13 de ago de 2010

Enough

Ela estava sozinha na copa. No pote de cup noodles à sua frente deveria ter algum frango.  Era o que dizia a embalagem - "frango com molho de legumes". O garfo navegava pelo macarrão enquanto seu pensamento ia lá longe. Tão longe. Costumava jantar sozinha, o que lhe dava bastante tempo para pensar sobre questões existenciais da vida - ou simplesmente essencial como era a questão em questão.
Nem mesmo com a geladeira e com o microondas ela dividiu a sua tristeza. Preferiu guardar. E foi tudo vivido com menos alarde do que qualquer um ao seu redor poderia esperar. Nada tinha muito gosto e ela tinha nenhuma fome. Um vazio de eco eco eco. 

Enrolava o macarrão sem a intenção de comê-lo. Os fios da massa se confundiam como os fios da vida dela se confundiam com os de outras pessoas. E se formavam os nós. Mas e o que aconteceria se os nós arrebentassem? Só sabia que sentia-se como que mergulhada no pote do insosso cup noodles

Seria ela o cup noodles?! Recusava-se a acreditar naquilo. Pensou na lista mental que fizera e pouco depois tirou da bolsa a lista real, como as coisas que lhe haviam dito. (In)felizmente, não era possível concordar com tudo. Circuloutrês ou quatro itens - não chegou nem à metade. Tinha defeitos, muitos mesmo. Mas não eram aqueles. Triste era sentir como aquilo não tinha muita diferença. E como ela já não conseguia fazer a diferença. Era tudo uma questão de insuficiência existencial e coronária: sua mera existência e esforços de progresso não causavam grande impacto; seu coração não era o bastante. Queria ser mais, não se contentaria em ser o bastante, mas não estava se saindo bem nem com o segundo.

E para a sua (in)felicidade, ninguém morria disso. Não, pelo menos, alguém como ela.

(ela lembra das aulas de inglês: enough)

(secretamnete sorri ao lembrar-se da sábia frase: "você não é uma vítima" e aquilo a conforta ligeiramente)

- Okay, sem grandes dramas - ela começa a comer o seu macarrão.

Se por um lado, não cultivava a tristeza, por outro, não forçava a alegria - deixando-se solta ao vento vespertino. Mas era noite e esfriava. Não dava para ver nada da janela minúscula quase no teto. Queria escapulir sorrateira, tal qual faria um gato ao reconhecer-se derrotado. As pessoas liam nos seus olhos o que neles estava escrito. Quis não ser tão transparente. Mas, àquela altura, que diferença fariam aquelas bobagens que sentia?

Está frio.

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