27 de fev de 2011

Eu sei o que é bom para você & Cia

Para a Jô, a Garota de Leeds, a Francesa e a Espanhola

Alguns discursos nos rondam assombram e esse pode ser um deles:

- Eu sei exatamente o que é melhor para você.

Pai, mãe, marido, irmão, amigo... Alguém provavelmente já te disse isso. Não necessariamente diretamente, assim, na cara. E se um dia me disserem isso assim, na lata, bom, é pano para post. Mas já tentaram me convencer disso muitas vezes, ao que eu respondi com um ar condescente e uma certeza aguda de desobediência. Sejamos desobedientes, sim?

A experiência alheia mais uma vez ostentada numa bandeja de prata, como se fizesse um melhor do que o outro, tudo por ter mais experiência. Mais uma vez o ter se sobrepõe ao ser. Ter experiência faz com que você seja o quê? A supervalorização da experiência. Me lembro certa vez há uns dez anos:

- Sou melhor do que ela porque já vivi isso e aquilo. E ela não.

Eu, ainda que fosse uma boba na época, já não comprei a idéia. Sim, a pessoa em questão tinha tido muitas experiências, vazias, sem sentido. Adianta ter um monte de experiências ruins? Okay, tudo questão de ponto de vista, vai de como você aproveita aquilo o que vive. E se eu aproveitar muito mais aquilo o que vivo mesmo sem ter de fato vivido muito? De que adianta tanta experiência se as pessoas volta e meia cometem os mesmos erros? Acho que é meu o direito de escolher aquilo o que quero viver não? Ou será não devo ser seletiva e devo abraçar qualquer coisa que me apareça pela frente?

 - Ah! Você não é feliz, só não sabe ainda!

É triste demais essa prepotência de quem acha que sabe o que é bom para você. Cada um sabe de si, da sua vida, do que é bom para si ou não. Cada um sabe o que o faz feliz. Por que complicar? Por que eu deveria impor o meu conceito de felicidade sobre os demais? E por que deveria permitir que fizessem o mesmo comigo? E, por fim, por que comprar o clássico e sublime discurso masculino? - que tanto suporto bravamente:

- Porque eu entendo de mulher...

Mais uma vez, nada dito diretamente, só tecido nas entrelinhas. Mas igualmente irritante. E digno de piedade. Eu com meu olhar condescendente e uma vontade imensa de dizer com toda a frieza que me compete:

- Babaca.

me limito a ouvir o que eles têm a dizer, compartilhando com algumas amigas a arrogância e a prepotência alheia - não sem um certo sadismo certeiro e pontual. Quem acha que sabe muito, não sabe é nada. Quem quer tudo, acaba sem nada. Porque quem acha que já viu tudo, ainda não viu nada. E eu, claro, respeitadora que sou, deixo que falem, berrem aos quatro cantos o que quiserem, especulem, me façam ofertas inusitadas, só pelo gosto de dizer:

- Não.

Não. Eu não quero esse vestido, não quero essa filosofia de vida, não quero essa bebida, não quero essa cantada barata, não quero esse discurso, não quero esse cabelo, não quero essa noite, não quero essa covardia, não quero essa certeza alheia de quem sabe o que é melhor para mim.

Desconfie sempre daquelas pessoas que distribuem suas verdades absolutas com ar maduro de gente vivida, principalmente quando insinuam que sua vida não é completa por você não viver como elas.

Ouvindo The story (Norah Jones)

Um comentário:

Alline disse...

Frau, tem uma que cansei de ouvir em casa: "Faça o que digo, não faça o que eu faço".
Como assim?
Mesmo que a outra pessoa faça coisas erradas, você não deve se espelhar. Mas quando abrir a boca, tem que seguir o que determina. Ahhhh, assim não vale, né?

Beijo pra ti =D