30 de jan de 2010

Clara conhece Ulisses

E eram sempre os homens errados. Clara teria pensado com um enorme descontentamento, mas como não sabia muito sobre Ulisses, ainda estava aérea. Tinham sido todos errados, não por causa dela, mas porque eles não quiseram ser os certos. Alguém havia lhe dito que o par perfeito é aquele que quer ser seu par perfeito.

Seus amigos torceriam o nariz e ela torceria-lhes o pescoço se viessem a criticá-la: ia fazer as coisas e viver à sua maneira. Cansou de conselhos ridículos e alianças frouxas. E foi neste momento que conheceu Ulisses. Nunca tinha se interessado por um homem mais velho, mas ele era especial. Sempre atencioso, simpático e amável. E maduro. Uma maturidade que parecia brilhar em seus cabelos prateados.

Clara sabia ser aquela mais uma de suas paixonites, já que era só isso que vingava em seu coração ultimamente. Entretanto, logo reparou na aliança. Mas pior do que isso foi ter feito amizade, sem querer, com  a filha de Ulisses, uma moça da sua idade. Mas pior do que isso foi ter ouvido o próprio Ulisses:

- Clarinha, às vezes você lembra muito a minha filha, sabia?

De doce, o sorriso de Clara se fez uma careta azeda. Depois de ponderar um pouco, Clara riu da sua doçura e do seu azedume. Decidiu continuar amiga da filha de Ulisses e continuar convivendo com ele. As cabeçadas lhe traziam goles de bom senso. Mas não podia deixar de pensar em como Ulisses era o homem certo.no momento errado.

27 de jan de 2010

Sabores e saberes


Era a leveza partilhada. E as pequenas coisas da vida. As bobagens e as grandes coisas. As histórias que iam de tecendo delicadamente, como uma peça rara. E sua alma havia escolhido o mais leve vestido de verão. E tinha ido comprar sorvete.

- Napolitano ou Flocos?

Se eram as únicas possbilidades, como podiam trazer à sua boca os mais diversos sabores? Ela sorri, só imaginando.

Ouvindo You give me someting (James Morrison)

Zeca diz adeus

Zeca arrastou seu coração pesado até a estação de trem. Deixou que algumas composições passassem, pois não sabia se ia passar. O quê? Tudo. Apesar de não ter garoa, era como se ela estivesse lá para umedecer seu coração, que, sustentando aquele sentimento abafado, acabaria mofado - pelúcia esverdeada.

E em tom de mofa ele tinha saído. Seu sarcasmo e seu pior lado tinham sido despejados sobre ela - um balde de água fria. Aonde ela foi? Será que volta? Será que eu volto? Mais um trem passa apitando que uma moça entre logo logo logo. Ela tinha medo de relógios. Temia ser aprisionada por um deles, por isso não sabia que ficava ou se partia. O medo de se deixar levar pelo tempo cronometrado. Mas o trem tinha que seguir! Um pé para dentro, outro para fora.

Zeca pensava entendê-la.

E veio a garoa. Claro, ela sempre vem para encardir a nossa alma insípida. Zeca tinha medo das nuvens que se aproximavam porque elas tinham a certeza que lhe faltava. E seus olhos vertiam reticências que escorriam pelo seu rosto e inundavam tudo o que havia por perto.

Tinha medo da decisão das nuvens, do fatalismo dos relógios. Tal era o seu fracasso que abraçava desesperadamente o tempo psicológico como se nada mais importasse. Era o seu tempo e de mais ninguém. Jamais poderia dividi-lo. E via em sua mente os ponteiros se derretendo - cera vermelha. Mas não havia vela acesa - tinha medo do fogo.

Mas o seu maior medo era outro. Borbulhava sanguineo e  intenso por trás de seu rosto macilento e morto. Máscara abortiva. De suas orelhas, cheias de dúvidas, emergiam pontos de interrogação:

Teria ele deixado para trás uma muleta emocional ou o grande amor de sua vida?

Ouvindo Goodnight goodnight (Maroon 5)

Of Elephants


Fonte: http://www.dweebist.com/2010/01/unrelated/elephant2/

26 de jan de 2010

Falha humana

Funciona assim: você faz sua escolha, tendo já nos explicado tudo previamente. Aí nos esquecemos do combinado e usamos de chantagem com você, tentando te intimidar com previsões sinistras sobre o seu futuro. E aí você cede mansamente como um carneirinho. Ou não.

25 de jan de 2010

"Seja você quem for..."

Os dois estão descendo uma rua, acompanhando o bloco do eu sozinho:
- Desculpe, acho que falei demais... - ele se lamenta.
- Não, não falou nada de mais - ela sorri.
- É, nem precisei disso aqui - ele mostra a máscara em suas mãos.

24 de jan de 2010

23 de jan de 2010

Maurício+Malu: A entrevista

Segunda-feira de manhã, Maurício já saindo do banho e Malu terminando de servir o café:
- O café 'tá pronto, se você demorar vai esfriar... - ela avisa.
- Já vou - ele grita do banheiro.

Malu prepara o café-da-manhã preferido dele: torradas com manteiga. Maurício chega apressado, já de terno e um olhar preocupado. Encara as torradas desanimado:
- Estou sem fome...
- Vai ter que comer, nem começa com história - diz ela duramente.
- Ai Lu, acho que nem vale a pena eu ir pra essa entrevista. Meu currículo nem é essas coisas, nem tenho muita experiência.
- E daí? Essa é a chance do seus sonhos. Faz semanas que você fala dessa vaga e da entrevista. Okay, você está começando, não tem muita experiência, mas suas referências são ótimas. E seu curriculo também é ótimo. Se não fosse, eles não teriam te chamado. Você não está pensando em desistir, né?
- Não sei Lu, não sei se todo esse desgaste vale a pena...
- Te conheço Maurício! Se você não for, vai passar o resto da vida pensando e se culpando "e se...". Eu não quero ser conivente com tudo isso. Agora bebe o seu café.
- Não gosto quando você fica autoritária. Ainda mais porque parece que você está decidindo por mim...
- Isso não é hora para crise e não estou decidindo por você. Estou tentando te apoiar, posso?
- Mas apoiar não teria a ver com você respeitar a minha decisão e ficar ao meu lado?

Malu olha para a sua xícara de café com leite. Depois de três goles de silêncio:
- Olha, eu acho melhor você tomar café sozinho, não está falando coisa com coisa.
- 'Cê tá fugindo da conversa isso sim.
- E você tá descontando a sua ansiedade em mim, Maurício. Você está perdendo o foco da conversa. Não sou eu, é você! Por que não assume que está em pânico? E acho que tem muito mais medo de conseguir do que de não conseguir...
- Tá maluca? É claro que eu quero o emprego! Como ia ter medo de conseguir?
- Porque você não sabe lidar com as mudanças e a nossa vida ia mudar.
- Malu, eu não tenho medo de mudar, nem de conseguir o que eu quero. É só que eu não sei se eu consigo, não sei se tudo isso vale a pena...
- Bom, sinto dizer, mas você só vai saber depois. E por que não arriscar? Se não der, não deu e você não perde nada. Já tem um bom emprego. Mas o problema é que ele não é o que você quer...
- Mas nem sempre a gente tem tudo o que quer.
- E se tiver a oportunidade e não agarrá-la com unhas e dentes é um pecado. O fato é que você tem potencial, capacidade. É um cara competente, responsável, dedicado. Não digo isso pelo que você respresenta para mim. Eu te conheço há muito tempo. Não estou falando sobre você como marido, mas como pessoa. 'Cê é um excelente profissional e sabe disso. Só que de tempos em tempos (ou sempre que é pressionado) entra em crise e acha que não é capaz de nada...
- Você está exagerando, Malu.
- Não, eu estou é me cansando. Você não tem mais 15 anos, acho que está na hora de assumir algumas coisas. E o seu papel de homem é uma delas.
- E qual o seu papel? De bancar a minha mãe?
- E não é horrível? Eu detesto isso, mas você parece não me deixar outra escolha quando começa com suas inseguranças...

Maurício pega a caneca de café e toma um gole.
- Está amargo.
- Não pus açúcar, deixei isso a seu cargo. Você sempre reclama que o café fica muito doce. Adoço do mesmo jeito que pra mim, porque gosto assim. Por isso é melhor você adoçar do seu jeito.
- Eu gosto do jeito que você adoça o café. Acho que me acostumei.
- Seja como for, não demore ou as torradas esfriam e torradas com manteiga não têm graça se estão frias.
- É, é verdade.

Uma estranheza tinha acabado de nascer entre ambos. Malu se levanta e leva sua xícara vazia. A cadeira vazia. A cozinha vazia. Silêncio. Ela costuma ligar o rádio logo cedo, mas desta vez não liga. Maurício engole as torradas sem prazer e bebe seu café sem açúcar.

