30 de jun de 2012

Garçom!

Para o Trufo

A: - Garçom, por favor.

B: - Sim?

A: - Isso aqui está muito morno. Olha, está quase frio...

B: - É assim mesmo.

A: - Mas me disseram que era outra coisa. Que era um prato diferente.

Silêncio.

A: - E cadê a intensidade? No menu fala que nesse prato vai uma boa porção de intensidade, mas eu não senti absolutamente nada.

B: - É que é muito sutil: tem que prestar atenção.

A: - Mas eu prestei atenção e não senti nada.

B: - Hum. Deve ser porque está morno.

A: - Em outros tempos, eu reclamaria com o chefe. Hoje, não.

Ela se levantou e saiu do restaurante.


29 de jun de 2012

Palhaço não é a mãe!

Marcos: - O que eu escrevo aqui no caderno de inglês?

Eu: - Coloca assim "altas aventuras com bandeirinhas juninas".

(fazíamos bandeirinhas para a festa)

Marcos: - Ai professora, sempre quis uma professora besta como você!

Eu: - Besta? Como assim?

Marcos: - Palhaçona.

Ou de outra vez que ouvi de João:

- É legal porque quando dá você bagunça com a gente...

E lembrei de todas as vezes que me chamaram de séria e eu discordei - e me ofendi. Porque quem me cobrou humor não ofereceu condições para que eu me sentisse a vontade para falar... besteira. Da mais pura e simples. É preciso estar confortável para ser besta, fazer gracinhas e essas coisas todas.

28 de jun de 2012

Campanha não sou vítima

Ela: - Eu banquei a vítima e não fui justa com você.

Ele: - Acontece, não tem problema.

Ela: - Mas prometo não bancar mais a vítima. É só que às vezes é tão difícil...

Ele: - Você está fazendo de novo.

27 de jun de 2012

Sobre o tempo, a vida e as coisas interessantes

Ele: - Eu nunca sei puxar assunto, que droga!

Eu: - Você sempre pode falar sobre o tempo...

Ele: - Okay. Acho que não vai chover.

Eu: - Sim sim, o tempo firmou. Mas eu detesto o frio.

Ele: - Por quê?

Eu: - Tudo dói. Não importa quanta roupa você vista: é sempre o frio.

Ele: - Mas as pessoas ficam mais bonitas.

Eu: - Prefiro ser feia e aquecida.

Pausa.

Ele: - E você, o que acha do tempo?

Eu: - Ele podia passar mais devagar...

Ele: - Podia passar mais rápido isso sim!

Eu: - Por quê?

Ele: - Porque eu quero chegar numa parte legal da minha vida.

Eu: - Você fala da sua vida como se fosse de um livro!

Ele: - É que agora não tá interessante...

26 de jun de 2012

Juninos

Estamos no balcão da lanchonete:

- Vai ter uma festa junina no nosso bairro, com quadrilha e tudo. Acho até que vou ser a noiva - digo à ela.

- Quando vai ser a festa? - ela pergunta.

- Em julho - respondo.

- Então quer dizer que você estará casada em julho? - ele pergunta com um sorriso.

- Olha - eu suspiro - Tem chão até lá. Muita coisa pode acontecer - sorrio de volta.

25 de jun de 2012

Quinzinho e a depressão

- Me coma - disse o pedaço de bolo de chocolate a Quinzinho.

E disseram o mesmo o pastel, a acelga, a lasanha, os sonhos.

- Me beba - disse o copo de suco a Quinzinho.

E disseram o mesmo o energético, o conhaque, o leite, o chá.

Pensar na morte era uma coisa feia, tinham lhe dito. Mas se todos iam morrer, qual era problema de pensar nisso? Porque lhe doía ter perdido a paixão pelas coisas da vida. Tanto as pequenas quanto as grandes. A vida vinha se arrasando. Quizinho era o cachorro amarrado a uma corda presa ao parachoque de uma cherokee. Ia perdendo-se e desmanchando pelo caminho. Quando a cherokee parasse, o que ia restar?

Ser indiferente ao cheiro do café que antes tanto lhe apetecia era uma coisa incômoda. Não era como não caber em si mesmo. Era não servvir mais em si mesmo, como se devesse estar em outro corpo, em outra vida. Mas, lá no fundo, bem sabia que estava na pele de quem devia estar.

Longe de Wonderland, Quizinho queria saber para onde estava indo. Aonde a cherokee o estava levando. Bom, e estava indo a alguma lugar? Ou mais uma vezestava preso num lapso temporal?

