25 de fev de 2011

20 e poucos anos: Divagações sonolentas

Estávamos os dois deitados na cama:

- O que a gente está fazendo aqui? - ele me perguntou depois de um tempo de silêncio, brincando com um cacho do meu cabelo.

- Esperando o sono chegar - bocejei - Quero colo.

Me abracei a ele, tinha sido um dia difícil.

- Quero esquecer de tudo hoje, mesmo.

- Amanhã é outro dia, você vai ver - ele me sorriu.

- Tive um sonho tão estranho, Raul - me virei para ele, sentia o seu hálito de menta.

- De novo com o trator no milharal? - ele riu e me deu um beijo na bochecha.
- Não, foi mais estranho...

- Mais estranho? O que seria mais estranho?

- Sonhei que tinha alguém me carregando no colo.

- E o que isso tem de especial?

- Ninguém me carrega. Eu não deixo, não desde a última vez que me carregaram.

- Ah, quando te deixaram cair? Hilário aquilo. Ele estava bêbado, não? Trauma besta.

- Não, não estava - fiz careta - Sei lá, eu não deixo que ninguém me carregue, mas no sonho foi a coisa mais natural no mundo. Trauma besta é você não comer pastel porque seu cachorro morreu engasgado com um pastel, pô!

- Besta! Me diz que ele não te carregou para dentro do apê de vocês?

- Ai que brega, Raul. Nem eu que sou cafona aceitaria uma coisa dessas. Pior do que isso, só aliança em bombom. Jesus!

Ele riu. O sono vinha chegando para ele também, os olhos pesando. A vida andava cansativa para nós dois. Adormecer parecia a única coisa lógica a se fazer.

- Será que não é uma metáfora, Lô?

- O quê? O sonho?

- Também. Mas eu pensei primeiro no cara que te deixou cair. A despeito do ridículo, você podia encarar isso como uma metáfora do desapontamento que ele te causou, não acha?

- Não, não foi metáfora, foi bem físico - levantei a blusa e mostrei a cicatriz nas costas.

- É, ele era desajeitado. Dói?

- Quando faz frio. Me deixar cair em cima de uma mesa de vidro não é para qualquer um.
- Você tem dedo podre, Lô.

- Verdade, já gostei de você.

- Mas isso foi há muito tempo, nessa época você tinha bom gosto.

- Tinha nada, era tão estúpida que assistia Dragon Ball Z só para ter o que conversar com você. E você nem deixava eu me aproximar.

- Eu era adolescente, o que você queria que eu fizesse? Mas essa foi sem dúvida uma das coisas mais bonitinhas que já fizeram por mim.

- Mas eu cansei de ser bonitinha, apesar de achar que "bonitinha" está impregnado em mim. Será que não dá para ser outra coisa?

- E o que você quer ser?

Acariciei a barba dele por fazer, fiquei de costas para ele - beijo na nuca. Pensando. Ninguém me perguntava aquilo desde os 8 anos e minha resposta era "assistente de mágico".

- Acho que já sou tudo o que queria.

- Mesmo?

- Minto. Mas tô encaminhada. E você?

- Eu não. Tô perdido, Lô, tenho que admitir. Quero mudar de emprego, fazer outra faculdade, qualquer coisa que não seja o que tenho agora.

- Que pena, Raul. O que você mudaria na sua vida?

- Tudo ou quase tudo.

- Mas muitas águas ainda vão rolar, certeza.

- Tomara.

- E ainda vou te ver casado com alguém mais chata do que eu. 

- Tomara que não. Você não tá pensando em me arranjar alguém, né? Tão infantil.
- Até parece que eu faria uma coisa dessas. Você é caso perdido. Nossa, só saiu bobagem da conversa de hoje...

- Na verdade o assunto ia ficando sério, mas você cortou.

- Tô com sono, não quero papo sério, papo existencial.

- Então o que você quer agora?

Ouvindo Automatic stop (The Strokes)

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