Deixa a mesa  posta, leva a caneca para a pia. Arrasta-se até o banheiro, tão pesado, e escova os dentes. Tenta arrumar os cabelos rebeldes: impossível. São tão leves que se desarrumam por qualquer bobagem. Como podem ser tão leves se sua cabeça e seu coração estão pesados?

Maurício está vestindo os sapatos pretos e vê Malu junto à porta. Os cabelos bagunçados, o pijama de verão. Ela entra mansamente com uma gravata nas mãos:
- Vai ficar perfeita em você - diz ela colocando a gravata nele.
- O seu nó sempre fica melhor do que o meu.
- É porque eu vejo o que você não vê. Vejo as coisas por uma outra perspectiva.

Ela sorri e lhe dá um beijo suave. Ele sorri. Tudo está bem novamente.

Ouvindo "Black" (Pearl Jam)

Wish you were here


  
* Cortesia de R. Marckezini

Diário: Patos de prato


Na minha febre fotográfica, eu mostrava à ela todas as fotos que tirava. E me esquecia que ela precisava de óculos para ver as coisas direitinho. Até que ela pára na foto ao lado:
- Isso não foi tirado aqui em casa, né? - olha intrigada.
- Foi sim - respondo - estavam no varal.
Ela me olha sem entender.
- É um pano de prato.
- Ah sim! É verdade.

22 de jan de 2010

Pânico na dispensa

Graças a imponência do discurso de vida saudável, a lata de Carne de Soja aterrorizava todas as outras. Milho, Ervilha, Atum. Todos se acovardavam  e se escondiam atrás dos omissos sacos de farinha, dos ternos sacos de açúcar e do mimoso fubá.

Até que um dia, a vovó resolveu fazer um jantar saudável. Abriu a dispensa e todas as latas se esconderam, fato dispensável, já que ela enxergava absurdamente mal. Todas as latas se amontoram medrosas. Todas... ou quase todas. A lata de Carne de Soja permanceceu impassível. O seu orgulho vegetal parecia envolvê-la num manto de superoridade e proteção.

Depois do breve encontro, a lata de Carne de Soja nunca mais foi vista...

Aforismo Saudável


"Carne de soja é igual a tofu: precisa de algo mais além de si mesma"

Lili e o guia


Lili se levantou de madrugada. De um sonho pulou da cama. Sonho ou pesadelo? Ah! Depende oras... E aquela onda de relativismo que quebrava novamente na praia. Lili brava? Não, mas queria entender as coisas e o tempo. Para ela, tudo era muito claro e certo - uma certeza tão aguda que doía e parecia perfurar sua pele clara.

O seu sonho?

Tranquilamente, o homem alto e grisalho lhe disse:
- Você é nova aqui, então eu vou te guiar.

Em seguida, vendou-a delicadamente e pegou sua mão. Lili sempre muito obediente, seguia de olhos fechados, mesmo usando a venda escura. Todos os seus outros sentidos apuravam-se conforme a caminhada prosseguia. O homem transmitia-lhe confiança e tranquilidade e não obteve qualquer resistência por parte dela: Lili se deixava guiar cegamente.

Ele começou caminhando lentamente, segurando-a suavemente por um braço, às vezes  o ombro. Se estavam num corredor, acelerava o passo e mantinha-se mais próximo dela. Não tardou para que ele pegasse sua outra mão e a guiasse em direção a tudo que estava ao redor de ambos. Ela sentiu  a  maçaneta de bronze. A unha de gato que crescia rebelde. A balança e o escorregador molhado no parquinho.

Chegaram a um lance es escadas. O homem colocou a mão direita de Lili no corrimão para que ela subisse, pois não podia lhe dizer nada. Ela logo entendeu e deu um passo confiante. Subiu ainda muitos degraus, desceu outros tantos - sempre confiando em seu guia mudo. Cheiros e toques e o vento bagunçava seus cabelos. Lili riu. No silêncio mudo no qual havia mergulhado, Lili via cores que nunca tinha percebido antes. E seus olhos estavam vendados.

Quando acordou, ainda  tinha em suas mãos aquela sensação das nuvens que haviam passado por elas.

Ounvindo I thought I saw your face today (She & Him)

Tia

Pela terceira vez o mesmo diálogo:
A: - Você dá aula para que faixa etária? Maternal? Fundamental 1?
B: - Na verdade, fundamental dois ou ensino médio.
Bem que já me chamavam de "tia" em 2003 - eu devia saber...

21 de jan de 2010

Lili e o Sublime


Lili tinha aqueles olhos doces e castanhos: um misto de café e chocolate. Naquele momento,  fazia tempo que ninguém os namorava: estavam sozinhos - e serenos. Voavam por aí e absorviam toda a luz e toda escuridão que pudessem. Já tinham sido acusados de tantas coisas e chamados de tantos nomes, mas Lili não se importava, continuava cuidando deles.

Até que um dia, seus olhos encontraram um lugar para pousarem: os olhos dele. Sorriso, ombros, mãos. Podiam passar dias imersos e perdidos no mistério alheio. Porque se eu o seu olhar podia ser duro, também podia ser suave - e agora amorosamente afagava os olhos do rapaz à sua frente, tomando um café.

Era assim que passavam suas tardes de sábados. Por algum tempo - longo para quem usa relógios, breve para quem ama - foi assim. Mas os olhos dele, que antes se deixavam à toa, começaram a se mostrar rebeldes - fugiam dela. E então seus olhos não tinham mais permissão de pousar sobre os dele. As mãos agora fugiam. Os lábios sérios e frios. O café frio sobre a mesa. Lili, que sabia ler com destreza olhos e mãos, soube que era hora de seus olhos partirem.

Não queria de modo algum aprisionar o olhar dele para si, dentro de uma gaiola gasta. E pensou muitos dias e muitas noites sobre aquele que precisava partir mas a quem ela não queria deixar - partir. E o seu adeus foi um suave meneio de cabeça. Sua mão tocou o rosto dele e foi como se o encanto tivesse sido desfeito. Ela não era mais uma personagem de conto de fadas e resignou-se a isso, abraçando sua nova condição de reles mortal. E Lili saiu de sua vida do mesmo modo que chegou: suavemente.

Ouvindo True love waits (Radiohead)

20 de jan de 2010

Contradições

Depois de um discurso muito bem argumentado e um ponto de vista muito bem defendido, ela solta a seguinte frase:

"As pessoas não mudam, então temos que nos adaptar à elas".

Adaptação envolve mudança, logo, temos que mudar porque as pessoas não mudam. E isso faz de nós o quê?

19 de jan de 2010

Flores flores flores



"As flores de plástico não morrem"
Foto tirada por Frau Forster (em breve com um perfil no Flickr)

17 de jan de 2010

Ciganos

Ela mostra as fotos para o melhor amigo:
Ela: - Com essa máquina nova entrei nessa febre de tirar fotos de tudo.
Ele: - Estou há dois anos com a minha e ainda sofro dessa febre.
Ela: - Fotos de salada... - ela mostra o close de um pote com fatias de tomate - E essa somos eu e minha irmã, pouco antes da festa. Eu não fiquei com um jeitão de cigana? Cigana Esmeralda? - ela ri.
Ele: - Cigana Esmeralda eu não diria, mas pensei na Capitu. Olhos de cigana obliqua e dissimulada.
Ela: - Quem dera! Tenho esses olhos escuros... Ela tem olhos verdes.
Ele: - Quem disse isso? Não lembro de ter lido isso não.
Ela: - Ah!
Mais tarde ela confere que os olhos de Capitu eram claros mesmo. Que fazer com aqueles olhos escuros?

Diário: Dando as cartas

A espera pode ser recheada de expectativas: um balão de gás hélio que te leva para cima... e que estoura com uma facilidade incrível. Para algumas pessoas é muito fácil apostar todas as fichas num mesmo número. E se for um número de azar e não der nada? Paciência...

Mas mesmo na quebra de expecativas pode morar o inesperado. Hoje eu apostei minhas fichas num número. Curiosamente, não estava muito crente de que daria certo, embora todos me dissessem ser esse o número certo. Acho que nem sempre aquilo que parece tão "certo" para nós é realmente aquilo que é "certo" para nós.

Ok, jogo de azar. Perdi. A expectativa não era tão grande (acho que porque certas coisas em mim estão se modificando e certos acontecimentos recentes têm me desanimado deveras), logo sua quebra não gerou em mim qualquer decepção. Claro que um pouquinho mais de desânimo, mas sinceramente, who cares? Estou aprendendo à perder. E a deixar. Let it be.

O fato é que eu não era a única na mesa de apostas, jogando. Sim, notaram meu belo vestido azul marinho, meus brincos de pérola, meu riso fácil. Girl with a pearl earring. E apostaram num número. E, surpreendentemente, o meu número, o número 2. De um modo completamente inesperado, acabei ganhando também.