Homem ao mar. E essa água tão fria. Talvez precisasse ser salvo. Mas de quem? Temeu que fosse de si mesmo.

24 de jun de 2012

Existencial

Ela: - ... mil vidas em uma.

Ele a olhou satisfeito, por trás dos óculos de sol:

Ele: - Nossa, que papo existencial!

Ela: - Não é existencial.

Ele: - Mesmo? Poxa, me aproximei porque parecia...

Ela: - Eu estava falando de algo mais mundano: minha carreira. Quero largar tudo e entrar para o teatro: atores têm mil vidas em uma.

23 de jun de 2012

Penando


Tem coisas que você não sabe, não percebe, não entende.

Pena.

Mas não sou eu que vou te contar, te mostrar, te explicar.

Pena.

22 de jun de 2012

Grilo grilando

Aos sussurros num domingo à noite.
 
A: - Você tá acordada?

B: - Tô, que foi?

A: - Tem um grilo no quarto.

B: - É a sua consciência.

A: - Você não tá ouvindo?

B: - Não.

Silêncio.

A: - Tô com medo.

B: - Por quê?

A: - Porque se você não está ouvindo quer dizer que ele está muito perto de mim. Ele vai entrar no meu ouvido.

B: - Quer que eu acenda a luz?

Luzes acesas. Dez minutos em busca do grilo perdido. Grilo localizado.

A: - Por que esse chinelo?

B: - Vou matar ele, uai.

A: - Ah não!

Grilo capturado. Casa destrancada. Grilo colocado no jardim. Casa trancada. Quarto e cama.

Silêncio.

A: - Ei! Ouvi outro grilo...


21 de jun de 2012

A droga da esperança

Eu odeio a esperança pendente no pingente guardado naquele lenço perfumado. Odeio aquele lenço e aquele perfume. Odeio como ela se finge efêmera e se revela persistente. Persistente e pendente. Como se me pedurasse no varal para secar no inverno. Nunca vou secar, todos sabem.

Odeio o pingente pendente que eu levo junto ao peito, aquecido entre minha pele e as blusas de lã. Inverno. Pingente sem camafeu, mas a foto praticamente nele. As palavras gravadas. E a esperança que eu quero dispersa gravada nele, encardindo ele a minha memória.

Odeio me sentir dependente e pendente. Presa em algum lugar do tempo e do espaço. Onde? Quando? Só sei que é inverno e a esperança me pendurou, ensopada, para secar no varal.

20 de jun de 2012

Meninos e meninas (2)

A: - E então uma amiga que disse que, no fundo, ele é um cara comum.

B: - Entendi. Um cara sem nada de interessante.

A: - Não, você não me entendeu. Ele é incrível e simplesmente adoro conversar com ele. Mas ele tem a me oferecer um "relacionamento comum". E isso eu não quero.

B: - E o que você quer?

A: - Bom, eu sei o que eu não quero. E o que ele me oferece é muito pouco. É comum.

B: - Às vezes, é o nosso olhar que faz alguém especial comum e vice versa. Pessoas especiais passam pela nossa vida e a gente nem se dá conta.

A: - Talvez. Mas, de qualquer modo, não dá para esperar ser o pão de queijo de alguém que te vê como migalha.

B: - Ou pão amanhecido.

A: - Não, pão amanhecido é bom.

18 de jun de 2012

Eles passam, as músicas ficam

É um tal de querer apagar da alma todas as melodias e poesia das músicas vividas a dois. Fim de namoro. Ah o drama! Blé!

Acontece que eu sou rebelde e insisto nas canções, porque música é coisa sagrada, sabe? Elas vêm antes de qualquer lembrança, de qualquer pessoa. Ou então que fiquem as lembranças e que o tempo carregue os sentimentos não lá muito bons para longe - mandemos a dor de cotovelos às favas.

Essas coisas passam e é um desperdício pensar em abrir mão de tudo o que me foi apresentado e de tudo o queeu já gostava. Os CDs que gravei e que me gravaram. Bandas, cantores, novas versões, ritmos, instrumentos, jams, acústicos. Abrir mão daquilo que amo e se tornou parte de mim para...?

Porque eles passam, mas as músicas ficam. E cabe a nós escolhermos o que vale a pena ficar e o que deve escorrer pelo ralo.

Sempre foi assim e sempre será.

17 de jun de 2012

20 e poucos anos: Quadrilha

- Bom dia! - Lô entrou, abrindo as cortinas.

O cheiro de café devassou o quarto abafado.

- Olha! Trouxe pra você! - ela mostrou o copo - Starbucks! Sei que você adora... Enfim.

Raul levantou as sobrancelhas, quase sem expressão.

