30 de nov de 2012

Mornidão ou Meios termos

Não sei se ele foi embora porque eu quis ou porque ele quis. Não sei quem quis o quê. Não entendo o que ele quis - ou quer? Nem quero. Não sei se alguém fugiu. Eu ou você? Não sei se foi por deixar a porta aberta, mas 'cê sabe que eu não sou de trancá-la. Não gosto das coisas assim. Não, você não sabe.

- Você não sabe de nada.

Digo isso com uma arrogância ensaiada, trago para você o meu pior porque o melhor não te serve, não te convence, não combina. Deixa ser então.

Também não gosto da mornidão. Morno só o leite quente pra me fazer dormir quando o sono não vem. O resto não. Pés descalços ou cachecol - sem meios termos. Nem juntando todos os meios termos eu poderia conseguir um inteiro - fosse do que fosse.

Você que eu soube nomear depois de algum tempo... Ah. Deve ter fugido sem olhar para trás. Bom, eu também não olhei para trás - minha marcha implacável rumo ao futuro - e não sei se hesitou, se saiu cabisbaixo, se saiu correndo, feliz.

Tenho pena das coisas eternamente em estufa. Ambiente controlado. As flores que nunca brotam. Os filhotes que nascem mortos. Tudo aquilo que não vinga, aquilo que perde o momento. Basta um piscar de olhos, uma mudança na direção do vento e o nosso olhar fica um tanto sem graça, juntando com delicadeza e embaraço os pedacinhos que papel rasgado da história que não aconteceu.

Paga-se um preço pela constância, mas preço maior paga quem aceita viver pela metade.




26 de nov de 2012

Ping-pong ou Coletânea

Ele: - Não sou homem pra você. 'Cê sabe.

Ela: - Não, não é mesmo. E não é porque não quer.

Ele: - Não sei porque você não quer conversar comigo.

Ela: - O problema é esse: você não saber.

Ele: - Você não vai me explicar?

Ela: - Posso desenhar.

Ele: - Você está tão agressiva.

Ela: - Se eu sou afetuosa, você se afasta.

Ele: - Veja bem: é que eu sou homem...

Ela: - Imaginava. Eu sou mulher e nem por isso meus hormônios falam por mim.

Ele: - Você é muito dramática.

Ela: - Não, eu sou um ser humano. Tenho sentimentos. É diferente.

Ele: - Ah mas eu também tenho sentimentos!

Ela: - Não duvido: a vida ensina a acreditar nas coisas que a gente não vê.

Ele: - Dramática.

Ela: - Vitrola.

Ele: - Eu não entendo o que você quer!

Ela: - Mas eu já falei e desenhei. O problema é você.

Ele: - Então agora eu sou o problema?

Ela: - Sim e, para a minha sorte, você é problema seu.

Ele: - Não sou problema de ninguém. Você está falando besteira.

Ela: - Você é que não sabe o que quer. E não estou nem falando sobre nós...

Ele: - Deve ser porque, bem, não há nós.

Ela: - Bom, se isso é verdade, então é melhor você devolver as minhas chaves. E soltar a minha mão.

Ouvindo Mi vida eres tu (Vanguard)

25 de nov de 2012

Os limites da bossa nova ou Forma X Conteúdo ou Versão subversiva

No primeiro ano de faculdade, a professora de Introdução aos Estudos Literários quis me matar: separei a forma do conteúdo ao analisar um poema de Carlos Drummond de Andrade. E eu quis morrer, é claro: não pela heresia que cometera em minha análise, mas pela crítica feita pela professora, crítica deveras merecida.

Demorei para absorver essa história de forma e conteúdo. Entendi logo, mas demorou para fazer sentido para mim. Afinal, entender não é a mesma coisa que realmente absorver, internalizar e não sei mais o quê. Bom, o fato é que entendi já há algum tempo e hoje me deparei com uma daquelas pérolas.

O pessoal deve andar meio sem criatividade, pois o número de versões de músicas antigas parece maior do que nunca. Claro que não tenho dados nem números que comprovem isso: conto apenas com meus dois ouvidos e uma certa chatice, confesso.

Chatice porque as versões são ruins e implico com o que acho ruim, já que nem sempre dá para desligar o rádio. Nem todas são ruins, naturalmente: são ruins quando rompem com a inseparável relação perfeita entre forma e conteúdo - o casamento perfeito. Bom, deveria ser inseparável e se foram separados, as chances de dar certo, da música funcionar não são lá muito grandes.

