1 de mai de 2012

Entrega

Ela pareceu surpresa quando abriu a porta:

- Oi. Tudo bem?

Mas mesmo assim sorriu e pediu que ele entrasse. Ele hesitou, mas aceitou depois de notar os chinelos vermelhos que ela usava. O embaraço dele, embora sutil, era genuíno.

- Quer beber alguma coisa? - ela perguntou com um sorriso.

Ele hesitou, mas aceitou um copo de chá gelado. Enquanto ela ia até a cozinha, ele observava o apartamento. Pilhas de livros. Caixas de discos. Montes de roupas - dobradas e separadas por cores. Para ele, era tudo uma verdadeira bagunça, mas ela conseguia se encontrar com facilidade: sabia tudo o que tinha e onde jazia cada coisa. Para cada coisa o seu lugar. Olhava o lugar como se fosse a primeira vez, mas era apenas mais uma de centenas - e ele temeu/temia que fosse a última.

- Aqui - ela entregou o copo.

Ele sorriu timidamente e aceitou o copo. Tudo parecia estar em seu lugar, menos ele. Ficou olhando para ela, pensando. E lembrando. A história dos dois. Ah sentiu-se cafona, tão cafona que doía. Mas veio tudo num turbilhão - inevitável. Os passeios de bicicleta. Os banhos de chuva. Os pastéis de feira. Os luais à dois. As filas de cinema.

Permaneceram em silêncio. Ela sorria. E esperava que ele achasse o que parecia estar procurando com o olhar por entre suas coisas espalhadas pela sala: coragem.

- Então... Você está precisando de alguma coisa? - começou ela.

- Eu... eu... Esqueci uma coisa ontem à noite - disse ele, coçando a cabeça.

- Sim, eu sei. Já vou buscar - disse ela, pulando da poltrona cor de uva.

As fotos. As festas. As folias. O pacto feito com catchup - ela tinha visto aquilo num filme. Ridículo. Bons amigos. A virada de ano à beira mar. E ela tinha admitido, entre um gole de champagne e outro:

- Sou romântica, fazer o quê?

Mas quem sucumbia agora era ele.

- Aqui está - ela voltou segurando algo em suas mãos - Achei que fosse voltar para buscar.

- Nunca o esqueceria - ele sorriu amarelo.

Ela deu ombros singelamente e entregou-lhe o pequeno embrulho com delicadeza:

- Guardei na gaveta com meus pijamas, para ficar aquecido. Enrolei-o num cachecol.

Era o cachecol que ele tinha lhe dado. Ele abriu o embrulho: lá estava seu coração. Vivo e pulsante.

- Obrigado - disse ele, hesistante - Esqueci ontem, sabe?

Ela desviou o olhar.

- Não foi ontem não: faz tempo que o esqueceu aqui em casa. E eu o deixei ficar. Bom, acho que é isso, certo? - ela suspirou, derrotada.

- É, é sim - ele estendeu-lhe o cachecol triste, titubeante.

- Não, fica com você.

- Está bem.

Ele a seguiu até a saída, hesitante. Olhou para o apartamento novamente. Esquecera que o seu lugar ficava entre o disco do Coltrane, o livro de Bandeira e três cupackes de café da manhã. Olhou para ela, como nã olhava há muito tempo:

- Melhor ficar com você - ele devolveu-lhe seu pequeno embrulho - O lugar dele é aqui.

Sorriu.
  

Um comentário:

renatocinema disse...

Pacto com Ketchup foi ótimo. Meu filme fala sobre isso. kkk.

Preciso te arrumar uma cópia.