30 de set de 2010

A dança

A: - Só estou falando de construir convivência.

B: -SÓ? Você diz isso com essa simplicidade?!

A: - Ok, devo ter subestimado a convivência...

B: - O problema é um só: todos estão fugindo.

A: - Acho que você está certo... É como se eu estivesse dançando uma música sem conhecê-la...


Cuidado com os pandas

Quem me indicou o vídeo foi uma amiga, a Fabi Muliterno, dona do blog O Canto da Pata.  Achei a propaganda muito surreal e fofa.



Não, eu não fiquei com medo do Panda... E alguém sabe que língua eles falam?

Under my skin

Menino e menina estão num semáfora da Paulista. Ela fala fala fala - incansavelmente. Ele pára, inclina a cabeça para a esquerda. Viajou para outro lugar, não está mais lá com ela.

- Ei! - ela estala os dedos.

- Estava tentando descobrir que música ele estava tocando - diz ele, apontado para o homem com o saxofone - Acho que é Under my skin.

- Mesmo? - ela pára de falar e presta atenção - Não consigo indentificar.

- É Under my skin mesmo, mas não chegou no refrão - ele começa a assobiar.

O sinal abriu:

- Acho que não vai dar tempo de chegar ao refrão.

Não deu mesmo: ambos atravessaram a rua. Só restava a ela a música assobiada por ele.
 
Ouvindo Dream a little dream (The Mamas & The Papas) , embora devesse ser Under my skin (Frank Sinatra)...

Como influenciar pessoas

A: - Eu fiz um blog.

B: - Mesmo? Que legal! Mas você tinha uma atitude tão negativa sobre blogs... O que te fez mudar de idéia?

A: - Você. Você me convenceu.

B: - Nossa! Me senti importante!

A: - Sim e hoje você passou da categoria de influenciável para influenciadora.

B: - Cara, me sinto praticamente Don Corleone.

A: - Sim, madrinha.

E mais uma vez a argumentação - simultaneamente passional e racional - funcionou.

29 de set de 2010

Diário: Almoço com o Arnaldo

Hoje almocei com o Arnaldo. Quando me dá vontade, eu o chamo. Ele sempre vem. É o único que nunca recusa meus convites bobos. Eu bebericava um copo d'água quando ele começou a cantar para mim:


Ele bem sabe que é uma de suas músicas que mais gosto... Uma simplicidade e uma completude que me deixam leve.

Florais de Bach



Latin lovers

Os dois conversam num boteco:

A: - E aí?

B: - Estou vendo uma pessoa.

A: - Como vocês conseguem tantas pessoas!?

B: - Como assim "tantas pessoas"!?

28 de set de 2010

Teamwork

Fonte: http://comixed.com/2010/08/25/4-koma-comic-strip-let-our-powers-combine/

Educação Sentimental (parte IV)

Ouviu-se um barulho cessar.

- É a máquina de lavar.Tenho que estender roupa, quer vir comigo?

Era um daqueles convites exóticos de Clara. Seguiram até a lavanderia, pelo corredor, mas antes que chegassem lá, passaram  pelo quarto. Rapidamente, ele pode notar: a cama desfeita, os lençóis emaranhados, roupas espalhadas pelo chão. Será que alguém tinha estado lá? 

- Nem repare a bagunça, andei numa correria esses dias.

- Ah! Claro, sem problemas - e depois de uma pausa - E o que você vai fazer hoje?

 - Vou ver o Rubens. Temos que ensaiar algumas músicas ainda.

- Rubens... Se eu fosse seu namorado, teria ciúmes.

- Mas não é Louis - ela sorriu.

Ele não entendia de onde vinha aquela ternura morna com a qual ela o encarava tão segura de si. Em que momento ela tinha mudado e ele não tinha percebido? Entraram na lavanderia.

- O Thiago não entendia nada, não respeitava meu trabalho.

- Bom, eu entendo o lado dele. Você se expõe muito.

- No palco? Ah! É só a minha voz, não a minha nudez. E se fosse a minha nudez? Se eu fosse aquelas atrizes de teatro que precisam do desprendimento próprio da profissão é uma coisa, mas eu só canto, não faço mais nada. 

- Mesmo assim. Todos os olhos estão em você.

Pausa.

- Talvez nós dois juntos tivesse dado certo.

- É, talvez - disse ele um pouco espantado - Você já pensou nisso, é?

Ele se arrependeu da pergunta.

- Não, estou pensando agora. Mas devo estar pensando errado: nem chegamos a nos beijar.

Ela não se arrependeu da resposta.

- Hunf - resmungou ele irritado.

- Ah! Não fique assim: foi uma escolha mútua, não? 

Não, não tinha sido.Tinha sido escolha dele, escolha da qual ele começava a se arrepender. Amigos, bons amigos.

- Você está diferente...

- Desculpa.

Naquele pedido havia uma mistura de sinceridade e zombaria.

- Não é questão de desculpa, Clara. As pessoas mudam, não? Só não sei quando você mudou que eu não vi.

- Você estava se casando - ela riu.

 Clara tirou as roupas da máquina, foi colocando-as numa bacia.

- Eu não sei como lidar com você - ele explicou, encostado junto à porta.

- E desde quando você precisa lidar comigo? - ela sorriu, abafando sua agressividade -Você é livre para ir quando quiser, Louis. Não há nada que nos prenda, você sabe?

- Odeio o seu drama de novela.

- Eu não estou sendo dramática, estou sendo prática. Eu cansei de mim mesma, sabe? E cansei dessa situação nossa, que se arrasta por anos - disse ela sem olhá-lo, enquanto pendurava um par de meias.

Parou e olhou para ele. O homem feito e seguro não passava, ao menos agora, de um menino esquivo e ressentido. E, ainda que esquivo, estava à porta da sua lavanderia, discutindo a vida de ambos como se estivessem juntos. Ela se aproximou dele:

- Imagino que esteja cansado também - tocou-lhe o rosto de leve, barba mal-feita.