Ontem estava cá eu faxinando, o rádio ligado e ouço isto aqui:


A princípio, pensei que fosse uma daquelas músicas das novelas do Manuel Carlos, mas logo reconheci que era uma versão da clássica:


Gosto muito de bossa nova, mas não combina, não rola, não tem química com a original, com a letra, com a ideia do Village People. Casamento fracassado. Não dá para colocar bossa nova em tudo, como muitos músicos devem imaginar e ficam pegando clássicos e transformando-os em músicas que não conseguem ser algo novo nem nada. Não têm identidade própria nem chegam a viver nas sombras da original. 

São versões subversivas, na acepção mais enfadonha da palavra.

24 de nov de 2012

"Você já pensou em vender?"

"Cidade" (1999), Frau Forster
Quando eu era pequena, costumava desenhar muito bem. Era com frequência que as pessoas me diziam:

- Você já pensou em vender? Trabalhar com isso daria muito dinheiro!

Não sei se esse tipo de discurso vem no nosso mundo utilitarista e no qual tudo deve/pode ser convertido em valor monetário, ou se tem a ver com aquela história de trabalhar com prazer, fazer uma coisa que se gosta.

Bom, eu adorava desenhar (como ainda adoro) e pensar em ganhar dinheiro com isso parecia fazer sentido. Então comecei a fazer desenhos de observação, pois me sugeriram que seria uma boa maneira de praticar. Só que isso não me dava prazer, embora os desenhos ficassem bons. Ficou tudo por isso mesmo e continuei a desenhar o que eu queria, o que gostava.

Isso faz mais de dez anos e voltei a pensar nisso há uns dois, quando comentei com uma amiga minha que eu queria muito trabalhar com literatura, por ser algo que adoro, e ela disse:

- Ah eu não gostaria de trabalhar com isso: para mim, isso é só prazer.

Sempre me disseram que eu deveria fazer algo que gostasse: bom, eu adoro o que faço. Entretanto, não é porque faço uma coisa bem ou porque gosto de fazê-la que tenho que necessariamente ganhar dinheiro com ela. E, mesmo pensando assim, hoje me peguei quase dizendo:

- Você já pensou em vender? 

Trabalho e dinheiro são apenas partes de nossas vidas: partes importantes, mas, nem de longe, podem abarcar nossas breves existências. Há outras coisas na vida tão ou ainda mais importantes. E entendo a minha amiga que não queria misturar uma coisa que para ela representa exclusivamente prazer com outra que seria o ganha-pão.

E aí, de repente, uma coisa que antes te dava prazer pode acabar virando obrigação, responsabilidade. Nenhum problema com obrigações e responsabilidade: é só que nem toda hora é hora. É uma linha tênue. Por isso, continuo trabalhando com o que gosto, mas fazendo outras coisas que gosto tanto quanto ou ainda mais. Assim tem funcionado.

23 de nov de 2012

Mais do mesmo ou Fake plastic trees

Juro que não foi por despeito. Nem raiva. Nem nada. É o de sempre: a simples constatação de um fato. Um não, vários. Uma objetividade que me assombra. Poderia até fazer uma listinha, mas o caso não vale uma listinha. Não vale o vestido vermelho. Não vale a noite em claro. Vale, no máximo, um singelo post aqui, mas como escrevo sobre praticamente tudo, o post não é grande coisa. 

Talvez tenha sido por preguiça, preguiça ao perceber que certas coisas serão sempre as mesmas. Não importa que você mude ou que o momento seja outro: alguns acontecimentos voltam espiralares e você, ao se deparar com eles, diz confiante:

- Mas vai ser diferente.

Só que não é. Os fatos acontecem do mesmo modo, o fim é tão sem sal quanto tinha sido antes. E aí? Para a sua sorte, você mudou e esperava pouco, mas tão pouco que não incomoda muito, sabe? É mais aquela sensação de:

- Não dá para arriscar outras teclas e tentar outra música?

O disco está riscado: a vitrola empacou. Melhor trocar o disco - ou a vitrola. Nem diria sensação de perda de tempo: a gente sempre aproveita alguma coisa. Talvez seja cansaço, só isso. E se me atrevo a especular é porque não me deram mais informação para racionalizar. E a pergunta: 

- Mas eu quero?!

