22 de ago de 2010

Educação Sentimental (parte II)

Do lado de dentro

Ela abriu a porta. Segurava um copo de Fanta na mão esquerda. Seu olhar de pão fresco recebeu-o com o afeto costumeiro. 

- Logo cedo? - ele pergunta, indicando o copo.

- Você fala como se fosse álcool - ela sorri.

Clara se aproxima e lhe dá um suave beijo no rosto.  Ela exala cheiro de sabonete, cheiro de banho. Seus cabelos estão levemente úmidos. Seus lábios também.

Louis entra, mas não sem hesitar antes. Conseguiria sair de lá depois de entrar? Mas a pergunta, na verdade, era outra: será que ele iria querer sair? Não conseguia parar de imaginar como teria sido a vida com ela. Sim, entre eles um breve quase. Um suave sopro. Um ensaio de romance.

Conhecia aquele sorriso. Encontros e desencontros. Entrou. Quadros coloridos. Muitas fotografias. Livros espalhados por toda a parte. Talvez houvesse ordem dentro daquele caos. E parecia haver ordem dentro de Clara, tão serena que estava apesar de tudo. Estranhamente, tudo parecia estar em seus devido lugar. Ele mesmo parecia estar em seu devido lugar, no apartamento de Clara.

- Já faz um bom tempo que não nos vemos... - ele se senta numa poltrona, perto da janela.

- É... Uns bons meses - ela brinca com uma gota que escorre do copo.

Ela lhe oferece um café, ele recusa. Louis está um pouco desconfortável. Parecia que tinha sido ontem... Ele ficou pensativo. Olhava pela janela, procurando os pardais no pessegueiro. Tudo para evitar que esbarresse consigo mesmo pelos corredores.

- Então - um gole de Fanta - você queria conversar? Está com problemas?

- É. Tem umas coisas acontecendo...

- E você quer conselhos meus, é isso? Você sabe bem a minha opinião sobre conselhos, não?

- Sei sim. Só queria alguém para conversar.

- E não tinha mais ninguém?

- Bom, ter até tinha. Mas eu gosto de falar com você. E queria te ver.

- Ah!

Ele conhecia aquele "ah!". Ela levantou os olhos do copo. Cruzou as pernas no sofá. Olhou para ele significativamente. Mas o que será que aquele sorriso significaria? Mal sabia ela os mistérios que poderia esconder. Mal sabia ele que não ela transparente como julgava.

- Bem, então sobre o que quer conversar?

Ele hesitou.
- Ela está ameaçando me deixar.

Clara sorriu.

- E você veio aqui para conversar comigo sobre a sua esposa? Entendo.

Ela suspirou.

- Na verdade, eu não entendo. Acho que você continua confuso como sempre... Não sabe o que quer.

Clara parou: sentiu que avançava num terreno alagadiço.

- Eu soube que você andou doente... - perguntou com cuidado.

- É verdade - ela olhou pela janela.

- Pensei em te visitar...

- Que bom que pensou.

Agora era ele quem avançava por um terreno alagadiço.

- Então, por que ela quer te deixar?

- Bom, nós temos brigado muito. Nós dois somos ciumentos e inseguros e ela diz que tenho sido muito ausente.

- Se faça presente então - ela disse com desdém surdo.

- Não adianta - ele suspira.

Clara olha para Louis. Por que as pessoas complicam tanto a vida? Por que amar simplesmente não basta?

- Acho tão engraçado... 

- O quê?

- Depois de todo esse tempo, do nosso quase romance, de tudo o que ficou no ar... Você chegar à minha porta para isso.

Louis não disse nada.

- Você tem razão, eu não deveria ter vindo - suspiro profundo.

- Eu não disse isso.

E os fios se emaranhavam novamente. Novos nós.

(continua)


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