Ele não disse nada. Clara passou as mãos pelo rosto dele - olhos fechados.

- Não há mais nada que eu possa fazer, Louis.

- Mas eu não quero que você faça nada - tomou-lhe e beijou-lhe uma das mãos.

Ficaram se olhando por um longo instante. Pela primeira vez naquela conversa, ambos estavam completamente desarmados. Olhos nos olhos.

- Eu não sei o que sinto por você, nunca soube explicar - ele se desculpava.

- Mas algum dia eu te cobrei alguma coisa? - ela mexe nos cabelos dele - Eu só estava lá, só isso. Achei que bastasse.

- Mas bastou, é só que... - ele não conseguiu terminar, não sabia o que dizer.

Eles permanceram presos naquele momento. Era o mais próximo que já tinham chegado. Ali, abraçados sobre um céu de meias suspensas. Mas ele hesitava, ela sentia e sabia. Desvencilhou-se dele com delicadeza:

- Tenho que terminar isso aqui, depois vou pôr tudo em ordem, tomar um banho e ver o Rubens.

Suspiro. A mornidão do corpo de Clara ainda permanecia junto ao corpo de Louis. Assim como o cheiro de sabonete.

- Claro, claro. Eu já estava de saída - ele disse desconcertado.

- Espero que você consiga resolver a situação com sua esposa - disse ela mecanicamente.

- Sim, é claro - ele respondeu também mecanicamente.

Seguiram de volta à sala e ela acompanhou Louis até o saguão do prédio. No elevador só o silêncio, ela já não o preenchia com sua verborragia. 

Louis sentia seu corpo pesar e dissolver-se no piso de mármore, enquanto via Clara se afastar cada vez mais. Não olhou para trás. Tinha sido assim desde sempre.

Sob um céu de agosto

Ela tinha ido até lá para o noivado de uma amiga. Uma uma cidade a beira mar. Já tinha sonhado com aquele lugar muitas vezes. Na verdade, poderia estar sonhando agora mesmo.

Depois de ter que ouvir um flerte inconveniente e ter ficado desconcertada, ela saiu da festa para dar uma volta. Estava deprimida demais para beber. Foi sozinha até a feirinha que reunia tudo o que se podia imaginar: desde antiguidades até rolinhos primavera. Encontrava dua vida exposta em cada barraquinha e o eco dentro de cada espaço dentro de si.

O trânsito estava calmo. Ela andava no meio da rua, sem direção. Procura que procura. Procurava o quê? Só procurava. O céu estava escuro, nuvens gordas e cor de chumbo:

- Vai chover!

Uma tempestade de aproximava rapidamente. E ela sem nenhuma vontade de sair de lá. Queria que a tempestade desabasse sobre si. Ela conhecia aquele vento fresco, aquela luz branca que ia morrendo, aquela sensação de apocalipse que se apoderava dela e do resto do mundo.

Pensou naquelas virgens medievais: sacrificadas para acalmar dragões. E, embora não fosse nem virgem nem medieval, resvolveu que um sacrifício se fazia necessário.Havia dragões a serem acalmados.

Deixou para trás a bolsa, os sapatos. O perfume dos longos cabelos se dissolveu no vento - cada vez mais forte.

Caminhava em direção ao mar.


Ouvindo Eu te amo (Chico Buarque)

Como conquistar alguém em três minutos

O que ouvi de uma aluna que comentava o ridículo de certas coisas:

"Me chama de miojo que eu te faço ferver em três minutos"

Divertidíssimo...

27 de set de 2010

O macaco cor-de-rosa

Procura-se um macaco cor-de-rosa. Ele fugiu da minha bolsa esta tarde. Pode ter ficado no posto de gasolina ou ter ficado na pet shop - fui comprar comida para Tibúrcio, meu gato. Um macaco cor-de-rosa ter fugido para uma pet shop é uma grande ironia - embora um macaco cor-de-rosa de lacinho seja uma ironia em si. Mais irônico ainda é o azar que tenho com todo o tipo de fauna a ser levado em bolsas e zíperes.

Diário: João e Maria

Porque eu acordei lírica, meio João e Maria...




26 de set de 2010

Diário: À queima roupa

À queima roupa é tudo aquilo que chega perto demais, que te encara muito de perto, que pode te surpreender pela ausência de cerimônia, que te desvenda em três tempos. E como um gato ligeiro, dá-se um salto para trás:

- Sim?

Enroscando-se na cadeira, o gato olha sério, muito senhor de si. Quando quer, brinca com o ratinho branco e indefeso.

- Não chegue muito perto - ele parece dizer.

(ele quem: o gato ou o rato?)

À queima roupa é aquilo que te perguntam quando você menos espera:

- Hein?

Olhei surpresa. Perguntas inusitadas (têm um sabor exótico). Pergunta a queima roupa responde-se a queima roupa: a certeza do caminhar de um gato ao sair da sala. A firmeza da sua saída. O charme secreto de seu olhar de ouro em pó.

25 de set de 2010

Além da epiderme ou Superficial

A mais nova e a mais velha estão se arrumando:

- Olha isso! Olha o tamanho dos meus poros! - a mais nova exclama.

- Não dá pra ver seus poros com essa máscara... - diz a mais velha, esmalte marrom.

- Cravos, espinhas e esses poros dilatados - ela resmunga.

- Sua pele é ótima, boba - a mais velha diz, lábios rosa-chá.

- Mas ele vai perceber todas essas imperfeições! - a mais nova se lamenta

- Ele é seu namorado ou seu dermatologista?

Pensamentos soltos [2]

Saí na chuva para me molhar - literalmente. Jeans, tênis, blusão, cara lavada, cabelos recém-lavados, alma lavada. Tem coisa melhor? Foi um prazer estranho sair da estação e pegar aquela chuva leve, aquele céu cinzento. O tempo fresco. Fiz questão de não abrir o guarda-chuva até que fosse realmente indispensável.

