29 de jun de 2010

Como flertar com bombons

Flertar com bombons é uma atividade predominantemente masculina, mas há casos relatados sobre mulheres também. O bombom é uma maneira bastante eficiente de demonstrar interesse. Às vezes, o bombom tem apenas a intenção de estabelecer um elo de amizade.

Entretanto, pesquisas indicam que na maioria das vezes, principalmente se o bombom parte de um ser humano do sexo masculino, o que jaz no bombom são segundas intenções. Ocasionalmente é entregue em mãos, mas as pesquisas novamente indicam que a maioria daqueles que escolhem essa simpática forma de flerte deixam o bombom para que seja encontrado pela pessoa em questão.

Normalmente, observam de longe - voyeurs ou stalkers? - a reação de suas vítimas pretendentes. Ficam rodeando até que ela - sim, normalmente uma garota - encontre o bombom e diga algo do tipo:

- Nossa! Quem será que me deixou esse bombom?

- Que gracinha! Já sei até quem foi!

- Foi você? Que amor!

E coisas do gênero...

Claro que sempre há aquelas que um pouco por discrição, um pouco por malandragem mesmo, não manifestam grandes emoções - afinal, é apenas um bombom. Leia-se esse apenas em itálico de várias maneiras. Às vezes, mostrar que um bombom é apenas um bombom pode poupar muitas dores de cabeça. Mas caso esteja interessada, festeje seu docinho.

26 de jun de 2010

Paixão junina

Estavam numa quermesse do bairro. Bandeirinhas, pipoca, peixes em tanques de areia. Ele, ainda um garoto. Ela, a vida toda acertada. Ele, perdidamente apaixonado. Ela, ciente da paixão alheia. Dá ombros, que mais poderia fazer?

Aquele olhar...

Estão conversando. Têm amigos em comum. A música começa a tocar:

- Seu marido não vem?

- Não tenho marido.

- Namorado?

- Está trabalhando.

Aquele sorriso...

A despeito da timidez, pega-lhe as mãos, suavemente. Suavemente, ela se desfaz dele e delas e sai para dançar com a quadrilha da igreja - vestido de chita:

- São João, São João, acende a fogueira do meu coração!

25 de jun de 2010

Quinzinho e as luzes artificais

Quinzinho todos os dias pegava o trem na mesma estação. No emprego em que estava, amanhecia e anoitecia dentro de um cubículo de repartição pública: não via nem o sol nascer nem se pôr. Estava se acostumando com as luzes artificais e com a concorrência desleal entre estrelas leitosas e peep-shows.

Mas não estava sozinho. Havia alguém que amanhecia com ele. Nao mesmo horário, na mesma estação, embora no sentido contrário, uma moça esperava pelo trem todos os dias. Era pequena, miúda. Parecia que seria levada pelo vento ao menor sinal de brisa, mas tinha os pés no chão. Os cabelos compridos tão aéreos, mas os pés no chão. Às vezes distraída, o olhar perdido, mas os pés no chão.

Imaginava que um dia os dois conversariam sobre livros e sobre música. Mas antes ele começaria a conversar com ela perguntando as horas. E se ela não tivesse relógio? Depois a convidaria para tomar um café. Ou um milkshake - ela tinha jeito de quem gostava de milkshake.

Quinzinho riu de seus sonhos e de toda a fantasia em que envolvia sua vida. Bom, é essa a saída já que as coisas não são como quero, não é? 

Ela era encantadora. Maquiagem leve, quase nula. E um olhar que aquecia as pessoas. Confortava e aquecia. Era como voltar para casa, mas uma outra casa.

Ela teria tido medo do olhar de Quinzinho, se não o tivesse reconhecido como apaixonado. Um tolo? Possivelmente, mas ele não se importava muito, pois era ela quem fornecia-lhe a única luz não artificial de seus dias. Ela era a coisa mais real e mais concreta que tinha em sua vida. Olhar para ela fazia com que ele se lembrasse de que estava vivo.

Observá-la tornou-se o seu respirar e suspirar diário, do contrário, acabaria morrendo sufocado, esmagado pelas pilhas de papéis e documentos e fichas e arquivos - e por uma tal realidade que não lhe pertencia. Para que tudo aquilo se o que ela oferecia a quem a olhasse era magia? E ainda assim, ainda que ela sustentasse suavemente aquele halo de contos de fadas, da onde vinha a força dos pés de menina que  pisavam firmes no chão? Aquela sua realidade das mãos tecelãs? Ia tecendo a vida. Dedos em calos. Unhas sem esmalte.

