7 de set de 2010

Educação Sentimental (parte III)

Under my skin

Num coque, ela prende os cabelos, quase secos:

- Eu menti pra você...

- Sobre?

- Lembra que eu disse certa vez que se descobrisse o segredo da vida dividiria com você? (Tão brega isso...)

- Lembro - resposta imediata dele.

- Pois hoje eu sei que não há segredo na vida. Não há segredo para se viver. As coisas estão simplesmente aí! - ela gesticula enfática.

- Onde que eu ainda não vi? - ele sorri amargo.

- É óbvio que seu casamento está perdido. Só você não quer ver isso.

Silêncio ensurdecedor.

- Desculpe, sei que você não veio aqui para ouvir isso. Sei que você veio aqui para ser consolado. Mas 'tá aí uma coisa que eu não posso te oferecer mais: consolo. Vai ter que arranjar outra amiguinha.

- Você está me pintando de vilão, é isso? - ele disse depois de uma longa pausa.

- Não, meu querido - ela se aproxima dele - Estou sendo realista. E espero que a sua imagem dita de "vilão" seja sua última preocupação.

Clara senta-se ao lado de Louis e o encara por algum tempo. Ele é todo cera - derrete e empalidece cada vez mais. Ela passa-lhe a mão a mão pela barba mal feita. Arrepio.

- Não é engraçado que depois de todos esses anos você venha a minha porta, me pedir conselhos? - ela respira fundo - Sinto muito pelo que eu disse agora há pouco, mas é verdade. Todo mundo da nossa roda de amigos estava comentando: vocês não tinham muito futuro.

- Hum. E o que você acha?

Clara volta a sua poltrona. Um gole de Fanta.

- A vida é sua. Você deve saber bem o que está fazendo. Bom, pelo menos eu sei o que estou fazendo com a minha...

- Sim, eu sei o que estou fazendo com a minha vida. Mas já não sei o que estou fazendo aqui, Clara. Ao longo desses anos... Desde quando a gente se conheceu... Nos encontramos, desencontramos e reencontramos tantas vezes!

- E ficamos sempre no quase -  ela sorri, estranhamente bela - Isso não te corrói por dentro? Talvez não, mas já me incomodou muito, sabe? Porque parece que todos os caminhos me levam a você. E... E ainda assim, nunca aconteceu nada. Eu não queria uma garantia. Eu queria uma chance. Ah! Estou sendo dramática...

A palavra nada ficou reverberando dentro de Louis. Queria, verbo no pretérito. Estaria ela jogando? Ele não sabia o que estava sentindo. Olhava para ela e a sentia cada vez mais a sua concretude, a sua lucidez, a sua realidade tão ofensiva.

- Eu não delego meu poder para mais ninguém. Sou uma criatura selvagem: sem cabrestos, sem esposa obediente esperando com o jantar em casa.

- Holly Golightly.

- Não, esse é você: sempre se acovardando, sempre com medo de que as coisas realmente aconteçam...

- Mas eu deixo as coisas acontecerem. Você é a controladora.

- Não mais. E você deixa as coisas acontecerem sim, deixa as oportunidades passarem. Vai me dizer que não se arrepende de ter perdido aquela oportunidade sensacional de emprego?

- Você sabe que sim... - ele diz a contragosto.

- E ela: é uma questão de amor ou orgulho?

- E isso importa?

- Não deveria?

- Faz diferença pra você?

- Deveria? Você acha o quê? Que eu planejei isso tudo? Que quero seduzir você, é isso? Foi você quem veio me procurar, lembra?

- Eu sei, mas as coisas tinham que ser tão complicadas. Eu sei que você não planejou nada disso...

- Eu não me importo com o que você pensa de mim - mente ela e ele sabia.

- Talvez eu esteja aqui por saudade sua... Você sabe... Eu sempre gostei dos teus pés... Teus cabelos... Tuas pintas espalhadas pelas costas - a hesitação de um colegial.

- Muitos outros já gostaram também.

- Às vezes você é insuportável! Bela, áspera e intratável.

- Só estou reagindo a estímulos externos. Como você reagiria?

- Não sei - ele suspira - Só sei que esse drama me cansa, Clara.

- Mas foi você quem veio atrás de mim.

- E já estou me arrependendo. Chego aqui para debafar e você me esperando com três pedras na mão?

Os olhos de Clara estão fixos e implacáveis. Mas seus lábios parecem desarmar-se e num tom brando:

- Eu não queria que nossas histórias estivessem tão misturadas. Emaranhadas. Maldito novelo de lã. Eu não queria que você estivesse sofrendo como sei que está. Sua confusão e seu cansaço. Está tudo aí, na sua cara. E eu queria poder fazer algo por você.

- Mas você pode. Sempre pode e sempre faz. Eu só queria te ver. Claro, queria falar com você sobre a separação, mas... Não sei se é por isso que estou aqui.

- Entendo - diz ela sem entender de fato.

- Eu gostaria que a vida fosse mais fácil.

- Mas ela é - Clara sorri - É a gente que complica...

(continua)

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