- O que é isso?

- Cappuccino.

- Não, eu quero saber pra que tudo isso.

- Bom - ela hesitou - Eu sei que você não vai passar o dia dos namorados exatamente como gostaria, mas acho que seria legal companhia e um bom café.

- Você sabe o que eu quero. Ou melhor quem eu quero - ele respondeu com gravidade.

- Sim, eu sei disso, melhor do que ninguém - ela sorriu.

- E eu não quero você aqui, quero ficar sozinho.

Silêncio.
 
- Belo, áspero e intratável, como diria o Bandeira. Não é à toa que você está sozinho. Bom, fica com o café e um bolinho que comprei no Pão de Açúcar.

Silêncio.

- Você jura que vai ficar aí? - ela se aproximou e brincou com os cabelos dele - Mesmo?

Raul ficou olhando para ela. A infelicidade que transbordava serenamente. Lô lhe beijou a testa e saiu do quarto. Voltou dali a cinco minutos, com o vestido que ele não gostava.

- Qualquer coisa me liga - avisou ela e, já na porta, jogou-lhe dois sachês de açúcar - Você vai precisar disso.


16 de jun de 2012

Líquido

Não ouviu o conselho, nunca ouvia. Resolveu navegar por mares nunca antes navegados. Queria prender a tempestade em seus braços. Foi. Naufragou, como sabiam que naufragaria. Causa e consequencia. Ilhado e solitário. Quis ainda segurar e reter em suas mãos aquilo que não podia ser preso: o último gole de água doce. Aquela água que mataria sua sede de deserto. Sua secura de areia. Sua ausência de saliva. Sua ausência de palavra.

Insistiu. E viu o último gole de água doce escorrer pelos dedos apertados. Pegou o lenço sujo apressadamente. Enxugou as mãos.

Morreu chupando o lenço, tentando dele tirar algumas gotas de água. Tentando reter em seus lábios e boca aquilo que havia sempre fugido ao seu alcance.


15 de jun de 2012

[Mil e] um pequeno[s] imprevisto[s]

Eu já tinha me dado conta antes, várias vezes, mas hoje precisei comentar com uma amiga:

- Sabe que a minha vida não saiu nada do que eu imaginava? Há quatro anos atrás, eu imaginava que hoje eu estaria já com o mestrado pronto, dando aulas de literatura, com meu próprio apê e... casada. E de repente saiu tudo... Diferente. Não posso dizer errado, porque só é diferente.

E lentamente está dando tudo certo. Um tudo tão diferente, pensei comigo mesma, enquanto o John cantva para mim no carro.


 As coisas têm uma razão de ser, acho. E elas realmente nem sempre saem como a gente gostaria, tanto para o bem quanto para o mal. De repente, o inesperado e os imprevistos não são de todo ruim. E chegarão mesmo a ser um pouco ruim?

A gente tem que se desdobrar mais, se desafiar mais, tentar se encontrar porque a rota foi outra. Não que sempre a gente escolha, às vezes é desvio da CET por causa de algum pepino automobilístico ou qualquer coisa na marginal Tietê, sempre a marginal Tietê. Tudo bem, aceito o desafio, a nova rota, o desconhecido. 

O importante é não ficar às margens do que se quer e ir galgando aos poucos. Porque a gente descobre que certas coisas não importam, enquanto outras... são simplesmente tudo. E outras ainda:

- Como raios eu já quis isso, uai?

Mas só vivendo para saber essas coisas. Só sentindo para ver aquilo cuja importância se renova com o passar dos anos. E fico feliz em perceber que as coisas saíram outras: eu não teria vivido metade do que vivi se meus planos iniciais tivessem sido levados a cabo.

Claro, eu teria vivido outras coisas, mas não essa vida que tenho vivido e que me transformou em quem sou hoje. Aliás, que tem me tranformado. E quem serei amanhã? Surpresa. Amanhã eu vejo.


14 de jun de 2012

Spell

Não era como duas crianças batendo figurinhas. Não era uma daquelas situações nas quais só um sai ganhando. Acho que era mais como duas meninas trocando papéis de carta. Digo isso pela própria palavra: troca

Porque, às vezes, eu encanto alguém que não me encanta. E às vezes quem me encanta eu não encanto. Mas outras vezes há essa troca, que é por si só, uma outra coisa encantadora. Porque o encantamento recíproco me encanta. Porque essa via de mão dupla me conforta.

Meu melhor lado é o que eu ofereço ao outro. E ele, por sua vez, me oferece o que tem de melhor. Pouco importa que o tempo vá mostrar as imperfeições do papel de carta. O que se espera do ser humano que não um punhado de defeitos? Mas também não é só isso. E isso encanta.