(ele nunca saberia)

Um dia, ouviu alguém gritar seu nome:

- Lili!

Bizarre love triangle




Foram os Muppet Babies que me ensinaram o que era um triângulo amoroso.

Síndrome do Ursinho Carinhoso

Quem sofre dessa síndrome costuma ser extreammente alegre e acha que pode curar todos os problemas do mundo com uma boa dose de respeito. E que todas as pessoas do mundo só precisam de um pouco de seu carinho e de sua atenção para se sentirem melhores. Inegavelmente, aqueles que sofrem dessa síndrome acabam desapontados, pois cedo ou tarde descobrem suas limitações diante da vida alheia. O raio de atuação é curto demais.

24 de jun de 2010

Fazendo arte (?) ou Autoria

Cansada das flores e das frutas mortas da natureza morta, resolvi apelar: escolhi um peixe. Colorido e simpático, me apaixonei por ele à primeira vista. Recortei a figura e levei para a minha professora de pintura. Eu era uma boba naquela época e costumava esperar o aval das pessoas quando a mais interessada era eu.

Minha professora se chamava Verena* e era de família italiana. Sendo assim, se comportava como tal. Era expansiva, gesticulava bastante, tinha um certo sotaque e às vezes chegava a ser grossa. Me lembro claramente de como ela tratava homens e mulheres de modo diferente: os homens sempre com mais delicadeza e reserva, já com as mulheres falava tudo na lata e não tinha muitos papas na língua:

- O que você fez com o seu quadro? Por que todo esse verde!?

Assim, ela não se animou muito quando lhe mostrei a foto do meu peixe. Mas como (em bom português) eu estava pagando e o quadro era meu, ela não teve muita escolha. Tela, desenho e tinta a óleo. Ah como eu amo tinta à óleo... O meu esboço de peixe ficou bom. Eu desenho bem. 

Primeiro o fundo escuro, quase negro. E depois o peixe foi ganhando cores e texturas até ficar uma coisa muito bonitinha. Tão bonitinha que até a professora tomou interesse... Se meteu no meu quadro e pintou os olhos e a boca do peixe! Sim, ela pintou uma boquinha e peixe nem tem boca! Mas o que me incomodou foi que o sorriso do peixe deveria ter sido pintado por mim. Aquele sorriso foi o toque final, praticamente o sorriso de Monalisa...

Acabei me sentindo privada de uma parte do meu quadro infantil e na minha postura infantil, eu me lembro de olhar o quadro quase pronto com alguma tristeza. Uma tristeza profunda e uma nostalgia marítima. Coisas de piscianos?

Nisso já foram dez anos. O meu peixinho agora me acompanha alegre durante as refeições: está na parede da copa. E apesar de seu sorriso (tímido), o seu olhar é estranhamente melancólico. Por onde andará a minha professora? É um mistério submerso...

Só sei que o peixe foi um marco para eu largar mão do trivial e ir fazer o que realmente me apetece.


* Nome fictício

22 de jun de 2010

Funk como no me gusta

Estava quase chegando ao meu destino e fui surpreendida por um ritmo desagradável. Demorei para identificar o que era, mas tudo ficava mais compreensível conforme ia me aproximando do lugar.

Havia um gol, desses antigos, cinza-sujo, tocando funk muito alto. Mas muito alto mesmo.

Entrei e antes que me sentasse, a recepcionista, sempre simpática, me pediu com um sorriso suplicante:

- Você não quer ir lá e pedir para ele abaixar esse som?

Eu sorri e perguntei se estava assim há muito tempo.

- Sim, o cara está aí faz uns vinte minutos.

Num raio de quinhentos metros, escolas, restaurantes e um centro médico. E eu pensando: quem ele pensa que é? Na verdade, eram dois homens: um dentro do carro, o motorista e o outro um cara grande e forte, desses que metem medo. Era óbvio que ninguém se meteria com um cara daqueles. E mesmo que ele não fosse, grande, forte e tivesse cara de mau (isso soa tão infantil!), poderia ser um rapaz franzino com um revolver qualquer no porta-luvas. Sim, atualmente mata-se por muito pouco - ou quase nada.