A saída é o meu "tanto faz". Talvez ele guarde uma certa tristeza, não sei, afinal, baixar as expectativas tanto assim pode até ser insalubre. E é aí que percebo como as pessoas podem ser pequenas e se preocuparem com coisas tão pequenas que...

Para mim, o "tanto faz" é sempre um alívio: uma xícara de chá no fim do dia, uma massagem nas costas, os pés descalços depois de um dia de sapatos apertados. O "tanto faz" é o suspiro de quando você fez o que dava e mesmo assim foi sem sal, sem graça, sem nada. Vai fazer o quê?

As pessoas costumam dizer que insistir no erro é burrice:

- E se você só percebeu que era um erro depois?

A vida nos oferece várias chances e corro atrás de todas que puder. Naturalmente, nem sempre dá certo. E nem sempre os acontecimentos dependem exclusivamente de nós. E aí? 

O que salva é que embora os acontecimentos possam ser os mesmos, o modo como você os encara pode mudar radicalmente e é isso o que acaba definindo o rumo que você vai dando a sua vida. Isso não impede que eu acabe ouvindo sempre mais do mesmo. É hora de trocar o disco. Faço aquela minha cara de:

- Pois é.

Como de quem não tem mais o que fazer, como quem percebe o óbvio ululante:

- Você não colhe maçãs vermelhas em pinheiros natalinos de plástico.


21 de nov de 2012

20 de nov de 2012

Cézanne

Meu romantismo ofendia, ofertado discretamente com as maçãs sobre a mesa. Natureza morta. A árvore do conhecimento. Maçã envenenada. Conhecimento envenena? É preciso saber saber das coisas. Nem me venha com esse papo de aprender a aprender: o negócio é saber saber das coisas. Vai provar do conhecimento [partitivo, um pouquinho do conhecimento do mundo] para depois cair em sono profundo. Salvo por um beijo? Nada, só no balde de água fria. É assim que mostro que me importo: chamando para a realidade, ainda que as maçãs sobre a mesa sejam suas, só suas.

19 de nov de 2012

Quado a banca ganha

Ele: - Estou cansado desses jogos...

Ela: - Ah... Não temos muita escolha: jogo como posso, jogo o mínimo. Você sabe que eu gosto das coisas claras, mas não dá para ser do meu jeito. Sempre é esperado algo de nós.

Ele: - É tão cansativo: não tenho paciência! Ter que tentar adivinhar, dar o espaço certo, o tempo certo. Buscar os sinais certos. E tem o jogo da conquista, a mulher tem que ser conquistada e não sei mais o quê. O machismo pesa para os homens também. Não ficaria tudo mais simples se pudéssemos ser diretos sobre o que queremos?

Ela: - Sim, mas não dá certo: eu tentei. Você comunica seu interesse ou afeto e o outro sai correndo, como se estivesse fugindo de uma sentença de morte. Ser objetivo te compromete. Ter certeza de certas coisas é comprometedor.

Ele: - E as mulheres ficam se fazendo de difíceis. Não todas, é claro, e acho que faz parte do jogo.

Ela: - E se você, como mulher, coloca na mesa o seu interesse, a sua atenção, o seu cuidado logo de cara, assusta o outro, sei lá o porquê. É o jogo.

Ele: - Estamos bem arranjados, hein?

18 de nov de 2012

[Im]pe[n]sadamente

Tanto faz porque foi verdade. O pedido feito mais de uma vez. O laço desfeito bruscamente mais de uma vez. Tanta palavra, tanta promessa, tanta pose. Jóias para quê? Não percebeu que não uso, que minhas orelhas ostentam bijuterias baratas das feirinhas de Embu das Artes? De onde vem esse desejo alheio de querer ficar comigo? Não sei, dou ombros simpática. Sorrio simpática - quando não sei o que dizer, quando não há o que dizer. Já me disseram tanta coisa bonita que eu nem sei. Já me escreveram tanta coisa bonita que eu guardei. E no fim das contas... Valeu? Vale pela lembrança. Quando não se vive de lembranças, resta a experiência. Grande coisa. Como faz? Não faz nada,  porque na hora do vamos ver parece sempre ser a mesma coisa.

Para minha sorte, parece. Além do que, o "sempre" eu evito. Evitar qualquer coisa permanente e absoluta é a Lei.

