7 de jun de 2010

Clara e o Silêncio

Ela olhou em volta: era com ela mesma que falavam. Argumentou com calma, depois se tornou mais agressiva. Tal mudança de comportamento foi criticada - naturalmente. Ela não sabia o que dizer: não porque nunca tivesse passado por semelhante situação, mas porque nunca faria com que passassem o que ela estava passando.

Somos escravos das palavras que dizemos, Clara teria dito se fizesse alguma diferença. Não, ela não fazia a diferença. Aparentemente, tinha falhado em coisas grandes e importantes, ainda que tivesse ido além de várias limitações suas. Insuficiência cardpiaca é quando o coração não dá conta. Insuficiência Clareana é quando Clara não dá conta das coisas que a cercam. Percebeu não ter então muito o que oferecer. Seria sua oferta tão limitada?

O silêncio era sua última alternativa. E poderia ter três motivos diferentes para escolhê-lo: primeiro, porque simplesmente não a ouviam; segundo, porque precisava pensar; terceiro, porque não havia simplesmente mais nada a dizer, nada que pudesse fazer com que reconsiderassem a sua situação.

Não era capricho, não era fricote. Clara não era esse tipo de mulher quej oga, que brinca com os outros, que testa até onde vai a compostura alheia. Clara era mais do que isso. E aquilo o que sentia era só uma vontade de silêncio. Uma vontade muito grande. Não queria gastar a sua bela voz  de soprano como se fosse disco riscado: dando sempre as mesmas explicações a quem não está pronto para tê-las.

Pintaram-lhe como alguém feio e Clara já não dizia nada. Para que dizer algo quando todos os julgamentos já foram feitos? E por mais que parecesse que a batalha já estava perdida, Clara se recusava a perder a sua fé.

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