16 de nov de 2012

Taking people for granted

- Vovó, por que você tem uma boca e dois ouvidos? - perguntei curiosa.

- Para ouvir mais e falar menos, minha netinha. E você também tem uma boca e dois ouvidos - ela sorriu.

E então me dei conta do óbvio fato, mas isso já fazia tempo: faz tempo que sei disso. Entretanto, é sempre bom lembrar e me lembrei por esses dias enquanto ouvia algumas declarações tão equivocadas...

Eu poderia ter comentado qualquer coisa, tentado explicar, pontuar, mas quis ver até onde aquilo ia. Ouvi atentamente, com aquele olhar obediente de quem saboreia uma crítica construtiva.  Podia ter dito alguma coisa. Mas não. Preferi deixar o discurso alheio fluir. E sorrir a cada engano alheio. 

Tenho essa cara simpática a maior parte do tempo - e uma cara de metida na outra parte. Tudo errado. Não sou nem uma nem outra. Todavia, não importa nadinha o que nós somos: importa o que as pessoas acham que somos, porque é isso o que elas conseguem ver. Cada um vê aquilo o que quer, cria fantasias, mitos, histórias sem pé nem cabeça. Vão pelo superficial, pelo que parece ser. E o que somos de fato fica para outra vida - quando seremos outra coisa.

Tenho uma listinha de descrenças e a previsibilidade do ser humano é um dos itens: não acredito nela. Gostar de padrões não quer dizer segui-los cegamente, muito menos dizer que Fulano ou Beltrano é quadradinho assim. Precisaria de muitos anos para dizer algo do gênero e, ainda assim, não teria o suficiente do outro para rotulá-lo disso ou daquilo.

Decorei a minha nova label com a pitada de bom humor que vem me acompanhando nos últimos meses e pendurei-a no painel do escritório. Vai ficar lá: faço questão de sair de casa sem ela.

E vou seguindo, como quem sabe um grande segredo - mas não há segredo algum: apenas uma pessoa sendo bastante honesta com a vida e sobre a vida. Se os outros não percebem isso, o que posso fazer? Muito pouco, quase nada: posso mobilizar céus e terras e só verão aquilo o que quiserem.

Ouvindo:


Um comentário:

Vi disse...

Frau, isso me lembrou muito uma citação fantástica de Susanna Tamaro:
"Antes de julgares uma pessoa, caminha durante 3 luas com os seus mocassins.
Vistas de fora, há muitas vidas que parecem falhadas, irracionais, loucas. Enquanto se está de fora, é fácil compreender mal as pessoas, as suas relações. Só de dentro, só caminhando durante 3 luas com os seus mocassins é que se pode compreender as motivações, os sentimentos, aquilo que faz agir uma pessoa de uma forma e não de outra. A compreensão nasce da humildade, não do orgulho do saber."
É bem assim mesmo que funciona (ou disfunciona).
Beijo, Frau!

Vi
www.bardodataverna.blogspot.com
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