Uma sensação de liberdade indescritível. Os carros todos parados e eu andando pela calçada com milhões de idéias na cabeça. Nada poderia me chatear num momento como aquele - nem mesmo a meia úmida e a descoberta de um furo na sola do meu all star, coisas que me deixariam tolamente mal-humorada até alguns meses atrás.

O homem grande com o guarda-chuva grande responde com o seguinte gracejo quando lhe cedo passagem:

- Eu com a minha barraca não dá! - sorri.

As palavras de Breno e de Ignácio ressoavam dentro de mim, ora intensas, ora suaves. Me fizeram rir ao descer do trem. E sempre, sempre me faziam (e fazem) pensar na vida e em sua complexidade. Elas mexem comigo, abrem e fecham feridas, me oferecem outras perspectivas e algumas identificações.

(diferentes tempos verbais)

Eu já vivi isso.

Eu poderia ter vivido isso.

Eu sei que ainda vou viver isso.

Nesta tarde, eu esqueci do meu dia, da minha semana. Revi antigas questões. Alguns fracassos definitivos. Algumas coisas resolvidas (e felizes). Novas oportunidades e situações. Haja estômago, haja coração. Haja paciência para a inexperiência que me assalta. Frio no estômago. Riso contido. Ah! Esse olhar apaixonado. Ah! Essa juventude! Ei! Quantos anos eu tenho?

E uma vontade gigante de cuidar dela.

Depois, peguei o carro debaixo de chuva, à noite, e aumentei o volume do rádio quando a música começou a tocar. Encarei a moça no retrovisor: quem é você? Ela me sorri, ainda doce, unhas cor de vinho. Cortou o cabelo. Sim, cortei. As mudanças de fora para dentro. Será? Quem se importa? E sempre me lembro de Sabrina dizendo que continuava a mesma e que só tinha mudando o corte de cabelo. Ledo engano.

E ledo engano pensar que o sempre e o nunca me bastam.

(e conheci um pedreiro que gosta de Queen e toca Stairway to heaven no violão)

24 de set de 2010

E dá-lhe pote de azeitonas!

Ele: - E aí? Solteira ou já de namorado novo?

Ela: - Que nada!

Ele: - Você é ótima. Daqui a pouco encontra alguém, certeza ó.

Ela: - Nha. Talvez, mas estou de boa.

Ele: - Mesmo?

Ela: - É. Mas confesso que senti falta de namorado ontem...

Ele: - Por quê?

Ela: - Porque ontem tive que carregar a cesta básica...


(tão feio isso...)

23 de set de 2010

Diário: De como virei consultora sentimental

Não sei o que me assusta mais:

a) um sujeito de 40 anos me pedir conselho amoroso;
b) a confiança que ele depositou em mim;
c) a ilusão dele de que eu poderia ajudá-lo;
d) a recordação de que as pessoas têm me pedido esse tipo de conselho desde 1900 e bolinha;
e) a confirmação de que esses assuntos continuam complicados, mesmo com o passar do tempo;
f) a constatação de que eu não consigo nem cuidar da minha vida, o que dirá da dos outros.
g) todas as anteriores.

22 de set de 2010

Runaway bride ou Anjos e Demônios

A Garota de Leeds me disse que fugiria se alguém a pedisse em casamento. Uma outra amiga disse que fugiria se alguém simplesmente dissesse estar apaixonado por ela. Depois de pensar sobre o assunto, acho que entendi: só Deus sabe o que você vai se tornar aos olhos dessa pessoa. Não temos qualquer poder sobre o que vamos nos tornar ou representar para o outro. Posso me mostrar como sou, sem máscaras, mas ninguém sabe quais serão as fantasias tecidas por esse outro que me encara passional. E eu volto à pergunta de alguns anos atrás (e de um outro blog): se sou o anjo ou a amada de alguém, o que isso me compete? Que responsbilidades isso me traz? É seguro? Por que será que sinto que, de repente, há quilos de expectativas pesando sobre os meus ombros? Conseguirei atingi-las? Nham. Resposta negativa.

(e assim vamos de anjo a demônio - num piscar de olhos)

Soco no estômago [1]: Perdão

- Eu finalmente entendi tudo... - ela sorri aliviada.

- E eu não estou entendendo nada! - ele grita aborrecido.

Era tarde demais, depois de todo aquele tempo. Ela olha os pedregulhos na calçada:

- E eu não entendo o que você não entende...

Ela errava e errava feio às vezes. Mas também sabia pedir perdão. Mas o que podia fazer se não lhe davam a chance? Pedir perdão não é obrigar alguém a te perdoar, mas obrigar a pessoa a  saber que você se arrependeu, que sente muito. Não que isso apague o que já foi dito e feito, mas é tão mau assim? Seria tão horrível assim ouvir que alguém sente muito e quer arrumar a bagunça?

Ela nunca tinha ouvido isso, então não saberia dizer.

21 de set de 2010

Deep

Tentando consertar certas coisas, eu percebia que havia realmente coisas para serem consertadas... Se a minha mágoa tinha escorrido pelo ralo, a deles empoçava no quintal da minha casa. Não havia muito a se fazer, não havia pano para secar toda aquela mágoa.

Talvez um dia ensolarado a secasse.

(seja como for, eu respeito a poça do meu quintal)

What can I do? [2]

Ele me disse que tem andado para baixo ultimamente. E eu pensando: o que poderia fazer?! Nham. Acho que nada. Das últimas vezes que eu tentei fazer algo por alguém não deu muito certo. Acho que eu não sei mais fazer as pessoas felizes. Ou simplesmente deixá-las alegres. Talvez isso seja algo que eu precise re-aprender...

20 de set de 2010

[...] era vidro e se quebrou

Nós duas no trem, voltando para casa:

Eu: - Músicas infantis me deprimem. Atirei o pau no gato... O que você acha disso?

(ela ama gatos)

Diva Ruiva: - Credo! Pior que a gente cantava sem perceber...

silêncio.

Eu: - E tem aquela "Fui no Itororó beber água não achei, achei bela morena que no Itororó deixei..." Fala sobre alguém que sai da sua terra por causa da água...