O gigante ficava rodeando o carro: parecia estar esperando alguém. Percebia-se facilmente que estava muito orgulhoso de seus potentes alto-falantes. Era quase como se o som marcasse o seu território, sua área de alcance:

"Sim, tenho poder sobre tudo isso aqui"

Em dez minutos, comecei a ficar com dor de cabeça e fiquei sentida pelas duas recepcionistas que não deviam estar mais aguentando tudo aquilo. Felizmente eu estava certa: os dois homens esperavam alguém. Às 13h30, o gigante acena para uma mulher do outro lado da avenida. Ela sorri e atravessa a rua - e eu torcendo para que fosse ela aquela que esperavam.

Sim, era ela.

Os dois entraram no carro e foram embora, deixando para trás uma legião de insatisfeitos e pessoas que são obrigadas a tolerar a falta de cidadania alheia, pois muita gente não conhece ou não dá a mínima para "a minha liberdade acaba onde começa a do outro".

Sim, isso é viver em sociedade.

21 de jun de 2010

Clara e o penteado

Clara foi trabalhar. Os cabelos compridos presos num coque no alto da cabeça. O cachecol e o casaco pesado, pois fazia muito frio. Chegou ao escritório: aquecedor. Tirou o cachecol e foi organizar uns papéis. Um colega chegou, entrou na sala e na primeira oportunidade:

- Nossa, com todo respeito, ficou muito bem esse penteado que deixa o seu pescoço assim...

Clara agradeceu e ele saiu. Ainda que lisonjeada, continuava sem entender o que é que os homens tanto viam num pescoço feminino.

18 de jun de 2010

Diário: Medo de Castração (sem Freud)

Já acabei falando sobre músculos voluntários, sobre a pirâmide alimentar, sobre história. Mas nunca pensei que tivesse que explicar a diferença entre castração e vasectomia para um rapaz de quinze anos:

[...]

- Não, um homem que faz vasectomia não é um homem castrado, é só um homem que não poderá mais engravidar uma mulher.

E eu pensando: "Puxa, não tem nada a ver com a minha área!", mas aí a Jô  (uma amiga muito especial, também professora) me lembrou uma coisa: antes de ser professora de português e inglês, eu sou educadora. E é por isso que eu falo sobre reciclagem, sobre respeito, sobre ética.

E é por isso que amo minha profissão.

P.S.: A Charlie me contou uam coisa curiosa, depois que contei o causo do dia: ela me disse que a sua lembrança de 3ª série é a de que Cronos foi castrado por seu filho Zeus e teve seus genitais lançados ao mar.
Criança tem cada uma...

16 de jun de 2010

Mau-humor produtivo

Tem gente que é adepta do ócio criativo. Eu sou adepta do mau-humor produtivo e pretendo escrever mais um best seller de auto-ajuda corporativista (meus amigos sabem que eu adoro livros de auto ajuda, ainda mais corporativistas): Como canalizar o seu mau-humor e se tornar um funcionário mais produtivo.


Eu perdi minhas agulhas de crochê. Dentro de casa. Não, eu não sou uma pessoa bagunceira. Não, eu não sou uma pessoa ultra organizada. Ainda assim, fiquei vexada com tal situação de não achar as tais agulhas, pois não sou do tipo que perde coisas dentro de casa. Surtei. Em vez de quebrar tudo - já que não é a minha praia, ainda que embalada por "One of my turns" - eu resolvi fazer outra coisa: num impulso, num gole só, arrumei livros, roupas, discos e sapatos.

Hoje, com mais tempo, achei as agulhas: estavam onde deveriam estar. 

Descobri que Pink Floyd é muito bom quando você está de mau humor, corrigindo lições, arrumando a casa, pensando em amigos e no namorado... Enfim, para toda e qualquer situação. E me bateu uma imensa saudade de assistir "The wall".

Ouvindo Take it back (Pink Floyd)

Friday I'm in love


15 de jun de 2010

Diário: Dim-dong

Meu instinto não mentia - ou seria a percepção do óbvio? - : depois de ter tocado a campainha diversas vezes, ter batido palmas e tudo mais, eu suspeitei que a campainha não estava funcionando. O simpático velhinho de boina, da lanchonete em frente, verbalizou:

- A campainha não está funcionando.