Ouvindo Repetition (Information Society)

Tomates Libertinos





A foto eu tirei de um site chamado Rainhas do Lar e tratei de circular a condição "nua" dos tais tomates, afinal, eu prezo pela moral e pelos bons costumes e aqui deixo registrado a minha revolta.

16 de jan de 2010

8 ou 80

Não sei o que é pior: não deixar que as pessoas se aproximem (por desconfiar sempre das intenções alheias) ou sempre baixar a guarda (para as pessoas erradas).

Depois de muita decepção, pode ficar difícil confiar de novo nos outros, de modo que o muro serve de proteção. Dá-se várias chances a várias pessoas e tudo o que se tem é uma coleção de mentiras e "ocultamentos da verdade". Falta de sinceriadade de palavras  - e, por que não, de sentimentos?  Falta de respeito e excesso de desamor quando se diz que "é amor". Falta de jogo limpo, de pratos limpos, de lavar a roupa suja mesmo... E quando, porventura, a roupa é torcida e pendurada no varal, o que resta é um caldo sujo e escuro e não se pode ver o fundo do tanque. É daí que vem a construção do muro.

Sendo assim, tal comportamento é altamente compreensível. 

Há pessoas que reagem de um modo diferente diante de uma decepção: elas arriscam. E arriscam com as pessoas erradas e quando digo "erradas", não são necessariamente pessoas mal-intencionadas ou ruins, mas sim pessoas que acabam fazendo mal a quem lhes dá uma chance. Quem se arrisca, se joga no rio porque acha que o conhece ou que vale a pena conhecê-lo, assumindo o risco, mas logo descobre que não sabe nada(r). Para sair é um sufoco - e sai despedaçado. Mas, otimista,que é, acha que dará mais sorte com o próximo rio. E na próxima se arrisca e, embora saiba da possibildiade de fracasso, se envolve e pula no rio novamente, porque para ela, sempre vale a pena.


Sendo assim, tal comportamento é altamente compreensível.

E do sofrimento não se escapa em nenhum dos casos...

Ouvindo "You do something to me" (Paul Weller)

Diário: Aceito!


Hoje fui a um casamento. A cerimônia em si não tem muito a ver comigo: nunca consegui me ver de noiva. Entretanto, curiosamente, sempre gostei de ir a esses eventos e partilhar da felicidade das pessoas envolvidas. E hoje não foi diferente.

Assim que chegamos, avistei uma das daminhas de honra, recebendo as instruções sobre como se comportar. Olha! Será que esse rapaz é o padre? Tão novo e bonitinho! Mal deve ter saído do seminário... Dois fotógrafos, discretos e vestidos de preto, fazem com que a igreja (verde na cor e no nome)  se cubra de recato, diante de tantas fotos. Um homem ia e vinha dos bastidores e testava o microfone e o som.

Gosto de ir à igrejas. Gosto de ver a arquitetua e os vitrais. Mas mais do que isso, o que é um cerimômia de casamento (ou deveria ser) afinal? É um casal que se reúne com um grupo de pessoas  para celebrar sua união,  buscando a aprovação divina. Além disso, é um rito de passagem também, com peso de toda uma tradição, naturalmente.

Meus companheiros de casamento me contaram histórias bizarras de cerimônias passadas, enquanto eu tentava tirar fotos da igreja - será que o padre desaprova? -, desistia do meu cabelo e observava as pessoas chegando. Até reconheci uma menina que tinha estudado no mesmo colégio que eu em 1900 e bolinha.


Acho que precisamos de uma série de ritos de passagens para que certas coisas fiquem mais definidas em nossas vidas. Às vezes, é importante ter muito bem definido o começo de um momento novo. E o seu fim também. Eu já sabia que essa cerimônia não era a minha praia, mas hoje me dei conta de que este é um rito de passagem do qual eu não preciso. Nunca aceitei isso de "Mas é o sonho de toda mulher!" ou "É o dia mais importante da vida de uma mulher". Eu não tenho medo de superlativos, mas não gosto da trindade "tudo, todo, toda": abrange muita gente, gente demais, inclusive eu .

Finalmente a noiva entra: bela e discreta em seu vestido delicado.  Naturalmente, é antecedida pelas três daminhas graciosas e pelo pajem (thanks Bunny man!) que roubou a cena, por conta do seu jeito todo comportado (e uma dancinha no final, quando achou que ninguém ia notar).

Eu tenho as coisas tão certas em mim, sobre o que penso e sinto, que a cerimônia não me diz  nada, particurlamente. Isso não me impede de reconhecer e respeitar o que ela significa. O fato é que é uma coisa muito pessoal, tão pessoal quanto decidir o que será feito do meu corpo quando eu morrer. Alguns preferem ser enterrados com seus pertences, outros, cremados e jogados ao vento e outros ainda, servirem para faculdades de medicina (estou certa de que deve haver outras coisas a serem feitas...)

Mais importante do que qualquer coisa, é não deixar que a cerimônia perca o significado e passe a valer por si só, e não pelo simboliza. Apoio quem queira celebrar o casamento e tudo mais. Mesmo porque, apesar de ser feliz como expectatora, serei muito feliz quando for madrinha - já que duas das minhas melhores amigas me chamaram para tal papel. Tal convite me deixa muito honrada, porque apesar de não partilhar do significado, partilho da felicidade de ambas. E o que se faz num casamento? Se divide felicidade e ser convidada a fazer parte disso, de um modo tão próximo e por duas pessoas que amo... Bem, é, no mínimo, irrecusável.

E vale, claro, ressaltar as frases legais do padre (muito simpático por sinal):
* "O casamento não é um drama, mas uma aventura viviva a dois" (durante o discurso pré-nupcial)
* "E agora você pode dar o primeiro beijo na noiva... depois de casados" (depois de declará-los marido e mulher)
* "Para mim isso não é beijo, é uma bicota. Pode dar um beijo de verdade!" (sobre o beijo dos dois)

Ouvindo Sea of Love (Cat Power)

Taste

"Bittersweet refers to a combination of the standard tastes of sweetness and bitterness, and is often used as a metaphor for experiences which have binary elements of happiness and sadness, or pleasure and pain".

Source: Wikipedia

Aforismo atemporal

Cuidado com palavras como "sempre" e "nunca": elas valem por tempo demais.

15 de jan de 2010

João e Paulo: Entre a cruz e a espada

João e Paulo estão sentados num banco do metrô Consolação, numa sexta-feira à noite:

João: - Tô saindo com uma menina, já te disse?
Paulo: - Não, não disse não. Quem é ela? Eu conheço?
J: - Não. A gente se conheceu numa festa.
P: - E como ela é? Bonita, né?
J: - Claro que sim! Miudinha, sabe? Cabelo curto e preto. Olhos verdes. Que boca, Paulo!
P: - Não sei que graça você vê em mulher assim. Mulher tem que ter carne meu amigo, carne! Suas musas hollywoodianas são todas essas meninas pequenas e frágeis. Cabelo curto e preto? Ah!
J: - E eu não disse que ela era frágil, só pequena. Fique com suas louras que eu fico com minhas morenas.
P: - Tá, bonita ela deve ser. Mas é legal ou é mais uma daquelas suas namoradas dignas de auto-flagelação?
J: - Ela é bem legal. É segura, inteligente, muito pé no chão, eu acho. Bem intimidante, na verdade. Muito direta. Eu acho que eu nunca teria falado com ela... Além disso, ela não é minha namorada.
P: - Então foi ela que falou com você?
J: - Foi.
P: - Tô até com medo de pensar na abordagem dela para se aproximar de você - ri.
J: - Na verdade, não foi nada de mais. Tínhamos um conhecido em comum que nos apresentou e tudo mais. Depois de um pouco de conversa, ela me disse que tinha insistido para que o cara nos apresentasse, porque me achou "uma graça". Ela disse que ele enrolou bastante, claro que porque ele sabia da minha idade, apesar de não ter dito nada à ela. Além disso, acho que o cara estava muito interessando nela.
P: - Credo! Muito sem graça... Mulher sem mistério não é nada. Não tem o que descobrir. Por isso que não gosto de mulher direta.
J: - Nunca gostei de enrolação, de joguinhos e truques. Gosto de honestidade. E ela sempre foi muito honesta comigo.

Longa pausa.

J: - Acho que estou gostando dela...
P: - Que droga, Jão! É o começo do fim. Cai fora antes que ela te ponha uma coleira - come um amendoim.
J: - Sei lá, ela é tranquila, não é desse tipo. Na verdade, o problema é meio que o contrário: ela me deixa muito solto.

Paulo ri.

