15 de nov de 2012

Tinha um cachorro no meu caminho...

Eu poderia dizer que conheço esse olhar. O olhar do cachorro branco com a mancha preta sobre um olho e a orelha esquerda. No meu caminho de volta para casa, paro e ele ganha um afago. Nem sempre a mão que afaga é a que apedreja: acho que Augusto dos Anjos deve ter sido traído ou algo assim, ou talvez pensasse em como ficamos vulneráveis diante de certas circunstâncias.

Não preciso coser as memórias, nem buscar qualquer coerência interna, externa, extraterrestre. Os fatos são como são e ponto final - o que não quer dizer que a gente não possa andar fantasiado, mascarado por aí. Colombina ou o que mais se quiser. O que também não quer dizer que eu não possa andar sem máscara por aí, sem armadura, sem guarda-chuva. Bom, sem guarda-chuva eu já ando, no âmago das minhas pequenas ousadias diárias.

O cachorro branco com a mancha preta sobre um olho e a orelha esquerda me olha satisfeito. E meu olhar é o mesmo: satisfação. Não preciso de máscara, armadura, nem nada: um afago e está tudo bem. Acho que é por isso que muita gente prefere animais à pessoas: elas são muito mais desafiadoras. E, se não partilho de tal preferência, não consigo mais julgá-las por isso.



Um comentário:

renatocinema disse...

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo, Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja esta mão vil que te afaga,
Escarra nesta boca que te beija!

NADA MAIS A DECLARAR. ....................................................