Agradeci a ele com um sorriso e a mim mesma por ter trazido o celular.

Ouvindo "When a man loves a woman" (Percy Sledge), graças ao meu vizinho cuja campainha sempre toca uma música diferente (!)

14 de jun de 2010

Diário: Dos insetos

Eu esperava com muita calma. Não ia gritar, berrar, me estressar, ficar nervosa, rouca, insandescida. Foi assim que eu escolhi que seria hoje o meu dia. Ela me olhou e disse:

- Nossa! Eu nunca ia servir para ser professor! A senhora tem sangue de barata!

Eu me limitei a sorrir e tive vontade de falar duas coisas:

- Essas coisas eles não ensinam da faculdade.

&

- Na verdade, não tenho sangue de barata (embora me sinta um inseto).

13 de jun de 2010

Diário: Sobre tudo...

Estava um frio dos infernos! - por mais contraditório que possa parecer. E eu berro aos quatro cantos que se vivo num país tropical, tenho o direito de ter clima tropical, a despeito de quaisquer mudanças climáticas causadas pela ação do homem. Deveria ter algum artigo assim na Constituição, mas enfim...

Voltávamos para casa, eu e ele. Os dois no ponto de ônibus. Eu no meu conformismo de quem cismou em ir de meia-calça fio 40 quando beiramos o inverno e ele muito bem vestido, como sempre. Pela terceira vez ele me perguntou se eu sentia frio. Sorri e disse que não, embora a minha linguagem corporal dissesse o contrário. Ele sorriu, tirou o sobretudo que vestia e colocou nas minhas costas. Minhas reações de protesto foram ignoradas. Ele me disse que não fazia mais do que o mínimo. O mínimo do mínimo. Então como é que aquilo para mim poderia ser tão tudo?

Eu vesti o sobretudo - mangas.

E senti que ele me aquecia muito mais do que o corpo...

9 de jun de 2010

Problemas: por que tê-los?

A verdade é uma só: tem problema que a gente não resolve de primeira. Okay, então tentamos resolver depois, certo? Mas e quando esse "depois" funciona no estilo das prestações em longo prazo a perder de vista? Postegar problemas é uma coisa perigosa, principalmente se você acha que eles estão resolvidos. Longe dos olhos, da sua vista/ vida, longe do coração? Sim, o problema foi misteriosamente foi resolvido, sem que ninguém - muito menos você - movesse uma palha se quer.

Podemos deixá-los como um urso hibernando durante um tenebroso inverno. Podemos transformá-ls num bebê e fazer com que adormeça. Podemos abandoná-los num deserto. Trancá-los num baú. Acorrentá-lo num porão. Não importa. Uma hora o urso e o bebê acordam. O que foi abandonado retorna. O que foi trancafiado ou acorrentando se liberta. Fantasmas são passíveis e quase nunca são fantasminhas camaradas.

Sendo assim, não adianta deixar os problemas para [tão] depois e nos convencermos de que eles evoaporaram. O ciclo da água traz os poluentes e venenos de volta, contaminando todo um ecossistema. Pelo menos é isso o que eu me lembro da escola: lençóis freáticos contaminados contaminam todo o ambiente. E sobre o desequilíbiro causado pela contaminação dos mangues eu nem falo nada - há quem fale muito melhor do que eu.

Em suma: dê um fim aos problemas antes que eles dêem um fim em você.

8 de jun de 2010

Desprezo pela dor alheia

O filho vinha se queixando de fortes dores de cabeça. O pai dizia que era bobagem, nada para ser levado muito a sério. É só tomar um analgésico, repetiu ele durante meses. Todavia, nada resolvia e aquela maldita dor continuava incessante, impiedosa, intensa. E o pai continuava com o mesmo discurso de quem despreza a dor alheia. Enquanto não sentisse na própria pele, não saberia do que se queixava o filho. Não, não poderia sentir a dor de cabeça do filho. Mas pôde muito bem sentir a incessante, impiedosa, intensa dor de sua perda: seis meses depois o menino morreu de câncer cerebral.