P: - Era só o que me faltava! Acho que quem quer uma coleira é você! Melhor se ela não fica no seu pé, lembra da Vanessa?
J: - Nossa! Sua vida era um inferno, só faltou ela colocar um GPS em você! Mas a Melissa é diferente...
P: - Melissa? Mel. Nome de dondoca... Diferente como? Ai ai ai, já começou na idealizar a garota?
J: - Pô! 'Cê sabe que eu não sou disso, né? Ela é diferente das outras namoradas que eu tive. Mesmo porque, de onde você tirou que Melissa é nome de dondoca? Você nem sabe nada dela.
P:- Tô esperando a sua boa vontade homem! "Diferente das outras namoradas", tá indo bem o negócio pelo jeito... Mas diferente como? Eu não aceito esse tipo de coisa! Ninguém é igual a ningém,  você sabe disso, né?
J: - Meu! Você tá parecendo o meu pai!
P: - Sempre gostei do Seu Humberto.
J: - Por que ela é diferente? Bom para começar não tem nada de dondoca. Na verdade, ela trabalha.
P: - Eu também trabalho ué?
J: - Paquerar as coroas na oficina do seu tio não é trabalho, Paulo.
P: - E o que você quer que eu faça com 16 anos? Vire um magnata do petróleo?
J: - Bom, você podia fazer mais e sabe disso. Mas voltando a Melissa... Ela trabalha num escritório...
P: - Isso eu também poderia fazer, não vejo nada de especial.
J: - Um escritório de advocacia.
P: - E?
J: - Ela é advogada, Paulo.

Breve pausa.

P: - Por acaso você já me disse a idade dela?

João olha os amendoins sobre a mesa.

P: - Mandou bem Jão! Pegando mulher mais velha! Quantos anos ela tem?
J: - Ai nada a ver! Não tem essa de pegar, gosto dela mesmo.
P: - Lá vem a melação afe! 'Cê não tá pensando em levar isso a sério, né? Se por um lado mulher mais velha tem mais experiência, por outro, levar uma relação a sério é complicado. Se eu fosse você, só ia curtir mesmo. Curtir muito. Se bem que o meu negócio é menina mais nova...
J: - Ah, mas quem disse que eu não tô curtindo? Claro que tô, mas acho que não é só isso...

Paulo ri.

P: - Uma coisa que tá me mantando de curiosidade: ela sabe sobre você?
J: - Por que você está perguntando isso? Acha que eu não dou conta?
P: - Acho que não dá conta mesmo, mas não por isso. Ela aceitou numa boa a sua idade?
J: - Ela parece ser muito mais nova do que realmente é e eu pareço ser bem mais velho.
P: - E isso faz de vocês o par perfeito? Olha, eu acho que isso vai dar porcaria. Vai acabar em choro (noooossa! pareço a minha mãe falando). E seu choro, como sempre. Ela não sabe que você tem 16 pelo jeito, né? E o que vai fazer quando descobrir? Se quiser enganar, engana direito, você lembra da Vanessa, né?
J: - Surtou com você porque você mentiu para ela. Me desculpa, mas ela teve toda razão em terminar com você.
P: - A Vanessa é muito criança, João. Não entende que homens têm suas necessidades.
J: - Ela tinha 14 anos, Paulo, o que você esperava?
P: - Ué? Não estão sempre jogando na nossa cara que mulher amadurece mais cedo?
J: - Eu acho que ela é muito criança mesmo, mas isso não tem nada a ver com o que você fez. E você sabe disso. Não quero enganar a Melissa.
P: - Faz quanto tempo que vocês estão saindo?
J: - Três meses e cinco dias.
P: - Então acho que ela já está sendo enganada, não? O que você disse sobre você?

João olha para o teto.

J: - Disse que... disse que era formado em ADM pela PUC e que trabalhava numa multinacional. Meus hobbies são tênis e natação. Tenho um cachorro chamado Getúlio. É um chow chow.
P: - 'Cê é louco? Mas você criou um personagem de novela das oito para você? 'Cê nem sabe nadar! Nem sabe o que vai fazer na faculdade!
J: - Nem você! Eu queria parecer interessante!
P: - 'Cê é um tonto!
J: - Por quê? Por que criei uma pessoa que não existe?
P: - Não, porque você não sabe manter uma mentira e contou várias de uma vez só! Já era, Jão! Você não sabe mentir...
J: - Nem você, se soubesse a Vanessa ainda estaria com você...
P: - Dá pra parar de falar dessa chata! Eu que ia terminar com ela, isso sim, muito criança e birrenta!
J: - Mas você ainda gosta dela e, se eu percebi, isso quer dizer que você não sabe mentir...
P: - Não quero falar dela. Mas e aí? O que você vai fazer, vai contar a verdade pra ela? Você acha que ela topa numa boa?

João olha para o teto.

J: - Então... Não.
P: - Mas aí o problema é a mentira ou a sua idade?
J: - Acho que mais a idade do que a mentira. Ela vive falando que nunca ficaria com um cara mais novo, porque são todos uns imaturos, iguais aos caras da idade dela.
P: - Isso quer dizer que ela curte homens mais velhos? Quantos anos você disse que tinha?
J: - 28.

Paulo encara João.

P: - Ok, você está acabado, mas passar por 28 não passa não, acho que forçou a barra, mas se ela engoliu, tudo certo. E ela?
J: - 25.
P: - Ela é quase 10 anos mais velha do que você, hein? Deve ter muito pra te ensinar - dá uma piscadinha.
J: - É, ela me ensinou a dançar outro dia. Já assistiu Blade Runner?
P: - Já, mas faz tempo. Meu pai era doente por esse filme.
J: - Então... Sabe quando toca "One more kiss, dear"?
P: - Sei.
J: - A gente tava sentado no sofá, tava um frio dos infernos. Quando começou a tocar essa música, ela pulou do sofá, fugiu dos cobertores e começou a dançar sozinha.
P: - Que louca!
J: - De olhos fechados. Logo, pegou a minha mão, me puxou devagar e quando vi, a gente tava dançando.
P: - Você nunca tinha dançado com uma garota antes?
J: - Ah... Não daquele jeito. E aí ela me beijou. Foi diferente dos outros beijos. Acho que foi aí que comecei a ficar balançado de verdade. Sei lá, o beijo dela tem uma certeza...
P: - Certeza de quê?
J: - Não sei, é só uma certeza. Ela é tão real que às vezes parece que eu não sou, sabe?
P: - E você não é real, né mané! Olha, pelo que você tá falando a coisa é séria. E vai miar tudo porque você não sabe mentir. Mas e pra ela? Ela também está apaixonada?

João olha para o teto.

J: - Não sei. Como eu disse, ela me deixa muito solto. Às vezes, ela some e eu me remoendo, porque eu acho que ela pode ter qualquer cara que quiser. E como não estamos oficialmente juntos, ela pode mesmo ter quem ela quiser, entendeu?
P: - Você não tá pensando em passar para o "regime de exclusividade", né?
J: - Ela vale a pena.
P: - Todas valem até que se prove o contrário, Jão.
J: - Mesmo porque, não sei se ela toparia.  Mas o problema ainda é a idade.
P: - Mas isso de ter 60 anos não significa ser maduro.
J: - Ela não entende isso. Ela acha que todo mundo corresponde, por dentro, à idade do R.G.
P: - Então ela não é tão legal assim.
J: - Não, ela é ótima.
P: - Se você diz... Mas quando vou conhecer?
J: - Não sei, porque não sei o que fazer. Como você quer conhecer a Melissa quando ela mal me conhece? Se eu contar a verdade, ela não vai querer mais me ver. Se eu continuar mentindo, não vou mais conseguir dormir ao lado dela em paz. Aliás, eu não tenho tido paz. Quanto mais eu me envolvo, mais eu minto. E  quanto mais eu quero estar envolvido, menos eu quero mentir.
P: - Vai dar merda e você sabe...
J: - Vai mesmo e eu sei.

[Continua...]

(Frau Forster)

14 de jan de 2010

Paper stars


Não adianta: tem coisas que a gente só aprende com a própria experiência - muitas vezes trazida pelo tempo. E quando digo coisas, estou me referindo a tudo: do borbado à paciência.

No passado, um amigo meu costumava me dizer várias coisas que eu costumava recusar pronta e raivosamente. Há algumas semanas, percebi que ele tinha e ainda tem razão em relação a diversos aspectos. Fiz questão de dizer isso a ele, o que o deixou surpreso e, naturalmente, feliz.

O fato é que eu não estava pronta para entendê-las. Alguns caminhos são solitários e precisamos percorrê-los para que certas coisas façam sentido.

Tem coisas que levamos muito tempo para entender, já outras parece que nunca  chegaremos a entender, mas como a eterna otimista que sou, acredito realmente que a gente aprenda as coisas - cedo ou tarde, e antes tarde do que nunca.

Foi sem querer que eu aprendi sobre as coisas que meu amigo me disse. Como se tivesse esbarrado  na rua com a verdade. E  foi "sem querer" que aprendi a fazer as estrelinhas da foto.

