10 de mai de 2012

Sobre vingança e coisas cafonas

E ele era um turbilhão - incandescente e intenso. Perdia noites de sono, tentando entender onde tudo tinha se perdido - como se sempre houvesse explicação para as coisas da vida. Já tinha quebrado tudo e colocado fogo em tudo - como se todo aquele ritual pudesse exorcizá-lo de tudo o que ela tinha significado.

Sua paixão sucumbira e tudo o que ele mais queria agora era vingança. Ela tinha enterrado o amor de ambos com tal alegria doentia que a morte para ela seria pouco: ela precisava ser humilhada publicamente, seu orgulho reduzido a cinzas, seu corpo apetitoso a farelos (que nem os pombos iriam querer), sua existência (quem dera vazia) reduzida à nada.

Pois numa dose de cólera, ele teve um visão, uma epifania. Ela nunca gostara de andar abraçada com ele, nem de beijá-lo em público, nem de demonstrar afeto. Era fria. Rainha das Neves. Não gostava de cartões, bombons, presentinhos, flores... Muito menos de flores. Rosas então? A morte.

Então foi assim que decidiu matá-la.

Compôs uma serenata, a serenata mais bela que alguém já fizera. Comprou bombons, flores e chamou um carro de som para acompanhá-lo certa noite ao apartamento dela.

Ele chegou, seu corpo cheio de... Ele não soube dizer. Endireitou o violão elétrico e começou a tocar. E tudo parecia girar ao seu redor. Agora era tudo ou nada. 

Ela saiu para a sacada, morava do primeiro andar. Seu rosto era de espanto, mas mãos imóveis. Continuava irritantemente bonita, mesmo pálida e petrificada. Ela ouviu quase até o final, pois antes do fim já estava no térreo, cobrindo-o de beijos, os beijos mais incandescentes e intensos que ele já vivera - pois todos sabem que beijos são vividos.

E então ele se viu misturado, como não tinha notado estar antes. E viu seu amor zumbi ressuscitar despedaçado do túmulo. Os crisântemos tinham virado rosas, como água virara vinho.

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