7 de jun de 2010

Clara e o Silêncio

Ela olhou em volta: era com ela mesma que falavam. Argumentou com calma, depois se tornou mais agressiva. Tal mudança de comportamento foi criticada - naturalmente. Ela não sabia o que dizer: não porque nunca tivesse passado por semelhante situação, mas porque nunca faria com que passassem o que ela estava passando.

Somos escravos das palavras que dizemos, Clara teria dito se fizesse alguma diferença. Não, ela não fazia a diferença. Aparentemente, tinha falhado em coisas grandes e importantes, ainda que tivesse ido além de várias limitações suas. Insuficiência cardpiaca é quando o coração não dá conta. Insuficiência Clareana é quando Clara não dá conta das coisas que a cercam. Percebeu não ter então muito o que oferecer. Seria sua oferta tão limitada?

O silêncio era sua última alternativa. E poderia ter três motivos diferentes para escolhê-lo: primeiro, porque simplesmente não a ouviam; segundo, porque precisava pensar; terceiro, porque não havia simplesmente mais nada a dizer, nada que pudesse fazer com que reconsiderassem a sua situação.

Não era capricho, não era fricote. Clara não era esse tipo de mulher quej oga, que brinca com os outros, que testa até onde vai a compostura alheia. Clara era mais do que isso. E aquilo o que sentia era só uma vontade de silêncio. Uma vontade muito grande. Não queria gastar a sua bela voz  de soprano como se fosse disco riscado: dando sempre as mesmas explicações a quem não está pronto para tê-las.

Pintaram-lhe como alguém feio e Clara já não dizia nada. Para que dizer algo quando todos os julgamentos já foram feitos? E por mais que parecesse que a batalha já estava perdida, Clara se recusava a perder a sua fé.

6 de jun de 2010

Diário: Bad day ou Fail

O que você faz quando o seu dia foi ruim? Primeira coisa, sem drama, sem alarmes, sem surpresas. Durante o dia é só inspirar e expirar. Do contrário, como esperar pelo próximo dia? Depois você pensa e começa a duvidar da sua capacidade enquanto ser humano e acha que está fazendo tudo errado. Isso soa um pouco sério? Na verdade, nada disso importa muito. Um dos grandes segredos, que aqui compartilho, é dar importância mínima a qualquer tipo de sofrimento. Porque essas coisas passam, apesar de se esconderem nas gavetas de vez em quando. Mas amanhã eu arrumo toda essa bagunça, porque hoje não vai dar.

O que você faz quando o seu dia foi ruim? Eu simplesmente respiro.

5 de jun de 2010

Quinzinho e a tristeza

A tristeza de Quinzinho não era derramada pela casa ou espalhada no vento. Era uma tristeza conformada e morna que ofuscava sua alegria costumeira. O sorriso era mais discreto. Sem mau humor. Sem gargalhadas. Sem fortes emoções. Leves meneios de cabeça indicavam aprovação de sua parte para quaisquer decisões.

Quinzinho não tinha vocação para o drama, para o desespero, para o ódio. Era um homem sensato e foi com sensatez que cumprimentou Dona Tristeza e convidou-a para um café. Conversaram bastante e ela pediu para ficar um pouco. Ele permitiu e emprestrou-lhe um cobertor de lã cinza, para que dormisse na sala.

As pessoas ao redor de Quinzinho não reparavam nenhuma grande diferença, pois não costumavam reparar nele. Quinzinho era encantador, mas discreto e passava despercebido com frequencia. Nos dias de branco encardido, ele saía com a sua distração costumeira e seu ar etéreo. Entretanto, as pessoas reparavam que seu senso de humor mudava: tornava-se mais refinado e afiado, como se a tristeza despertasse nele o seu lado mais espirituoso. 

Curiosamente, as pessoas riam mais quando Quinzinho estava triste. E aquilo despertava nele uma sutil sensação de bem estar. Era como achar uma luz no  fim do túnel, mesmo que a luz fosse para outrem.

Era um pierrô envidraçado.

Aos treze

Depois de 20 anos os dois estavam sentandos num bar, falando sobre a vida presente e os velhos tempos de colégio. O papo ia ficando nostálgico. Ela tinha sido muito apaixonada por ele, quando eram duas crianças.

