28 de set de 2010

Educação Sentimental (parte IV)

Ouviu-se um barulho cessar.

- É a máquina de lavar.Tenho que estender roupa, quer vir comigo?

Era um daqueles convites exóticos de Clara. Seguiram até a lavanderia, pelo corredor, mas antes que chegassem lá, passaram  pelo quarto. Rapidamente, ele pode notar: a cama desfeita, os lençóis emaranhados, roupas espalhadas pelo chão. Será que alguém tinha estado lá? 

- Nem repare a bagunça, andei numa correria esses dias.

- Ah! Claro, sem problemas - e depois de uma pausa - E o que você vai fazer hoje?

 - Vou ver o Rubens. Temos que ensaiar algumas músicas ainda.

- Rubens... Se eu fosse seu namorado, teria ciúmes.

- Mas não é Louis - ela sorriu.

Ele não entendia de onde vinha aquela ternura morna com a qual ela o encarava tão segura de si. Em que momento ela tinha mudado e ele não tinha percebido? Entraram na lavanderia.

- O Thiago não entendia nada, não respeitava meu trabalho.

- Bom, eu entendo o lado dele. Você se expõe muito.

- No palco? Ah! É só a minha voz, não a minha nudez. E se fosse a minha nudez? Se eu fosse aquelas atrizes de teatro que precisam do desprendimento próprio da profissão é uma coisa, mas eu só canto, não faço mais nada. 

- Mesmo assim. Todos os olhos estão em você.

Pausa.

- Talvez nós dois juntos tivesse dado certo.

- É, talvez - disse ele um pouco espantado - Você já pensou nisso, é?

Ele se arrependeu da pergunta.

- Não, estou pensando agora. Mas devo estar pensando errado: nem chegamos a nos beijar.

Ela não se arrependeu da resposta.

- Hunf - resmungou ele irritado.

- Ah! Não fique assim: foi uma escolha mútua, não? 

Não, não tinha sido.Tinha sido escolha dele, escolha da qual ele começava a se arrepender. Amigos, bons amigos.

- Você está diferente...

- Desculpa.

Naquele pedido havia uma mistura de sinceridade e zombaria.

- Não é questão de desculpa, Clara. As pessoas mudam, não? Só não sei quando você mudou que eu não vi.

- Você estava se casando - ela riu.

 Clara tirou as roupas da máquina, foi colocando-as numa bacia.

- Eu não sei como lidar com você - ele explicou, encostado junto à porta.

- E desde quando você precisa lidar comigo? - ela sorriu, abafando sua agressividade -Você é livre para ir quando quiser, Louis. Não há nada que nos prenda, você sabe?

- Odeio o seu drama de novela.

- Eu não estou sendo dramática, estou sendo prática. Eu cansei de mim mesma, sabe? E cansei dessa situação nossa, que se arrasta por anos - disse ela sem olhá-lo, enquanto pendurava um par de meias.

Parou e olhou para ele. O homem feito e seguro não passava, ao menos agora, de um menino esquivo e ressentido. E, ainda que esquivo, estava à porta da sua lavanderia, discutindo a vida de ambos como se estivessem juntos. Ela se aproximou dele:

- Imagino que esteja cansado também - tocou-lhe o rosto de leve, barba mal-feita.

Ele não disse nada. Clara passou as mãos pelo rosto dele - olhos fechados.

- Não há mais nada que eu possa fazer, Louis.

- Mas eu não quero que você faça nada - tomou-lhe e beijou-lhe uma das mãos.

Ficaram se olhando por um longo instante. Pela primeira vez naquela conversa, ambos estavam completamente desarmados. Olhos nos olhos.

- Eu não sei o que sinto por você, nunca soube explicar - ele se desculpava.

- Mas algum dia eu te cobrei alguma coisa? - ela mexe nos cabelos dele - Eu só estava lá, só isso. Achei que bastasse.

- Mas bastou, é só que... - ele não conseguiu terminar, não sabia o que dizer.

Eles permanceram presos naquele momento. Era o mais próximo que já tinham chegado. Ali, abraçados sobre um céu de meias suspensas. Mas ele hesitava, ela sentia e sabia. Desvencilhou-se dele com delicadeza:

- Tenho que terminar isso aqui, depois vou pôr tudo em ordem, tomar um banho e ver o Rubens.

Suspiro. A mornidão do corpo de Clara ainda permanecia junto ao corpo de Louis. Assim como o cheiro de sabonete.

- Claro, claro. Eu já estava de saída - ele disse desconcertado.

- Espero que você consiga resolver a situação com sua esposa - disse ela mecanicamente.

- Sim, é claro - ele respondeu também mecanicamente.

Seguiram de volta à sala e ela acompanhou Louis até o saguão do prédio. No elevador só o silêncio, ela já não o preenchia com sua verborragia. 

Louis sentia seu corpo pesar e dissolver-se no piso de mármore, enquanto via Clara se afastar cada vez mais. Não olhou para trás. Tinha sido assim desde sempre.

3 comentários:

Stephanie Marques disse...

Em uma palavra? Foda.

Achei que eles fossem se beijar. .-.

Leandro Amado disse...

Legal, Lari. Gostei da relação do momento com as roupas sendo tiradas da lavadoura. Gostei dessa seriezinha, é a última parte?

Frau Forster disse...

Sté:
É, eu também achei que eles fossem se beijar...

Leandro:
É a última parte sim. "Educação Sentimental" foi um encontro entre Clara e Louis dividido em quatro partes, mas é possível que eles voltem a se encontrar.