Não era uma daquelas situações nas quais só um sai ganhando. E é tão bom quando os dois ganham. Trocar papel de cartas é o máximo.

13 de jun de 2012

Encastelados

Porque às vezes a gente se sente meio frágil mesmo. Todo mundo tem o seu dia de donzela indefesa. E como lidar com o dragão? Nem sempre dá para fazê-lo sozinho. Nem sempre estamos sozinhos. É só uma questão de olhar para o lado e achar quem te proteja - porque nem sempre a gente consegue se proteger sozinho, infelizmente. Outras, a vontade é de pular no fosso e nadar, nadar. Mas nem sempre dá para nadar, para fugir, para sair de situações nas quais acabamos emaranhados. E eu sempre penso num golfinho ou qualquer outro simpático cetáceo marinho enroscado numa rede de pesca, debatendo-se desesperado, com as esperanças por um fio. 

E aí: será que afunda ou não afunda?

12 de jun de 2012

Tardio encanto

Como um feitiço, as palavras foram sussurradas no vento. Semeadas no vento. Filhas de quem? A combinação perfeita. O momento exato. O retrato pintado. A oferenda feita. O cheiro de benjoim. Os gestos. As promessas. Os desejos. Tudo entegue a quem se importasse. O nome no papiro enrolado com a fitinha de cetim vermelha. As vidas que se emaranhavam. Davam nós apertados.

Mas a Maga olhava com um pesar sereno sombrio senhora de si. A apulheta quebrada. A areia escorrendo. E era tardio o encanto.

11 de jun de 2012

Balde de água fria ou estímulo?


As mesmas coisas que servem de estímulo podem servir de balde de água fria, foi o que eu disse. Aí um amigo comentou:

- Um balde de água fria pode funcionar como estímulo também...

Pior que é verdade. Saio correndo, me enrolo numa toalha e me sento bonitinha com uma taça de vinho na mão. Boina e pantufas. Balde de água fria no outono com cara de inverno parece ser pura maldade. Bom, mas se isso é ser maldoso, eu consigo ser mais, muito mais mesmo. Balde de água fria nesse frio é perverso. Mas quem disse que tem estação do ano certa para gente se desapontar?

Balde de água fria é estímulo - e metáfora - para acordar para certas coisas. Porque toda hora é hora de a gente acordar para a vida, não importa a estação.

10 de jun de 2012

Clara e [algum]as coisas que não entende

Fonte: Favim
Clara voltava para casa enrolada em seu cacechol cor de vinho. Nem estava tão frio, mas o cachecol lhe oferecia uma sensação de conforto sem igual. Seguia a passos tranquilos, pensando em como lhe tinham acabado de fugir. 

Bom, ao menos era essa a sensação que permanecia em sua boca.

Pensava em como sonhara duas noites seguidas com a mesma pessoa. O que era aquilo? Alçava as sobrancelhas e dava ombros. Sorria serena:

- Não sei.

Pensava também em como o belo moreno a tinha encarado no metrô. Insistente e indecentemente. E Clara ali, com seu livro, seus pensamentos, sua percepção. Sem entender o porquê de todas aquelas coisas.

Mas, sinceramente, queria entender? Agora tudo o que lhe interessava era a pizza que a esperava ansiosamente em casa.

8 de jun de 2012

Estalinho


É aquela coisa de dar um estalo. O estalo. Aquele estalo. E um susto? Talvez um susto, mas susto bom. E eu disse à ela certa vez:

- Não deu aquele estalo sabe? Miou.

E ela disse que sabia. Sem estalo nem susto bom não dá. E que venham as festas juninas...

6 de jun de 2012

20 e poucos anos: Causos etários e etéreos

Raul conheceu Soraia numa festa. Ficou encantadíssimo. Trocaram telefones e tudo mais. Só que as coisas ficaram estranhas quando ele descobriu que ela era mãe do seu amigo. na verdade, o problema não era bem tal fato, mas a idade de Soraia. Se afastou.

(mas bem que gostava de mulheres mais velhas)
 
****

Mal colocou os olhos em Clara, ficou todo derretido. Fabrício ensaiou tudo o que se podia imaginar para puxar papo com a colega de trabalho. Assumiu um acertado:

- Bom dia.

Ao qual ela respondeu com um sorriso:

- Bom dia, tudo bem com o senhor?

E, de repente, ele sentiu o peso dos vinte anos que os separavam e dos cabelos brancos em sua cabeça.