17 de nov de 2012

Sobre as coisas que a gente ama, mas esquece.

"Menina", 2008 de Frau Forster (batom sobre papel)
Saio da aula com as mãos sujas de tinta e paro numa lojinha de bugigangas. A atendente me oferece ajuda e sorri:

- Nossa! Você pinta quadros?

Meu sorriso sem graça diante do laranja e do vermelho das unhas, dedos, braços. Pois é. Como é que eu fui esquecer como adoro essa coisa das mãos sujas de tinta? Tempos de aulas de pintura. A tinta a óleo não secava nunca: coisa para os indecisos e perfeccionistas - nunca satisfeitos com suas obras. Tempos de desenhos feitos com esmalte, batom, maquiagem velha. Giz pastel - aquela caixa bárbara de 36 cores. Exposição na faculdade de aquarelas e outros desenhos despretensiosos. Onde tudo ficou?

Como é que eu fui deixar uma coisa tão prazerosa assim de lado? Como é que eu fui me esquecer? 

Sem sentimento de culpa, por favor. O que me importa agora é a nova caixa de giz pastel que vou comprar, os pincéis e as bisnaguinhas de tinta Gato Preto.

16 de nov de 2012

Taking people for granted

- Vovó, por que você tem uma boca e dois ouvidos? - perguntei curiosa.

- Para ouvir mais e falar menos, minha netinha. E você também tem uma boca e dois ouvidos - ela sorriu.

E então me dei conta do óbvio fato, mas isso já fazia tempo: faz tempo que sei disso. Entretanto, é sempre bom lembrar e me lembrei por esses dias enquanto ouvia algumas declarações tão equivocadas...

Eu poderia ter comentado qualquer coisa, tentado explicar, pontuar, mas quis ver até onde aquilo ia. Ouvi atentamente, com aquele olhar obediente de quem saboreia uma crítica construtiva.  Podia ter dito alguma coisa. Mas não. Preferi deixar o discurso alheio fluir. E sorrir a cada engano alheio. 

Tenho essa cara simpática a maior parte do tempo - e uma cara de metida na outra parte. Tudo errado. Não sou nem uma nem outra. Todavia, não importa nadinha o que nós somos: importa o que as pessoas acham que somos, porque é isso o que elas conseguem ver. Cada um vê aquilo o que quer, cria fantasias, mitos, histórias sem pé nem cabeça. Vão pelo superficial, pelo que parece ser. E o que somos de fato fica para outra vida - quando seremos outra coisa.

Tenho uma listinha de descrenças e a previsibilidade do ser humano é um dos itens: não acredito nela. Gostar de padrões não quer dizer segui-los cegamente, muito menos dizer que Fulano ou Beltrano é quadradinho assim. Precisaria de muitos anos para dizer algo do gênero e, ainda assim, não teria o suficiente do outro para rotulá-lo disso ou daquilo.

Decorei a minha nova label com a pitada de bom humor que vem me acompanhando nos últimos meses e pendurei-a no painel do escritório. Vai ficar lá: faço questão de sair de casa sem ela.

E vou seguindo, como quem sabe um grande segredo - mas não há segredo algum: apenas uma pessoa sendo bastante honesta com a vida e sobre a vida. Se os outros não percebem isso, o que posso fazer? Muito pouco, quase nada: posso mobilizar céus e terras e só verão aquilo o que quiserem.

Ouvindo:


15 de nov de 2012

Tinha um cachorro no meu caminho...

Eu poderia dizer que conheço esse olhar. O olhar do cachorro branco com a mancha preta sobre um olho e a orelha esquerda. No meu caminho de volta para casa, paro e ele ganha um afago. Nem sempre a mão que afaga é a que apedreja: acho que Augusto dos Anjos deve ter sido traído ou algo assim, ou talvez pensasse em como ficamos vulneráveis diante de certas circunstâncias.

Não preciso coser as memórias, nem buscar qualquer coerência interna, externa, extraterrestre. Os fatos são como são e ponto final - o que não quer dizer que a gente não possa andar fantasiado, mascarado por aí. Colombina ou o que mais se quiser. O que também não quer dizer que eu não possa andar sem máscara por aí, sem armadura, sem guarda-chuva. Bom, sem guarda-chuva eu já ando, no âmago das minhas pequenas ousadias diárias.