Ela: - Ah! Você sabe que eu era muito apaixonada por você, né? Eu até me declarei, lembra? - ela sorri.
Ele: - Claro que eu lembro! - ele diz convicto - Talvez se tudo acontecesse hoje...
Ela: - Eu assistia desenhos bobos só para ter papo com você, mas nunca conversávamos! Você nunca falava comigo! - ela ri.
Ele: - Você sempre me intimidou. Mesmo porque, eu até pensava em conversar com você, mas tinha medo do que os outros iam pensar. Puro preconceito. E tinha medo de que você achasse que eu gostava de você.
Ela: - Então de nós dois você foi o mais esperto, porque todo mundo ia tirar sarro de você mesmo e eu ia pensar que era correspondida. Se saiu bem.
Ele: - Talvez eu não tenha sido o mais esperto não... Depois que você cresce, não importa o que os seus amiguinhos pensam, né? Acaba valendo mais aquilo o que você quer.
Ela: - É... Acho que é a ordem natural das coisas... Se libertar de certas amarras... Mas quando se tem 12, 13 anos, a escola é normalmente o seu mundo, né?
Ele: - É, é verdade...

4 de jun de 2010

Stand by me

Essa semana passei pensando num amigo meu. Quer dizer, ex-amigo. Okay, não é comum se dizer ou ouvir isso. Todavia, certas pessoas são importantes somente durante certos momentos. E ele foi. Tivemos um rompimento doloroso - e dramático, é claro. Drama. Essa palavra me faz lembrar uma amiga muito querida que não vejo há algum tempo: a Diva Ruiva.

O caso é que brigamos muito feio mesmo e nunca mais nos falamos desde então. Isso foi em 25/12/09 - um delicioso modo de passar o dia de Natal. Chegamos a um ponto em que não nos aguentávamos mais. Tivemos várias DRs e nada de se resolver. Deixei o pobrezinho enfezado e aí quem não queria mais a amizade era ele.

Pensei nele essa semana, mas não senti saudade. Não sinto a falta dele, como sei que ele não sente a minha. Há uma citação em Stand by me (1986) - um dos melhores filmes que eu já vi - que reflete bem o que eu senti: "It happens sometimes. Friends come in and out of our lives, like busboys in a restaurant." Não estávamos nos fazendo bem. Para que continuar? A raiva escorreu pelos dias e restou o desejo de que ele seja feliz.

Passei o dia de hoje com um dos meus irmãos de coração. Dizem que os amigos são a família que a gente escolhe e acho que é bem por aí: de 2005 para cá, ganhei dos irmãos mais novos. Um deles, o James, é a minha alma-gêmea, uma pessoa que tem me acompanhado e tirado o melhor de mim. O outro, o Sherlock, é o irmão mais protetor, quase um irmão mais velho, apesar de ser mais novo. Engraçado como os dois são tão diferentes entre sim e ocupam lugar igualmente importante na minha vida. São dois grandes companheiros e vejo tranquilamente nossos filhos brincando juntos no futuro.

Vrummmm vruuuuuum



"Mais vale um fusca bancado com o dinheiro do próprio bolso do que um New beetle comprado e mantido pelo papai"

3 de jun de 2010

Papai Noel dirige um palio

... Foi isso o que descobri na semana passada, à caminho do serviço. Eu já tinho pego o mesmo ônibus que ele algumas vezes, mas não sabia que ele dirigia. É roliço, grandão, olhos azuis serenos, bochechas redondinhas e rosadas, barba e cabelos compridos brancos e o bonezinho vermelho. Já deve passar dos 70 e ainda dirige. Não só dirige, mas dirige bem.

Quem precisa de renas e um trenó quando se tem um palio prata?

Lili redefine fronteiras

Ele disse a Lili que ela era diferente. Diferente de tudo o que ele já tinha visto. Sim, isso era bom: ele já tinha visto e vivido muita coisa - muito mais do que ela. Ele conhecera muitas pessoas e lhe dissera que igual a ela ele nunca tinha visto ninguém. Ninguém é igual à ninguém, é óbvio, mas só quem tinha estado na pele dele sabia do que estava falando.

Ele lhe disse que achava que sabia muito sobre a vida e sobre relacionamentos e que Lili tinha colocado tudo de ponta cabeça, redefinindo todas as verdades que tinha para si como universais. Ela redesenhava o universo todos os dias, sempre com novos matizes das cores do sempre. Lili era seu braço direito - tanto bons quanto maus momentos. E ela lhe mostrava o quanto ele e a vida valiam a pena.