Sem querer nada! Há quase um ano, um amigo meu, com a maior boa vontade do mundo, se propôs a me ensinar como fazê-las. A estrelinha laranja ele fez para mim.  Me ensinou passo-a-passo e tudo mais. E eu nada! Ele me deu até as tirinhas coloridas para que eu fizesse minhas próprias estrelas. Três tirinhas cor-de-rosa. A teoria ele tinha me ensinado, mas faltava a prática.

Arrumando minhas gavetas e armários [ah como eles têm histórias para contar: papéis, desenhos, rascunhos...], encontrei a estrelinha laranja que meu amigo tinha feito. Para minha alegria, estava intacta. Encontrei também duas das três tirinhas cor-de-rosa.

Como quem não quer nada e olha as nuvens que vem chegando... ouve a música que brota de fora de casa... pensa na vida que se apressa... transformei as duas tirinhas em duas estrelas. Não são perfeitas como a laranja, mas são um rascunho, um começo. Afinal, tudo na vida exige um pontapé inicial, não? E que alegria boba elas me trouxeram...


Ouvindo Paper Moon (Nat King Cole)

Super-Quinzinho vai ao supermercado


Fazia muito tempo que Quinzinho não ia ao supermercado. Um daqueles prazeres pessoais que lhe tinham sido tirados pela vida atarefada - e pela sua desorganização, que só piorava tudo. A primeira coisa que fez ao sair de férias foi uma lista de compras. Há quanto tempo não fazia uma? Sempre comprando tudo aos poucos, em mercearias perto de casa.

Mas naquela quinta-feira, saiu de carro em direção ao supermercado. Quando pequeno, pensava que o Super-homem trabalhava no supermercado. E descobriu que as coisas não eram bem assim da pior maneira possível: sendo humlhado pelos garotos mais velhos. Ah! Se eu fosse o Super-homem...

Mas nada! Tinha nome de bala, fazer o quê? De super herói talvez só o anonimato, quando disfarçado de gente comum. Por essa mesma época, queria usar óculos para que pudesse tirá-los e revelar-se Kal-El. Mas mesmo sem os óculos, o que poderia fazer dele um Super-Homem já pronto, sua adolescência foi a eterna mornidão de Clark Kent. E afinal das contas, por qual deles Lois Lane era apaixonada?

Fazia mesmo um bom tempo que não ia ao supermercado: as regras do estacionamento tinham mudado. A cancela era outra e não havia mais aqueles cartõezinhos e sim tiquetes eletrônicos, a semelhança dos do shopping.

Puxa, o lugar para pegar o carrinho já não é o mesmo...

Sim, eu conheço o rapaz estranho que está escolhendo maçãs e  me olhando de modo psicótico. Quem é ele? E a mocinha do caixa 13, com aquele seu olhar açucarado? E os rapazes magrelos brigando por carrinhos vazios? O cachorro na porta, esperando de um olhar a um pouco de comida? Os guardas são outros - e os pães também. E desde quando os pães de queijo vêm moreninhos assim e dentro de uma caixa de plástico?

Quinzinho anda pelos corredores, ligeiramente desorientado, por entre os doces belos, parecidos com insetos gigantes com suas asas e antenas de uva itália. As gelatinas perderam espaço: Quinzinho olha triste para o terria devastada, coberta por amendoins e aperitivos. Agora só uma variedade medíocre e sem graça de gelatinas. Pega uma de cada sabor.

Cadê a maizena? Hein? Só maizena em saco? E as da caixa amarela? Quem colocou os chocolates, balas e chicletes nesse corredor, ao lado dos guardanapos? Desde quando goiabada, marmelada e geléia ficam de frente para o leite em pó? Não tem mais limão! Como fazer a limonada sem limões? De que adianta ter a faca na mão se não se acha o queijo?

Não era a marca que eu costuamava comprar...

E o que era tudo aquilo? Aquele não era o supermercado que conhecia! Era como se ele estivesse vivendo numa realidade alternativa! Um mundo paralelo... De repente, não mais do que de repente, ele entendeu tudo: estava no Mundo Bizarro! Mas ele era o Superman? Ah! Kal-El nunca sairia de chinelos para comprar iogurte de morango...

13 de jan de 2010

Maurício+Malu: Insônia

Era uma quarta-feria á noite mortalmente quente.
 
Maurício: - Amor, você não vem deitar?
Malu: - Tô sem sono. Vou assistir alguma coisa - ela dedilha as caixas de DVD.
Ele: - Vamos dormir. Não consigo dormir sem você...
Ela: - Não banque o dependente, sei que você dorme em qualquer lugar, de qualquer jeito - sorri ela.
Ele: - Ah! Mas você tem que levantar cedo amanhã...
Ela: - De que adianta se não vou conseguir dormir? Se bobear eu viro a noite, passo a madrugada embalada por Joni Mitchell e vou trabalhar. Não seria a primeira vez...
Ele: - 'Cê tá bem? Tá deprimida? Quando ouve Joni Mitchell quer dizer que tem coisa.
Ela: - Tá tudo bem sim.
Ele: - Joni Mitchell nem combina com esse calor dos infernos.
Ela: - O que você quer? Algo mais tropical? Carmem Miranda?
Ele: - É que eu sempre penso em River.
Ela: - A ausência de neve não impede que eu me identifique com ela. Se quiser posso até patinar no shopping Eldorado.
Ele: - Você não patina.
Ela: - Quem sabe?
Ele: - Se identificar com Joni Mitchell não me parece bom.
Ela: - Talvez não seja. Assim como não é bom se identificar com personagens dos filmes de Woody Allen. É mau sinal.
Ele: - Eu não me identifico. E você?
Ela: - Também não. Mas queria ter um pouco da Maria Elena do Vicky Cristina Barcelona. A Vicky é muito reprimida, conformista. A Cristina é uma insatisfeita, vai buscar a vida inteira por uma coisa que nunca vai encontrar. Insaciável. Gente assim é um saco. Elas são dois opostos. Já a Maria Elena é aquele furacão. É intensa. Ela é forte, determinada, talentosa...
Ele: - Você fala como se elas fossem reais - ele ri.
Ela: - E não são? - ela se vira para ele.
Ele: - Talvez - olhando para o teto.
Ela: - E ela é tão linda!
Ele: - Quem? Penélope Cruz? É nada. Cameron Diaz é que é maravilhosa - ele dá uma piscadinha.
Ela: - Loira? Magra de doer? Realmente, não temos o mesmo gosto para mulheres - ela sorri.
Ele: - Se você fosse homem e a gente fosse amigo isso seria perfeito, acredite, se bem que...
Ela: - O quê?
Ele: - Essa coisa de 'tipo' é bobagem, você sabe, né?
Ela: - Sei, os caras por quem me interessei tinham só dois traços em comum. De resto, eram muito diferentes entre si.
Ele: - E quais seriam esses traços? - pergunta ele curioso.
Ela: - Não tem importância - depois de uma breve pausa - Você quer saber se tem alguns desses traços? Tem sim: você é inteligente.

Maurício parece desapontado.
Ele: - Só isso?
Ela: - É, mas sei que inteligência não é tudo.
Ele: - Não é mesmo... Engraçado pensar nessa coisa de tipo.
Ela: - Por quê?
Ele: - Porque você não faz o meu tipo, digo, você não é o tipo de mulher pela qual eu me apaixonaria.
Ela: - No entanto...
Ele: - No entanto eu aprendi a ouvir Joni Mitchell e a ler Clarice Lispecor. O que não significa que eu goste.
Ela: - Eu sei - ela sorri - Você quer mesmo me ajudar a dormir?
Ele: - Pode dizer.
Ela: - Encare como uma prova de amor - ela ri.

Maurício ri.
Ele: - Não sei porque me bateu um medo agora.
Ela: - Você pode desligar a fonte, só hoje? Não consigo dormir com esse barulho.
Ele: - Barulho? Barulho você encontra na 25 de março: isso é o som esplêndido da água caindo e retornando, é um ciclo!
Ela: - Eu sei. E sei também que você comprou a fonte porque o "som esplêndido" lembra o som da gruta do sítio que você costumava frequentar quando sua avó era viva. Sei de tudo isso, mas não tenho dormido direito por causa da fonte. 'Cê não podia desligar à noite?
Ele: - Ah, tudo bem, já que te incomoda - diz ele desanimado.
Ela: - Vamos fazer assim: você desliga a fonte de noite e não compro mais a pasta de dente em gel que você odeia.
Ele: - Puxa. Então temos um acordo?
Ela: - Você viu que progresso o nosso? Aliás, meu né, afinal, estou aprendendo a negociar - ela sorri.
Ele: - Fico feliz por você não ser a Maria Elena, acho que ela não teria negociado.
Ela: - Eu teria te esfaqueado.
Ele: - Felizmente você é você.
Ela: - Embora não faça o seu tipo.
Ele: - Acho que eu não devia ter dito isso, né?
Ela: - Não mesmo, acho que tem coisas que a gente não diz, mas sem problemas. Acho que a essa altura, já fomos muito além dessa coisa de tipos. Ou eu não teria parado de fumar.
Ele: - É, acho que fomos além. E agora? O que a gente faz?
Ela: - Tenta dormir. Vamos? Ou então vou acabar te segurando aqui até amanhã cedo e sei como você fica mal-humorado de manhã, quando dorme mal.
Ele: - Mas nesse caso, se eu não tive a chance de dormir, ainda que fosse mal, como ficar mal-humorado?
Ela: - 'Cê tem razão.
Ele: - Não acredito que você está concordando comigo! O que aconteceu com a autora do livro "O prazer em discordar"?
Ela: - Eu disse que a gente estava progredindo, que estava indo além.
Ele: - Agora eu sou obrigado a concordar. Acho que estamos indo bem.
Ela: - É, estamos sim.
Os dois vão deitar. São três da manhã.