Diva Ruiva: - Nossa! Essas músicas são todas tristes!

silêncio.

Eu: - Pensando assim, talvez Ciranda cirandinha pudesse ser a trilha sonora da minha vida.

Ela ri.

19 de set de 2010

Diário: Reputação

Ele: - Nossa! O que é isso nas suas costas?

Eu: - É uma clave de sol.

Ele: - Meu Deus! Agora você é uma das nossas...Você fez uma tatuagem! É de verdade?

Eu: - Claro que sim!

Ele: - Nossa! Vou falar pra minha mãe...

Eu: - Que exagero... A Charlie também fez!

Ele: - Tudo bem, mas é VOCÊ!

Eu: - E qual é o problema?

Ele: - É que é VOCÊ!

Eu: - Como assim?

Ele: - É a mesma coisa que dizer que eu parei de fumar e de beber...

Medinho

Ele e ela estão num impasse. Dois para lá, dois pra cá. Os dois estão com medo. Ele com mais medo do que ela.

- Vamos? - ela pergunta hesitante.

Pensando bem: o que tinham a perder?

Reconhecimento tardio

Entre risos de menina-moça, eu lhe contei o que tinha feito anos atrás. Ele me olhou atônito, surpreendido e maravilhado:

- Nunca ninguém fez uma coisa dessas pra mim....

- É uma bobagem... Era o jeito de ficar mais próxima de você.

- É a coisa mais linda que já me fizeram...

E eu fiquei pensando: será que às vezes as pessoas não se fascinam por muito pouco? Ou será que fazemos tão pouco uns pelos outros que nos encantamos ao menor sinal de delicadeza? Ou ainda, será que o reconhecimento de certas coisas só vem mais tarde?

Eu percebi um certo remorso em sua voz:

- Se eu soubesse...

Mas ele sabia. Não disso, mas do que importava. Mas, de repente, aquilo foi realmente importante para ele. Tanto que chegou a comentar com uma roda de amigos em comum.

- Você acredita que ela fez isso por mim? 

Como eu ia saber? Mas, àquela altura, não fazia a mínima diferença - ao menos para mim. Éramos dois velhos amigos conversando. Nada mais. E com despretensão não-fingida, eu lhe contava coisas antigas que ele conhecia parcialmente.

Às vezes acho que eu surpreendo as pessoas com coisas tão bobas... Outra vezes acho que as pequenas coisas são as grandes mesmo e as pessoas ficam esperando grandes provas... de amor, por exemplo.

Uma amiga fazia os relatórios da empresa no ônibus, a caminho da casa do namorado. Assim, poderia passar mais tempo com ele. Ele nunca reconheceu isso. Eu quero sempre mais de ti. E assim as coisas se perdem pelo caminho e as pessoas se afastam. Não tem jeito: mesmo que a gente faça as coisas sem esperar nada e troca, a gente sempre espera alguma coisa. Nem que seja a não encheção de saco. O mínimo, sabe? E nem sempre o mínimo basta. Pior quando ele não existe...

Tem o reconhecimento tardio. E tem aquele que nunca vem. E achei curioso que tenha vindo depois de dez anos para a última pessoa que eu esperava que fosse se importar com algo assim. Fui surpreendida novamente. Mas eu ainda encano demais com o reconhecimento que nunca vem. Uma perda de tempo.

18 de set de 2010

Quero ser um Don!

Depois de assistir e me deleitar com The Godfather:

- Amei o filme! Muito mais do que eu esperava! - digo entusiasmada.

- Mesmo?

- É! Muito melhor do que Bonequinha de Luxo...

Charlie ri:

- Mas não tem como comparar: são coisas completamente diferentes...

- Uai! Mesmo assim... Acho The Godfather muitíssimo melhor do que Bonequinha de Luxo!

17 de set de 2010

Resoluções soltas [1]

Tenho pensado em muitas coisas nessa última semana e refletido sobre porquê de eu ter perdido interesse em determinados assuntos. Depois do sonho quase real e inverossímil da noite passada (sim, isso é possível...), encontrei a resposta que eu queria - o que não me serve de nada, na verdade. Engraçado como certas verdades são facilmente assumidas por nós sem causar dor ou sofrimento, ainda que pudessem ter tudo para tal.

A Diva Ruiva acertou em seu palpite quando eu estava certa de que ela estava errada. E eu pensando: ok, de que isso me serve? De nada. Saber a "verdade" não torna as coisas mais fáceis, eu acho. Bom, há casos e casos. No meu caso não muda muita coisa, mas me tira o ânimo para certas coisas.

Dou ombros. Que fazer? Absolutamente nada, a não ser viver um dia após o outro, continuando a correr atrás do que eu quero - e eu quero muito e tanto. Certos assuntos merecem ser tratados com o mínimo de atenção possível, que o tempo se encarrega do resto. É um sentimento que não sei nomear.

Quanto a mim, bem, penso, entre outras centenas de coisas, que acho que morreu um pouco mais do que a adolescente de Last Kiss. Ou talvez seja uma morte temporária - hibernação. Só não sei se essa morte temporária seria bem-vinda. E me atrevo a pensar que talvez não fosse. Talvez esteja precisando de algo mais definitivo...

Ouvindo Start to melt (Peter Bjorn and John)

16 de set de 2010

Melhor arranjar um pôster?

blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá beleza intimida blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá mulher independente intimida blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá mulher com vontade própria intimida blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá inteligência intimida blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá bláblá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá mulher com vida própria intimida blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá mulher decidida intimida blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá bláblá blá blá blá blá mulher com passado incomoda blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá bláblá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá... 


E eu, sobre o discurso acima, manjadíssimo e cansativo:

I couldn't care less...

15 de set de 2010

Diário: What can I do?

Dona Rosa, 63 anos, me olhou triste e confessou:

- Ai professora! Eu não estou entendendo nada! Inglês não entra na minha cabeça... Eu até copiei as útlimas atividades dos outros: não consigo fazer nada!