O cachorro branco com a mancha preta sobre um olho e a orelha esquerda me olha satisfeito. E meu olhar é o mesmo: satisfação. Não preciso de máscara, armadura, nem nada: um afago e está tudo bem. Acho que é por isso que muita gente prefere animais à pessoas: elas são muito mais desafiadoras. E, se não partilho de tal preferência, não consigo mais julgá-las por isso.



14 de nov de 2012

As aventuras da Ovelha Desgarrada [2]

Perdeu o olhar obediente, os bons modos, o dom de se manter em silêncio. Dom? Ah como é conveniente ficar em silêncio: conveniente para si mesmo e para os demais. É conveniente ser conivente. Sem conflitos - externos. Por dentro era ebulição sem transbordamento. Queria ir além da bordas, mas morria sempre na praia de si mesma. Mas isso era antes.

Faz castelo de cartas para destruí-los. Tem fascínio pela criação, mas mais ainda pela destruição. A vida é espiral infinita, nada do oito deitado - infinito clichê.

Tatuou o braço esquerdo:

- Ovelhas de família não fazem essas coisas!

O ronco de sua moto responde por ela. Assim como a fumaça preta no dia claro. Será que ninguém mais vê o que ela vê?




13 de nov de 2012

E era uma vez o idealismo furado dos amores e dos amantes

Se é ideal, é para ficar no mundo das ideias e não para ser colocado como uma meta a ser atingida. Pelo menos quando se fala dos amantes de Cony e Braga.

Li a crônica de Carlos Heitor Cony "Receita da amante ideal" sem a bronca que poderia ter se originado por conta do título: "receita" pressupõe uma fórmula e eu não acredito em fórmulas quando o assunto é relacionamento. Li sem bronca inicial, mas é claro que me deparei com o "perfil da amante ideal", como sugeria o título - o que trouxe careta posterior.

Um amigo me diria [como já me disse]:

- Você é muito categórica.

E dessa vez eu não torceria o nariz. Embora haja várias coisas que me atraiam, não consigo pensar no que seria um "homem ideal". Traçar um perfil quando se trata de pessoas é tolice, achando que é tudo uma questão de encaixe do tipo Lego. As arestas fazem parte. E que graça teria se eu tivesse exatamente o que eu queria. Um tédio. E tem outra: nem sempre o que eu quero é o que eu preciso.

Não é tudo preto no branco, nem se resume a insípidos 50 tons de cinza. Quantas camadas de sentido você tem e nunca ninguém se deu conta? E você mesmo(a) já se deu conta da sua complexidade?

Passamos tanto tempo tentando entender, pôr no papel, racionalizar e não-sei-mais-o-que que perdemos o momento. Simples assim. E por que ficar criando alguém que não existe em vez de abrir os olhos para o que existe ao redor - e até se surpreender? 

Li "Os amantes" de Rubem Braga e achei o texto bonito, mas senti que tinha alguma coisa meio estranha. A ficha caiu essa semana, enquanto eu conversava com um amigo. Por que eu trocaria o mundo inteiro por uma pessoa? Todos os lugares, cheiros, sabores, amigos, experiências, viagens... Tudo! Por uma vida sufocante e simbiótica [?] no metafórico apartamento sem luz. Oi?

Não importa que é literatura [de mentirinha?], pois reflete uma visão de mundo de qualquer modo. Uma visão da vida da qual eu discordo, da qual não consigo partilhar, pois creio que uma das coisas mais legais de se estar com alguém é justamente compartilhar o mundo - e não se isolar dele e criar um outro à parte. 

Vou muito mais pela Lygia e tenho a certeza feliz e morna de não ser o que alguém sempre sonhou. Não sou nem quero ser e, do mesmo modo, eu não poderia dizer isso a ninguém - o que me faz lembrar de uns versos acertadíssimos do Herbert Vianna:

Eu não te completo

Você não me basta
Mas é lindo o gesto de se oferecer
O que eu quero nem sempre eu preciso
Mas dê um sorriso quando me entender


Eu sorrio. Oferecemos o que podemos, o nosso melhor. E assim eu e você caminhamos junto a Humanidade.

Ouvindo Pessoa (Marina Lima)

12 de nov de 2012

A verdade por trás de "a fila anda"

- A fila anda.


