27 de ago de 2010

Lili e o refrão de bolero

... diz adeus [2]

Algumas coisas pareciam querer se repetir, mas Lili era outra - por dentro e por fora. A estação de trem era a mesma, a mesma onde há quase um ano havia deixado o Pequeno Príncipe, Thor e o Homem de Lata. E agora, estava prestes a deixar mais uma pessoa para trás.

Muitos enganos. As coisas não eram mais exatamente como pareciam. E ela estava bem. Já tinha pensado muito e viu como fazia sofrer a si mesma e àquele que a acompanhava. Negócio desfeito. Encontraram-se, viram-se e disseram "adeus". Cada um para seu lado. Tudo com seriedade e eficiência.

Seu trem chegou na estação e ela não hesitou. Não mais. No alarms and no surprises. A sua certeza era uma coisa delicada, mas firme. Entrou no vagão e não olhou para trás.

... e o Brilho eterno de uma mente sem lembranças [2]

A despeito do fim, tinham tido bons momentos. E ela logo saberia de histórias várias. E simplesmente não entenderia. Não entenderia a necessidade homérica que ele tinha de esquecer, de apagá-la. Espuma do mar. Teria o tempo com ela sido tão terível, tão digno de ser esquecido? Não teriam tido coisas boas? Que desejo era aquele - maior do que o que ele um dia havia tido por ela?

Mas ela entenderia. Na verdade, ela suspeitaria que entederia. Mas antes de qualquer suspeita, seu coração já estaria sereno, certo de ter feito o que podia. E sabia que ele, do outro lado do mundo, estaria bem também e igualmente sereno.  E era isso que ela queria: que ele estivesse bem. E teria se esquecido dela, de tudo, como se nunca tivessem se conhecido. Uma borracha passada na história de ambos. Ele queria esquecê-la porque tinham sido felizes. Ele queria esquecer que tinha sido feliz.

Futuramente, é essa a explicação romântica que Lili vai encontrar. Ela ainda é um tanto romântica - tolinha - mas nada que algumas semanas não apaguem e mostrem a ela uma outra possibilidade mais paupável:
- Sou uma monstrenga!

Todavia, por ora, ela está sentada dentro de um vagão com muitas coisas passando por sua cabeça.  Sem nunca se esquecer de quem é ou do que já conseguiu. O estômago, roncando, a chama de volta à realidade.

Está indo de volta para casa.

(e são tantos os caminhos)