A matéria era can e can't

- Vem cá Dona Rosa! - disse eu, me sentando ao lado de sua mesa.

Ela se sentou, abri seu caderno e expliquei de novo a matéria que ela tinha copiado com caneta colorida e lápis de escrever. Um capricho. 

Ao final da explicação:

- E então? Melhorou? Está mais claro? - pergunto, pronta a explicar de novo, de outro jeito, se fosse necessário.

- Não, professora! - ela sorri contente - Eu consegui entender!

Ao final da aula: um bolinho sobre a minha mesa.

(é por isso que eu adoro meu trabalho)

Fale com ele [2]: Pés




Por que essa implicância com esmalte nas unhas dos pés?

Maurício+Malu: On/Off

Maurício chegou tarde em casa. Malu o esperava na sala, maldizendo os políticos, a novela, o Galvão. Malu reclamava demais.

Ela: - Como foi seu dia, amor?

Ele: - Já foi - disse áspero.

Ela: - Se não quer comentar, eu entendo.

Ela não entendia nada, na verdade, pois tinha uma grande necessidade de contar como tinha sido o seu dia, vontade de dividir e queria que essa vontade fosse recíproca. Mas tinha aprendido a respeitar a introspecção de Maurício, que às vezes se instalava silenciosa e assustadoramente entre os dois. Respeitar não significa aprovar.

Ela: - Eu fiz a janta - ela sorriu.

"Coisa rara", pensou ele, azedo.

Ela: - É um risoto de frango. Tá levinho, dá pra você comer a essa hora.

Ele: - Não, obrigado. Tô sem fome.

Malu respeitava o mau humor dele. Entretanto, tinha dificuldade de lidar com aquilo, com aquele humor com o qual ela não sabia lidar. Tentanva enchê-lo de carinhos, de mimos. Mas ele permanecia intratável.

Ela: - Ok.

Tirou o time de campo. E os pratos da mesa. E a panela do fogão. Foi lavar a louça. Maurício largou suas coisas sobre o sofá, foi tomar um banho. Estva fulo, fulo porque tinha tido um dia de cão. Mas mais fulo ainda porque sabia que não ia conseguir se desligar de tudo quando chegasse em casa. Não ia conseguir relaxar. Talvez nem mesmo dormir devidamente. Portanto, quanto menos falasse, melhor. E no chuveiro, ensaiava as explicações a serem dadas a seus superiores.

Ela: - Oi? - ela perguntou da cozinha (apartamento minúsculo, paredes finas)

Ele: - Não é nada - gritou dele, tentando se desconcentrar das tais explicações: não queria explicar-se para ela ou imaginar como seria explicar-se para os seus superiores. Eram explicações em voz alta.

Numa última tentativa, Malu pegou dois filmes da estante da sala: quarta-feira era dia de filme. Foi ver Maurício, já no quarto:

Ela: - Como está o seu ânimo para filme? Tenho duas opções aqui: Titanic, que você adora, e O Poderoso chefão...

Ele: - Que você adora - interrompeu ele e continuou - Olha, eu não quero fazer nada! Só quero ir dormir, pode ser?

Malu estranhava aquela dureza de Maurício, primeiro, por não estar acostumada, segundo, por estar se acostumando, já que estava se tornando algo relativamente frequente. A necessidade que ele tinha de estar sozinho parecia estar ficando mais comum e aquilo a abalava. Talvez ela não fosse a pessoa certa... Seria aquilo?

Ela: - Pode ser sim - ela saiu do quarto, guardou os filmes e foi tomar banho.

Tinha escolhido a camisola nova, mas ficou com o pijama de sempre mesmo. Para quê camisola nova?

Quando chegou ao quarto, Maurício fingia dormir - ela sabia que ele não estava dormindo coisa nenhuma. Malu guardou algumas coisas no armário, ajeitou o despertador, deitou e dormiu. Enquanto isso, Maurício ensaiva mais explicações e pensava nas mais diversas maneiras de resolver os problemas no trabalho.

Nem preciso dizer que ele não dormiu naquela noite.

14 de set de 2010

Diário: Nós, os catarrentos

Sou conhecida pelo meu sangue de barata: se me ofenderem eu não reajo. É mesmo uma raridade eu reagir a uma ofensa. Bom, isso se a ofensa for dirigida à mim, porque hoje, pela primeira vez, me deparei com uma situação na qual a ofensa foi feita a quem não tinha como se defender.

Levamos as crianças ao cinema. Tranquilos e alegres. Não apresentaram qualquer problema ou incômodo aos demais - ou talvez o simples fato de existirem e estarem lá fosse um problema. Voltávamos ao ponto de encontro e descíamos a escada rolante. Eu era a última do grupo e ouvi o rapaz atrás de mim falar em alto e bom som:

- Deveriam fechar aqui só para esses catarrentos! - comentou com um amigo.

As cinco meninas na minha frente olharam para trás, assustadas. Eu não teria falado nada de aquilo tivesse sido dirigido a mim, mas não tinha sido. Eis o breve diálogo que ocorreu entre nós:

- Você está com algum problema? - disse eu, muito séria.

- Por quê? Você é uma catarrenta? - ele perguntou com pouco caso.

- Não, sou a responsável pelos catarrentos.

- Olha, eu nem estava pensando nesses aí. Pensei nos mais novinhos, acho que esses aí já não são mais catarrentos, já devem ter saído dessa idade. Mas eu devo estar enganado, é eles ainda estão em idade de catarretos.
 
Ele me olhava tão cínico que eu tive vontade de esbofeteá-lo com a minha bolsa - vale comentar que ela estava pesando mais de 5 Kg. Claro, quando a gente não consegue com a conversa, a tendência é partir para a violência, não? E eu não ia conseguir nada com conversa. Ei! É claro que eu não ia esbofeteá-lo! Que exemplo daria? E que exemplo o rapaz de vinte e poucos anos, vendedorZINHO de loja de departamento, (vestia uma camiseta da loja) estava dando? Virei de costas para ele, meu sangue fervia.
Eu vesti a camisa dos catarrentos quando ele vestiu a dos imbecis. E visto a camisa dos catarrentos de novo, sempre que preciso.