Lili sabia muito mais do que os seus aparentes 16 anos - na verdade são vinte e poucos.  Ela sabe mais do que os seus reais vinte e poucos anos. É um espírito velho. E agora ele sabe disso.

Ouvindo Lost cause (Beck)

2 de jun de 2010

Diário: Fotografias

O Pai Forster olhou as minhas fotos mais recentes. Ele é, entre outras coisas, um fotógrafo muito talentoso, por isso fiquei muito feliz em saber que gostou das fotos. Achei curiosa a observação final que fez sobre elas:

- Engraçado como tiramos fotos dos mesmos lugares, mas com perspectivas completamente diferentes...

A propósito, meu Flickr está atualizado:

Activia: Como vai o seu intestino, amiga?

Anda difícil ultimamente, mas sempre que posso, assisto TV com a Charlie. É incrível como temos pontos em comum, mesmo sendo tão diferentes. Na verdade, acho que as nossas diferenças são mais superficiais mesmo: arrisco dizer que a essência é a mesma.

Bom, uma coisa que sempre nos causou algum estranhamento foi a campanha da Activia. Nada errado com um produto que ajuda a regular as idas ao banheiro. Yakult regula a flora intestinal (tão poético! quase árcade) e isso não é novidade. O que nos causa o estranhamento é a abordagem do produto.

Talvez eu seja muito careta ou velha, mas acharia MUITO estranho se alguém puxasse conversa comigo no elevador com algo do tipo:

- Como vai o seu intestino, amiga?

Para estranhos, sou adepta do bom e velho:

- Está frio, não?

E mesmo se minhas amigas perguntassem isso do nada ou fizessem do assunto fórum de discussão eu ia achar muito estranho - e tirar uma, é claro.

Não, falar sobre isso não é tabu, mas eu acho engraçado o modo como isso é feito nos comerciais, como se fosse a coisa mais natural do mundo falar com estranhos sobre prisão de ventre. Melhor do que isso, só a propaganda sobre ejaculação precoce nos intervalos do Jornal Hoje, para que as criancinhas perguntem:

- Papai, o que é ejaculação precoce?

Mas isso já foi um post.

Nos EUA, quem toca a campanha é a Jamie Lee Curtis. No Brasil, é a Patrycia Travassos. Na minha propaganda preferida, ela encontra duas mulheres na praia e pergunta algo do tipo:

- Como está o intestino?

Okay, a intimidade é algo forçado por si só. Eu me imagino na praia, sendo abordada por uma atriz da Globo com a tal "pesquisa". Claro que na propaganda é tudo fingimento, os tais "depoimentos", mas não torna tudo menos estranho e fora da realidade para mim.

1 de jun de 2010

Diário: Ciúmes

Paulinho sempre me faz quinhentas perguntas por dia. Algumas sobre a língua inglesa. Muitas de cunho pessoal:

- Professora, você não bebe nem fuma, né?

Respondo que não fumo nem bebo e ele parece se dar por satisfeito. É uma pergunta de checagem mesmo, porque eu não devo ter cara de quem bebe e fuma. Pouco depois, ele me pergunta muito sério:

- Professora, o que a gente faz quando sente ciúmes?

Hesitei. Hesitei porque eu não sei o que é sentir ciúmes. Nem de nada nem de ninguém.Olhei para ele com carinho, tentando ler o que se passava em sua mente de 11 ou 12 anos:

- Olha, ciúmes não é um sentimento bom: ele faz você sofrer e também a pessoa de quem você sente ciúmes, que muitas vezes é a pessoa com quem você está. É um sentimento para você trabalhar aqui dentro - aponto para seu coração.

Paulinho não tem namorada, um dia terá. Se tratar a namorada com os mimos e agrados que ele me trata, ela será uma menina de sorte. Vai, provavelmente, escrever-lhe cartinhas carinhosas, do mesmo modo que me escreveu uma - em inglês. Paulinho quer ser militar, mas eu lhe disse que vai virar professor de inglês. Ele ri quando eu digo isso. Engraçado como ele me faz pensar na vida...

Chuck Norris was here