- Tá ficando é velho, isso sim! Por que não me levar para sair? Se não quiser ir, vou sozinha, você sabe que eu vou!

Pronto, ela estava furiosa comigo. Por tão pouco. Às vezes, era insuportável.

- Sim, eu sei que vai... 

Respirei fundo.

- Onde vamos?

Sua fisionomia mudou radicalmente.

- Surpresa! - respondeu ela, desenhando um sorriso maroto - Te conto depois do banho.

Fiquei desconfiado. Não confiava nos programas de índio de Lô. E ela sabia disso. E sabia que seus passeios não eram exatamente os mais interessantes. Me rendi a sua vontade. Mau hábito. Tinha que parar de mimá-la, convencê-la de que não era irresistível como devia pensar. Mas não seria naquele momento, pois discutir com ela era cansativo e eu estava irritado, tinha tido um dia duro. Me rendi e fui para o banho, como um menino obediente. Um banana, na verdade. Não podia me dobrar a sua vontade para sempre, nem minha mulher ela era. Como eu permitia que uma amiga, sim, a minha melhor amiga, fizesse o que quisesse?

No chuveiro, me rebelei. E quando voltei a sala, estava de pijamas e chinelos. Queria vê-la colérica e dizer que não ia sair porque não queria e pronto. Minha vontade prevaleceria. Mas o que consegui foi outra coisa.

- Você não quer mesmo sair, não é? - ela disse ao me contemplar soberano de pijamas, sentando no sofá.

A cabeça levemente inclinada para a esquerda, um ar de ausência.

- Não, não quero - respondi ríspido.

Sua fisionomia já era outra novamente. Vi os olhos amorosos que tão bem conhecia. Senti ia sendo desarmado.

- Então a gente fica em casa - ela disse, tirando os brincos - E entrego seu presente aqui mesmo.

Ela pegou o telefone.

- Presente? Vai ligar para quem?

- Cancelar a reserva do restaurante. Ia te levar para jantar, afinal, hoje é o seu aniversário - o fone na mão.

Emudeci. Nem lembrava que era meu aniversário.

- Vou ligar da cozinha que esse telefone tá ruim - disse ela, desaparecendo para dentro da cozinha.

Voltou com um pacote pequeno. O detalhe e o cuidado do embrulho eram coisa dela. Bem dela. Gostava de fitilhos. Era o embrulho mais bonito que eu já tinha ganhado. Fiquei sem graça, não estava muito acostumados a agrados e presentes. Abri desajeitadamente o embrulho, como se toca a primeira vez o rosto de uma mulher: com carinho, desejo e algum embaraço.

Cem anos de solidão

- Como você sabia?! - abracei-a imediatamente.

E seu sorriso era irresistível.


Ouvindo Mais feliz (Adriana Calcanhoto)

2 comentários:

MN disse...

nossa! q conto lindo!!!! adorei!!!!

Cayo Candido disse...

Que bonitinho!