5 de jun de 2010

Quinzinho e a tristeza

A tristeza de Quinzinho não era derramada pela casa ou espalhada no vento. Era uma tristeza conformada e morna que ofuscava sua alegria costumeira. O sorriso era mais discreto. Sem mau humor. Sem gargalhadas. Sem fortes emoções. Leves meneios de cabeça indicavam aprovação de sua parte para quaisquer decisões.

Quinzinho não tinha vocação para o drama, para o desespero, para o ódio. Era um homem sensato e foi com sensatez que cumprimentou Dona Tristeza e convidou-a para um café. Conversaram bastante e ela pediu para ficar um pouco. Ele permitiu e emprestrou-lhe um cobertor de lã cinza, para que dormisse na sala.

As pessoas ao redor de Quinzinho não reparavam nenhuma grande diferença, pois não costumavam reparar nele. Quinzinho era encantador, mas discreto e passava despercebido com frequencia. Nos dias de branco encardido, ele saía com a sua distração costumeira e seu ar etéreo. Entretanto, as pessoas reparavam que seu senso de humor mudava: tornava-se mais refinado e afiado, como se a tristeza despertasse nele o seu lado mais espirituoso. 

Curiosamente, as pessoas riam mais quando Quinzinho estava triste. E aquilo despertava nele uma sutil sensação de bem estar. Era como achar uma luz no  fim do túnel, mesmo que a luz fosse para outrem.

Era um pierrô envidraçado.

Um comentário:

Anônimo disse...

me gusta!
>sara