Pollyanna? Oh no!


A: - E aí? Como foi lá?
B: - Ah! Adorei tudo: o lugar, as pessoas, o ambiente...
A: - Que bom!
B: - Mas sei lá, acho que sou um pouco ingênua, sempre gosto de tudo e de todos.
A: - É, é verdade. Vai ver que nem é tudo isso.

Diário: Conquistas

Às vezes a gente se acostuma a batalhar pelas coisas de tal modo, que nem sente mais o esforço. Se torna algo natural. E, às vezes, as coisas dão certo quando a gente menos espera. Hoje me peguei pensando: "Nossa! Mas foi praticamente de mão beijada: não tive que fazer quase nada".

Aí em cinco minutos fiz  uma restrospectiva brevíssima dos últimos anos e de tudo o que pelo que batalhei. Também lembrei das coisas das quais abri mão. A vida é feita de escolhas, não? Não me arrependi antes e não me arrependo agora, ainda mais quando as coisas estão dando certo. Percebi que realmente mereci o que consegui.

Pelo menos de vez em quando uma conquista é necessária, para que se veja que "sim, estou no caminho certo", o que naturalmente nos impulsiona para frente (se bem que fracassos também podem nos lançar para frente, mas aí já e outra história - e outro post).

Só faltou alguém que entendesse o quanto tudo isso é importante para mim, mas como um homem sábio me disse uma vez: "Há coisas que celebramos sozinhos porque só nós sabemos o que passamos para chegar até elas". Pois é, acho que cada um percorre o seu caminho.

12 de jan de 2010

Ousadia



Diário: Andanças

O meu medo é sempre o do atraso, porque é como pôr tudo a perder sem ter tido a chance de fazer algo certo. Faz sentido? Vai ver que foi dessa neura que nasceu minha intolerância com gente que te deixa esperando meia hora, quarenta minutos - ou que às vezes chega mesmo a esquecer do compromisso. Felizmente, depois de intensivo trabalho e inúmeros testes, estou quase totalmente imune ao "desagrado" causado pelos atrasos alheios, mas não pelos meus - embora eu dificilmente me atrase.

Hoje reencontrei uma amiga que não via desde o meio de dezembro. Saudades das nossas conversas e das risadas. Ela contou suas novidades e eu contei as minhas.  O "posso te dizer o que eu acho?", dito e desenvolvido por ela ainda ecoa na minha cabeça, embora não seja caixa vazia. A cabeça e o copo sempre meio cheios.

Encontros importantes pedem medidas urgentes: táxi. Peço para o taxista de bigode: "O senhor pode me levar lá?". Ele aponta para o homem ao seu lado. Ah! Conheço a peça: um senhor japonês muito velhinho que não dirige muito bem. Ok, entro no carro sem delongas e começamos nossa breve viagem com uma conversão proibida - proibição essa por demais justificável.

Desta vez dou sorte, ele está até que bem atento. Murmura uma música bem baixinho - quero saber o que é, mas não consigo entender. Logo chego ao meus destino e desço do carro, porcamente estacionado.

As duas crianças pequenas tomando conta da banca de jornal ao lado do bar ("vocês sabem onde tem ponto de ônibus por aqui?).

Volto de ônibus, muito contente, cronometranto o tempo de volta. Sempre o tempo, mas cansei do psicológico que por vezes me assola. Prefiro me agarrar aos ponteiros do relógio de pulso - ponteiros imaginários, logo que o meu relógio não é analógico, mas o que vale é a metáfora.

O guarda civil compra um gigantesco pedaço de melancia (quase posso vê-lo devorando-o, sentado na guia mesmo). O padre entra na escola (foi ver matrícula para seu filho? Isso não é escola religiosa...). A mulher cheia de sacolas e cheia dos filhos. A imobiliária chamada Ricardo Reis e a rua chamada Alberto Caeiro. O que mais eu poderia querer?

[foi um dia de encontros felizes...]

*******************************

Música: Green eyes (Cold Play)

Fato: às vezes eu me esqueço das coisa que gosto e andar por aí é uma delas.

Constatação 1: pior do que almoçar sozinho é jantar sozinho. Me tira o apetite. E não sei o que pensar sobre almoçar com a Angélica. Cansei de almoçar com ela depois de voltar do trabalho aos sábados. Vou tentar algo diferente esse ano.

Constatação 2: não nasci para usar sapatos.

Explicação: para quem diz se focar no tempo cronológico, até que misturei bastante presente a passado, mas tenho certeza de que serão bondosos o suficiente para não comentar.

11 de jan de 2010

Too drunk to dream

É madrugada e os dois estão sentados na calçada de uma rua qualquer no centro da cidade.

- Acho que eu não devia ter vindo - ela diz desanimada - Eu sabia que a noite ia terminar assim. Vai ver que a meu irmão tem razão: eu gosto de casos perdidos - sorri para ele.
- Acho que você bebeu demais, isso sim. Você se arrepende da nossa noite? - ele pergunta sem qualquer sinal de insegurança.
- Em parte. Tudo para mim tem sido parcial. Me arrependo porque eu sabia o que ia acontecer, sabia o que ia encontrar e ainda assim, vim. As coisas poderiam ser mais simples, não? E você não devia ter vindo... - murmura ela.
- Eu vou onde eu quero, você sabe. Não vejo mal nenhum em jantarmos e batermos um papo. Desde que você não beba da próxima vez... Não gosto quando fica dramática - censura ele.
-Você nem viu o que eu pedi para beber, né? Eu não bebo, você já devia saber. Beber é para os fracos, para quem precisa disso para conseguir o que quer.
- E você por acaso consegue o que quer sem beber?
- Pensando bem, não. Digo, eu sempre tento. Eu me faço a minha parte. Se não deu, não era para ser.
- Que filosofia mais conformista essa sua, hein? - ele ri.
- Você bebe porque não deveria estar aqui, porque tem uma esposa te esperando em casa e não sabe lidar com isso.
- Ela está na casa da mãe. Entre ficar sozinho em casa e jantar com você, preferi a segunda opção.
- É claro que preferiu - diz ela debochada - É tão estranho. Eu sinto como se tivesse que terminar com você quando nem mesmo estamos juntos... Isso  o que estamos tendo agora é quase uma D.R., não? E a pior parte é que eu não me sinto no direito de despejar as coisas em cima de você, não sou mais criança. E nem o quase nós vivemos...
- Você está dizendo aquele engatar de primeira marcha?
- Isso. Metáfora automobilística. Nem isso tivemos. Puxa, nós não tivemos nada, nem vamos ter - ela ri e continua - Então por que estamos aqui?
- Gosto de conversar com você - sorri ele.
- Às duas da manhã no escuro? - ela faz uma careta.
- Você não tem como voltar para casa e não me deixa te levar. Sinto muito se te incomoda, mas eu não vou te deixar aqui.
- E por que eu me importaria com alguém cuidando de mim? - pausa - Eu vou me detestar por isso, porque me sinto complicando tudo e sei que muito dificilmente vamos nos falar depois disso mas... O que nós somos?
- Olha, eu não sei. Mesmo - ele olha os pedregulhos do asfalto.
- Nós não somos nada, acho - ela diz pensativa - E não sei se isso me faz feliz ou triste. Se eu fosse mais direta, perguntaria se você me enche de expectativas para alimentar seu ego, para me levar pra cama ou por estar terrivelmente perdido. Se bem que me levar para a cama não deve ser o caso: nem faço o seu tipo...
- Bom, acho que você acabou de perguntar, mas como foi uma pergunta indireta, me dou ao luxo de fingir que não entendi - ele a olha de lado.

Ela dizia as coisas com a voz cada vez menos pesada. As palavras fluíam cada mais mais suaves e velozes. Logo estava falando da sua infelicidade como alguém que fala sobre bolo de chocolate.