Eu não sei se o problema do rapaz era com crianças em geral ou com crianças de escola pública ou com crianças de periferia. Pensando bem, acho que o problema dele é com as pessoas mesmo, com gente.

13 de set de 2010

Zeca e o Perfume

Carrinho de supermercado. Ele pegou algumas latas de cerveja, um pote de azeitonas e salgadinhos elma chips. Ah! E um desses sachês para perfumar o carro - os amigos reclamavam do seu cheiro de cigarro. 

Carro de passeio. Ainda no estacionamento, ele abre o sachê e pendura no câmbio. Surpresa. Era o perfume dela. Daqueles que empesteiam os ambientes. Sim, seu perfume caríssimo poderia ser facilmente conseguido num sachê barato para automóveis. Sim, ele pagara para ter o perfume de sua ex-esposa no carro. Sim, jogou o sachê pela janela e saiu com vidros abaixados. Precisava arejar.

Dias de maçã-verde

Deve ser época de maçã-verde: hoje vi W. e E. comendo maçãs-verdes e me deparei com meia dúzia delas na minha fruteira. É, deve ser época de maçã-verde. E de outras coisas também...

Estou ouvindo Last Kiss, do Pearl Jam, e percebo como essa música já não era o que costumava ser - por que a gravei? - ou o problema sou eu? Sim, na verdade, o Prêmio Grande Vilã 2010 é meu. Receberei-o não com pesar, mas com incrível leveza -  já que a palavra de ordem é essa: leveza. Creio que já está devidamente assimilada, quer dizer, só vou ter certeza quando a próxima crise for instaurada. O que não será tão cedo.

É estranho e engraçado ter saído de outra carapaça de ontem para hoje. Aquilo perdeu a graça. Temporário? Talvez. Talvez volte a ser interessante, não sei. Acho que eu matei a adolescente que amava Last Kiss e ainda assim, conversando com ele, eu me referi aos adultos, como se nenhum de nós fosse um. E somos. Até que se prove o contrário.

E eu olho as maçãs-verdes, incrivelmente grandes e verdes, e penso que não gosto de rosas. Talvez isso seja significativo de algum modo.

É como se eu estivesse confusa, mas não soubesse em relação ao que - já que está tudo muito bem resolvido, seja sentimentalmente, seja profissionalmente. As coisas estão claras, cristalianas. Já tomei todas as decisões necessárias por hora. Então...? Uma sensação de que há algo por vir... A Diva Ruiva me falou desse sentimento e eu acho que finalmente entendi senti.

Seja como for, há uma intensa sensação de estranhamento no ar seco e quente.

Será que é assim que a gente se sente nessa fase Pós-Adolescência?

12 de set de 2010

Salsa

E de repente era salsa!

O homem no palco largou a guitarra, se empolgou, falou algumas coisas em espanhol e puxou a mocinha da platéia para dançar. E eu abobalhada. Ele tinha uns ares de professor universitário maluco. Talvez fossem as calças listradas. Ou o cabelo levemente grisalho. Só sei que ele saiu de sua mornidão e estava ensinando salsa para a mocinha de preto.

E eu com o meus botões:

- Ah, eu também quero!

Duck face & similares

Se tem uma coisa que eu acho engraçada é essa mania de algumas pessoas de fazerem caras e bocas para as fotos. Não sei o que é melhor: a cara de "sou terrivelmente sexy, ui!" ou "olha como eu sou sério e mau!". Seja como for, elas sempre me impressionam muito...

11 de set de 2010

Amores possíveis

Já fazia tempo, mas parecia que tinha sido ontem. 

Ou tinha sido ontem?

Quando ela apareceu ele mal acreditou, embora soubesse que ela viria. Era uma reunião de alguns poucos amigos. O aniversário de uma amiga em comum. Era óbvio que ela viria. Sim, ela viria e traria com ela, sem dúvida, um olhar fundo, a pele sem viço, as mãos inseguras, um arrependimento estampado no rosto pálido. Era isso o que ele queria.

Sorriu junto a porta, segurando uma garrafa de vinho. Radiante. Adorava vinho (precedido por massagem nos pés). Cabelos em coque. Um vestido preto (lembrava do vestido). Os joelhos redondinhos à mostra.

Estava radiante - como sempre. Bela - como sempre. Talvez até mais do que ele se lembrava. Perdera uns quilos. Cortara o cabelo. Aprendera a usar maquiagem. Salto alto. Não, não era só o corte de cabelo. Emprego novo. Novos ares. Era a mesma pessoa que ele tinha conhecido alguns anos atrás, mas tinha um quê de diferente. Ela estava muito bem. Estava pintado em seu rosto, ela nem precisava dizer nada.

(fingimento? não, ela não precisava: não era coisa dela)

A sua alegria o ofendia profundamente. Como poderia estar feliz? Como poderia continuar bonita? Como o mundo tinha continuado para ela? Bom, decisão mútua. Então por que tanta mágoa?

Ela conversava com uma amiga. Sorriu. Ele viu e se lembrou: aquela covinha era sinal de desconfiança (ela não comprava o discurso alheio com facilidade, principalmente quando embrulhado em pseudo-maturidade e sabedoria barata e frases de efeito encontradas em qualquer livro de auto-ajuda). 

Preferia não tê-la visto. Para que aquilo? E ela se aproximou dele - como se nada tivesse acontecido. Talvez ela devesse se comportar como ele: fechado, distante, frio (não, isso não lhe cai bem).

Talvez tivesse lhe dirigido a palavra, se ele não tivesse assumido aquela postura. Quem? Eu? Toda vez que estavam na mesmo grupo, ele fechava a cara, cruzava os braços, olhava para o chão, ficava muito sério - era como se ela não estivesse lá. Ele a ignorava. Sim, ela, aquele ser repulsivo e cruel. Mas se a ignorava, por que tanto incômodo? Era tudo uma via de mão dupla. Complexo como as coisas tinham passado a se revelar para ele.