***

Lô acaba sempre saindo com rapazes um poucos mais novos. Quando ciriticada, ela sorri e responde, entre a malcriação e a doçura:

- Tanto faz um cara de vinte e três e um de trinta e três.

***

Clara notou o novo colega de trabalho: charmoso e interessante. Daniel tinha um sorriso lindo e era super agradável. Quando pensou notar alguns sinais vindos dele, ela retribuiu e esperou o próximo passo dele - que veio inesperadamente:

- Você lembra muito a minha filha.

E, de repente, ela sentiu o peso dos vinte anos que os separavam e da juventude que insistia em transbordar em seu rosto e gestos.


Ouvindo When I'm 64 (The Beatles)

Intervalo

Porque eu me peguei falando de você. De novo. Venho falando de você. Muito. Mas agora tudo me parece muito diferente. Engraçado como as coisas vão mudando as time goes by.

Não sei se fui eu que mudei ou se me forcei a mudar. Porque eu tenho dessas, sabe? Porque eu acho que o esquecimento é para os fracos, para aqueles que não conseguem lidar com as lembranças. Então sou forte porque lembro de tudo? Ou por que pus panos quentes para deixar tudo morno? E é com mornidão que te olho agora. 

Sem mais fantasias, sem os sonhos, sem os dramas. Sem aquela coisa que você bem sabe. Sabe? Sabe...

Um mornidão cheia de um carinho vazio. Inútil. Sem propósito. Um carinho feliz de existir em si mesmo. Mas outras coisas não se bastam. E por que procurar em você aquilo que você não pode oferecer? Não é justo, nem para você, nem para mim. Muito menos para mim.

E eu, que sou dada a rascunhos e ensaios, já ensaiei tudo o que precisava quanto a você - e ao nós que nunca existiu. E, com minha costumeitra delicadeza, desato o último nó. Saio enquanto as luzes estão apagadas - e você dormindo. Sorrio com aceitação:

- Fazer o quê?

5 de jun de 2012

Apenas amigos? [1]

Depois de ter lhe contado alguns fatos, ela concluiu:

- Ele é um ótimo amigo - ela, sorriso.

- Me desculpe, mas ele não quer ser seu amigo. Não se ele já fez tudo isso - ele, revelação.

- Ah - pausa dramática - Mesmo? Mas amigos cuidam uns dos outros, ué.

- Mas não desse jeito - ele, sobrancelhas.

- Mesmo? - ela, careta.

- Mesmo. E aí você tem duas opções: ou você deixa claras as suas intenções e se afasta, ou chega junto se gostar dele - ele, sensatez.

O que ele não havia considerado era a terceira opção - opção essa que ela naturalmente não compartilharia com ele.

4 de jun de 2012

E eu lá vou saber? [2]



- Mas é isso mesmo: observação, tentativa e erro - me disse uma amiga muito querida.

Faculdade nenhuma ou leitura nenhuma nos prepara para nossa função, para o mundo real. Cabe a nós a paciência, o esforço e a dedicação que a experiência - essa danada - vem com o tempo.

Mas claro: é sempre bom saber estou sabendo dançar, mesmo sem saber direito os passos.

(e eu, no meio de fogo cruzado, me sinto muito da valente)

3 de jun de 2012

As aventuras da Ovelha Desgarrada [1]


Ela cansou da mesmice da sua lã branquinha e comportada. Cansou-se de se comportar. Passou máquina 1 de um lado da cabeça. E do outro também - undercut. Pintou-se de rosa-choque, ciano e verde-grito. E gritava ouvindo punk-rock. Fugia do cachorro - quem precisa de cuidado e proteção? E saía pra beber com os lobos - e sempre lhes passava a perna.

Ovelha-negra? Não queria ser, queria um nome novo para a coisa nova que havia se tornado.

2 de jun de 2012

Femme paranoiaque

Para a Diva Ruiva

As duas num balcão de boteco:

A, acanhada: - Eu achei que tinha passado mal porque comi pouco. Sabe como é, né? Dietas....

B, pê da vida: - 'Cê tá louca? De dieta?

E depois de xingar a amiga de todos os palavrões possíveis e mandá-la para aquele lugar onde o sol não bate, B. encerrou com a lapidar:

- Tá querendo brincar de Cisne Negro ou o quê?

E viva a as paranóias femininas.

1 de jun de 2012

Pérola Lexical ou Bléééééé

Todos pararam quando o rapaz curvou o corpo para frente.

- É gorfo? - me perguntou a mocinha de franja.

- Não, é vômito - respondi prontamente.

Acanhada, me corrigi.

- Sim, é gorfo sim.