- Você não é tão durona quanto pensa - ele olha tranquilamente para ela.
- Eu sei - ela olha para a noite, prestes a devorá-los - É tudo fachada. Aliás eu já tinha te dito isso.
- Dito o quê?
- Que eu não era durona, que eu só quero alguém para dividir a vida. Claro que não só isso, minha vida profissional vai muito bem. Tão bem que me vejo como a velha dos gatos, mas sem os gatos (é que sou alérgica). Talvez pombos, sim, pombos. Perto da minha casa tem uma senhora que alimenta pombos. Todos os pombos da vizinhança vêm se alimentar na casa dela: seria lírico se não transmitisse doença. Se bem que os românticos morriam de tuberculose e era bem lírico.
- Quando você me disse isso? Desculpe a insistência, mas esse era o tipo de coisa que eu me lembraria.
- Você estava bebado demais, provavelmente. Foi nas bodas de prata.
- Faz um tempinho isso, hein? Que mais você me disse de importante?
- O de sempre.

Ela o olha de um modo tão firme e sério e seco que ele tem medo, só não sabia de quê. Já nos olhos dele ela não vê nada.

- Eu acho que você não tem idéia do que está falando. Deve estar vendo muita novela para viver sua vida desse jeito e fazer as coisas como faz. Já conheci muitas outras como você...
- Não me venha ostentar essa sua experiência estúpida. - interrompe ela - Mulheres, viagens, empregos...Você não sabe nada da vida!
- Nem você. No fundo tudo o que quer é um marido que a ature - diz ele com certo desprezo.
- O Bill disse que nenhum homem me deixaria escapar e que eu nunca ficaria sozinha. Um exagerado. Tanto quanto você nessa sua última declaração. E vá aprendendo: tem verbos que a gente não conjuga nem com o pior dos inimigos e "aturar" é um deles. Me conhecer por intermédio do meu irmão não é saber quem eu sou.
- Se quer saber, já ouvi um desses seus verbos imperdoáveis: "redimir". Nunca esqueci, mexeu demais comigo na época - diz ele distante.
- Acho que ainda mexe, na verdade, mas enfim... Você é engraçado: me enche de expectativas para afogá-las como um gato dentro de um saco jogado num rio - ela ri seu riso de criança - Desculpe. Nunca pensei em passar por essa via crucis de novo, nem que você fosse desse tipo que planta flores só para poder podá-las.
- Nunca te dei flores - diz ele cínico - Você está falando bobagens.
- Eu não devia ter vindo, porque no fundo eu queria que minha vida fosse um daqueles filmes românticos e que você, depois de me magoar e me "perder" - ela desenha as aspas no ar -, tentasse me reconquistar. Mas isso é o mundo real e sinceramente não sei se estou pronta para ele.
- Você é real, não faz parte de um filme hollywoodiano que diz exatamente o que você quer ouvir. Nem sempre o que a gente quer é o que a gente precisa, ou o que é bom para nós, ou o que nós temos que ouvir.
- Eu sei, eu sei. Acredite, você não está me contando nenhuma novidade, sem ofensa - ela sorri - Você não gosta do meu drama. Eu não gosto da sua ambiguidade.
- Eu acho que você complica muito. Ainda assim é encantadora.
- E você acha que eu estava bebada - ela ri - só porque resolvi me abrir com você. Nossa, fazia tanto tempo que não fazia isso... Cansei dos seus jogos, mas não me cansei de você. O que eu faço?
- Você? Me pedindo conselho? - ele diz, fingindo surpresa - Não sei. O que a gente faz?
- Não se responde uma pergunta com outra pergunta. Bom, você pode voltar para casa e para a sua esposa. E eu volto para minha casa.
- E como você vai voltar?
- Você quer que eu peça, eu peço: será que você poderia me levar para casa? Eu não tenho orgulho, só  a consciência de auto-preservação e uma resolução de amor-próprio. Pena que nem todo mundo entenda isso...
- Era mais simples responder "sim" ou "não". Sério, eu não sei o que você quer de mim.
- Só não quero ser mais uma da sua lista. Mais uma da qual você vai falar para os seus amigos. Sabe, quando você está com alguém, essa pessoa não deve ser encarada e tratada como a única da sua vida? Ainda que não seja para sempre, que para sempre é muito tempo, naquele momento da sua vida, essa pessoa é única. Você não trata a sua esposa assim. Ela me parece ser só mais uma. Assim como eu, com potencial para ser só mais uma.
- Começou a falar bobagens de novo. Não tem idéia do que 'tá dizendo - diz ele ligeiramente irritado.
- A partir do momento em que você não diz, me dá o direito de deduzir.
- Vocês mulheres não têm jeito mesmo... E quem você pensa que é para deduzir as coisas? Acha que está marcando muitos pontos comigo, é?
- A partir do momento em que estou envolvida na situação, tenho o direito sim. Eu preencho os silêncios que você deixa.


Silêncio.


Ela se levanta, arruma a bolsa e a sandália que insistia em fugir do seu pé esquerdo.


- Você não foi ao meu casamento - diz ele se levantando.
- Não saí da sala da casa da Tia Ninota. Achei melhor não ir. Fiz questão de perder você casando, mas você perdeu... A chance de me ver tão bonita! - ela rodopia e de um salto manda-lhe um beijo de longe - Vamos? - ela pergunta.

Ele é todo silêncio. Mas dessa vez, ela não os preenche. E os dois voltam para casa com tudo pela metade, como sempre havida sido e como sempre haveria de ser.

10 de jan de 2010

Aforismo Felino

"Especial é aquela pessoa que faz você sentir uma Cat Woman quando, na verdade, você não passa de uma  Bat Girl"
Foto de boneco de Lego "fantasiado" no Photoshop por PKarma42

9 de jan de 2010

Comprando conceitos


"Seja radical, beba Parmalat"



Mais sugestões de slogans?

Na foto, detalhe de Suco Parmalat de uva por Frau Forster

Post-scriptum, cartas e outras divagações


Post-scriptum é latim - começamos bem o post! - e significa "escrito depois", logo, que é  utilizado depois do encerramento de uma carta. Normalmente diz respeito a algo que foi esquecido ou a alguma coisa que mudou depois do término.

Fiquei pensando nesses dias como usamos essa expressão nos e-mails, o que é curioso, já que nos e-mails é possível retomar o corpo do texto, sem termos que reescrever tudo a mão novamente.

De qualquer modo, mesmo nos e-mails, pode ser bem chato ter que inserir a observação pertinente num texto já escrito e fechado. Porque às vezes, o P.S. pode ser simplesmente uma coisa que você não sabe como colocar no corpo do e-mail ou da carta.

Aí eu percebi como essa minha observação foi por água a baixo e como preciso me distrair com outras coisas, como filmes por exemplo. E felizmente "Diminuir dramaticamente a quantidade de P.S.s" não está na minha lista de resoluções para 2010...

... Será que estou ficando obcecada por elas? Ei! Por que escrevemos "obcecado" com "c" depois do "b", mas "obsessão" com "s" depois do "b"? Idéia para futura pesquisa lingüística? Ou só falta de noites bem dormidas? A propósito, e isto poderia muito bem ser um P.S., sou contra a Reforma Ortográfica e, apesar da meu papel, resisto bravamente. Por isso, aqui "lingüística" tem trema sim senhor!

[...]

Pausa Dramática

[...]

Vale ressaltar: no filme P.S. I love you, o post-scriptum não é usado para contar algo que mudou ou que a destinatária não sabia, mas é apenas um lembrete do que o remetente sentia por ela. De qualquer modo, ela já sabia.

***********

P.S. Não há nada como uma carta escrita a mão, a caligrafia quase suprime a prosódia daquele que nos escreve. Mas eu sou suspeita: sempre amei escrever cartas - e recebê-las também.