E já não sabia quem tinha matado quem...

(mas desconfiou - embora nunca viesse a aceitar).

Depois de uma noite desconcertante, ela se despediu com um tchau tímido e um aceno de mão. Ele, naturalmente, não respondeu. Fingiu que não tinha visto nem ouvido. Cego, surdo, mudo.

(mas a viu feliz e ouvi seu riso)

E viu mais... Viu que era doloroso demais ver que ela tinha sobrevivido e que estava melhor sem ele.

Ouvindo Acontecimentos (Marina Lima)

blá blá mudanças blá blá

Ele me disse:

- Nossa! Você mudou muito desde a última vez que nos vimos...

E eu pensei comigo: é verdade. E, depois que constatei que foram mudanças necessárias e positivas, pensei feliz.

Ah! Me apaixonei por I Melt with you: meu lado anos 80 tem andado em alta.

"I'll stop the world and melt with you"

10 de set de 2010

Mulheres perfeitas

Ele lamenta o fato de ser casado e completa:

- Eu adoraria namorar com você: é a mulher perfeita!

Ela sorri, lembrando dos elogios dele, mas dentro de si jaz uma das certezas mais vorazes no momento: num piscar de olhos, a tal mulher perfeita pode se metamorfosear em terrível megera. E onde está tudo isso? Naquela que [supostamente] se metamorfoseia ou em que a transforma da água para o vinho? Qual a linha que separa uma pessoa do julgamento que os demais têm dela?

Por que ser perfeita se eu (só) posso ser humana? Por que não ser simplesmente humana?

Ouvindo Valsinha (Chico Buarque)

9 de set de 2010

Círculos e Espirais

Não nos vemos pessoalmente há quanto tempo? Uns seis ou sete anos. Conto a ele algumas coisas por telefone. Vou longe nas minhas pseudo-reflexões sentimentais. E ele nas dele. Lembramos dos velhos tempos. A certa altura, ele me pergunta:

- Por curiosidade: o que um homem tem que ter para você?

Respondo-lhe sem pestanejar.

Ele comenta que só precisa se aperfeiçoar nas duas primeiras coisas que citei.

Várias coisas eu já quis, não quero mais - o que me parece bom, pois desejar a mesma coisa a vida inteira pode ser sinal de que há alguma coisa errada. Se a gente muda, algumas prioridades mudam automaticamente com a gente, não?

Entretanto...

Conversando com  Diva Ruiva e relendo antigos textos meus, me assustei (muitíssimo)  em perceber como certas coisas se mantêm atuais e são recorrentes, apesar das tais mudanças mencionadas. Seriam essas coisas recorrentes cíclicas ou espiralares? Ou os tais temas ditos "universais" da humanidade? 

Jane Austen pode ser um exemplo interessante de atualidade, guardadas as devidas proporções, naturalmente.
 
(Eu desconfio das coisas "universais"...)

8 de set de 2010

Kiss

Conselho de comédia romântica despretenciosa que surpreendeu - o filme, não o conselho:
"Always kiss like it’s the first time and the last time"
O que me remete inevitavelmente à As times goes by e a Frank Sinatra. E o que me faz pensar que eu deveria visitar a Irlanda.

7 de set de 2010

Educação Sentimental (parte III)

Under my skin

Num coque, ela prende os cabelos, quase secos:

- Eu menti pra você...

- Sobre?

- Lembra que eu disse certa vez que se descobrisse o segredo da vida dividiria com você? (Tão brega isso...)

- Lembro - resposta imediata dele.

- Pois hoje eu sei que não há segredo na vida. Não há segredo para se viver. As coisas estão simplesmente aí! - ela gesticula enfática.

- Onde que eu ainda não vi? - ele sorri amargo.

- É óbvio que seu casamento está perdido. Só você não quer ver isso.

Silêncio ensurdecedor.

- Desculpe, sei que você não veio aqui para ouvir isso. Sei que você veio aqui para ser consolado. Mas 'tá aí uma coisa que eu não posso te oferecer mais: consolo. Vai ter que arranjar outra amiguinha.

- Você está me pintando de vilão, é isso? - ele disse depois de uma longa pausa.

- Não, meu querido - ela se aproxima dele - Estou sendo realista. E espero que a sua imagem dita de "vilão" seja sua última preocupação.

Clara senta-se ao lado de Louis e o encara por algum tempo. Ele é todo cera - derrete e empalidece cada vez mais. Ela passa-lhe a mão a mão pela barba mal feita. Arrepio.

- Não é engraçado que depois de todos esses anos você venha a minha porta, me pedir conselhos? - ela respira fundo - Sinto muito pelo que eu disse agora há pouco, mas é verdade. Todo mundo da nossa roda de amigos estava comentando: vocês não tinham muito futuro.

- Hum. E o que você acha?

Clara volta a sua poltrona. Um gole de Fanta.

- A vida é sua. Você deve saber bem o que está fazendo. Bom, pelo menos eu sei o que estou fazendo com a minha...

- Sim, eu sei o que estou fazendo com a minha vida. Mas já não sei o que estou fazendo aqui, Clara. Ao longo desses anos... Desde quando a gente se conheceu... Nos encontramos, desencontramos e reencontramos tantas vezes!

- E ficamos sempre no quase -  ela sorri, estranhamente bela - Isso não te corrói por dentro? Talvez não, mas já me incomodou muito, sabe? Porque parece que todos os caminhos me levam a você. E... E ainda assim, nunca aconteceu nada. Eu não queria uma garantia. Eu queria uma chance. Ah! Estou sendo dramática...

A palavra nada ficou reverberando dentro de Louis. Queria, verbo no pretérito. Estaria ela jogando? Ele não sabia o que estava sentindo. Olhava para ela e a sentia cada vez mais a sua concretude, a sua lucidez, a sua realidade tão ofensiva.