Há quem ache insensível. Já eu acho bem acertado: a vida continua. Vai doer, você vai sofrer. Take your time. Fique de luto pelo tempo que precisar. Chore até se desidratar (e beba Gattorade). Ouça todos os CDs com músicas dor de cotovelo. Entenda que agora o que acabou faz parte do seu passado, ou seja, da sua história. E parta para outra.

Enquanto alguns saem pegando geral, tomo para mim a política do desapego: não deu certo, tudo bem. O que fazer? Há tanto que está além do nosso controle que prefiro sair por aí tendo bem claro na minha cabeça o que me cabe e o que está ao meu alcance. O resto não cabe a mim.

Não há dor de cotovelo ou o desamor vá durar para sempre. Bom, isso depende de nós. Acredito que enquanto estivermos abertos para a vida, a vida acontece. O problema é se trancar no quarto e querer conhecer alguém legal.

10 de nov de 2012

20 e poucos anos: Facebook


Lô: - Acho tão estranho esse negócio de status de relacionamento do Facebook... Você muda o seu status lá quando você tá namorando ou solteiro?

Raul: - Não, acho exposição demais. E você?

Lô: - Não tenho Facebook...

Raul: - Ah, é verdade. Mas o que você acha estranho? A exposição?

Lô: - Não, não é isso. Conheço muitos caras que não colocam nada no status de relacionamento e você fica sem saber como é que é, enquanto suas namoradas colocam "em relacionamento sério com" e o nome do fulano. Não é estranho?

Raul: - Bom, parece que eles não gostam de se expor...

Lô: - ... Mas deixam que elas os exponham? Parece que estão namorando com esses caras sem que eles saibam. Ou eles não fazem questão de que os outros saibam?

Raul: - Não sei, mas acho que as coisas antes eram mais simples.

Lô: - Meu bem, essas coisas de relacionamentos nunca foram simples...

9 de nov de 2012

Um par



Dois pra lá, dois pra cá. Você me tira pra dançar, mas não sabe conduzir. 

- Não sei dançar - diz pegando a minha mão.

Não sabe mesmo: sorrio, explico e conduzo. Desajeitadamente. Um passo para frente, outro pra trás. Coisa simples, coisa fácil. Só que agora não mais avança: apenas recua. A cada passo que dou para frente, você recua um pra trás. Cada vez mais e ainda mais. 

Logo está sentado com os demais, numa das mesinhas do bar. E me vejo de pé, dançando sozinha.

8 de nov de 2012

Smoke


- Você não sabe nada sobre mim - ele disse com uma baforada de cigarro.

A fumaça subiu espessa e ela ficou vendo as flores que iam se formando no ar. Flores de fumaça que logo se dissipariam sobre ambos. Assim como as nuvens da chuva chegando.

Todavia, havia coisas que permaneciam densas e sombrias.

[sombra nem sempre é coisa boa]

Ele falara aquilo com um orgulho duro e parecia se deliciar com o som da própria voz - ou com o efeito que sua declaração poderia causar. Ela não entendia: depois de dez anos, ostentar aquilo a troco de... Assim, do nada? E qual seria a alegria dele em não ter se feito conhecido?

- É, não sei mesmo - disse ela, tomando um gole de refresco.

7 de nov de 2012

Me vê uma trena ou algo que o valha, sim?


Parecia fundo: subiu no trampolim e saltou. Acabou solada contra o fundo da piscina. Fundo raso, tudo raso. Superficial.

Parecia raso: desceu as escadinhas e afundou num SLOPT. Acabou o corpo boiando na superfície a qual ela achou que tudo se resumisse. Profundo.

Não saber nada[r] nunca é uma opção: a piscina está lá e você simplesmente entra. Não importa se as coisas não são como parecem: você só vai saber quando entrar. Se entrar. Entretanto, é uma questão de escolha mesmo?

Há quem escolha esturricar ao sol... 

5 de nov de 2012

Tempo de Nudez ou Secretamente no more


"The naked time", possivelmente, é um dos meus episódios preferidos da série clássica de Star Trek.

Porque todo mundo tem máscaras, papéis sociais e responsabilidades, mas todo mundo também tem sonhos e desejos secretos que nem sempre podem vir à tona.


E, se por acaso, eles viessem? Se aquele seu lado B mais secreto viesse à tona e você não conseguisse mais manter qualquer máscara? E se você se rendesse totalmente a esse seu lado?

