27 de fev de 2012

Ramona e Clementine: "Achou melhor não comentar, mas a menina tinha tinta no cabelo"

She's fickle, impulsive, spontaneous... God what am I going to do?
 [Scott Pilgrim, sobre Ramona Flowers]

* Contém Spoilers!
 
Scott Pilgrim ficou sem chão quando percebeu a real natureza de Ramona Flowers: inconstante, impulsiva e espontânea. Não haveria manual de instrução no mundo que pudesse explicá-la ou controlá-la (como não há para ninguém, na verdade, mas as pessoas não percebem isso).

- Deus, o que vou fazer? - ele se pergunta.

Nem etérea, nem efêmera. Bem concreta, mas não exatamente tangível. E Scott só se deu conta disso depois de perceber com que facilidade a garota de seus sonhos tinha mudado a cor do cabelo. E ela o faz com um desprendimento que o assusta, pois é esse mesmo desprendimento que ela poderia usar (e não só poderia usar, como usa) com outras coisas. Pessoas e ele mesmo.

Eu já escrevi aqui sobre mudanças capilares. Podem não significar nada. Mas podem ser tudo. Para mim, são sempre alguma coisa: concreta, mas não tangível. Pode ser um rito de passagem ou uma mudança mínima que seja.
 
Me perguntaram por que eu tinha mudado a cor do meu cabelo e por que tinha escolhido a cor que escolhi:

- Porque me deu vontade uai! - abri um largo sorriso.

Deu vontade de mudar, só isso. Mas o que me assusta é que a tintura parece não ter mudado só a cor do cabelo, mas também as ideias da minha cabeça: me vi com uns pensamentos totalmente novos, umas vontades diferentes, umas ambições inesperadas. Quero - e só.

Sementes latentes que germinaram por causa de quê? 

Na linha de Ramona Flowers, há minha querida Clementine: igualmente inconstante, impulsiva e espontânea. Deu vontade, ela vai lá e faz. E assim pinta o cabelo várias vezes. Simplesmente porque deu vontade. Não estou dizendo que pode se fazer o que quiser na hora que quiser [é óbvio]: existem milhares de regras sociais e, acima de tudo, bom senso. Mas creio que a gente se poda muito, mesmo quando não precisaria.

Sempre celebrei a constância e as coisas todas certinhas, mas sabe que estou vendo um certo charme no oposto? Mesmo porque, acho que todo mundo acaba por obedecer uma coerência interna, ainda que tal fato não fique muito evidente.

Nem tudo a gente precisa explicar - nem para gente, nem para os outros. Nem tudo precisa de planejamento: o "deu vontade" pode fazer nossos dias mais coloridos - no meu caso, literalmente. É preciso se dar ao luxo de não querer ter todas as respostas. Bom, eu não tenho, nem vou ter, nem quero ter. Quero descobrir com a vida, com os novos livros, ideias, pessoas, viagens, tons de vermelho, tatuagem, canções, amores. É isso.

Toda e qualquer coisa que marque a nossa experiência de vida como fato consumadíssimo e único. E isso não se planeja, se vive. A própria felicidade não é uma coisa que se planeja -  o que não quer dizer que a gente não possa fazê-la acontecer.

[pois é, acho que acordei passional...]

4 comentários:

Rafael disse...

Tangerine?

renatocinema disse...

Ouvindo......o dia todo: Meu Coração de Arnaldo Antunes.

A cor é o que menos importa para quem passa a máquina como eu. kkkk

Marcelo disse...

Depois de 2 anos sem fazer anotações em aula eu anotei, na semana passada, algumas coisas sobre criação de personagem. Entre elas está o fator Coerência. E é exatamente o que você alou: o personagem deve seguir uma coerência pessoal, mesmo que seja a inconstância.

Mateus SF disse...

Gostei