- Eu não delego meu poder para mais ninguém. Sou uma criatura selvagem: sem cabrestos, sem esposa obediente esperando com o jantar em casa.

- Holly Golightly.

- Não, esse é você: sempre se acovardando, sempre com medo de que as coisas realmente aconteçam...

- Mas eu deixo as coisas acontecerem. Você é a controladora.

- Não mais. E você deixa as coisas acontecerem sim, deixa as oportunidades passarem. Vai me dizer que não se arrepende de ter perdido aquela oportunidade sensacional de emprego?

- Você sabe que sim... - ele diz a contragosto.

- E ela: é uma questão de amor ou orgulho?

- E isso importa?

- Não deveria?

- Faz diferença pra você?

- Deveria? Você acha o quê? Que eu planejei isso tudo? Que quero seduzir você, é isso? Foi você quem veio me procurar, lembra?

- Eu sei, mas as coisas tinham que ser tão complicadas. Eu sei que você não planejou nada disso...

- Eu não me importo com o que você pensa de mim - mente ela e ele sabia.

- Talvez eu esteja aqui por saudade sua... Você sabe... Eu sempre gostei dos teus pés... Teus cabelos... Tuas pintas espalhadas pelas costas - a hesitação de um colegial.

- Muitos outros já gostaram também.

- Às vezes você é insuportável! Bela, áspera e intratável.

- Só estou reagindo a estímulos externos. Como você reagiria?

- Não sei - ele suspira - Só sei que esse drama me cansa, Clara.

- Mas foi você quem veio atrás de mim.

- E já estou me arrependendo. Chego aqui para debafar e você me esperando com três pedras na mão?

Os olhos de Clara estão fixos e implacáveis. Mas seus lábios parecem desarmar-se e num tom brando:

- Eu não queria que nossas histórias estivessem tão misturadas. Emaranhadas. Maldito novelo de lã. Eu não queria que você estivesse sofrendo como sei que está. Sua confusão e seu cansaço. Está tudo aí, na sua cara. E eu queria poder fazer algo por você.

- Mas você pode. Sempre pode e sempre faz. Eu só queria te ver. Claro, queria falar com você sobre a separação, mas... Não sei se é por isso que estou aqui.

- Entendo - diz ela sem entender de fato.

- Eu gostaria que a vida fosse mais fácil.

- Mas ela é - Clara sorri - É a gente que complica...

(continua)

Comércio

O que será pior: vender sonhos ou roubar emoções?

Diário: It's rainy just outside

Tem dias que você simplesmente desliga - ainda que tenha vários afazeres domésticos. Tirei um tempo pra sair. Não há nada melhor do que sair de jeans, all star, blusão e ainda se achar linda. Linda não era exatamente a palavra, mas me dei ao direito de sair como tive vontade. 

Chorei no trailer antes do filme, mas não chorei no filme que fui ver. Normalmente choro em ambos: trailers e filmes. Comprei três potes do meu sorvete preferido. Pura sorte, já que eu nunca acho esse sabor para vender. Uma tristeza.

O que me fez lembrar de uma coisa que ele me disse há alguns anos: "você gosta de coisas com sabores suaves". Analisando atentamente o sabor de sorvete que mais gosto (e lembrando que ele falava das minhas preferências referentes a suco e pizza) percebi que ele tinha e tem razão. Talvez eu precise estender essa suavidade e leveza aos demais campos da minha vida. E tenho acertado nesse quesito.

Ontem eu constatei verbalmente que 2010 não é nada do que eu tinha planejado em 2009: não estou no emprego que planejei nem com a pessoa que imaginei. Mas, estranhemente, logo eu (que não gosto de surpresas), estou gostando desse sabor desconhecido dos meus dias.

O desconhecido é algo fascinante.

Ontem eu percebi que é importante planejar o imprescindível. Sim, isso é fato. Mas só. Há coisas que tem que ser saboreadas na correnteza que nos leva. Deixar a imaginação mais solta. Sem, é claro, mas sem encher os balões de expectativa, que podem nos levar para lugares altos demais ou para aqueles em que muitas vezes não queremos estar se/quando os balões explodem.

6 de set de 2010

Felizes para sempre

Conversava com uma das minhas melhores amigas sobre o Para Sempre - e como isso mata todos nqueles que esperam por isso num relacionamento.

Okay. Isso é injusto. Ninguém tem obrigação de amar para sempre ou algo similar. E pode chegar a ser cruel essa semente que plantam em nós e a cobrança que podemos ter com que nos acompanha. Não pode ser maravilhoso do mesmo jeito, enquanto durar? Tenho amigos que já não acreditam em muita coisa por conta disso.

Mas aí eu vi o outro lado: como começariamos um relacionamento sem imaginar que ele vai durar? Ou ainda pior: que um dia vai acabar? Blá blá blá. Expiration date.

Seja como for, por ora, eu me contento em trocar impressões certas sobre as coisas que tenho vivido. Pensar menos e viver mais - conselho de Sherlock Holmes.

5 de set de 2010

Clara e a despretensão

Ela sorriu:

- Não, não vou escrever sobre isso.

Chegou em casa. Prendeu os cabelos e tomou um banho. Pensava muitas coisas - numa tranquilidade impassível. Para encerrar o dia, pegou um pequeno copo de licor e brindou sozinha à despretensão de certas coisas.

"I told you I would stay"

Adoro "Two weeks" do Grizzly Bear. Mas adoro mais ainda essa versão que fizeram do clipe:

1 de set de 2010

O som do "sim"

Não importa o que aconteça: eu continuo pensando do mesmo jeito. Se você quer uma coisa, corra atrás. O máximo que pode acontecer é receber um "não". E os "nãos" fazem parte da vida, ajudam a burilar nosso espírito, ajudam a contruir caráter.

Seha como for, e o som do "sim"? Como posso um dia ouvi-lo se não me arrisco? E não há nada como o som do "sim"...

(eu prefiro a certeza do "não" do que a dúvida do "sim").