14 de set de 2010

Diário: Nós, os catarrentos

Sou conhecida pelo meu sangue de barata: se me ofenderem eu não reajo. É mesmo uma raridade eu reagir a uma ofensa. Bom, isso se a ofensa for dirigida à mim, porque hoje, pela primeira vez, me deparei com uma situação na qual a ofensa foi feita a quem não tinha como se defender.

Levamos as crianças ao cinema. Tranquilos e alegres. Não apresentaram qualquer problema ou incômodo aos demais - ou talvez o simples fato de existirem e estarem lá fosse um problema. Voltávamos ao ponto de encontro e descíamos a escada rolante. Eu era a última do grupo e ouvi o rapaz atrás de mim falar em alto e bom som:

- Deveriam fechar aqui só para esses catarrentos! - comentou com um amigo.

As cinco meninas na minha frente olharam para trás, assustadas. Eu não teria falado nada de aquilo tivesse sido dirigido a mim, mas não tinha sido. Eis o breve diálogo que ocorreu entre nós:

- Você está com algum problema? - disse eu, muito séria.

- Por quê? Você é uma catarrenta? - ele perguntou com pouco caso.

- Não, sou a responsável pelos catarrentos.

- Olha, eu nem estava pensando nesses aí. Pensei nos mais novinhos, acho que esses aí já não são mais catarrentos, já devem ter saído dessa idade. Mas eu devo estar enganado, é eles ainda estão em idade de catarretos.
 
Ele me olhava tão cínico que eu tive vontade de esbofeteá-lo com a minha bolsa - vale comentar que ela estava pesando mais de 5 Kg. Claro, quando a gente não consegue com a conversa, a tendência é partir para a violência, não? E eu não ia conseguir nada com conversa. Ei! É claro que eu não ia esbofeteá-lo! Que exemplo daria? E que exemplo o rapaz de vinte e poucos anos, vendedorZINHO de loja de departamento, (vestia uma camiseta da loja) estava dando? Virei de costas para ele, meu sangue fervia.
Eu vesti a camisa dos catarrentos quando ele vestiu a dos imbecis. E visto a camisa dos catarrentos de novo, sempre que preciso.

Eu não sei se o problema do rapaz era com crianças em geral ou com crianças de escola pública ou com crianças de periferia. Pensando bem, acho que o problema dele é com as pessoas mesmo, com gente.

3 comentários:

Cayo Candido disse...

Sempre tem um idiota e infelizmente, eles são maioria...

Vinícius Cássio disse...

Que situação chata! =/

Fez bem em lembrar-se de ser exemplo, Lari! Não é a primeira vez que você menciona isso (lembro de um texto em que você falou sobre não atravessar fora da faixa...)

Só acho que, neste seu texto, só não gosto do "vendedorzinho de loja de departamento". Ficou um pouco "gratuito" na sua argumentação - coisa rara por aqui! ;)

Bjo!

Anônimo disse...

Silêncio costuma ser eficaz, já que a pessoa pode se arrepender do que disse depois, mas a possibilidade de isso não acontecer também é grande. Eu sou bélica por natureza e, nesse caso, pra mim, é "olho por olho, dente por dente". Eu simplesmente o teria humilhado. Não por ser um "vendedorzinho de loja de departamento" - eu entendi o que você quis dizer com isso - mas usaria tudo o que estivesse ao meu alcance para fazê-lo se sentir um...catarrento loser, mesmo que não fosse verdade. Ofensa gratuita, como a quele ele fez, deveria ser crime previsto em Codigo Penal.

S.O'H (esqueci minha senha, rs)