25 de jun de 2010

Quinzinho e as luzes artificais

Quinzinho todos os dias pegava o trem na mesma estação. No emprego em que estava, amanhecia e anoitecia dentro de um cubículo de repartição pública: não via nem o sol nascer nem se pôr. Estava se acostumando com as luzes artificais e com a concorrência desleal entre estrelas leitosas e peep-shows.

Mas não estava sozinho. Havia alguém que amanhecia com ele. Nao mesmo horário, na mesma estação, embora no sentido contrário, uma moça esperava pelo trem todos os dias. Era pequena, miúda. Parecia que seria levada pelo vento ao menor sinal de brisa, mas tinha os pés no chão. Os cabelos compridos tão aéreos, mas os pés no chão. Às vezes distraída, o olhar perdido, mas os pés no chão.

Imaginava que um dia os dois conversariam sobre livros e sobre música. Mas antes ele começaria a conversar com ela perguntando as horas. E se ela não tivesse relógio? Depois a convidaria para tomar um café. Ou um milkshake - ela tinha jeito de quem gostava de milkshake.

Quinzinho riu de seus sonhos e de toda a fantasia em que envolvia sua vida. Bom, é essa a saída já que as coisas não são como quero, não é? 

Ela era encantadora. Maquiagem leve, quase nula. E um olhar que aquecia as pessoas. Confortava e aquecia. Era como voltar para casa, mas uma outra casa.

Ela teria tido medo do olhar de Quinzinho, se não o tivesse reconhecido como apaixonado. Um tolo? Possivelmente, mas ele não se importava muito, pois era ela quem fornecia-lhe a única luz não artificial de seus dias. Ela era a coisa mais real e mais concreta que tinha em sua vida. Olhar para ela fazia com que ele se lembrasse de que estava vivo.

Observá-la tornou-se o seu respirar e suspirar diário, do contrário, acabaria morrendo sufocado, esmagado pelas pilhas de papéis e documentos e fichas e arquivos - e por uma tal realidade que não lhe pertencia. Para que tudo aquilo se o que ela oferecia a quem a olhasse era magia? E ainda assim, ainda que ela sustentasse suavemente aquele halo de contos de fadas, da onde vinha a força dos pés de menina que  pisavam firmes no chão? Aquela sua realidade das mãos tecelãs? Ia tecendo a vida. Dedos em calos. Unhas sem esmalte.

(ele nunca saberia)

Um dia, ouviu alguém gritar seu nome:

- Lili!

2 comentários:

Cayo Candido disse...

E os personagens finalmente saem da mente e se encontram no papel.

Anônimo disse...

amei!
>sara