Amor Platônico

Numa lanchonete não muito longe daqui...
- JURA? Não acredito! Você? Amor platônico!
- Menos Dorinha, menos. Pelo amor de Deus! Não preciso de ninguém mais me aborrecendo. Eu já me aborreço sozinha e é o bastante...
- Não seja azeda Clara! Você bem que merece.
- O quê? Por quê? Você sabe muito bem o quanto eu detesto me apaixonar...
- Sim, sei bem. E lembro de como você caçoava de mim quando eu vivi minha paixão platônica!
- Bom, eu caçoava mesmo. Mas você era tão "caçoável"!
- E você está tendo o que merece. "Caçoável"? Eu? Que absurdo...
- Mas não se preocupe, agora eu estou "caçoável." Há cinco noites seguidas sonho com ele...
- Puxa, está assim? Mais uma de suas obsessões, é?
- Ah sim! Você sabe das minhas fixações, né? Normalmente é a fotografia e o Jânio.
- Jânio? Ah o seu cachorro... E você é viciada em trabalho...
- Cachorro não! Meu Lulu da Pomerânia.
- Que seja. Ainda acho que você merece tudo isso!
- Ah Dorinha, não fala assim...
- Deve ter algum ditado popular que ilustre bem a sua situação, mas não consigo lembrar de nenhum agora.
- Engraçado, a gente fala em amor platônico, mas eu vi uma vez que o real amor platônico, digo, o conceito original de Platão não tem nada a ver com o que a gente tem hoje.
- As coisas acabam sendo distorcidas através dos tempos. É só pensar na bíblia.
- É, é verdade...
- Mas e o que você vai fazer? Você deve ter algum plano, sempre tem.
- Fui pega desprevenida. Bom, o que eu posso fazer é continuar por perto. Gosto tanto de conversar com ele!
- É o que pesa pra você, né? Conversa...
- Totalmente. E quando eu digo conversa, não é xaveco não...
- Xaveco? Ainda se usa isso?
- Usa sim. Pior que sempre me faz pensar no personagem da turma da Mônica.
- Jura? Que barato. Mas você falava da conversa...
- Ah. Uma conversa que seja interessante, instigante, envolvente, rica, que te traga coisas novas, sabe? E claro, que renda boas risadas. Não tem essas conversas que mexem com a gente e você passa semanas pensando nela?
- Entendi.
- Agora eu conto os minutos para falar com ele, fico pensando no sorriso dele, cabelo. Adoro o cabelo dele... Ainda que toda essa cafonice me levasse a algum lugar, tudo bem. Mas não. Não vai acontecer nada.
- Como você sabe, Clara?
- Essas coisas a gente sabe. Claro que você não entenderia...
- Ah nem vem com essa de "mulher experiente" pra cima de mim. E se você estiver errada? Sei que você é a “dona da verdade”, mas não seria bom estar errada? Ou nem assim?
- Ah era tão bom quando meu mundinho era feito das minhas fotos e do meu Jânio...

Maurício+Malu: Sexta-feira


É sexta-feira à noite. Maurício e Malu estão deitados na cama, conversam:
Ele: - E aí? O que a você quer fazer hoje à noite?
Ela: - Vamos pr'um barzinho?
Ele: - Ah! Mó preguiça de dirigir. Trânsito de sexta-feira é uma droga. Não sei porque a gente decidiu morar num apartamento longe de tudo...
Ela: - Porque a gente consegue pagar o aluguel, né?
Ele: - É verdade... Boliche?
Ela: - Ah! Tô morrendo de cólica...
Ele: - Toma algum remédio então. Mesmo porque não dizem que faz bem se mexer quando 'tá com cólica, não? Eu li isso em algum lugar... Se quiser preparo uma bolsa de água quente pra você.
Ela ronrona escondida debaixo de um travesseiro e ele sorri.
Ele: - Ok, sem boliche. Mas topa a bolsa de água quente?
Ela: - Tô me sentido uma velha! Tô acabadíssima, só o caco... Sem vontade de fazer nada, sabe?
Ele: - Sei. Eu me pergunto pra onde estão indo nossos "vinte e poucos anos".
Ela: - Escorrem pelo ralo.
A fumaça do cigarro recém aceso por Malu logo toma conta do quarto.
Ela: - Nem tô com vontade de te mostrar a lingerie nova.
Ele: - Hum? Lingerie nova, é?
Ela: - Nem fica animadinho não...
Ele: - É, se você está com cólica...
Longa pausa. A fumaça desenha flores no ar.
Ela: - E aí? O que vamos fazer? Cinema?
Ele: - Pra assistir Avatar? Não mesmo!
Ela: - Ai que preconceituoso que você é...
Ele: - Mesmo porque não tem nada de bom passando. Mas me diz Lu: você quer sair?
Malu ri.
Ela: - Não mesmo! Mas acho um pecado não sairmos se sexta-feira à noite. Somos tão jovens, tão cheios de energia...
Ele: - É, mas não no momento. Quando meu pai tinha a minha idade, ele ia pras boates e depois, de lá, ia direto pro trabalho. Não sei como ele conseguia...
Ela: - Outros tempos, acho. Mas e você? Quer sair?
Ele: - Preguiça. Mesmo porque não vou sem você.
Ela: - Ah não seja besta Maurício! Nós não somos siameses!
Ele: - Ai Malu! É que a gente mal se viu essa semana, né?
Ela: - Certo certo. Quer pedir alguma coisa pra comer?
Ele: - Pizza? Tô enjoado de pizza.
Ela: - Tô sem fome. Pede o que você quiser.
Ele: - Tá bom.
Mas os dois adormecem abraçados antes que ele tenha a chance de chamar o China in Box.

8 de jan de 2010

Diário: O que você tem na cabeça?


Sabe-se lá o motivo, mas desde o princípio dos tempos as pessoas se sentem a vontade para falarem sobre suas vidas comigo. Principalmente no que se refere à vida amorosa. No começo eu estranhava, porque não tinha experiência alguma nem namorado. Então o que poderia fazer por elas? Mas depois, passei a me sentir feliz por elas acharem que eu podia de fato fazer alguma coisa.

Se por um lado me faltava a experiência, por outro, sempre me esforcei para ser sensata e ter a mente aberta. Dizem que o que vale é o esforço, não? Acho que isso compensou um pouco no final das contas. Eu sempre soube que não existem fórmulas perfeitas para relacionamentos felizes, mas ultimamente gostaria que houvesse...

Maaaaaaaaaaas* que graça teria se tudo já estivesse pré-estipulado?

Às vezes desconfio dos meus ditos "conselhos" - quem diabos sou eu para dar conselhos? Quando tal sentimento surge, eu desprezo meus conselhos, não os levo à sério. Isso também funciona quando se está chateado. Okay, "desprezo" foi uma palavra indaqueda. O que eu realmente (acho que) estou querendo dizer é que devemos dar a cada coisa o seu devido valor - e conselhos e sentimentos são relativos e passíveis de enganos mil.

Por esses dias, esbarrei com a minha pequenez diante do mundo duas vezes - e incrivelmente não me senti mal por isso. Só me senti mal por não ter podido ajudar os dois: uma amiga com problemas com o namorado e um amigo que não sabe como pedir uma garota em namoro. Eu percebi que o máximo que podia fazer era ouvi-los, porque as coisas estavam fora do meu alcance.

Será que eu preciso mesmo entender tudo? Ter todas as respostas? Absorver tudo (Síndrome do Papel Toalha)? A resposta é não. E uma das metas de 2010 é aceitar isso e aprender a lidar com as não-resoluções e com as coisas que não consigo entender.

*************************

Hoje tive que sair de casa e chovia canivetes. A princípio, me senti um pouco ridícula na minha capa-de-chuva [amarela], mas depois, me senti seca - passando do emocional para o sensorial -, já que eu era a única pessoa completamente seca nadando andando na rua.

E me senti curiosamente corajosa, enfrentando as calçadas alagadas, os carros passando velozes, a lama... Foi uma sensação de liberdade que eu não sentia há algum tempo. Acho que eu tenho fugido demais da chuva.

************************

Tudo porque fui cortar o cabelo, depois de muito protelar. "Adeus cabelos compridos", como foi difícil dizer isso. Apego bobo, isso é fato. Há quem se apegue à barba, eu me apegava ao cabelo. E cada vez mais curto. Nunca mais terei o cabelo da Winnie Cooper, esses tempos se foram.

Pensei comigo mesma: 2009 foi um ano de muitas mudanças, sendo que 85% foram "impostas." Por que não começar 2010 com uma mudança voluntária? A minha lista de planos para este ano é muito séria, então decidi começar com algo superficial, como um corte de cabelo. Feito.

E essa história me fez lembrar de um dos meus filmes preferidos, "Sabrina" (1954). Há uma cena em que Sabrina Fairchild, interpretada pela adorável e fantástica Audrey Hepburn, lamenta que a sua mudança só havia sido externa - o seu corte de cabelo.

Entretanto, se compararmos quem ela é no começo na narrativa e quem ela é agora, no momento que declara não ter mudado nada, percebemos que ela mudou sim. Mudou por dentro. Nunca vou esquecer da cena na qual ela prepara o jantar para Linus Larrabee (Humphrey Bogart)...

Claro que não foi o corte de cabelo que a transformou (!), acho que ele serviu para mostrar as mudanças pelas quais ela já tinha passado ou ainda para demonstrar as mudanças pelas quais ela queria passar. Bom, acho que essa é a minha leitura... Ou poder ser tudo fruto da minha imaginação - não seria a primeira vez ah!

Confiram "Sabrina"** (1954) Destaque para "La vie en rose". Quem quiser ver a versão de 1995 pode ver, mas Julia Ormond, apesar de muito bem no papel, fica no chinelo perto de Miss Hepburn.


* Desculpem a escrita, mas na ausência de prosódia é necessário improvisar...
** Adoro esses trailers antigos!