O mundo se tornaria um caos, sem dúvida, mas seria muito interessante observar como as pessoas agem quando estão nuas, despidas de qualquer véu, de qualquer fachada ou verniz. Será que isso nos separaria ainda mais das pessoas ou nos uniria a elas?

Talvez um acontecimento assim fosse a nossa perdição - ou a nossa salvação.

4 de nov de 2012

Agulha no palheiro ou Pelo em ovo?


Não sei o que você está procurando, mas você também não sabe. Sendo a vida sua e não minha, creio que você esteja em pior situação do que eu:

- Você se perdeu.

Não há pedacinhos de pão nem pedrinhas para tomar o rumo de novo. Então, você senta a beira da estrada e espera. Espera o quê? A chave que abre o céu? Você não só se perdeu, mas parece ter perdido tudo. 

Procura com o olhar atento-afoito, a expressão desfeita em. E a pergunta que não quer calar é:

- O que você está procurando: agulha no palheiro ou pelo em ovo?

A agulha pode levar mais tempo para ser encontrada - ou talvez você ainda nem a encontre. Todavia, de algum modo você sabe que ela está lá. Sabe mesmo? Ora, não é porque você não vê que ela não está lá. É como o ar: experimenta ficar sem para ver se não sente falta.

Já o pelo em ovo... É como plantar evidências numa cena de crime, na tentativa de se mudar os fatos. Por quê? O que se vê não agrada, satisfaz, contenta? Ou, de repente, a vida é grande demais e você precisa se ater não só a coisas pequeninas, mas a coisas pequeninas que simplesmente não existem. É pela sensação de controle ou pelo medo de olhar pela janela e ver que o mundo lá fora é bem maior do que...?

3 de nov de 2012

Sobre aquilo que não se sabe nomear


- Qual é o seu nome?

Eu deveria ter perguntado assim que ele chegou - e se instalou. Perguntei depois e ele não respondeu, porque simplesmente era uma coisa diferente, sem precedentes. E eu nem um pouco a fim de brincar de fill in the blanks. 

Não era lá grande coisa, mas, pensando bem, tem coisas que são difíceis de colocarmos num gráfico ou de atribuirmos um valor ou algo parecido. 

Então esse sentimento chega e se instala e eu sem saber seu nome. Não sei porque não há, então vou brincar de Criador e batizá-lo:

- Teu nome será...

E ele sorri gostosamente e se enrola como um gato, satisfeito sobre sua almofada predileta. Faço-lhe um cafuné cheio de afeto enquanto se espreguiça e assiste tevê. Ele também não sabe o que está fazendo aqui comigo, não sabe porque veio e por quanto tempo fica.

E nada disso importa, pois fique o tempo que precisar, quiser, sonhar... Já tem nome e só eu sei. E sei o que preciso saber: enquanto estiver por aqui, tem abrigo garantido. 

2 de nov de 2012

Memória, essa marota zombeteira.

Você se lembra de coisas que nem faço-fazia ideia. De algumas lembro vagamente - foto em sépia com cheiro de guardado. De outras você fala e não me vem um clique:

- Bom, deve ser verdade...

E eu me gabando de ter memória de elefante... Há [muitas] coisas que lembro e não comento. Talvez seja meu jeito de atender ao pedido de deixar algumas coisas no ar. Algumas ficam, que fiquem! Contudo, gosto da comunicação clara, precisa, certeira. Caso não seja necessária, guardo-a na minha já pesada bolsa .

E me pego pensando em memória seletiva: o que nos leva a lembrar de umas coisas e apagar outras? Não faço ideia, porque primeiro achei que era a sua relevância e importância, mas lembramos de tantas coisas que nada têm de relevantes ou importantes. Então...? Teriam sido importantes em algum lugar do tempo? Não. Então...?

Será que é pelo mesmo motivo que guardamos coisas que não usamos? E por que fazemos isso? Um dia podemos precisar delas. Não, não preciso mais delas, do mesmo modo que não precisamos de coisas que lembramos. Preciso lembrar de desligar o fogão, de quem não merece minha confiança, de pagar as contas, das aulas de dança. E só. O resto é perfumaria.

E sei que se juntássemos a sua memória de nossas conversas com a minha, ainda assim, não teríamos aquelas conversas: éramos outros e, como você mesmo disse, acabamos floreando muitas coisas simples em nossas lembranças- o que não significa que não tenham sido realmente encantadoras.